As “brigas de trono”: as disputas pelo comando territorial



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

“Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal…”

Riobaldo, em Grande sertão: veredas

Poderíamos pensar a violência social nos médios e grandes centros urbanos inseridos no capitalismo financeiro do século XXI como crônica, circular e cumulativa? Estaria ocorrendo uma ritualização e uma rotinização das práticas violentas nas disputas por recursos materiais e simbólicos entre as “facções”, à maneira como pensou Stanley Tambiah, em Conflito etnonacionalista e violência coletiva no sul da Ásia? Nas últimas três décadas no Brasil, houve um crescimento exponencial de crimes letais intencionais e daqueles relacionados ao patrimônio. 

Ocorrem aí diversos fatores incidentes que ajudam a explicar o fenômeno:

  • inchaço populacional dos centros urbanos;
  • dilatação das desigualdades sociais;
  • exclusão de uma parcela significativa da população dos circuitos dos direitos civis e de cidadania;
  • aumento do acesso a armas de fogo;
  • sucateamento e despreparo psicológico das polícias civil e militar na relação com o público;
  • investimento cada vez maior das agências estatais em controle social e punição;
  • narrativa lugar-comum de criminalização da pobreza;
  • robustecimento das organizações criminosas, etc. 

Todas essas variáveis teriam desaguado num mar de rotinização e ritualização da violência presenciada por olhares atônitos e impotentes? Aqui no Brasil, as consequências da violência mortal atingem preferencialmente as camadas pauperizadas. A “guerra civil” entre pobres tem uma dimensão relevante para a maneira de funcionar do Estado. As antropólogas Veena Das e Deborah Poole sublinham que é justamente a partir desta barbárie social que o estatismo pode justificar suas práticas de controle e intervenção violenta nas periferias. Penso que é exatamente neste mesmo sentido que Foucault, em Vigiar e punir,  afirmava que “é possível que a guerra como estratégia seja a continuação da política. Mas não se deve esquecer que a ‘política’ foi concebida como a continuação senão exata e diretamente da guerra”. Estar em “guerra” é uma situação rotineira para as pessoas envolvidas nas atividades criminais nas favelas. É a partir desta posição bélica que estas pessoas constroem muitos dos processos de subjetivação de um ethos (costumes, comportamentos, modos de ser e de agir) masculino e guerreiro por excelência. 

Leonardo Sá vivenciou processo semelhante quando realizou sua pesquisa no Serviluz, bairro popular do litoral leste fortalezense: “Guerra não é apenas uma metáfora. É uma metonímia e uma performance. É um modo de expressividade da revolta que os jovens guardam, quando narram as histórias dos conflitos entre as facções e a polícia e as facções entre si”.

De maneira criativa e trágica, simultaneamente, os moradores dos territórios em “guerra” apelidam algumas dessas regiões fronteiriças entre territórios de “Faixa de Gaza”, referenciando uma disputa geopolítica no Oriente Médio, entre Israel e o Estado Palestino, a qual tomaram conhecimento pelos meios de comunicação de massa, principalmente o televisivo. Alguns outros dizem que é preciso evitar certos microterritórios porque “tão igual à Síria”. 

As “guerras” fragmentam o tecido socioespacial do Grande Tancredo Neves (GTN). Muitas vezes, as “guerras” iniciam por motivos banais. Samurai, um traficante varejista de cocaína no GTN relata que a última “guerra” entre a Vila Cazumba e o Tancredo Neves, entre os anos de 2014 e 2015, teve como estopim um desentendimento corriqueiro em que dois “aviões”, um de cada lado, se encararam na rua e um deles disse pro outro: “O que é seu pau no cu?”. Em efeito “dominó”, a partir da rede de transmissão das fofocas, dos “aviões” a briga rapidamente estendeu-se para os “patrões”. Em poucos dias, o cenário era de conflito bélico, com ataques e emboscadas de ambos os lados. De acordo com Samurai, nessa época “todo dia de madrugada tinha bala, papocava cinquenta, cem bala”. Num dos ataques da quadrilha rival, o irmão caçula de Pango e Boina foi assassinado. “Foi aí que começou realmente a guerra”, detalha Pango, “patrão” de um dos territórios do GTN. Ele continua: “Investi muito dinheiro nisso, mas também nós matamo muita gente no tempo. Eu num ia lá não, quem ia era meu irmão [Boina]. Macho, era muita gente, tinha umas vinte pessoas, era metranca [metralhadora], doze [espingarda], pistola de todo tipo, oitão [revólver], TA [pistola], entrava era de três carro, cinco carro pra dentro aí [do Tancredo], era gente de todo jeito, mah. Eles aí [aponta com o nariz para o outro lado da avenida, onde fica o território “inimigo”], saía só de madrugada, num tinha sossego pra eles não mah”. 

