Guardiões do Estado (GDE): uma facção cearense com pretensões nacionais



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(ilustração: Lara Albuquerque)

Não há unanimidade entre meus interlocutores sobre a origem da facção cearense Guardiões do Estado (GDE). Embora a narrativa de que ela nasceu no bairro Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, em 2015, seja a mais recorrente – sendo inclusive a versão propagada pela mídia cearense – também já ouvi durante o trabalho de campo que ela foi criada antes, por volta de 2014, na Pajuçara ou no Jereissati, bairros de Maracanaú, cidade da região metropolitana da capital cearense. Para dar maior verossimilhança à segunda versão, dois de seus principais líderes, Edgly Dutra Barbosa, o “Dudeca”, de 35 anos, e Mazola Pereira da Costa, o “Márcio Magneto”, de 47 anos, foram presos em Maracanaú, cidade onde residiam e controlavam o tráfico na região. 

Em julho de 2018, outro de seus líderes foi capturado pelas forças policiais em pleno trânsito, dentro de um carro blindado alugado. Auricélio Sousa Freitas, o “Celim”, estava residindo em um apartamento, no bairro Meireles, próximo à Beira-Mar, um dos metros quadrados mais valorizados da cidade. 

Acredito que nenhuma das versões seja inverossímil. Considero, e proponho como hipótese de trabalho, que a GDE pode ter sido fundada associadamente por agentes criminais com papel de liderança no Conjunto Palmeiras e em Maracanaú. Como ponto convergente, sabe-se que a GDE surgiu como um contraponto às facções nacionais CV, PCC e FDN, que começam a intensificar sua presença na capital cearense a partir do primeiro semestre de 2015. Os fundadores da GDE eram contra as “caixinhas”, as mensalidades cobradas pelas facções “forasteiras”. 

Camaleão, um traficante varejista de armas e drogas no Grande Tancredo Neves (GTN),  me contou que os membros da GDE “querem ser independentes”. Assentada em uma narrativa de apelo regional, de valorização do “crime do Ceará”, demarcado no próprio nome da facção, a GDE rapidamente se capilarizou no Estado, dominando regiões estratégicas das relações criminais em Fortaleza, como o Lagamar; o Barroso II (comunidade “Babilônia”); o conjunto habitacional Maria Tomásia; o Serviluz; o Castelo Encantado; parte da Barra do Ceará; o residencial Cidade Jardim (no bairro José Walter), entre outras áreas. Sem mediações em relação à faixa etária para o ingresso dos “criminosos”, a Guardiões do Estado começa então a “batizar” muitos menores de idade, conduta proibida no PCC e, de certa maneira, ambígua no CV. 

Se em seu início a GDE se opunha ao PCC, é justamente quando forma uma aliança com a facção paulista que o grupo cearense se organiza e incrementa seu capital material e de representação nas relações criminais. No “acordo” entre GDE e PCC, a facção paulista fornece as armas e as drogas em regime fiduciário para o grupo cearense, e, em troca, a união é também estratégica para o PCC, pois “sem um número de homens suficiente para enfrentar CV e FDN, no Estado do Ceará, a GDE foi providencial, na medida em que arregimentou um pequeno exército, mesmo que, em grande parte, formado por menores” como analisou o sociólogo Luiz Fábio Paiva, em “Aqui não tem gangue, tem facção”: as transformações sociais do crime em Fortaleza. De acordo com este autor, o PCC já experimenta essa relação fiducial de “aliança” com outras facções locais de outros estados. 

Assim como o PCC utiliza o “alfabeto congo”, comum nos presídios, no qual as letras viram números de acordo com a sua posição no alfabeto latino, – por exemplo, o número que remete ao PCC é 15-3-3 (1533), pois o “P” é a décima quinta letra do alfabeto e o C, a terceira –, a GDE também faz uso do “alfabeto congo” e utiliza o número 745 para designar-se. Ademais, em oposição ao Comando Vermelho, que se autodenomina como “T2” ou “tudo 2”, a GDE se referencia como “T3”, ou “tudo 3”. 

