Crônica de uma guerra entre quadrilhas de “traficantes” 



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

 

A última chacina na região do Grande Tancredo Neves (GTN) foi em agosto de 2015, quando dois carros com integrantes de uma quadrilha do Tancredo armados invadiram uma rua na favela Cinquentinha, no Tasso, e dispararam à revelia de dentro dos veículos. O saldo da matança foi de cinco mortos, todos homens, com idades variando entre os 14 e os 31 anos. O episódio foi noticiado amplamente na cobertura midiática da cidade. Não há um evento específico que possa ser certamente afirmado como o estopim para o início da “guerra” homicida entre as quadrilhas dos dois territórios. Mas sabe-se que a origem remonta a uma “guerra por trono”.

De acordo com Pango, Garrincha, criado no Coloral, um dos microterritórios que compõem o Tancredo Neves, era o chefe do comércio de armas e drogas do GTN no início dos anos 2000. Desenvolto para as práticas criminais, Garrincha rapidamente expandiu os negócios e “começou a empregar [o dinheiro ganho] em casa, comprou muita casa, em carro. Começou a mandar em todo canto. Todo bairro tinha gente trabalhando pra ele. As periferias quase tudinha do Ceará tinha gente trabalhando pra ele”, relata Pango. Lembro que no início dos anos 2000 o nome de Garrincha transmitia poder nas relações sociais do crime no GTN, Lagamar, Pio XII, São João do Tauape, Luciano Cavalcante, Aerolândia, Areal, Barroso, Cajazeiras, Messejana, etc. (muitas das regiões sul e sudeste de Fortaleza) – e também um certo “selo de qualidade” à clientela. Os clientes davam preferência a consumir substâncias das bocadas comandadas por Garrincha, porque diziam que nelas a droga era “mais servida”, no sentido de ser melhor em quantidade e qualidade. 

Garrincha, de fato, atingiu um status, inclusive dentro dos círculos policiais, de “um dos maiores traficantes do Ceará”. “Cria do Coloral”, um microterritório do Tancredo Neves (na verdade no início se chamava favela do Gato Morto, que deu lugar ao conjunto Coloral), Garrincha, em parceria com seus irmãos, galgou posições prestigiosas nas relações sociais do crime de forma meteórica. “Era a família toda do movimento”, sublinha Pango. Em poucos anos, Garrincha transformou-se em símbolo de prestígio e poder entre os “bandidos”. Foi preso diversas vezes, mas sempre conseguia habeas corpus para responder às ações penais em liberdade. A última vez fora capturado pela Polícia Federal em meados de 2012, na BR-116, próximo ao aeroporto de Fortaleza, na oportunidade em que resgatava uma “mula” (pessoa que realiza o transporte da droga) que trazia alguns quilos de cocaína de Manaus. Em dezembro do mesmo ano, conseguiu outro habeas corpus do Superior Tribunal de Justiça (STJ). 

A posição imperiosa de Garrincha e familiares despertava cobiça de outros participantes da criminalidade favelada: “Macho, tu sabe que a geração sempre vai crescendo e sempre quer ser aquela pessoa.‘Quero ser igual ele, quero ter as coisas igual ele’. Eles querem ser mais nojento que os antigo. Aí foi nesse ditado aí, a negada começou no movimento, aí ele [Garrincha] queria que as negada trabalhasse pra ele, aí os caras não queria”. Os “caras” dos quais fala Pango eram os integrantes da gangue do Tasso comandada por Cassaco, um então jovem de pouco mais de vinte anos. Para conseguir enfrentar em condições de igualdade o poderio bélico de Garrincha, Cassaco precisaria de “céda” para adquirir “maquinário”. “Eles num tinha muito dinheiro não”, relata Pango. Foi então que Cassaco pensou num plano audacioso. 

Samurai detalha como foi: Aí o [Cassaco] foi e botou na cabeça que tinha que ter dinheiro pra combater o [Garrincha], pra dar. Aí ele resolver fazer um assalto a um carro forte de quinhentos mil ou era um milhão, mah. [Deu certo?] Deu certo. Aí ele ‘pã’… ele usou a cabeça, aí deu vinte mil conto pra polícia, pra polícia dar um bafo na casa [onde Garrincha guardava armas]. Aí ele já passou uma mensagem prum policial, né, ‘tã’… ‘Vai lá, tá limpeza’. Aí os homi parou lá na casa, invadiu a casa, pegou as arma que tinha dos cara. Na hora que a polícia saiu, demorou um pedacim os cara [da gangue de Cassaco] chegaram, aí mataram todos três, os três avião do [Garrincha], que era os matador dele, né? Aí mataram”. 

