Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)



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(Ilustração: Juliana Lima)

Nos diálogos que travei com os praticantes de modalidades diversas de crimes, a categoria nativa “revolta” esteve presente em muitos momentos, referindo-se a diferentes contextos: podia estar relacionada a uma suposta negligência familiar, a uma carência afetiva e emocional, mas principalmente associava-se com as violências do estatismo e do status quo

No que diz respeito a uma possível omissão dos laços familiares, dona Albanisa, 48 anos, empregada doméstica, me ajudou a entender um pouco mais, a partir de sua leitura sociológica espontânea: “São pessoas sem deus no coração, muitos deles agem assim pelo abandono da família, né? De não ter tido amor nem carinho dum pai, duma mãe, são pessoas revoltadas por não ter tido uma boa criação, porque o pai e a mãe é o ensinamento da criança, do filho, se o pai e mãe praticar o que é bom durante o crescimento da criança, ele só vai aprender o que é bom. Mas se ele crescer num ambiente onde só tem confusão, só tem briga, que não existe amor, não existe nada de respeito, ele vai se tornar uma pessoa revoltada, sem ter dó de ninguém. Porque têm muitos pais também que pega o filho e só falta matar de peia… aí cresce a criança revoltada”.

Um adolescente de 15 anos praticante de atividades criminais também repercute suas carências emocionais, no livro Cabeça de porco: “Eu sou puro, sou legal, eu não tinha necessidade de ficar na vida do crime. Eu queria o amor de uma tia, de uma mãe, isso que eu nunca tive, o amor de uma família, que quando eu precisasse para conversar, ela estivesse lá, viesse conversar comigo. Mas eu nunca tive. Se eu tivesse uma família pra conversar, eu não estaria nessa vida não, não estaria não. Desculpa aí, eu não queria chorar não”.

Na minha pesquisa de campo, apenas uma minoria dos interlocutores se queixou das redes familiares de proteção e cuidado. Quando acionavam a “revolta” para justificar sua opção pela carreira criminal, falavam sobre traumas psicológicos relacionados às violações próprias à atuação do estatismo e da ordem dominante sobre suas vidas, destinos, sonhos, projetos: “O que me incentivou [a aderir à atividade criminosa] foi muita coisa, por morar perto de um [traficante], o [Rubão] me ensinou, o [Gago] também, até a insegurança dos cidadão [aqui, ele fala no sentido de proteção aos moradores].

O cara também tenta um emprego de carteira assinada e nunca dá certo. A revolta também gera isso aí”, me disse Camaleão, 31 anos, traficante varejista.

Camaleão me contou que atualmente lucra de três a quatro mil reais por mês. Durante a conversa, captei nas entrelinhas de seu discurso, a partir da fala de seu corpo, dois episódios traumáticos que ativaram traumas psicológicos e marcaram de forma decisiva sua opção pela atividade criminal. O primeiro deles ocorreu aos 17 anos, quando na escola “a professora disse que eu era vagabundo porque não fiz o trabalho”. À época, o jovem conseguia serviços avulsos como jardineiro e não conseguiu tempo de fazer a tarefa escolar: “eu trabalhando com as mão calejada e a mulher vem dizer isso de mim. Aí veio essa revolta. Ia terminar (a formação escolar) ainda de menor”. Depois desse dia, abandonou os estudos para não mais voltar. Estava no 3º ano do Ensino Médio, a poucos meses de concluí-lo. 

De acordo com o filósofo Axel Honnet, em Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais, as ofensas sociais sofridas pelos sujeitos jamais são refletidas de maneira neutra. Nestas reações emocionais de vexação social, como a que passou Camaleão, a vivência de uma experiência desrespeitosa “pode tornar-se o impulso motivacional de uma luta por reconhecimento, pois a tensão afetiva em que o sofrimento de humilhações força o indivíduo a entrar só pode ser dissolvida por ele na medida em que reencontra a possibilidade da ação ativa”. 

O segundo fato marcante na vida de Camaleão ocorreu meses depois, quando ele conseguiu um emprego de carteira assinada como serralheiro em uma metalúrgica. Já se passavam três meses de trabalho quando num determinado dia atrasou-se por alguns minutos. Foi comunicado de que aquele retardo seria descontado em seu salário. Inconformado com a maneira como se deu a punição, disse que não iria mais trabalhar. Na negociação para sair da empresa, recebeu cem reais. Com essa quantia, adquiriu sua primeira mercadoria ilícita para revenda: maconha. Os cem reais do acordo de rescisão do emprego formal impulsionaram o pontapé inicial para sua “carreira” na informalidade, no sistema de relações sociais do crime. “Nunca mais vou trabalhar de carteira assinada para seu ninguém”, diz, convicto de sua decisão.  

Quando João, assaltante e traficante varejista, me disse que “tem muita gente rica que omilha muito o povo da favela, aí o cara cresce já revoltado, aí o nêgo já vai pro lado do crime mesmo”, e Camaleão me grita que “a revolta também gera isso aí”, eles me transpassam a ideia de que suas “escolhas” de optar pelas atividades criminais estão assentadas em “um levante cotidiano pela relação de sentido de sua própria liberdade e felicidade que tenta escapar de algum modo às misérias, às pobrezas e às desigualdades que lhes são impostas”, diz Leonardo Sá, em Guerra, mundão e consideração: uma etnografia das relações sociais dos jovens no Serviluz

De acordo com Freud, n’O mal-estar na civilização, parte significativa do nosso sofrer advém das “insuficiências das normas que regulam os vínculos humanos na família, no Estado e na sociedade”. É como se, de início, desde os nascimentos das pessoas condenadas a experiências de miserabilidade, já houvesse uma morte social e simbólica preparada para recebê-las, na qual os efeitos da pobreza e da exclusão são reatualizados de uma geração a outra a partir dos “mecanismos de transmissão da herança sociológica” – para usar os termos de Norbert Elias e John Scotson em Os estabelecidos e os outsiders.

