“Você conquista o respeito, você num impõe”: A liderança nas relações criminais 



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(Ilustração: Juliana Lima)

Como já falei em outro texto, o sistema de relações sociais do crime funciona numa engrenagem reticular que separa os agentes numa cadeia hierárquica de acordo com as coações socioeconômicas e históricas da sociedade, bem como em concernência com os capitais simbólicos que eles conseguiram incorporar, não apenas nas atividades delitivas, mas ao longo de suas trajetórias em todos os campos da vida social.

A criminalidade pobre não escapa a esta configuração e, portanto, apresenta degradês de representação entre os “bandidos”. As relações criminais em comunidades pauperizadas não estão assentadas em condições de “igualdade”, embora esta categoria nativa – a “igualdade entre os irmãos” –  seja acionada muitas vezes por lideranças de quadrilhas e facções em narrativas orais e em “estatutos” para garantir a coesão e a integração grupal. 

Na realidade do cotidiano, pude observar na experiência etnográfica que esta “igualdade” é muito mais discursiva e estratégica do que concreta. Talvez ela se mantenha graças à sua loquacidade eficaz, à sua performatividade, no sentido austiniano do termo. A criminalidade pobre reproduz, em muitos aspectos, as estruturas classificatórias de separação e hierarquia do estatismo sob o comando dos “patrões”. De modo geral, a hierarquia e o igualitarismo das relações criminais são performances. Mais relevante do que a forma como se organizam – se hierárquica ou “de igual” – a análise precisa compreender em que contextos configuracionais e diante de quais situações os “bandidos” acionam mecanismos hierárquicos ou de igualdade. 

No seu texto Psicologia das massas e análise do eu, Freud pontua que o mecanismo psicológico que sublima as pulsões libidinais dos seguidores em relação ao líder é o da identificação: “A imagem do líder satisfaz o duplo desejo do seguidor em se submeter à autoridade e ser ele mesmo a autoridade”. No entanto, os subordinados não experimentam esta identificação como real, mas como representação, performam sua própria obediência, e assim legitimam a teatralização do líder: “Se elas parassem para refletir por um segundo, toda a encenação se despedaçaria e elas entrariam em pânico”, diz Freud. O líder, sublinha o integrante da Escola de Frankfurt Theodor Adorno, em Ensaios sobre psicologia social e psicanálise, geralmente tem desenvoltura oral, uma “compulsão” para falar excessivamente, uma vez que o “encantamento” que ele exerce sobre os seguidores depende, fundamentalmente, dessa arte oratória. Ainda de acordo com o filósofo alemão, o líder precisa desempenhar um duplo papel: ao tempo em que deve se mostrar como “super-homem”, também precisa travestir-se de pessoa comum, o que garante aproximação empática com os seguidores. 

Os “patrões” dos territórios encarnam a figura centralizadora e focal de comando e organização coletiva. Mas não é à toa. A liderança não “cai do céu”. Ela é gerada e gestada no tempo-espaço. Na maioria dos casos, os líderes são necessariamente agentes criminais que têm um notável repertório de histórias positivadas na memória social da sua localidade.

Eles possuem um “estoque de experiências”, para usar as palavras de Alfred Schutz, que lhes dá maiores recursos representativos, e que constroem sua reputação e prestígio junto aos seus subordinados. Estas “experiências” possibilitam-lhes alargar sua rede de contatos criminais para além das fronteiras de seu local de origem. 

De acordo com Daniel Hirata, em sua tese Sobreviver na adversidade: entre o mercado e a vida, “os patrões são aqueles que têm um alcance mais amplo que as relações de proximidade que cercam o ponto de venda de drogas”. Esta capacidade de estender sua atuação para fora de seu território os fazem mais conhecidos e respeitados do que qualquer outro do seu grupo. Para William Foote Whyte, em Sociedade de esquina: a estrutura social de uma área urbana pobre e degradada, esta extensão de sua socialidade possibilita-lhes um maior raio de ação para gerar relacionamentos criminais: “Uma de suas funções mais importantes é estabelecer o relacionamento entre seu grupo e outros grupamentos”. No limite de sua ação social, os “bichões” exercem um poder de vida e morte sobre suas comunidades. 

