Budega: ponto de encontro



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A exposição está aberta à visitação até o dia 21 de dezembro.

“Sr. Onório” de Yuri Juatama

Entrar em uma das casas antigas do bairro Benfica e ter a certeza de estar em busca de alguma coisa naquele lugar. O uivado da caixa de som nos diz que a próxima música vem da Banda A Loba. Por lá, tem papagaio, aro de bicicleta, chiclete, aqueles pastelzinho de saquinho, tem cachaça, ou seja, um lugar que não queremos sair, nossa memória.

Daí, lembramos que estamos em uma exposição-instalação de coletivos periféricos e aí é se perder em outras memórias, porque como nos diz as fotografias, instalações sonoras e textos montados no espaço Carnaúba Cultural, budega parece tudo igual, mas é diferente. O postal da exposição resume o que veremos: “BUDEGAS, mais que vendinhas, elos!”.

Lucianna Silveira escolheu para retratar na exposição a budega que remete a sua infância, quando seu avô ia para a cidade de Juritianha para fazer as compras da semana. A budega do tio Valente é uma das mais antigas do local com 29 anos. Ela remonta os detalhes do local, como o banquinho em que as pessoas sentavam para contar da vida e tomar uma dose de cachaça. O fone permite escutar o relato do budegueiro que diz já estar “enfadado” desta vida.

“Eu resolvi pegar estas em P&B no detalhe porque é muita coisa, mas tem um somzim que funciona lá no meio das coisas, esse boné, é o boné que ele chega, parece um ritual, ele arruma tudo, fecha a janela, desliga a luz lá dentro, pega o boné, fecha a porta. Eu botei sonora, porque eu queria pegar não só as fotos, mas como é estar lá, cada uma (budega) é muito específica, não existe uma igual a outra”, reflete Lucianna.

 

Foto: Lucianna Silveira

Foto: Lucianna Silveira

A budega cearense como nos diz um dos fotógrafos expositores, Gustavo Costa, é espaço de “manutenção da nossa vida”, partindo da Sabiaguaba e de suas insuficiências em relação a estrutura comercial e de lazer, a bodega é mais do que comércio:

“Na visão das pessoas ainda é um bairro mal desenvolvido, porque a gente não tem supermercado, a gente mal tem farmácia, a gente mal tem escola. E as bodegas, neste sentido, são um lugar de compra e venda muito importantes para nós, mas também é o lugar do encontro, é o lugar do divertimento, é o lugar de assistir futebol, é o lugar de passagem, ficar brincando com a galera”.

A bodega do Seu Góis na Sabiaguaba foi e é todos estes lugares para Gustavo, que trouxe o filho do bodegueiro para o lançamento da exposição. “É um lugar de desejo também, porque eu lembro, quando eu era pivete, eu ficava olhando aqueles bombomzeiro que ficava girando, eu ficava desejando”, conversa Gustavo.

A criança compra bombom, xilito e joga sinuca no mesmo canto em que adulto bebe, come e joga. Como nos conta Lucas Barbosa, há uma convivência: “Tem uma coisa muito boa que a gente vivenciou que foi com as crianças, comprar xilito, a gente foi brincando também com este som das crianças dizendo ‘eu tenho 20 reais para gastar, e tu? quanto é que tem?’”. A pesquisa dele em parceria com Lucianna Silveira para a exposição constrói a grande Budega Perimetral com instalação sonora captada no cotidiano de três bodegas/bares da Avenida Perimetral: a do Reggae, a do seu Agenor e a Barraca do Esquema.

“A ideia é que a gente fosse captando diversos som do cotidiano, desde lavar as mãos a fazer comida, como as conversas, as histórias dos próprios donos das coisas que eles já tinham vivido ali, como é ser dono de bodega”, explica Lucas e continua: “São dois ambientes, um está com playlist, baseada nas músicas que nós fomos escutando nas três bodegas, tem reggae, brega funk, bregas destas músicas mais antigas, são estes ritmos que são mais predominantes”.

Sobre esta relação entre o bar e a budega, Gustavo questiona a apropriação das bodegas pelas grandes marcas de cachaças cearenses: “As marcas tipo a Ypióca, as outras marcas de cachaça, elas se apropriam deste lugar da cachaça, elas transformam em bar e as pinturas desses lugares passa a ser bar e não bodega, aí transforma já a identidade destes lugares. Antes, o que era a bodega do Góis, do Seu Francisco, hoje em dia é o Bar do Góis, só que imageticamente e a ideia do lugar ainda continua sendo uma bodega”.

Karine Araújo escolheu não trazer mais uma imagem ao mundo. Para a Exposição Budega, a artista da Barra do Ceará trouxe a foto em texto. “Descrevendo uma bodega que também é mercearia e o ambiente em volta dela onde em frente vários finais de semana rola brega-funk, rola funk, rola forró de favela, eu prefiro trabalhar com texto também para acessar as memórias que a gente tem de imagem, quando a pessoa lê este texto que está na minha memória, quais as memórias que ela também acessa sobre budega?”, questiona Karine.

A artista também realiza questionamentos sobre a exploração de imagens da periferia sem responsabilidade, sem respeitar as pessoas, “no máximo trocar uma ideia e sair fora”. Karine diferencia a culpa da responsabilidade: “A culpa você pede desculpas pronto e acabou, só que não é assim. A responsabilidade é você estar a todo momento lidando com certas situações que você tem que se colocar, você tem que estar a frente, onde você tem que estar ativo, você tem que estar ligado nas suas ações e nas ações de outras pessoas”.

FICHA TÉCNICA

Expositores: Emilia Teixeira, Gustavo Costa, Karine Araújo, Joyse S. Vidal, Júnior Cavalcante, Leo Silva, Lucas Barbosa, Lucianna Silveira e Yuri Juatama.
Curadoria: Aline Furtado
Produção: Emília Teixeira
Orientação de desenho sonoro: Mike Dutra

Local da Exposição
Carnaúba Cultural (Rua Instituto do Ceará, 164 – Benfica)

Visitação Guiada
18/12 – 16 às 20 horas
19/12- 9 às 12 horas
20/12- 9 às 12 horas e 13 às 15 horas
21/12- 14 às 17 horas


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