Vito Giannotti: “A imprensa alternativa precisa existir”



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(Foto: Joka Madruga)

Autor de diversos livros, entre os quais Comunicação Sindical – Falando para milhões e fundador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), entidade com sede no Rio de Janeiro, que promove cursos com foco, principalmente, na comunicação sindical e popular, Vito Giannotti tem autoridade para falar de comunicação alternativa, criminalização dos movimentos sociais pela mídia empresarial, entre outros assuntos que envolvam mídia e democratização da comunicação.

A Berro bateu um papo com o comunicador popular.

Quais os principais argumentos utilizados pela grande mídia para criminalizar os movimentos sociais e/ou de base?

Vito Giannotti: Antes de ver os argumentos, é interessante ver os motivos que levam a mídia empresarial a criminalizar os movimentos sociais. Não podemos usar tranquilamente a expressão “grande mídia”. Essas duas palavrinhas, além de já quebrar a moral de quem não pertence a este mundo, servem muito bem para esconder a realidade. A chamada grande mídia é grande sim. Do tamanho do capital dos seus donos.

Esta mídia tem dono. Este dono pertence a uma classe e esta classe tem interesses de classe a defender. Então vamos logo chamar esta mídia pelo seu nome: mídia empresarial, mídia comercial, mídia corporativa (das grandes corporações), mídia patronal ou simplesmente pelo nome mais clássico de mídia burguesa.

Esta introdução já dá a pista de porque esta mídia criminaliza os movimentos sociais. É óbvio. Porque sindicatos, movimentos populares, estudantis, movimentos como o MST ou os sem teto das cidades contestam a ordem existente. A ordem que toda a chamada grande mídia quer conservar.

Esta sociedade está ótima para os donos da mídia e uma pequena roda em volta deles. É por isso que tem que criminalizar, condenar, pedir o extermínio de todo movimento contestador. Toda greve será tachada de baderna. Provocará o caos. O desabastecimento será culpa da greve dos petroleiros. Se um velhinho vier a morrer na fila do gás, a culpa será dos grevistas. Não do governo que se recusa a cumprir o acordo firmado na última greve.

Toda ocupação de terra pelo MST será uma invasão praticada por vândalos, vagabundos, violentos, que invadem terras produtivas e não querem trabalhar.

Claro, qual é um dos pilares desta sociedade injusta , entre as mais injustas do mundo? É justamente a defesa da propriedade individual sagrada. Não a Reforma Agrária. Sempre. É esse o motivo de a mídia estar sempre em campanha para desqualificar, ridicularizar, condenar, enfim, criminalizar o MST.

Quais seriam as alternativas mais viáveis para conter essa criminalização dos movimentos por parte da grande mídia?

VG: Há vários passos a serem dados para diminuir o estrago que a mídia empresarial faz contra os movimentos sociais. Primeiramente é necessário se convencer de que a mídia empresarial é isso mesmo. Ela faz o que quer. O que seu dono quer. Não há ilusões sobre a imparcialidade, neutralidade, objetividade da mídia dos patrões. A mídia tem lado. E é um direito dela batalhar para manter a sociedade como está. Ela faz isso com todas as armas. A ética é uma ficção. Não há ética na “grande mídia”. Por acaso qual é a ética numa guerra? É uma só. Matar o máximo de inimigos possíveis. É a mesma ética na mídia. Exterminar o inimigo de classe. Com mentiras, calúnias, omissões, distorções. Esta é a ética do capitalismo. O resto é ficção. Ilusão. Qual a ética nos tanques que invadem Gaza? Qual a ética num jovem imigrante clandestino nos EUA que se alista no glorioso exército estadunidense para ir ao Afeganistão matar gente? É assim que ele conseguirá sua bela cidadania. E a ética? A mesma da revista Veja que diz que “eram seguranças” os matadores de aluguel que foram mortos por acampados na fazenda Consulta, em Pernambuco, no final de fevereiro. Não, não eram seguranças. Só um era. Os outros estavam lá para matar. Pagos por quem? Qual fazendeiro os mandou lá matar? Isso a Veja não diz. E a ética jornalística.

