A feira como arte da oralidade popular



2 Comentários

(Foto: Artur Pires/Revista Berro)

Às quintas, há cerca de vinte anos, começando na rua Castro Alencar e dobrando na avenida Plácido Castelo, ocorre uma feira bastante conhecida em toda a região. Feirantes, que também montam suas barracas em outras freguesias como Edson Queiroz, Alvorada, Gentilândia, me relataram que ela “só perde”, em tamanho, para as da Parangaba e da Messejana. A feira atrai clientes de todas as comunidades do Grande Tancredo Neves (GTN) e também de bairros vizinhos: Cajazeiras, Luciano Cavalcante, Jardim das Oliveiras, Cidade dos Funcionários, etc.

Gosto de passear no setor de frutas e verduras. Sempre levo alguma coisa para casa. Afinal, uma “baciada” ou a “palma” de banana (cerca de 20 unidades) por dois reais e pacotes de cenoura e pimentão a um real não se encontram em todo lugar. Sem falar em seis “mói” de cheiro verde a dois reais. Aprecio e sempre que posso me informo da função medicinal de cascas e raízes que têm por lá: jatobá, cumaru, aroeira, jucá, gengibre… Um senhor feirante de uns 70 anos sabe todas as funções fitoterápicas das plantas. Um bruxo! Passo noutra banca de produtos naturais, procuro mel de abelha. “Um sem batizado, mah”, digo ao feirante, um jovem com quem converso também às vezes sobre futebol. Mel “batizado” vem misturado com água ou outro líquido para render. É um mel mais fino e aquoso. Geralmente, um mel puro é mais grosso e viscoso… “Isso aí vai sair aonde mah?”, me pergunta o feirante ao lado de outros, ao me ver batendo fotos. Explico que estou fazendo uma pesquisa e blá-blá-blá. Eles me pedem então pra bater uma foto: posam em frente a sua barraca. 

Certo dia, tinha chovido toda a madrugada de quarta para quinta, mas mesmo assim, nos primeiros feixes amarelecidos de sol, lá estavam os(as) feirantes montando suas barracas, alguns com água até o joelho. Espio um vendedor de frutas lavando as mãos nas poças ao lado de sua barraca para depois, sem cerimônia, catar um cacho de bananas sobre a mesa, pô-lo numa pequena bacia, estendê-lo aos clientes e gritar, com voz firme: “Olha a baciadaaaaa, dois reeeaaaisss”!

Há também o setor de produtos “piratas”: as mais recentes produções do mercado fonográfico brasileiro e internacional podem ser adquiridas, mas estas mercadorias têm perdido valor nos últimos anos em face à concorrência do fácil acesso às músicas em plataformas digitais. O que impera mesmo são os CDs e DVDs de filmes de super-heróis hollywoodianos que estão “bombando” nas salas de cinema da cidade.  

(Foto: Artur Pires/Revista Berro)

Mais à frente, os peixeiros e peixeiras amolam as facas e tratam os cangulos, pargos, mariquitas, guaiúbas, carás, serras, frades, arabaianas, atuns e ciobas com uma habilidade que impressiona. Recolhem o dinheiro, contam as moedas, limpam o suor da testa, e com a mesma mão lambuzam os peixes que irão matar a fome de alguma família logo, logo. Os pescados vêm de cantos diversos: Camocim, Itarema, Acaraú, Mucuripe, e também do Carlito, comunidade inserida no Pirambu, uma das maiores favelas de Fortaleza, situada à beira-mar da região noroeste da capital.

Adiante, um feirante diz para o outro: “Ontem deu pavão”. Uma senhorinha, que aparenta uns 80 anos, se intromete na conversa e lança sua sentença: “Hoje vou jogar no gato e no jacaré”. O “jogo do bicho” é um costume muito comum não apenas no Tancredo, mas em todo o GTN, e sempre há alguma banquinha por perto para fazer sua aposta. Dos pequenos, passando pelos adolescentes e adultos, bem como os idosos, muita gente joga. Endosso a perspectiva de Foote Whyte, em Sociedade de esquina: A estrutura social de uma área urbana pobre e degradada, de que “o jogo”, apesar de ser uma ilegalidade, tem sua comercialização e apostas negligenciadas pelos poderes estatais de fiscalização porque tem ramificações e arranjos na política e na polícia, e é uma atividade ilegal com pouca ou nenhuma violência física. Portanto, na gestão dos ilegalismos feita pela ordem hegemônica, o “jogo do bicho” não deve ser passível de incriminação, mas apenas regulado para gerar as devidas vantagens socioeconômicas aos grupos sociais que o controlam (obviamente, estes não são os apostadores das camadas populares).  

De volta à feira, avisto famílias, casais, grupos de adolescentes, donas-de-casa, crianças: a feira é um mosaico de tipos. Os(as) feirantes usam de todo seu repertório dinâmico e brincalhão para atrair a clientela. Muitas vezes lançando mão de piadas e jogos orais criativos que se atualizam com os acontecimentos midiáticos e do dia a dia. A cada semana novas piadas são criadas e outras eclipsadas, “saem de moda”. Alguns dos comentários têm recortes de gênero e conotações machistas, acionando uma ambiguidade de sentido nas palavras empregadas. Mas a maioria brinca com situações cotidianas desvinculadas de preconceitos, que funcionam como uma arte da camaradagem e da gaiatice tipicamente cearense. A feira popular é uma “escola da comunicação”, uma “grande escola da arte de lidar com pessoas”, como percebeu Daniel Hirata, em sua tese Sobreviver na adversidade: entre o mercado e a vida, feita na periferia paulistana. Para James Scott, em A dominação e a arte da resistência, o mercado a céu aberto das classes populares, junto com a birosca, é o que mais se aproxima de uma assembleia local dos subordinados e subordinadas. Este autor diz que nestes lugares predomina um discurso anti-hegemônico, formas de oratória como a paródia, o ridículo, a escatologia, o grotesco, etc., que estão na maioria das vezes excluídas do mundo da hierarquia e da etiqueta.

A feira do Tancredo tem uma clara divisão: até certo momento, existe a feira “oficial”. Depois que se cruza uma fronteira invisível, mas perceptível a toda a gente que por ela passeia, entra-se num outro “pedaço”, uma feira underground, mais marginalizada: nesta, existe uma maior liberdade para pechinchar, já que as mercadorias são quase todas já usadas e não têm garantias, bem como os(as) feirantes são nômades, estão ali para “adiantar” objetos ocasionais: vendem bicicletas e acessórios para as bikes, ferramentas e peças básicas para consertos de imprevistos domésticos, capacetes, portas, janelas, pneus, tênis, brinquedos infantis, relógios, camisas, bermudas, tomadas, fiações, celulares e carregadores já usados, fones de ouvido… certa vez vi até um fogão! O mais hilário em toda a situação é que a feira underground se realiza de frente ao prédio da 4ª Cia do 5º Batalhão da Polícia Militar, que está no Tancredo desde 2010.

Cenas de uma socialidade favelada!

 ///

A série “Antropologia do crime no Ceará” é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares


2 Replies to “A feira como arte da oralidade popular”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *