O costume guerreiro dos adeptos da criminalidade pobre 



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Nos últimos três textos viemos abordando as disputas e as lutas, desde o final dos anos 1990, por autoafirmação e reconhecimento entre os jovens das periferias cearenses; disputas estas que desdobraram-se no atual fenômeno das “facções”. No início do século, devido ao caráter fragmentário das ocupações territoriais na cidade, diversas quadrilhas criminais se estabeleceram em muitos pedaços geográficos. Estas demarcações territoriais sangrentas foram reatualizações ultraviolentas e armadas das disputas “mano a mano” que ocorriam nos anos de 1990 entre a geração dos bailes funk. Depois, chegamos à “era das facções”, a que vivenciamos hoje no Ceará. 

O resultado mais devastador de toda essa dinâmica de guerra são os efeitos simbólicos e políticos de experiências morais que passam a estruturar as relações sociais das pessoas que, por estarem inseridas no território, compartilham vivências aproximativas com esse fenômeno. O medo de viver a socialidade das ruas é um dos “ecos da violência” mais recorrentes. Carlos, desempregado, morador do Tancredo Neves, relata sua experiência: “Aqui era demais, todo dia era bala, todo dia era bala, todo dia era matando, já mataram aqui, já mataram ali. Sempre teve essa guerra aí entre Tancredo, Tasso, mas graças a Deus agora tá mais calmo”. 

Fabrício, professor da rede pública, também morador do Tancredo Neves, complementa-o: “Quem mora aqui não podia andar muito lá e quem mora lá não podia andar muito aqui. Não que existisse uma total restrição, mas existia uma filtragem, né, principalmente os jovens, né, tinham mais receio de andar no Tancredo Neves, e vice-versa”. 

Por muitos anos, Tasso e Tancredo foram separados por fronteiras simbólicas. Houve todo um controle geográfico-territorial dos espaços que podiam – ou não – ser ocupados pelos integrantes das gangues. No entanto, os grupos criminais de ambos os lados se arriscavam a realizar “invasões” no território “inimigo” como mostra de poder de fogo e coragem, duas características muito valorizadas nas relações sociais do crime.

Leonardo Sá analisou processo semelhante em sua pesquisa no Serviluz: “A ação coletiva está orientada para a defesa, a proteção e o ataque contra os inimigos”. Ainda segundo este autor, essa movimentação entre as fronteiras territoriais é comum, é um elemento no jogo da guerra entre as gangues: “Aceitar o confinamento em seu próprio território é uma forma de perder força pelo acuamento que a força militar de uma gangue exerce sobre a outra. Não invadir o território do inimigo é uma forma de apresentar negativamente a fraqueza, a falta de fibra e o medo do outro. Incursões perigosas sobre o terreno do outro, portanto, fazem parte de um padrão local de luta. Rituais de poder e exibições das forças, das armas, mas, sobretudo, da valentia, da coragem e do destemor revelam o significado desse embate imaginário”. 

A cada assassinato exitoso, uma comemoração. E, consequentemente, um revide da parte rival. Todo esse fluxo de “toma lá, dá cá” nas matanças funciona como uma espiral de violência que mantém um ciclo degenerado e praticamente interminável de vingança.

Este processo, que ocorria na época das quadrilhas criminais de bairros (aproximadamente entre 2000-2015), continua a ocorrer agora, em maiores e mais letais proporções, em muitas comunidades de Fortaleza e do interior cearense, agora com as disputas entre as facções. 

Estas características da “guerra” nas favelas do Ceará me faz pensar nos “debates” do PCC em São Paulo, analisados pelos pesquisadores Daniel Hirata e Gabriel Feltran. Os “debates” são práticas de negociação comandadas por agentes criminais do PCC com papéis de liderança que imitam um tribunal jurídico, inclusive com as partes de defesa e acusação, que têm como função garantir o “proceder” nas relações criminais. As decisões finais dos debates podem durar dias, até mesmo semanas. Hirata comenta de um debate que durou três semanas para ter seu veredito. Nos debates, decisões nunca são tomadas individualmente por nenhum membro, mas por uma coletividade de líderes. A hegemonia praticamente monopólica do Primeiro Comando da Capital em todo o Estado de São Paulo favorece com que os debates muitas vezes consigam cessar essa cadeia cíclica e cumulativa de revanchismos. 

De acordo com Hirata, “os debates parecem ser um mecanismo que se dirige regulando a lógica da vingança e seu ciclo perverso de mortes, ou seja, uma tentativa de conduzir a decisão de uma maneira que não se permita que o efeito de auto-alimentação de mortes se realize de forma arbitrária”. Para este autor, os debates, ainda que com suas contradições e extralegalidades, é uma “recusa dos caminhos que conduzem à morte, portanto uma forma de defesa da vida”. 

No Ceará, não há “debates”. Nesta lógica, o ritual de lançar fogos de artifício ao céu para comemorar e avisar sobre a morte de um integrante de uma gangue rival está incorporado à lógica dos jovens dessas comunidades. “Às vezes, a gente vê, antecipa o fato, né. Você sabe que aquele cara vai morrer a qualquer momento pela ousadia dele, né?”, sugere Fabrício.

