Brasília



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ipê_amarelo

Congresso e Ipê Amarelo (Pintura: Júlia dos Santos Baptista)

Em suas curvas femininas arquitetadas com genialidade dorme o bruto
Em seu clima quente há uma frieza enlouquecedora que destrói os ossos
Queima a sensibilidade do verde de suas folhagens

Suas quadras cartesianas encurralam no piscar de um minuto
Suas ruas sem calçadas sujam os pés e separam os corpos
Há bonecos de cera dentro de suas engrenagens

Não há menina em seus olhos, no seu limite não há muro
Um terno e uma gravata é o costume dos seus mortos
Não se pode prever nada dentro de suas montagens

Seu céu é azul, pois nele ficou só o que é puro
Nem a escada sobrou pra quem queria subir ao Oz
Mas, ainda assim são bonitas as suas roupagens

Suas avenidas encurralam e violentam como um estupro
É tão seca que nem rastro deixa de seus coitos
Linda e ordinária atrai toda sorte de traquinagem

É estéril, no seu chão não é possível produzir fruto
Seus bichos sofrem sedentos dentro dos seus cerrados
Não é pra qualquer um, para vivê-la é preciso coragem

Segue solitária e dentro do seu grito mudo
Não gosta que entrem em seus mundos fechados
Pois tem medo que lhe possam roubar a virgindade

Vanessa Dourado é professora por formação e poeta de coração


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