Geralmente, os líderes são os “atacadistas” locais no comércio de drogas, conhecem de longa data as particularidades e as movimentações do mercado ilegal na cidade e as respectivas “fontes”. Eles garantem o repasse das substâncias psicoativas aos seus “aviões” e outros pequenos varejistas em regime fiduciário; quero dizer que estes últimos precisam “prestar contas”, pagar as “taxas” aos “patrões” no final das vendas. Os chefes não transacionam apenas drogas, mas também armas, e financiam os automóveis e os “ferros” para a prática de assaltos.

Eles têm fornecedores privilegiados com os quais conseguem preços mais baratos para adquirir o “maquinário” e os “produtos”; se preciso, mandam seus “meninos” cruzarem as “fronteiras” em busca de promoções. Ao revenderem armas e drogas e arrendarem veículos a “bandidos” da comunidade local e de outros territórios, espraiam sua rede de atuação, e então adquirem não apenas o ganho monetário – o que é mais relevante nesta transação é o lucro simbólico, uma vez que este produz subjetivações que funcionam como sinais reforçadores do seu status de “bichão”, uma posição quase monopólica de poder negociador, mas que justamente por concentrar tanto poder desperta sentimentos de cobiça por parte de outros. 

Pango, o “patrão” de um dos territórios do GTN, que amealha de quinze a vinte mil reais por mês em épocas “ruins” e de quarenta a sessenta mil reais mensais em períodos de bonança, me explica sobre as particularidades da liderança, e de como essa posição também provoca uma maior exposição às “trairagem”: 

“Meu dia a dia é puxado mah. Já tô há muito tempo no crime, já vi muita trairagem, muita trairagem mesmo. Eu sou prova disso: num foi só uma nem duas pessoas não mah, que já tentaram… [Te fazer?] [“fazer” tem aqui o significado de “matar”] Foi! Da Vila [Cazumba], de outros cantos… Porque pede ajuda à gente, a gente ajuda, só que eles num se contenta com aquela ajuda, querem mais. Ficam ali focado naquilo, quando a gente vai ver, o menino quer tomar tudo, num é assim”.

Ele continua:

“Pra pessoa chegar nesse patramar [patamar] já mais elevado, ele tem que fazer a caminhada dele já de muito tempo, tem que ser de muitos anos, num é duma hora pra outra. Por exemplo, no tráfico, tu começa hoje, aí com um ano tu já quer tá nesse patramar? Bote ano nisso, aí tu vai fazer tua caminhada! Teu nome vai rodar na boca… O nome do cara tem que rodar nas favelas, nas penitenciárias né? Justo! Pronto! Num é da noite pro dia! Eu sou veacozim nessas coisas”. 

Raposão, também líder de um grupo criminal no GTN, antes de ser preso recolhia cerca de quarenta mil reais mensais, mas sua renda era mais variável porque, além do lucro das “bocadas”, dependia da monta arrecadada nos assaltos a mansões de luxo e casas lotéricas. Raposão até pouco tempo atrás trabalhava para Pango, mas a partir de um desentendimento entre eles, decidiu que era hora de galgar posições nas relações sociais do crime: “Eu vi que eu tinha mais o dom pra comandar, então fui fazendo amizade com outros malandro… Você conquista o respeito, você num impõe, né?”. 

Vale destacar que mesmo entre os “patrões” há níveis escalonados. Alguns são mais “bichões” do que outros. Considero, a partir de minhas observações empíricas, de minhas conversas com os dois, e com outros personagens varejistas dos tráficos de armas e drogas no GTN, que Pango é mais “bichão” do que Raposão. Ambos são “crias” de um mesmo território no GTN. Na verdade, como dito acima, Raposão é um ex-funcionário de Pango. Eles puseram fim ao “contrato” porque Raposão chegou a dever cerca de vinte mil reais a seu ex-chefe em drogas e armas. Quando romperam, Raposão usou a “fama” de “matador” que ganhara durante a “guerra” contra grupos rivais de outro território do GTN e o dinheiro que tinha juntado para “comprar” algumas bocas em um microterritório do local. Em pouco tempo, já tinha “aviões” e alguns “ladrões” trabalhando para ele, comprou carros, motos, outras bocas, etc. Se filiou ao Comando Vermelho (CV), galgou rapidamente patamares nas relações criminais, e atingiu o status de “patrão” após o lucro simbólico obtido por meio de ações ousadas como a matança de muitos “inimigos”, e assaltos a estabelecimentos comerciais e mansões luxuosas. Foi preso cerca de um mês após nossa conversa em uma tentativa de assalto a uma casa lotérica numa cidade da Grande Fortaleza. Ele apresentou sua versão da rixa com Pango: 

