Ciência a serviço da escravidão

Por Artur Pires

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Após construírem o conceito de uma “raça” negra uniforme e de um continente africano uno, sem diferenças tribais e étnicas, os colonizadores europeus, ajudados por uma elite nacional conservadora e racista, partiram para o próximo passo com fins de justificar a opressão e a violência às quais submetiam os negros africanos: atestar “cientificamente” a inferioridade desta mesma “raça”.

À época surgiram teorias “científicas” que endossavam a idéia de que a “raça” negra era inferior, dos pontos de vista mental, cognitivo e sócio-cultural. As teorias de inferioridade racial foram, inclusive, reiteradas pela Igreja Católica, que dizia que a única salvação aos negros africanos era a conversão ao catolicismo. “A instrução dos escravos na doutrina cristã e nos bons costumes completaria a obra de sujeição interior do negro ao branco” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo). “A Igreja foi aqui apropriada como parte do sistema, como algo que lhe dá suporte através da ‘superstição’ e da ‘ignorância’ que terminam por se verem sacralizadas por uma Igreja omissa e ideologicamente conivente” (A construção social da cor,José D´Assunção Barros).

A construção do negro como “raça” inferior foi tão bem engendrada que a idéia de inferioridade africana era lugar-comum no pensamento dos séculos XVI a XIX. Além de vistos como inferiores, os negros eram também tomados como violentos, arruaceiros, preguiçosos, viciados, imorais, incapazes para o trabalho livre, tendentes ao alcoolismo e à marginalidade, criminosos em potencial, enfim, tachados como os grandes responsáveis pelo atraso histórico do desenvolvimento brasileiro. A associação do negro com a idéia da negação da ordem e do progresso aparece em inúmeros artigos de jornais brasileiros da época. Tem certeza que estamos no século XXI e não no XIX?

Os estereótipos do escravo rude e mau tinham suas raízes não só na atmosfera escravista imperante em todo o Brasil, como também na absorção da literatura iluminista pelos abolicionistas brasileiros. A elite colonial considerava os escravos elementos perturbadores e maléficos da sociedade e de sua engrenagem econômica. Dentro desse contexto de visualização do negro como inimigo perigoso e violento, começou-se a formar na sociedade brasileira o imaginário do medo, que perdura até hoje.

Ainda como reflexo desse imaginário do medo que começava a tomar corpo na sociedade brasileira à época, surgem, nesse período, as primeiras teorias de “higienização social” ou branqueamento da população. Na concepção de significativa parte dos setores políticos e aristocratas do país, para que o Brasil evoluísse era preciso injetar brancos no espaço sócio-geográfico brasileiro, uma vez que a população brasileira era majoritariamente composto por negros e índios – e isso não era nada bom, na visão desses setores. Tinha-se a percepção de que junto com o imigrante europeu – a quem foi dado todo o estímulo possível com leis imigrantistas – viriam a civilização e o progresso, sendo estes personagens os únicos capazes de desenvolver, de fato, o Brasil. Põe-se em prática, então, um projeto de construção de um novo país, baseado no incentivo à imigração de europeus, que viriam para cá com a função de estimular o desenvolvimento e também “embranquecer” a população. Pensava-se que, com o passar dos anos, escanteada, deixada à margem dos processos sociais, abandonada à própria sorte, a população negra tenderia a desaparecer gradualmente. Percebe-se, portanto, claramente o viés racista na formação da sociedade brasileira.

A política de branqueamento tornava ainda mais difícil a integração social do negro, uma vez que a discriminação foi aumentando com a inserção de europeus imigrantes no país. aumentava concomitante com o incremento da concorrência representada pelo europeu. “À medida que a possibilidade de uma grande imigração européia tomava corpo, o negro começa a ser descaracterizado não só enquanto força de trabalho, mas sobretudo como futuro cidadão” (Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX, Célia Marinho de Azevedo).

Dentro do processo de dominação ideológico-social, a elite brasileira do século XIX já tinha conseguido duas grandes conquistas: a primeira foi incutir na mente dos africanos que eles não eram bantos, nem zulus tampouco sudaneses, mas apenas negros, apagando suas identidades étnicas e tribais e classificando-os dentro de uma mesma categoria: a “raça” negra. O segundo feito dos dominadores foi o de difundir e atestar “cientificamente” a teoria de que a “raça” negra era inferior às demais, com a “raça” branca situando-se no topo dessa classificação racial.

Feito isto, o próximo passo era transmitir a idéia de que, no Brasil, havia um respeito e uma estima mútua entre as “raças”, de que o branco dominador era amável e tratava bem o negro escravo. Assim, começava a ser posto em prática o mito do paraíso racial brasileiro, que perdura até hoje e é sempre enfatizado pelos contrários às cotas raciais, por exemplo.

*Esse texto faz parte da série Consciência Negra: a questão racial, que foi publicada em novembro de 2014 na Revista Berro. Veja abaixo todos os outros textos da série: 

A construção social da “raça” negra

Desconstruindo o mito do paraíso racial brasileiro

Abolicionistas: lobos em pele de cordeiro

O protagonismo negro no processo de abolição

O “black power” sai às ruas

Por que o racismo ainda persiste?

Cotas raciais: combatendo a desigualdade de cor