E a missão do jornalista? Não há ética. Só a ética dos interesses do dono. O resto é conversa fiada. Depois de ter abandonado qualquer ilusão de implorar um comportamento ético, é possível tentar exigir a aplicação da legislação existente para se defender juridicamente. Mas, de novo sem ilusões. Um habeas corpus tira qualquer criminoso ou incriminado de qualquer prisão. Assim como a mídia é de classe, a Justiça também é de classe. Por acaso o juiz Lalau está preso? Por acaso ele teve que devolver o que seria dinheiro público? Só num outro mundo.

Em que se baseiam os grandes veículos de massa do país para atacar movimentos legítimos de luta e defesa do povo?

VG: Unicamente nos seus interesses e na sua força. E, sobretudo, no poderio da máquina de comunicação, composta por todas as televisões privadas, os jornais comerciais e as rádios.

É preciso uma nova ordem absoluta e total das concessões de radio e TV. É preciso que haja financiamento público, via propaganda de todas as formas de comunicação populares. Só assim os trabalhadores poderão comunicar suas idéias, sua visão de mundo.

Sem isso nos resta beber o que os Marinho, os Frias, os Mesquitas e toda a irmandade da “grande mídia” nos enfiam goela abaixo.

Grande parte da sociedade civil, por inconsciência ou falta de espírito crítico, acaba por cair na armadilha das notícias forjadas pelos meios de comunicação elitistas como Veja, O Globo, Folha, Estado de S.Paulo, dentre outros. Como a imprensa alternativa poderia reverter essa situação?

VG: A imprensa alternativa precisa existir. É preciso perder as ilusões de ter um espaçozinho na “grande mídia” e criar sua própria mídia. Criar todo um mosaico de instrumentos de comunicação, do rádio à TV, do jornal ao cinema, das músicas à revista. Usar tudo: camisetas, broches, bandeiras, faixas e todo o arsenal da Internet, da página ao blog, do boletim eletrônico ao orkut, de um filme no youtube a um festival de samba, rock, ou funk. Tudo.

Mas para isso é preciso se especializar muitíssimo. Não basta fazer qualquer comunicação. Nossa comunicação deve ser extremamente bem feita. Deve falar da vida, dos interesses da vida, e não de teses mortas. Deve ser muito atrativa, porque a mídia deles é muito bem feita. Eles têm dinheiro para tanto. Nós temos que aperfeiçoar sempre nossa comunicação. Cuidar desde a linguagem até a distribuição.

Se queremos mudar esta sociedade precisamos convencer milhares e milhões de que a sociedade que está aí não serve para a grande maioria. Ela é ótima para somente uns 20 ou 30%. Para o resto, é o desastre que conhecemos. Devemos mostrar que outra sociedade É POSSÍVEL. Que é necessária. E mostrar passos concretos para mudar esta sociedade desde suas raízes.

Ou seja: se contrapor a tudo o que a tal “grande mídia” defende. Se contrapor à Veja, à Época e todas as revistas irmãs. Se contrapor à Folha de São Paulo com sua defesa da “Ditabranda”, e a toda a mídia patronal, empresarial, comercial, burguesa. A vitória? A história caminha por séculos, não por dias ou meses. Mas, se não se fizer o que precisa ser feito hoje, o relógio da História atrasará.

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2 Replies to “Vito Giannotti: “A imprensa alternativa precisa existir””

  1. Rosilene disse:

    Palavras de reflexão e incentivo para continuarmos lutando por uma outra forma de comunicar e viver em sociedade! Amei a entrevista.

    1. Revista Berro disse:

      Exatamente, Rosi. Vito era uma inspiração para nos comunicadores(as).

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