“Na época da guerra, eu fiquei muito falado nas cadeia, entendeu? Ah, o [Raposão] da [território X] e tal… ‘o homi tá o cão chupando manga, correu pelo errado, o homi tá buscando lá dentro de casa’… Naquela época da guerra eu matei três aqui, dois no [conjunto] Maria Tomásia, dois no São Benedito. Aí na época eu trabalhava praqueles dois camaradas lá [Pango e Boina], mataram um irmão deles, eu me envolvi na guerra, matei por eles, matei mais por eles do que por mim. Me teleguiaram. Entraram na minha mente aqui e eu achava que eles tava certo. No fim, quando acabou a guerra e que eu conheci os cara,  aí eu vim descobrir o que era o certo e o que era o errado, eu vi que eles tavam errado, eu abandonei, entendeu? Porque eu descobri que apesar deles tá me fornecendo carro, drogas, armas, porque eu era o linha de frente deles, eles mesmo me entregavam pros homi, tu acredita? Levei vários botes na minha casa: COIN (Coordenadoria de Inteligência), reservado, FTA (Força Tática de Apoio)… vários botes! O primeiro bote [levaram] foi catorze mil, foi duas 9 milímetro, dois oitão [revólver calibre 38], duas caixa de bala, coisa muita. Aí eu fui conhecendo quem era quem, e vi que eles eram os atrasa lado, os caras que querem viver no mundo do crime, mas não têm coragem de ir pra pista pra trazer dinheiro e fica querendo dominar o lugar sem ter condições de dominar. Fica botando droga ruim pra ganhar muito. Então, se eles veem que tem alguém crescendo, eles paga pra ir matar, como já pagaram pra ir me matar. Entraram na FDN (Família do Norte) e tentaram formar pra me matar, inventaram umas histórias, pagava os drogueiros… Eles tão lá, morando lá, um tá preso [no caso, Boina] e o outro acochando, procurando toda e qualquer pessoa que tenha alguma coisa contra mim pra tentar me matar. [E tu num fica naquela não?] Fico, mas como agora eu sou do CV e ele é da FDN, aí eu num vou querer tirar a vida dele sem ver nem pra quê! Mas, se ele imaginar, eu tenho o dossiê completo de tudo o que ele fez de errado, eu tô esperando só mesmo uma gota pra eu botar no comando e tirar a camisa dele, porque o errado tem que sair, entendeu? E ele é muito errado, mata por dinheiro, olho grande, cresce os zói nas coisas dos outros e apoia o errado. 

Papagaio, que também era subjugado a Pango, e se aliou a Raposão, conta sua versão da história:

Aí comecemo [ele e Raposão] a arrebentar [traficar] aqui, de cinco e de dez [reais]. Aí os cara lá [Pango e Boina] cresceu os ói [olhos] em mim e no [Raposão] mah.. aí nós tretemo com os cara e num pegava mais [drogas] com eles não, arranjemo outro canal e pegamo logo mei mundo de droga logo… Aí em questão de cinco meses, eu e [Raposão] crescemo. Nos tempos das guerra eu andava com uma pistola aqui [na região da lombar] e um oitão aqui ó [na parte lateral da cintura]. 

Samurai, que permaneceu aliado de Pango, conta que Raposão ganhou “fama” na época da última “guerra” entre grupos criminais da Vila Cazumba e do Tancredo Neves pelos homicídios que cometeu, alguns deles, em atos corajosos, invadindo o território “inimigo”. Samurai diz que Raposão o estimava e que eram amigos, e que se não fosse pelo rompimento de Pango com Raposão, eles ainda estariam se falando. Em um momento da conversa, ele me chama para mais perto e, em voz baixa, solta um: “Só entre nós, viu?”. Então, começa a dizer aos cochichos que entendia Raposão, porque por mais que este tivesse perdido as armas e drogas de Pango, e se endividado, ele ia para o confronto e se arriscava pela “equipe” durante a “guerra”, enquanto Pango e Boina “não saíam, ficavam mais dentro de casa”. No diálogo em tom menor, Samurai transparecia que achava injusto que seus patrões, Pango e Boina, cobrassem Raposão pelas armas e drogas perdidas, uma vez que a atuação de Raposão na “guerra” havia sido de extrema lealdade. No entanto, Samurai não explicitava sua opinião aos seus chefes por medo de represálias. 

