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Ranger de dente #5

(Pintura: Vladimir Kush)

Por João Ernesto

tem um crocodilo no canto da sala em que eu costumo escrever.
eu tanjo ele com um pedaço de pau
enxoto para que fique muito bem acuado no canto da sala.
O pedaço de pau é um lápis que me escreve
sobre um réptil que come a minha barriga grávida.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

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Ranger de dente #4

Por João Ernesto

um pólo é um limite. Um soco é um limite.
Um pólo é extremo e um soco também.
Um colo serve para o evitar o soco e socorrer o socado
Quem soca não precisa de colo, tá muito bem ocupado falando do soco e da pessoa que caiu e do sangue que escorreu.
Se ele tivesse uma caneta e um papel ele tomaria nota para não esquecer.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

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Ranger de dente #3

Por João Ernesto

um poro só é um poro se expelir um líquido.
Um homem só é um homem se ele for visto chorando no canto de um bar.
Sozinho.
Um poro sua. Um homem soa os últimos trocadilhos.
Nas glândulas dos olhos nem falsos cristais.
Acho que deixei de ser homem,
sim um encarnecido instrumento de absorver porrada.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

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Ranger de dente #2

(Pintura: Noite estrelada, de Van Gogh)

Por João Ernesto

pensar em você é atirar uma pedra para uma pessoa cansada se afogar no meio de um rio
O corpo, inerte, escorrega pela correnteza pelo menos a dez metros de profundidade
Não dá pra chegar nem ao fundo nem mais à margem
o corpo, sem forças, soltou a pedra e não sobra nem mais a lembrança do afogado.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

CIDADE

Ranger de dente #1

(Foto: Kiko Silva)

Por João Ernesto

Numa rota de colisão eu ando apressado pelo centro da cidade

onde as pessoas se esbarram, mas não se encontram

incomoda os carros que arrotam buzinas

os locutores que arrotam preço baixo

as fachadas suprimidas arrotam promoções e marca de loja feia

a história da cidade arrota racismo como motivo de higienização social

ou seria o contrário?

A higienização social como motivo para a história da cidade ser racista?

Não sei, estou em um bar no centro da cidade que se chama Torquato Neto

e ele ainda não cometeu suicídio.

Nem o bar, nem eu e nem a cidade que não liga muito pra sua sanidade daqui a dez anos.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

homem-de-negocios_editado

Bicho que olha e nada vê

Por João Martins

 

sonolento o dia inteiro
levantando as ideias na horizontal
o corpo despende
escorregando pelas ruas
regurgitado pela sociedade.
O rumo é a sobrevivência

catando com as unhas sujas
algumas bitucas de cigarro
“com uns dez dá pra apertar um fino”
com os pés,
menos sujos que os olhares de quem passava,
afasta as folhas procurando qualquer coisa
afasta a terra plantando uma
esperança que valha dez reais

A situação é de muitos
bicho há muito que
nas memórias
re clama o tempo em que pelo menos
era aceito como gente que se recolhe
a um aposento antes de dormir.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

fundo lusco_editado

Atentado

Por João Ernesto

jernesto@revistaberro.com

 

Dos 49 mortos

O que contraria a estatística é o filho de afegão

Que poderia muito bem ser um morador do castelão a próxima vítima

Ou algoz.

Se 49, ou cinqüenta,

Configura atentado

No mesmo dia, o mesmo dado

Colocado lado a lado

Muda a retórica

De quem absurda o número

e desconsidera a história.

 

Em um fuzil cabem algumas balas

Um corpo cravejado de hematomas por escolher ser

O que se é.

 

Em uma boate cabem, além de pessoas,

Tantos amores, afetos.

Corpos abertos por escolher ser o que se é.

 

Um dia desses uma travesti foi espancada, desfigurada.

Teve seus cabelos arrancados a faca.

Outro dia, outra travesti em Aracaju,

Outra em Manaus, Sobral, Juazeiro.

Rostos desfigurados à pedra.

Atentados por ser o que se é.

 

Atentados. Atentadas.

Numa tentativa simples em ser o que se é.

 

É simples.

Ser o que se seria se

um tanto mais tolerantes.

Aceitar o normal

desejo e afeto

Como sendo simplesmente como… Normal.

Como sendo se seríamos

 

Nunca vi cachorro mordendo outro por estar pinando em perna alheia.

Nunca vi elefante dando trombada por que seu filhote tá rolando no chão de forma afeminada.

Sejamos bem honestos quanto a isso:

Atentado é coisa de bicho gente

Que mata e maltrata

Maldiz

outra gente apenas por ser gente.

de sentir e partilhar o que se sente

enquanto gente.

///

 

Poesia publicada na coluna Lusco-Fusco na Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 (pg. 27) (aqui, versão PDF)

Espia outras poesias da Lusco-Fusco.

