O delegado que defende a legalização das drogas e o fim da Polícia Militar

Fotos: Joana Bê

Artur Pires (sonhador irresponsável)

Vi pela primeira vez algo sobre Orlando Zaccone – delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro – numa entrevista audiovisual que ele deu a uma das muitas páginas antiproibicionistas e pela legalização das drogas que curto no Facebook. Achei suas idéias iradas e avançadas pra quem fala a partir da “autoridade” e do status de um delegado.

Ele também atua na LEAP Brasil (Law Enforcement Against Prohibition), organização internacional de agentes policiais e do judiciário que defendem a legalização e regulação das drogas – de todas! Ficou nacionalmente conhecido porque foi o responsável pela investigação do midiático caso do pedreiro Amarildo, que foi torturado e morto por policiais militares da UPP da Rocinha, no Rio. Ao todo, 25 policiais foram considerados culpados pela morte de Amarildo.

Quando soube de sua vinda pra Fortaleza, a convite do Comitê Cearense pela Desmilitarização, pensei que uma entrevista dele pra Berro seria massa! Após um debate muito bom na ADUFC, convidei-o e ele topou: seria depois de uma atividade na Associação das Vítimas da Violência Policial do Estado do Ceará (AVVPC), no bairro Ellery, onde em 2013 duas pessoas morreram e duas ficaram feridas após disparos de policiais numa festa de pré-carnaval.

No dia combinado, éramos quatro: sonhador irresponsável e João Ernesto (poeta tocador de pífano); Joana Bê, amiga que iria fazer as fotos – e fez, junto conosco, a edição dos vídeos; e a Sarah Coelho, jornalista da Fábrica de Imagens. Atrasamos um pouco. O trânsito na Sargento Hermínio estava caótico. Acendemos um pra relaxar e abstrair daquele engarrafamento. Quando chegamos à Associação, na roda de conversa Zaccone falou com os moradores do bairro sobre violência policial e do Estado, e no final disse que faria a interlocução da AVVPC com associações afins no Rio. Mas queríamos mesmo era entrevistá-lo. Surpresa: a conversa com o delegado não poderia ser ali, na Associação, porque àquela hora, perto das nove da noite, ficava perigoso manter o espaço aberto, disseram os moradores do bairro. E foi um deles, o Rafael, membro da AVVPC, que nos salvou: gentilmente disponibilizou sua casa pra gente fazer a entrevista.

Mesmo com os percalços, a entrevista rolou. A gente ainda foi deixar o entrevistado num restaurante pelas bandas da Aldeota e rumou naquela sexta à noite pro Ferro Velho, nosso lar/bar no Benfica, com a finalidade de comer um baião-de-dois com moela e tomar algumas brejas pra lavar! Ao chegar, mais um beque pra apaziguar e arejar a cabeça!

No fim das contas, apesar do improviso – e dos pivetes que jogavam bola no meio da rua e gritavam o tempo todo (vocês vão perceber isso nos vídeos) -, a entrevista ficou massa, galera! Vocês vão perceber várias marcas de oralidade na nossa escrita, mas é assim mesmo que pensamos o jornalismo: despojado, de bermudão e chinelo, sem apego às exigências quadradonas e excêntricas da gramática normativa. Quanto ao conteúdo, somos suspeitos pra falar, mas botem fé que o delegado tranquilão desconstrói diversas questões que estão arraigadas no senso comum. Ao longo da conversa, do alto de sua paciência Hare Krishna (a entrevista era pra ser de 25 minutos e se estendeu por mais de uma hora; sim, ele é mesmo Hare Krishna!) e de sua afiada crítica à sociedade contemporânea, ele desenvolve leituras sociais interessantíssimas, que fogem às obviedades e às resoluções clichês.

Como o material ficou grande demais e não queríamos cortar nada, a entrevista foi dividida em quatro partes, que serão publicadas nos próximos dias. O link para a primeira segue logo abaixo. Cuuuida que tá valendo!

Entrevista Zaccone – parte I: “A alternativa é a legalização”

Entrevista Zaccone – parte II: “A função do Estado passou a ser contemplar somente os interesses da ordem econômica”

Entrevista Zaccone – parte III: “Criminalização da pobreza é redundância”

Entrevista Zaccone – parte IV: “Paz entre nós, guerra aos senhores!”

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