Pango, por sua vez, exerce a função de liderança no território há muitos anos, apesar da pouca idade, 31. Conta a seu favor ter começado a vender drogas com apenas 13 anos, estabelecendo uma “carreira” de mais de uma década e meia, e também agrega para si ter como “sócio” seu irmão mais velho, Boina, outro “patrão” local. Não consigo afirmar convictamente quem é mais “bichão” dos irmãos. Eles têm estilos bem paradoxais: enquanto Pango representa o tipo-ideal do bandido “sapatinho”, “na disciplina”, mais cauteloso, Boina é seu inverso: faz a linha do bandido “impulsivo”, “guerreiro”, que age muitas vezes em pleno destempero emocional, assim como Raposão. Os irmãos são respeitados e considerados pelos demais agentes criminais a partir de esquemas de valor distintos, o que dificulta a interpretação subjetiva sobre qual detém mais poder simbólico nas relações do crime no GTN. Pango me contou sua versão do desentendimento com Raposão: 

“Macho, as traição é sempre briga de trono, porque as negada num se contenta com o que tem. Sempre quer mais, além do que eles pode.”

E continua Pango:

Como tipo um cara aí, que eu num vou citar o nome. Eu botei ele dentro duma casa, dei carro, comprei roupa, botava material [drogas] de com força na mão dele, mandava ele atravessar as fronteiras pra pegar droga e uns maquinário [armas] pra mim… Aí ele ia, eu pagava tudo, pagava pousada, essas coisas, aí ele perdeu umas coisas minha. Aí ele viu que tava dando dinheiro, aí queria aquilo pra ele. Aí ele ficou me devendo uns vinte mil, vinte e poucos mil. Aí eu considerei ele, da amizade dele, quitei a metade, disse: ‘Ei, macho, desse dinheiro, tu me dá só dez mil mesmo, o resto deixa pra lá’. Depois de uns meses, ele tava tramando querer me matar mah! [Como é que tu soube disso?] Pela boca dos outros, porque ele pensava que eu num tinha muito conhecimento. E aonde ele ia, era meus conhecimento [informantes]. Ele queria se chegar nos outros, só que a negada já me conhecia, ele tinha começado um tempo desse, e eu já era de muito tempo. Aí cada vez que ele vinha falar besteira, a negada vinha no meu ouvido. Aí eu fui tentar resolver, mas como tinha já rolado um tal de salve aí, da paz, que num podia ter derramamento de sangue, ele se aproveitou desse histórico aí. Mas agora numa época dessa aí, que tá em todo canto gerando [a guerra recomeçou], ele tá preso, época dessa era época boa deu pegar ele. [E tu fazia? – “fazer” aqui é uma categoria nativa para “matar”] Não, eu não, tem meus menino que faz… 

As “brigas de trono”, portanto, são o principal mecanismo acionador de lutas e das sucessivas “guerras” entre quadrilhas varejistas de drogas e armas no GTN.

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A série Antropologia do crime no Ceará é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”

xvii. A “escolha” é uma escolha? Compreendendo o ingresso nas relações criminais

xviii. Consumo, dinheiro e sexo: a tríade hedonista da carreira criminal

xix. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)

xx. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte II)

xxi. “Fura até o colete dos homi”: As armas como símbolo dominante

xxii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte I)

xxiii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte II) 

xxiv. “Mãezinha”: uma categoria local que põe em suspensão o ethos violento

xxv. “Pirangueiro”, “cabueta”, “boca de prata”, “corre de ganso”, “atrasa lado”: compreendendo algumas categorias negativadas da moralidade criminal 

xxvi. “O crack veio pra acabar com tudo”: o noia como um “zé ninguém”


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