13_Jeremy-Mann_sobre a rua

Sobre o amor e a rua

(Foto: pintura de  Jeremy Mann)

João Ernesto

De um ponto a outro da cidade o caminho que percorremos é o atalho da preguiça, ou o caminho atento aos detalhes. Na rua encontramos o que não se espera, acontecimentos e paisagens difíceis de rotular. Qual sentimento você carrega na sua sacola? É abuso, cansaço para sentir a rua? E predisposição para as surpresas? Estamos sujeitos a aceitar qualquer tipo de publicidade na rua como normal, mas se alguém balançar uma lata de spray perto de um muro os olhos se voltam com desaprovação e um sentimento de ódio se instala entre quem enxerga e quem arrisca… a menos que seja um grafite-arco-íris, como se a arte só pudesse ser paliativa, comprimido placebo pra uma cidade cinza. O pragmatismo é muito pouco sentimento para a rua, não abarca sentimento como o amor, não traduz, se espreguiçando sobre a imagem isolada do outro. O pragmatismo é um apartamento, o amor é a Rua que habita dentro de nós.

É certo mesmo tomar as ruas de assalto em benefício a um produto ou uma empresa? Quantos prédios históricos terão que ser derrubados em prol da famigerada especulação imobiliária em Fortaleza? Quantas árvores centenárias terão que ser derrubadas? Quantas memórias não temos e nunca vamos ter pelo fato de que elas simplesmente foram engolidas pelo tempo e pela ganância contida nessa pressa em tentar modernizar Fortaleza? No período de carnaval é um oba-oba só por conta da ocupação pelas pessoas, mas durante o resto do ano é cada um com seu olhar fixo e seu andar apressado. Durante o resto do ano é aquela preguiça em frequentar esses espaços, muitos com medo, outros tantos com a fadiga típica de quem precisa estar cercado pra se sentir seguro. Claro que existe uma parcela que se joga na maravilha que é sentir-se livre na rua, mas convenhamos que ainda é uma parcela muito pequena, imersa em uma população que tá mais preocupada em exibir os tostões na tentativa de demonstrar uma felicidade que não tem.

Chão de estrelas

Olhar os morros durante a noite e perceber quantas luzes estão acesas, quanta gente habitando ali, formando um grande chão de estrelas. Nos prédios enormes das construtoras vê-se pouquíssimas luzes acesas nos apartamentos, poucas vidas naqueles falos de concreto que rasgam o céu. E o espaço é de quem? E a ideia de rua que vamos deixar pros nossos filhos? E o amor vai ser um sentimento pra gente ter nostalgia, que vai depender de uma cartilha como se portar perante o sentimento desconhecido. Nesse momento a “paixão” vai ser uma palavra que entrou em desuso e o pensamento não vai dar mais nome à loucura, castrada. A visão apocalíptica esbarra na utopia do amor e o que fazemos por ele. Fortaleza continua esse anseio de rua, mas as atividades são pontuais. As crianças da Aldeota não sabem o que é viver a rua em um domingo como em Belém do Pará. Vivemos no carnaval uma ressaca de longos dias sem a rua fazer parte do nosso cotidiano e ao redor das nossas casas vemos uma sensação de quase abandono no resto do ano. E a Nossa cidade vai ficando a passeio automotivo, como se os pontos de partida e chegada já excluíssem o caminho.

“o viajante era um cara que ficava viajando de um lugar pro outro lugar

Sem parar

Até que um dia ele começou a viajar

De um lugar para dentro daquele mesmo lugar”

(Jorge Mautner e Zé Ramalho – Negros Blues)

O viajante de Mautner passou a ensejar descobrir novas cidades e novas ruas por onde ele sempre passou. Buscar propor novas concepções é uma busca constante para o viajante, o que faz a cidade sempre se encontrar na iminência de uma ocupação mais intensa. Se é carência o sentimento que temos em Fortaleza, a gente estende essa situação para o nome da cidade. A metáfora de cada cidadão levantando suas fortalezas é um problema que vemos e naturalizamos. A cidade que queremos não se arquiteta na cabeça, não se aquieta na utopia. É nossa subjetividade junto com toda a subjetividade das ruas. Todas suas histórias, todas suas personagens que carregam suas vivências nesses espaços, daí que trazemos nossos afetos. Não lembro ao certo quando foi meu primeiro banho de chuva, mas algumas ruas guardam sentimentos intensos e lembranças de banhos divertidos. Lembranças que guardamos com um amor espacial. Como manifestar esse sentimento de amor nesses espaços? Propor novas ocupações é só o início para que nossa fortaleza seja a rua e compreender que a Rua é a nossa Fortaleza. Faremos da nossa cidade o contrário do que tentam vender como Ela.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

05_NanáII

Naná

(Foto: Rafael Martins)

Por João Ernesto

Naná foi buscar seu celular na lua

Montado no seu berimbau mágico

Trilha de claves e solfejos tirados de seus cabelos enrolados

Foi encontrar outros lampejos

De sons, flautas, batuques

Som de preta natureza

Naná foi e deixou um tanto

Sem medo Naná nunca coube

Na existência

Naná é um segredo.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

poesia silenciosa

Pisoteio

João Ernesto 

chove dentro de mim
mas no estômago é um mormaço
passo a passo fica um incômodo
entranhado num buraco na barriga
como um calafrio suado

Como na calçada
suada
a serpentina rasgada,
o brilho de glitter
e gota de chuva

a ressaca está bem guardada
afiada como um fio de navalha
onde aprendemos a andar descalço
e sapatear na ponta dos pés
bailar sem sapatilha
pliê pra ajudar
a segurar o peso desse mundo
pra não perder a classe
e poder dançar mesmo quando
o mundo é mais pesado
que as pernas
não tem a pressa
de apressar o passo
maior que a perna.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…