As brigas por domínio do tráfico varejista entre a Vila Cazumba e o Tancredo Neves tiveram início na década de 1990, com a ascensão das disputas entre gangues nos “bailes funk”. Em relação ao comércio de armas e drogas, as quadrilhas criminais do Tancredo Neves tinham amplo domínio material e simbólico. Entretanto, no final dos anos de 1990 e início dos 2000, um “traficante” da Vila Cazumba, Leão, que era tio de Prensado, em alguns anos tomou parte considerável da clientela que comprava maconha “nacional”, crack e cocaína no território vizinho.

Àquela época, começo do século XXI, a maconha “paraguaia” começava a chegar ao Ceará, mas ainda de maneira muito desigual em relação à oferta dos “camarões”, como é chamada a cannabis orgânica. Este novo “patrão” da Vila Cazumba não quis se submeter às regras das quadrilhas do Tancredo. Era um tipo corajoso. Foi então ameaçado de morte. Atrevido, em uma noite de sexta-feira na qual tinha exagerado no consumo de álcool, resolveu invadir o território “inimigo” com uma espingarda doze na mão. Três outros o acompanharam, mas recuaram tão logo chegaram ao Tancredo e perceberam que um indivíduo tinha corrido em direção a uma rua para chamar reforço. Leão continuou adiante. A audácia custou-lhe a vida. Foi atingido com um tiro de bala “dundum”, que se expande e fragmenta-se no interior do indivíduo com o impacto; “ela estoura dentro do cara”, diz seu sobrinho. 

À época, Prensado tinha 18 anos: “Fiquei sem chão, pra mim acabou tudo. Meu tio era mesmo que ser meu pai, me criou, qualquer foguete que rolava comigo, ele comia partido. Me dava tudo, minhas roupas, a céda pra eu sair com as rapariga… Gosto nem de lembrar parceiro. Fico mal”.

Leão atirou contra os “bandidos” do grupo rival e, talvez pela agitação da adrenalina, sequer percebeu que tinha sido atingido. Quando retornava à Vila Cazumba, já tendo cruzado a avenida que separa os dois territórios, começou a cambalear perdendo as forças. Prensado, que havia chegado há pouco tempo de um forró no conjunto Alvorada, percebeu um furo na camisa na altura da barriga. Quando olhou, viu que seu tio tinha sido baleado, mas o tiro não sangrava externamente, a hemorragia era interna. Colocaram-no no carro rapidamente. Mas não deu tempo de chegar ao hospital: “Ele morreu nos meus braços”, lamenta Prensado. Cenas de uma “guerra”, como diz o Facção Central

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A série Antropologia do crime no Ceará é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”

xvii. A “escolha” é uma escolha? Compreendendo o ingresso nas relações criminais

xviii. Consumo, dinheiro e sexo: a tríade hedonista da carreira criminal

xix. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)

xx. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte II)

xxi. “Fura até o colete dos homi”: As armas como símbolo dominante

xxii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte I)

xxiii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte II) 

xxiv. “Mãezinha”: uma categoria local que põe em suspensão o ethos violento

xxv. “Pirangueiro”, “cabueta”, “boca de prata”, “corre de ganso”, “atrasa lado”: compreendendo algumas categorias negativadas da moralidade criminal 

xxvi. “O crack veio pra acabar com tudo”: o noia como um “zé ninguém”


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