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O “black power” sai às ruas

O punho cerrado é ainda hoje o símbolo “black power” 

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

Para entender o movimento negro atual é importante recorrer ao movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, nos anos 1960, berço e estopim para as lutas atuais da população negra em todo o mundo. A partir dele, movimentos de contestação por direitos para os negros explodiram em todo o mundo, com destaque para a luta contra o apartheid na África do Sul. O movimento negro estadunidense foi base e parâmetro para todos os outros que surgiram no mundo na efervescente década de 1960: o movimento feminista, o movimento hippie, a contracultura. “No mundo inteiro, as pessoas que defendiam causas queriam imitar o movimento dos direitos civis” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

A porção sul dos Estados Unidos, que resistiu até onde pôde na sua política escravocrata e racista, nunca considerou os negros como cidadãos plenos dos mesmos direitos civis dos demais. Para se ter uma idéia, pouco tempo após o fim da escravidão, era fundada, no estado do Tennessee, sul dos Estados Unidos, em 1865, a Ku Klux Klan, organização radical que defendia a supremacia branca e se caracterizou por métodos altamente violentos, não hesitando em matar negros em nome dessa alegada superioridade racial. Seu objetivo principal era impedir a integração social dos negros recém-libertos, impedindo-os de adquirir terras ou votar.

Por quase um século após o fim do escravismo nos Estados Unidos, os negros continuaram à margem dos processos sociais e de cidadania do país, principalmente no sul. A parcela negra da população estadunidense foi escandalosamente apartada da vida em sociedade, escanteada a uma posição desprezível e irrelevante dentro da hierarquia social naquele país. A escravidão havia ido embora, mas tinha deixado como lembrança um aviltante racismo que continuava a segregar e a tolher a liberdade da população negra.

A divisão racial era tão intensa que negros e brancos praticamente não se misturavam na sociedade americana, principalmente no sul, até meados do século XX. Na década de 1950, marcadamente na parte sul dos Estados Unidos, a segregação racial imperava. Os bebedouros públicos eram divididos: os negros não podiam beber água no mesmo local que os brancos. Havia as escolas “normais” – e as escolas para negros. Havia os hospitais para os americanos “comuns” – e outros só para negros. Na grande maioria das universidades do sul não se aceitava estudantes negros. Estes também não tinham direito ao voto, enfim, não exerciam qualquer representatividade cidadã.

Nos ônibus, os assentos da frente eram destinados aos brancos; aos negros, a parte de trás do veículo. Ainda assim, se algum branco estivesse sem assento, um negro deveria levantar-se e dar seu lugar. As praças, restaurantes e demais locais de convívio social que se localizavam nos centros urbanos eram exclusividade de brancos. Os negros acomodavam-se às periferias e subúrbios das cidades. Tudo isso era legitimado por lei. Ser racista fazia parte do dia-a-dia da sociedade estadunidense e a Justiça endossava tais práticas.

O grito de igualdade

Certo dia, uma negra, Rosa Parks, costureira na cidade de Montgomery, no racista Alabama, sul dos Estados Unidos, resolveu afrontar as leis segregacionistas de seu estado. Parks saía de um dia estafante de trabalho e pegou um ônibus de volta para casa. Tomou assento. No meio da viagem, intimada a dar seu lugar a um passageiro branco, negou-se, corajosamente. Foi presa, julgada e condenada. A condenação da costureira foi o rastilho de pólvora que faltava para incendiar uma nação inteira na luta pelos direitos civis para os negros.

Como efeito direto do incidente com Parks, as lideranças negras da cidade – capitaneadas por um ainda pouco conhecido pastor protestante chamado Martin Luther King – contando com o apoio de grupos de cidadãos brancos, convocou um boicote geral ao transporte público naquele município, que durou cerca de 13 meses. Considerando que a maioria dos usuários que tinha aderido ao boicote era negra, o sistema de transporte público de Montgomery quase veio à falência. A negação dos negros ao transporte na localidade só terminou quando a legislação municipal que separava brancos e negros foi extinta. A centelha que faiscou inicialmente no Alabama, rápida e ferozmente se espalhou por todo o país, provocando uma combustão explosiva de sentimento e luta em torno dos direitos civis.