O espetáculo ritual promovido por esses grupos lembra o ethos guerreiro e faccionalista de tribos onde o assassinato é simbolicamente valorizado pela comunidade. O “guerreiro” não foge à luta e age sem consideração pelo rival. A disputa é tribal, ou mata ou morre. Gregory Bateson, ao analisar o ritual nativo – o naven – dos latmul da Nova Guiné nos anos de 1930 pontuou que “[entre os rituais,] o mais importante é o homicídio. A primeira vez que um rapaz mata o inimigo […] é a ocasião para o naven mais completo. […] Depois do homicídio direto, os atos mais honrados são os que ajudam os outros a matar com êxito”.

Os homicídios, no universo da criminalidade favelada, são um “rito de passagem”, para usar uma expressão de Van Gennep, um marco liminar e transicional que eleva os recursos simbólicos dos “guerreiros” que os executam, que passam a ser “considerados” nas relações sociais do crime. 

Ainda caminhando por esta analogia, destaco que muitos dos jovens adeptos a atividades criminais com quem conversei fizeram questão de me mostrar, com explícito orgulho inclusive, as marcas de balas e de “furadas” ou “naifadas” (cortes à faca) que tinham sido adquiridas nas muitas “guerras” das quais participaram. Estas máculas corporais me pareceram homólogas às tatuagens dos guerreiros tribais estudados pelos precursores da antropologia. Papagaio ajuda a ilustrar minha análise: “Óia o tanto de furo que eu já levei também, de faca, óí ó. Tem aqui também ó, aqui também, nas minhas costas! [mostra as muitas marcas em várias partes do corpo] Isso aqui foi disputando eu e um cara na faca, só os dois. Mas só que eu também dei umas nele, dei uma nele aqui, outra aqui… ele correu, eu caí no chão e a negada me socorreu e me levou pro hospital”. 

Dos primeiros envolvidos na “guerra” entre Tancredo Neves e Tasso Jereissati que iniciou em meados dos anos 2000, Siba é o único que continua vivo. Ele está detido em um presídio federal, no Paraná, mas é o herdeiro legítimo do espólio criminal de Garrincha e Cassaco. Segundo meus interlocutores, atualmente ele é “quem manda” no GTN e é um dos “patrão” de todo o Ceará, mesmo estando encarcerado num presídio de segurança máxima. Raposão afirma que Siba “tem iate com heliporto e tudo”.

Devido à carga simbólica de prestígio no “crime” de Garrincha e familiares, depois Cassaco, e agora Siba, a área de influência do GTN nas relações criminais não se restringe somente aos seus próprios territórios, mas se estende aos bairros e comunidades circunvizinhas, tanto no que diz respeito à clientela de usuários, que surgem dos bairros Cidade dos Funcionários, Jardim das Oliveiras, Parque Água Fria, Parque Manibura, Luciano Cavalcante e Cambeba, quanto no que concerne ao fornecimento de armas e drogas a “aviões” de comunidades no Barroso, na Aerolândia, no Lagamar, no Areal, no Castelão, no Pantanal (Jardim das Oliveiras), no Grêmio (Jardim das Oliveiras), na Galileia (Luciano Cavalcante), nas Cajazeiras, etc. 

(Ilustração: Artur Pires) A área de abrangência das relações criminais do GTN engloba considerável parte das regiões sudeste e sul de Fortaleza. As tonalidades mais avermelhadas do círculo indicam o núcleo geográfico no qual a influência é mais pujante, ao passo em que conforme as cores do raio de influência vão amarelando, é também sinal onde a ingerência vai ficando mais restrita

Vale salientar que esta posição de relevância do GTN nas regiões sul e sudeste de Fortaleza não é monopólica; pelo contrário, é ferozmente disputada com outros grupos criminais que também acionam um extenso fluxo de relações e ingerências nesta parte da metrópole, como a comunidade do Lagamar, no bairro Aerolândia, vinculada à facção cearense Guardiões do Estado (GDE); as gangues do Barroso – que têm integrantes majoritariamente da GDE; e principalmente a comunidade do Pôr do Sol, na Grande Messejana. Esta última, segundo alguns interlocutores, é a maior responsável pela distribuição (fornecimento) de armas e drogas no mercado interno do Estado: “De lá espalha pro Ceará aqui todim, distribui pras favela tudinha, mandando pra todo canto: Tranquedo, Tasso, Lagamar, tudo, tudo…”, diz Pango. O Pôr do Sol, até alguns meses atrás, era o único território de Fortaleza que não havia aderido a nenhuma das facções que comandam diversas comunidades cearenses. No entanto, recentemente foi conquistado pelo CV.

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A série Antropologia do crime no Ceará é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii. “Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”

xvii. A “escolha” é uma escolha? Compreendendo o ingresso nas relações criminais

xviii. Consumo, dinheiro e sexo: a tríade hedonista da carreira criminal

xix. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)

xx. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte II)

xxi. “Fura até o colete dos homi”: As armas como símbolo dominante

xxii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte I)

xxiii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte II) 

xxiv. “Mãezinha”: uma categoria local que põe em suspensão o ethos violento

xxv. “Pirangueiro”, “cabueta”, “boca de prata”, “corre de ganso”, “atrasa lado”: compreendendo algumas categorias negativadas da moralidade criminal 

xxvi. “O crack veio pra acabar com tudo”: o noia como um “zé ninguém”

xxvii. “Você conquista o respeito, você num impõe”: A liderança nas relações criminais 

xxviii. As “brigas de trono”: as disputas pelo comando territorial

xxix. Socialidade juvenil periférica em Fortaleza dos anos 1990/2000: Dos bailes funks às quadrilhas do tráfico

xxx. Crônica de uma guerra entre quadrilhas de “traficantes”


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