A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

É sobretudo na relação de trocas de interesses mútuos com os “bandidos” que a polícia investe sua decisiva participação no sistema de relações sociais do crime. As favelas são territórios que funcionam como ilhas de extorsão e de lucros simbólicos, materiais e políticos dentro da estrutura policial. Não há atividade criminosa nas comunidades pauperizadas sem a permissão cínica dos agentes policiais, que, além das práticas extorsionárias (contra os “bandidos”, desenvolvem-se as “mesadas” ou “trocos”; contra os “playboys”, clientes do comércio varejista de drogas, eles recolhem as propinas), ainda vendem armas, munições e drogas apreendidas em outros locais.

Não estou aqui esquecendo a prudência fundamental na análise para não incorrer em generalizações levianas. Mas, baseado numa experiência empírica, poderia dizer que no GTN “tá tudo dominado”: a economia da corrupção corre à solta entre “bandidos” e policiais. Ao longo de quase duas décadas em que ando pelo GTN nunca ouvi relatos tampouco presenciei eventos de “honestidade” policial.

No entanto, faço a ressalva de que nas redes de transmissão da fofoca histórias de policiais honestos não são eficazes para perdurarem nos circuitos da boataria. Por outro lado, a sanha corrupta da polícia ganha fama e durabilidade no tempo-espaço, e alguns policiais, geralmente os líderes das patrulhas, tornam-se personagens frequentes nas conversas de bares, à beira dos campos, nas calçadas etc. Há uma mitificação nesse processo e fala-se deles tanto quanto dos atores e atrizes das novelas ou dos jogadores de futebol. Alguns deles se transformam em metonímias identitárias de um sistema cultural apoiado no policial corrupto, mas “gente boa” com a comunidade pobre.

Quando falo da dimensão moral “falta de honestidade”, não me refiro à prática cotidiana de percorrer ruas com viaturas pelo bairro, nem de ficar como sentinela às esquinas. Isso é o mais do mesmo! Refiro-me exatamente a uma generalizada omissão da intervenção policial para interromper a economia da corrupção no GTN, como se a minoria “honesta” cedesse dócil e cinicamente ao sistema de relações sociais do crime.

A fala de dona Celina, 57 anos, moradora do GTN há mais de trinta anos, dialoga com essa questão. Para ela, há o policial “que quer fazer o trabalho dele, com dificuldade, mas faz, e existe aquele policial que não tá nem aí, né? Faz logo as amizades, pode tudo correr frouxo, aí quem quer trabalhar realmente já não pode porque o amigo já abriu as portas, o outro já abriu, já fica vulnerável, né?”.

Esse jogo cínico e teatral ocorre inclusive quando policiais “derrubam” uma bocada e prendem um varejista de drogas, ou quando vão para a mídia exibir quantidades de drogas e de armas apreendidas. Em sua pesquisa etnográfica num subúrbio de Boston (EUA), nos anos 1940, William Foote Whyte chegou às mesmas constatações acerca da prática policial.

Para ele, os agentes da polícia desempenham um elaborado papel de “faz-de-conta”: enquanto negociam extorsões com os “bandidos” das favelas, simultaneamente precisam mostrar à “sociedade” a impressão de que estão agindo sob as conformidades jurídicas.

Nesse sentido, continua ele o raciocínio, “o policial pode satisfazer as demandas por aplicação da lei com um certo número de prisões meramente simbólicas e ficar livre para se ajustar à situação local”.

Em etnografia realizada no bairro popular Serviluz, em Fortaleza, Leonardo Sá destacou que o mercado de proteção policial funciona baseado em relações interpessoais e financeiras, no qual os “bandidos” que não se adequam às extorsões, que não cumprem com os pagamentos sistemáticos, que não entendem o jogo de forças operado nessas interações são selecionados como bodes-expiatórios para justificar a produtividade policial: “Quem trafica e assalta é quem a polícia deixa traficar, assaltar e também matar na favela; havia um complexo jogo que envolvia a tomada de partida dos policiais nas definições de relações de poder e de violência na favela”. E ele conclui, a partir dos dados de sua pesquisa:

“Para a polícia, bandido bom é bandido morto, quando é inimigo, mas bandido bom mesmo é o bom pagador; é o bandido domesticado, é quem reconhece o patrão, o fornecedor da arma e da droga”.

Em consonância com estas observações, Prensado, 31 anos, ex-traficante de drogas e ex-assaltante no GTN, ressalta que “a pior coisa que tem no crime é gambé [policial]. Se num tiver dinheiro pra pagar, ele vai logo ameaçando: ‘a casa vai cair’. Aí tu fica naquela: será que o gambé vai tacar o pé na minha porta?”.

Luciano da Rocinha, um dos chefes do tráfico na maior favela do Rio de Janeiro no início dos anos 2000, não se furtou em entrevista no livro Cabeça de porco a escancarar sua relação com os policiais: “Eu dava mil reais por dia para cada policial que fazia a ronda embaixo da Rocinha. De vez em quando eles subiam para capturar umas armas e mostrar serviço. Era tudo arranjado. A gente dava pra eles, eles mostravam para os repórteres e devolviam no dia seguinte”.

O “alvará de funcionamento” de uma “bocada”, como destacou Daniel Hirata, em Sobreviver na adversidade: entre o mercado e a vida, é provavelmente uma das negociações mais comuns em qualquer área favelada de todo o Brasil. No GTN, diversas viaturas fazem a cobrança sistematizada deste alvará. Em resumo, funciona da seguinte forma: para “fazer de conta” que não sabem da existência de uma “boca”, os policiais recolhem semanal ou quinzenalmente “mesadas” ou “trocos” dos traficantes varejistas.

Raposão, um “bichão” de um território no GTN, me relatou que seis equipes policiais lhe extorquiam, cada uma, cerca de 150 reais por semana de uma de suas bocas. “Eu pagava os cabeça dos miliciano. É os fiscal, é o subtenente que comanda. No caso, o [X], o [Y], o [Z]. Mas se eles soubesse que outros vendia pra mim, cada setor tinha que ter cada quantia”. Esse valor é negociado, e obviamente varia de acordo com os recursos econômicos e simbólicos que os traficantes varejistas carregam.

Daniel Hirata, na sua pesquisa etnográfica, observou o mesmo processo numa periferia de São Paulo: “Existe uma variação que leva em conta a lucratividade do ponto, a importância dos patrões e a quantidade de pontos que este fosse o proprietário”. Pango, por sua vez, por ser “patrão” há mais tempo, e praticamente um dos “donos” de um território no GTN chega a pagar mil reais por semana. Para efeito de comparação, Papagaio, 36 anos, que “arrendava” uma boca de Raposão, pagava na época da nossa conversa 250 reais por quinzena, um valor muito menor. 

Obs: continuamos na próxima semana ainda analisando as relações sociais entre polícia e “bandidos” nas comunidades populares.

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A série “Antropologia do crime no Ceará” é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais


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