Dessa forma, a década de 60, principalmente em terras estadunidenses, foi marcada por uma intensa luta da sociedade negra por direitos civis. Dessa mobilização social, brotaram como frutos a Lei dos Direitos Civis, em 1964, e a Lei do Direito ao Voto, em 1965. Durante esse período histórico, surgiram expressões e apologias aos negros que ganharam as ruas. Stokely Carmichael, um dos organizadores do grupo pelos direitos civis, inventou o nome Panteras Negras e a expressão Black Power (Poder Negro). O maior ícone e ideólogo dos Panteras Negras, partido radicalmente defensor do orgulho negro, era Malcolm X, ativista negro, morto alvejado por vários tiros, em 1965, durante comício no Harlem, bairro de Nova Iorque de maioria negra.

Os Panteras Negras

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As mulheres tinham participação ativa no Black Panther Party (foto: reprodução internet)

Vale ressaltar que dentro do próprio movimento negro não havia unidade. Duas correntes conflitantes tentavam conquistar a sociedade média norte-americana. “Era um momento de grande luta dentro da comunidade negra, com aqueles que eram antigamente pretos agora esforçando-se para definir o novo negro” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

Os negros do norte eram diferentes dos negros do sul. Enquanto os adeptos sulistas de Martin Luther King estudavam Gandhi e sua campanha não-violenta contra os ingleses, Stokely Carmichael, que crescera na cidade de Nova York, passou a se interessar por rebeldes violentos, como os Mau Mau, que se insurgiram contra os ingleses no Quênia. “O pessoal de King entoava: ‘Liberdade Agora!’ O pessoal de Carmichael entoava: ‘Poder Negro!’” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

Essa divisão, em muitas ocasiões, serviu mais para atrapalhar do que para ajudar os negros na sua busca por mais direitos civis e igualdade de tratamento. Muitos dos grandes nomes da cultura negra eram constantemente atacados por setores da própria comunidade negra. Um braço do movimento pelos direitos civis, os Panteras Negras, que em princípio assustaram a esquerda branca norte-americana com sua posição de, se necessário, pegar em armas para fazer justiça com as próprias mãos, estavam sempre em confronto com a polícia, e eram vistos, cada vez mais, como mártires.

Na plataforma do Black Panther Party, encontravam-se propostas vistas como radicais pela corrente pacifista, mas que buscavam o rompimento total com o estado das coisas, como dispensar todos os negros do serviço militar, libertar todos os negros da prisão, indenizar todas as famílias negras pela escravidão e exigir que todos os futuros julgamentos de negros fossem realizados com um júri integrado apenas por negros. Não tiveram nenhumas destas suas reivindicações atendidas, mas, diferentemente da corrente de Luther King, ousavam e eram bem mais audazes.

O movimento pelos direitos civis, que já houvera recebido um golpe duríssimo com o assassinato de Malcolm X, em 1965, sofreu outro grande abalo com a morte de um de seus principais líderes, Martin Luther King, três anos depois, em 4 de abril de 1968. Assim como Malcolm X, Luther King também foi assassinado, dessa vez em Memphis, no Tennessee, onde estava em apoio a uma greve de coletores de lixo. Ao contrário do que se esperava, logo após o assassinato de King houve um período de recrudescimento da luta: “Quando se espalhou a notícia de que King fora assassinado por um prisioneiro branco que fugira, a violência se espalhou nas áreas negras de 120 cidades americanas e foram noticiados 40 motins” (1968 – O ano que abalou o mundo,Mark Kurlansky).

Em resumo, apesar das enormes divergências internas, o movimento pelos direitos civis foi base e exemplo para todos os outros movimentos de contestação que surgiram nos Estados Unidos e no mundo naqueles tempos e tem reflexos percebidos até os dias de hoje na lutas e reivindicações da população negra em todo o mundo.

*Esse texto faz parte da série Consciência Negra: a questão racial, que foi publicada em novembro de 2014 na Revista Berro. Veja abaixo todos os outros textos da série: 

A construção social da “raça” negra

Ciência a serviço da escravidão

Desconstruindo o mito do paraíso racial brasileiro

Abolicionistas: lobos em pele de cordeiro

O protagonismo negro no processo de abolição

Por que o racismo ainda persiste?

Cotas raciais: combatendo a desigualdade de cor