Há um episódio ocorrido com Samurai que, ao representar sua “morte psíquica” enquanto “trabalhador”, foi decisivo para sua opção pela carreira criminal ao gerar em si uma “revolta”. Foi há oito anos. Samurai era caixa de um mercadinho de bairro. Seu primeiro vínculo empregatício “com carteira assinada”. À época, com 22 anos, ele jamais havia realizado atividades ilícitas, se situava junto aos muitos trabalhadores e trabalhadoras pobres que se submetem às subcategorias formais do mercado de trabalho capitalista. Um dia, o mercadinho onde Samurai trabalhava vivenciou uma situação-limite. Um assaltante, que já vinha “copiando” o movimento de chegada e saída dos carros, entrou no estabelecimento e exigia o automóvel Corolla de uma cliente que era atendida no caixa enquanto outro “passava o pano” do lado de fora: “Ei… é só o carro da coroa, num é nenhuma contigo não”, disse o praticante do assalto, se dirigindo a Samurai. A mulher apavorou-se e tentou resistir à ação delituosa. Samurai, por sua vez, mediou a situação, tentando tranquilizar a vítima e, simultaneamente, aconselhando-a a entregar a chave ao agressor: “Tia, calma tia, deixa ele levar”, foram as palavras que falou, segundo se recorda. “Ei, segura ela aí dentro, se não eu dou um tiro nela”, ameaçou o homem de arma em punho enquanto se dirigia ao carro. O roubo foi exitoso. Na mesma medida, Samurai foi escolhido como bode-expiatório. Tão logo o assalto findou e o assaltante fugiu no Corolla, um outro cliente, frequentador do mercadinho, conhecido de Samurai e que havia acompanhado o evento, acusou-o de ter participado da operação, em ajuda ao assaltante. Samurai defendeu-se, indignado, reafirmando que apenas tinha contornado a situação para evitar tragédia maior. De nada adiantou. Foi achincalhado e tachado de ladrão pela clientela que tinha acompanhado o assalto. Nem mesmo a fala complacente de seu patrão, que repreendeu os clientes, assegurando que confiava em Samurai, foi capaz de evitar sua “morte psíquica” como trabalhador formal: “Égua mah, eu fiquei desanimadozim… aí eu resolvi sair. ‘Eu vou sair Arnaldo [se dirigindo ao patrão], deixe quieto’”. Pouco tempo depois, Samurai viraria “avião” de um varejista e iniciaria seu trajeto no tráfico de drogas no Grande Tancredo Neves. 

A motivação para o ingresso de Papagaio nas relações criminais tem também fortes indícios de complexos psíquicos aterradores. Pergunto-lhe como ele entrou nessa “vida no crime”: “Eu perdi meu filho, mataram meu filho com 13 anos de idade, lá no Tranquedo. Ele matou dois cara mah, um no Tranquedo e um nas Cajazeiras, e tava roubando direto, ali na José Leon, [roubava] moto, carro. Ele tava morando com a mãe dele, minha primeira mulher. [No dia da morte] Ele tava soltando arraia, o cara veio na moto e buumm… bem na testa dele. Assim me disseram, né?”[E tu sentiu o quê mah, quando perdeu teu filho?] Ó, aí que eu fiquei mais doido da cabeça mah. O tráfico veio pra eu mandar banda vuô. Eu era a fim de pegar o cara que matou meu filho mah, mas eu nunca se bati com ele não”.

Raposão, por sua vez, trazendo à tona um possível complexo de inferioridade, não se considera um “cidadão”. O poder simbólico de nomeação e classificação dos segmentos hegemônicos dita, em grande medida, sua percepção de si mesmo. Não considerar-se cidadão é não se sentir incluído nas supostas garantias civis e sociais que o Estado-nação moderno afiança aos seus viventes. Não ver-se parte da categoria “cidadão”, nesse caso, é ser no dia a dia violentado simbolicamente, como um indivíduo marginal, escória do espaço social, como se carregasse como habitus “a maldição de um capital simbólico negativo”, nas palavras do sociólogo Pierre Bourdieu. No processo de sujeição criminal, o assujeitado, ao praticar atos violentos, torna-se enfim sujeito:

“Minha mente hoje em dia é totalmente o contrário da de um cidadão. Então, eu parei pra pensar um dia desse e vi como eu me afastei do que é ser um cidadão e do que não é, uma mente totalmente diferente, mente criminosa”. 

Dialogando com as falas dos praticantes criminais citadas, Axel Honnet salienta que as singularidades das formas de desrespeito presentes na privação e violação de direitos, na exclusão social e nas muitas formas de preconceito não atingem apenas a autonomia pessoal do indivíduo, mas limita a sua capacidade de socialidade, uma vez que lesa a expectativa intersubjetiva de reciprocidade no tocante a ser reconhecido como ser social e moral; dito de outra forma, lesa sua capacidade de ser referenciado como um sujeito cujo valor merece ser considerado na interação social. Há uma hierarquia de valor imposta pela semiologia do poder hegemônico que convida à degradação valorativa com relação a certos grupos sociais e a determinadas maneiras de socialidade, considerando-as “sem valor”, de “pouco valor” ou próprias de suspeição e contaminação. Esse processo quase inerente de falecimento moral e social alimenta complexos psicológicos sobremaneira difíceis de serem bem elaborados emocionalmente, como a perda do autorrespeito, da autoconfiança, da autovalorização, da autoestima, do “amor próprio” etc., uma vez que a sua própria existência é negativada coletivamente pelos signos dominantes.

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A série “Antropologia do crime no Ceará” é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”


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