Ânimais



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(Ilustração: Eloísa Serpa)

João Ernesto

A cama estava desarrumada antes de você chegar
Ainda bem que você ajudou a desarrumar
Não aguentava mais vê-la daquele jeito
Como um envelope sem presente
Um ninho à espera do filho ausente
E foi lá naquela sua profundidade
Que descobri o gozo antigo
Que nem quando menino eu consegui encontrar
Em meio a fluidos que não sabia
Meus e teus
Em meio a cabelos que não sabia
Meus e teus
Em meio a línguas que eu sabia
Minha e tua
Em meio a carícias que eu sabia
Minha e tua
Em meio a cama que não sabia se movia
Ou o teu quadril, ou o meu
Come to me
Todos os olhares de ressaca, de susto
E dessa volúpia
Todas as vozes sussurradas,
Gritadas ou de ordem
“mais forte, por favor…
mais forte!”
Imperativa com um frescor na voz
Ah, nós… meros mortais que sempre morrem nesse entrelaço
Que curam com um abraço
sonolento o que aprendem com os outros animais.

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…


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