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Aurora de sonhação: As raízes de um mundo novo

(Foto: Artur Pires)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

Intolerância racial, religiosa, étnica, política e de gênero; mulheres sendo mortas por serem… mulheres; homossexuais sendo mortas(os) por serem… homossexuais; indígenas e agricultoras(es) sendo massacradas(os) e expulsas(os) de suas terras para dar lugar aos grandes latifúndios monocultores; pescadoras(es) perdendo seus pedaços de chão para os resorts à beira-mar; crianças fazendo malabarismo nos sinais de trânsito para conseguir alimento ou crack; pessoas dormindo embaixo de marquises e viadutos e disputando restos de comida com gatos e cachorros nos lixões; moradoras(es) de favelas sendo enxotadas(os) de suas casas para a construção de estádios, avenidas e viadutos; a polícia matando seis pobres todo dia; áreas verdes e parques ecológicos sendo derrubados para a construção de arranha-céus; genocídio e encarceramento em massa da população periférica em nome da “guerra às drogas”; falsas polarizações ideológicas que disfarçam a unidade da miséria moral da política tradicional; lei antiterrorismo e tantas outras falácias jurídico-legislativas que servem tão somente ao controle social da pobreza e da revolta; pessoas morrendo nas filas dos hospitais públicos porque faltam remédios, leitos e estruturas mínimas de atendimento de urgência e emergência; cidades consumidas pela poluição, pelo trânsito sufocante, pela violência difusa (advinda da desigualdade social), pela especulação imobiliária via urbanismo predatório; centros urbanos tornando-se majoritariamente redes de sociabilidade mediadas pelo consumo; pessoas sendo ressignificadas como coisas consumidoras

Todas essas mazelas sócio-históricas endossadas por um fictício “Estado Democrático de Direito” (e suas instituições legislativas, executivas e judiciárias), legitimadas por uma narrativa midiática fascista, um “consenso fabricado” – como disse Chomsky –, e entorpecidas pela ilusão publicitária, que, ao usar técnicas rebuscadas de manipulação e fetiche, transforma tudo o que não é vivo num simulacro artificial da vida permeado pelo consumo.

Não há respiro à liberdade na tão alardeada “democracia representativa”. O povo não está representado nela, nem nas instâncias ilusórias de “participação popular” e tampouco nas eleições. Este regime de poder não promove a igualdade; pelo oposto: garante privilégios atávicos a uma elite patriarcal. A democracia representativa é, na verdade, uma mera construção teórico-jurídica, completamente apartada da prática social. Na pragmática real, o que existe é a tirania democrática, encoberta e “colorida” por uma elaboração discursiva padronizada, que tergiversa e persuade com uma retórica fabricada por marqueteiros(as) e políticos(as) profissionais. Essa mentira é tão insustentável na prática que as vítimas sacrificiais que desapareciam e eram mortas na ditadura, por exemplo, continuam sumindo e morrendo atualmente, sob o véu da “democracia”. A diferença é que nas décadas de 1960/70, além das pessoas pobres, negras, indígenas, quilombolas, etc., também desapareciam intelectuais e universitárias. Hoje, a classe média foi poupada desse modelo de truculência estatal, mas as populações indígenas, quilombolas, e das favelas nunca souberam, em termos de modus operandi do Estado, o que é o fim da violência institucional (vide o Exército – no Rio de Janeiro – e a PM invadindo as favelas em todo o país e ativando um estado de exceção ou as incontáveis ações truculentas de “reintegração de posse”, muitas com mortes, capitaneadas pelas polícias Federal e estaduais contra comunidades indígenas e quilombolas).

Que fique claro: a ditadura civil-militar foi um regime hediondo e odioso, profundamente corrupto, que censurou a arte e o livre direito à expressão e manifestação, institucionalizou a tortura (física e psicológica) e matou, por isso deixou marcas indeléveis na sociedade brasileira, e cujos algozes e torturadores deveriam ter sido punidos rigorosamente – a exemplo do que ocorreu nos vizinhos Argentina e Chile –, não fosse a benevolência das leis nacionais (e a anistia de 1979). Contudo, a democracia que surgiu posteriormente precisa ser também problematizada, pois ela manteve os mesmos privilégios atávicos aos grupos empresariais e midiáticos que apoiaram o regime ditatorial e, no que diz respeito ao controle social capitaneado pelo seu aparelho repressor, reproduz sobre as populações vulneráveis os mesmos métodos violentos e, por meio de uma verborragia discursiva, simula uma fictícia igualdade jurídica que não existe na prática. É sob a tutela “democrática” e do “Estado de Direito”, por exemplo, que o morador de rua Rafael Braga Vieira foi condenado a cinco anos de prisão, sem direito a recorrer em liberdade, por portar desinfetante e água sanitária durante manifestação no Rio de Janeiro em junho de 2013; ao passo que os(as) diretores(as) da Vale e da Samarco, que poluíram com lama tóxica o rio Doce e destruíram milhares de vidas de pessoas, animais e plantas, estão inimputáveis. A balança da “Justiça democrática” muda de peso de acordo com circunstâncias sociais e econômicas. Thoreau, em A desobediência civil, afirma que o “Estado de Direito” é uma ficção.

Em resumo, as consequências sócio-históricas apresentadas nos parágrafos anteriores deixam claro que o Estado Democrático de Direito é um conto de fadas que não tem base concreta para garantir os direitos humanos nem a relação harmoniosa com a natureza. Nesse sentido, cabe dizer que uma manifestação a favor desse modelo tirânico de democracia é tão genérica, inócua e vazia de significado prático quanto uma contra a corrupção.

Entretanto, dentro do contexto por mudanças transformadoras e estruturais, há uma riqueza de possibilidades que enchem de coragem e luta nossos corações. São pessoas, grupos e movimentos que, ao proporem se libertar das inclusões enganadoras do sistema político tradicional, conjugam os verbos sonhar e agir na primeira pessoa do plural: nós sonhamos e agimos! Pensei em nominá-las sementes, mas eis que brotaram, já sentem a respiração e a seiva da vida e, assim como as raízes vegetais estão para as plantas, são o alicerce para a construção de um devir possível para a humanidade: são as raízes de um mundo novo!

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* Parte I da reportagem “Aurora de sonhação: as raízes de um mundo novo”, publicada na  Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pgs. 10 a 26) (aqui, versão PDF).

Veja abaixo as outras partes:

Parte II: “O sertão é dentro da gente”

Parte III: Cidade: por uma nova prática socioecológica

Parte IV: “Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

Parte V: Nos caminhos da autogestão

Parte VI: “Nós por Nós”: A Senzala subverte a Casa-Grande

Parte VII: Democracia representativa e burguesia: uma relação de cumplicidade

Parte VIII [final]: Voar rumo à liberdade

 

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