Diferentemente do que era pensado anteriormente, ou seja, de que a GDE mantinha uma estrutura descentralizada e desorganizada, após a prisão de Auricélio Sousa Freitas, o “Celim”, em julho de 2018, e o depoimento deste aos órgãos policiais cearenses, soube-se que a facção apresenta um modelo organizacional bem consolidado, com cinco gradientes hierárquicos: conselho geral, conselheiros locais, gerentes de boca, aviões, e os teleguiados: “por mais que um grupo como a GDE se qualifique como ‘horizontal’, existem dinâmicas de posições e envolvimentos que precisam ser consideradas nas maneiras de se fazer o crime nas facções”, afirma Paiva, no texto já mencionado

Os “teleguiados”, a base estrutural onde se apoia a GDE, são majoritariamente menores de idade, dispostos a qualquer “missão”, por mais arriscada que seja, para angariar recursos materiais e simbólicos com o objetivo de prosperar dentro das relações criminais. Foram eles que agiram na série de dezenas de ataques a coletivos (incineração), delegacias e outros órgãos públicos em abril de 2017. Estes eventos da GDE pararam Fortaleza por dois dias e desestabilizaram por alguns dias a ordem política e os poderios estatais da cidade. Os ataques tinham como reivindicação a transferências de presos da facção para outras instituições penitenciárias, pois muitos deles estavam sendo alocados em presídios cujo comando era do CV e da FDN. 

O conteúdo da carta pública que deixaram em diversos locais espalhados pela cidade era o seguinte (fiz alguns ajustes ortográficos e de concordância em relação à grafia original): “Aviso para o governo corrupto: se mexer com as unidades prisionais igual estão fazendo, iremos para o Estado do Ceará, explodir a Secretaria de Segurança e aquele aviso na Assembleia Legislativa do carro bomba vamos fazer valer dessa vez. Governos corruptos parem agora ou o Ceará irá viver um mês de terror: atentados, explosões nos prédios públicos, inocentes mortos. Seja o governo responsabilizado, pois iremos atacar os órgãos públicos. E para aqueles funcionários públicos do governo, não saiam de suas casas, pois poderão sofrer nessa guerra contra o governo caso nossa ordem não seja acatada. Queremos transferência de imediato da CPPL II ou, se não tirar, não vão parar os ataques. CV e FDN: bando de safados cabuetes, estão colando com a polícia, estão colados com o governo. Raça imunda de CV e FDN cola com a direção das cadeias. Queríamos fazer uma pergunta a todos os criminosos: é certo tá colando com a direção dos presídios? Ass: GDE (745)”. 

Em poucos dias, conseguiram seus objetivos, uma vez que, após ordem a Secretaria de Segurança Pública do Ceará, ocorreu o remanejamento dos detentos da GDE de uma unidade a outra. Os órgãos estatais negam que a redistribuição dos presos tenha sido feita para atender à facção, uma vez que seria espinhoso para o estatismo admitir abertamente que cedeu diante das ameaças encampadas por um grupo criminoso. 

Em janeiro de 2018, a GDE novamente amplia seu poder simbólico nas relações criminais ao protagonizar a maior chacina da história do Ceará, com um total de catorze mortos e nove feridos. Diversos integrantes de GDE chegaram em três carros a um forró no bairro Cajazeiras, periferia da zona sul da capital cearense, e atiraram contra as pessoas que estavam em uma casa de show e nos seus arredores. A festa era bastante frequentada por integrantes do CV, facção que domina aquela área. Dois dias depois, o CV vingou-se, matando dez integrantes da GDE e ferindo outros cinco na cadeia pública de Itapajé, município a 124 quilômetros de Fortaleza. 

De acordo com dados pretensamente sigilosos da Secretaria de Justiça e Cidadania do Ceará (SEJUS), mas vazados pela imprensa cearense, a GDE tem 5.718 membros nas penitenciárias cearenses.