As mortes de três dos principais “matadores” de Garrincha abalaram bastante o status de invulnerável que sua gangue possuía. Outro episódio, encampado por Siba, o principal aliado de Cassaco, também teve impacto muito forte na eficácia simbólica da gangue do Tancredo enquanto grupo inatacável. E ocorreu por conta de ciúmes passionais. Pepê, o irmão caçula de Garrincha “era metido a bichão… foi pelo [Pepê] que começou, porque eles mesmo [Garrincha e os outros irmãos] eram ganhador de dinheiro. O [Pepê] era que se barroasse nele, ele já matava, pisasse no pé dele, ele já matava”, diz Pango. Pepê então envolveu-se com a companheira de Siba, em um momento em que a relação estava terminada: “O [Siba] brigou com a mulher dele, ele brigava e se separava, brigava e se separava, aí o [Pepê] pegou a muié do cara. Aí ele [Pepê] tava no forró e dançou com ela na frente do cara [Siba]. Aí foi onde começou as treta. Eu vi mah! Aí começou!”, exclama Pango. Ele continua: “Nesse dia eu tava tudim com eles lá no forró. Aí o menino chegou dizendo pra mim desse jeito assim: ‘Ei mah, o [Siba] vai matar um agora’. De uma hora pra outra, era o [Siba] atirando no [Pepê], descarregou um TA na cara dele, e eu vendo daí pra aí [faz referência a algo muito próximo]. Deu na cara, ele no chão, ele ficou só apertando. Aí o [Siba] saiu, comeu fuga na moto. Aí começou a chegar os irmão dele [do Pepê], a equipe dele, dizendo que ia ter cobrança, aí começou as treta deles lá, de peixe grande”.  

O atentado sofrido por Pepê representou um duro golpe na gangue de Garrincha. Dessa vez não foi apenas um de seus “funcionários”, mas seu irmão que fora vítima. Apesar de ter levado sete tiros à queima-roupa, Pepê milagrosamente sobreviveu. Desse dia em diante a “guerra” foi marcada por eventos de revanchismo de ambas as partes. Nestes anos todos, parte considerável da família de Garrincha foi morta: os irmãos, o filho, o sobrinho, e ele, em 22 de dezembro de 2012, duas semanas após conseguir um habeas corpus do STJ. “Só tá vivo as muié e o Pepê, porque tá na igreja”, resume Pango. Quando Garrincha foi assassinado a tiros de fuzil no quilômetro 152 da BR-116, em Russas, no interior do Ceará, sua morte foi amplamente noticiada nos veículos midiáticos policialescos tamanha a dimensão de seu peso simbólico nas atividades criminais. 

Pouco tempo depois de matar Garrincha, Cassaco assumiria a condição de uma das lideranças do narcotráfico estadual, com bocas espalhadas em todo o GTN, bem como em diversas outras comunidades de Fortaleza e cidades interioranas. Ainda em 2013 foi preso, mas continuava a comandar as atividades criminais do presídio. Cassaco também transformara-se em ícone do tráfico de drogas e de armas no Ceará, estampando capas de jornais e noticiários televisivos quando de sua prisão. As matérias jornalísticas davam conta de sua vida luxuosa em dois apartamentos próprios no metro quadrado mais caro de Fortaleza, a avenida Beira-Mar, de seus carros importados e de sua escolta particular. Agora, o Cassaco “é o homi do Ceará mah. Ele é que é o cara, o número um. Os dois segurança dele era da polícia mah. Ele é cria do Tasso. Ele andava aqui em casa mah, um menino véi de bicicleta. Agora, eu acho que ele tão cedo num se solta, porque foi muita morte mah. E ele era um dos mais procurados do Ceará mah”, me disse Pango em conversa realizada em meados de 2017. Contrariando a previsão de Pango, Cassaco conseguiu um habeas corpus para responder às muitas ações judiciais em liberdade e, após cinco anos encarcerado, saiu da prisão em 2018. Poucas semanas depois, foi assassinado em uma barraca de praia em Fortaleza, mesmo contando com um aparato de segurança escoltando-o. 

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A série Antropologia do crime no Ceará é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”

xvii. A “escolha” é uma escolha? Compreendendo o ingresso nas relações criminais

xviii. Consumo, dinheiro e sexo: a tríade hedonista da carreira criminal

xix. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)

xx. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte II)

xxi. “Fura até o colete dos homi”: As armas como símbolo dominante

xxii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte I)

xxiii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte II) 

xxiv. “Mãezinha”: uma categoria local que põe em suspensão o ethos violento

xxv. “Pirangueiro”, “cabueta”, “boca de prata”, “corre de ganso”, “atrasa lado”: compreendendo algumas categorias negativadas da moralidade criminal 

xxvi. “O crack veio pra acabar com tudo”: o noia como um “zé ninguém”

xxvii. “Você conquista o respeito, você num impõe”: A liderança nas relações criminais 

xxviii. As “brigas de trono”: as disputas pelo comando territorial

xxix. Socialidade juvenil periférica em Fortaleza dos anos 1990/2000: Dos bailes funks às quadrilhas do tráfico


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