A facção cearense controla os presídios IPPOO II, a CPPL II e a unidade Professor Sobreira, todas em Itaitinga, bem como a penitenciária regional do Cariri e vinte e três cadeias públicas. Dos cerca de 28.500 presos no Ceará (esse quantitativo é flutuante e varia frequentemente), aproximadamente 18.700 estão vinculados a alguma facção, totalizando 65,9% da população de detentos. O restante pertence à “massa carcerária”, como são chamados os presidiários que não integram nenhum grupo criminal organizado. 

O CV atrai quase a metade dos faccionados: 9.056 membros; a GDE, como dito acima, vem logo em seguida, com 5.718 presos; o PCC tem 3.230 integrantes; e a FDN possui aproximadamente 700 partícipes. Se no sistema prisional cearense, a GDE tem menos membros que o CV; por outro lado, nas ruas do Ceará, a facção é considerada a que tem o maior número de “batizados”, conforme reportagem de Thiago Paiva.

Nos últimos anos, notadamente 2019 e 2020, a GDE teve praticamente toda sua cúpula presa ou assassinada, o que, à primeira vista, pode representar um enfraquecimento organizacional. No entanto, sabe-se que nas relações criminais há uma dinâmica de substituição e mudanças maior do que as que ocorrem em outras áreas sociais; neste sentido, é provável que a facção esteja se reorganizando silenciosamente, uma vez que, mesmo com as variações no comando, ainda não perdeu territórios para as facções inimigas. Como capital simbólico nas relações criminais, vale destacar que a GDE já é a quarta facção com mais membros encarcerados em presídios federais de segurança máxima, atrás apenas de PCC, CV e FDN.

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A série Antropologia do crime no Ceará é publicada semanalmente no #siteberro. Clique nos links abaixo para acessar os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”

xvii. A “escolha” é uma escolha? Compreendendo o ingresso nas relações criminais

xviii. Consumo, dinheiro e sexo: a tríade hedonista da carreira criminal

xix. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)

xx. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte II)

xxi. “Fura até o colete dos homi”: As armas como símbolo dominante

xxii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte I)

xxiii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte II) 

xxiv. “Mãezinha”: uma categoria local que põe em suspensão o ethos violento

xxv. “Pirangueiro”, “cabueta”, “boca de prata”, “corre de ganso”, “atrasa lado”: compreendendo algumas categorias negativadas da moralidade criminal 

xxvi. “O crack veio pra acabar com tudo”: o noia como um “zé ninguém”

xxvii. “Você conquista o respeito, você num impõe”: A liderança nas relações criminais 

xxviii. As “brigas de trono”: as disputas pelo comando territorial

xxix. Socialidade juvenil periférica em Fortaleza dos anos 1990/2000: Dos bailes funks às quadrilhas do tráfico

xxx. Crônica de uma guerra entre quadrilhas de “traficantes”

xxxi. O costume guerreiro da criminalidade pobre

xxxii. Traficante é aquele que nem pega na droga

xxxiii. O assaltante como um nômade das práticas criminais

xxxiv. “O cara num nasceu pra viver no crime o resto da vida não”

xxxv. Uma tentativa de diálogo entre a “vida nua” e a crueldade

xxxvi. A eficácia simbólica das facções

xxxvii. O contexto sócio-histórico e operacional das facções no Ceará


5 Replies to “Guardiões do Estado (GDE): uma facção cearense com pretensões nacionais”

  1. zeblima@gmail.com disse:

    …a porta da cela é a última ponte entre os opostos, mas antes de tudo, um pacto social, de forma que entre ambos há um denso e tenso diálogo…são cúmplices da má partilha, para tanto, sem um não há o outro…a existência de um encontra sentido no outro…formam um mútuo, contudo sua existência é dada , consentida, acertada é negociação (negação do ócio)…

    1. Revista Berro disse:

      Com certeza há uma relação entre a rua e a prisão, e essa relação faz parte do sistema de produção simbólica da realidade. A prisão é um mecanismo de sustentação de desigualdades.

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