A ressaca



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“Beber é uma coisa emotiva. É um ato que cria uma quebra na mesmice da rotina. Tira você do seu corpo e da sua mente e te joga contra a parede. Sinto que beber é como uma forma de suicídio em que você pode voltar à vida e começar tudo de novo no dia seguinte. É como se matar, e nascer outra vez. Acho que eu vivi umas dez ou quinze mil vidas até agora.”

(Charles Bukowski)

(Ilustração: Lara Albuquerque)

As suas férias acabaram e nas primeiras semanas já se desenhava como seria o restante do mês. A vontade dele de se levantar depois de um final de semana de muita bagaceira não foi nada fácil.

Os ventos cancerianos retornaram ao seu espírito a eterna guerra entre os prazeres e as dores. O início de um novo semestre o fez pensar sobre a importância de imersão no instante, de um infinito mergulho no presente sem deixar-se absorver pelo que virá. A infinita luta em procurar uma saída ou permanecer vítima das circunstâncias. E para não sentir o imenso fardo aterrorizante do tempo, ele embriagava-se.

Embriagava-se de tudo e mais um pouco…

E lá estava ele, entre as tragadas da vida, desmaiado… O relógio velho, que fora de sua mãe, que guardava como derradeira recordação ao lado da cama, insistia em despertar no melhor horário do sono. Desligou e voltou a dormir. Já no final da tarde soou novamente um som estrondoso. O barulho ecoou em sua cabeça com uma intensidade tal que se entranhou cada vez mais entre os travesseiros. Ao virar-se, seu braço caiu bruscamente sobre o criado-mudo e o levou ao chão se desmanchando em infinitos pedaços. Somente os ponteiros estavam lá, apontando para ele, marcando quatro e vinte da tarde como se quisesse dizer algo.

Quando resolveu levantar-se, o sol, para suas fatigadas retinas, ainda estava alto e escaldante. A cabeça, até aquele exato momento, estava doendo muito, os olhos inchados e o rosto todo amassado de tanto dormir para passar a ressaca. A garganta seca e dolorida de expulsar repetidamente os goles excedentes da noite anterior.

Ao atravessar o quarto foi tropeçando por tudo que estava no caminho. A casa uma bagunça. Restos de pizza já endurecidos com baratas se deliciando como se fossem sua última refeição. Os trapos, que ainda existiam, estavam esparramados no chão do banheiro. Garrafas de cachaça e refrigerante espalhadas por todo o  apartamento. Dois únicos pares de meias furadas que mais pareciam uma peneira de escorrer macarrão, duros de tanta sujeira que só o mundo sabia de quanto tempo levou.

Se dirigiu à cozinha para fazer um café. O gás acabara. Olhou na mochila para contar os trocados que ainda por ventura tivessem sobrado. Nada. Procurou um remédio para cessar a sua dor delirante. Nada. Abriu a geladeira e só restavam algumas poucas frutas apodrecidas e um feijão azedo de dias atrás. As garrafas estavam vazias, não havia uma gota de água, mas não era nenhuma novidade, há muito tempo bebia água da torneira.

É a vida que eu conheço, não podia ser diferente. É o meu jeito de me deparar com a morte e sobreviver a cada dia. A ausência de existência. Refletiu com um entalo na garganta entre as sujeiras de sua nada agradável morte-vida. Muito tempo convivendo com a escassez de dinheiro é suficiente para se sensibilizar com as coisas mais simples da vida. O que nunca se teve, nunca foi perdido. Continuou em suas reflexões…

Há sentido em viver a vida? E qual é o motivo para eu insistir em continuar a viver? Não tenho as respostas, que pena!

De repente, escutou um arrastado de chinelos. Bateram à sua porta com toda força que ele se estremeceu novamente de dor.

Francisco, você está aí? Me responda, seu escroto, sei que está em casa! Perguntou assim sua namorada, Ana, enfurecida por não ter comparecido ao encontro marcado.

Permaneceu emudecido, paralisado pelo mal-estar da embriaguez e pela presença dela naquele momento. Ainda cambaleante tentou novamente ficar em pé, mas tudo girava ao seu redor. Olhou, com muita dificuldade, através da fechadura com os olhos girando no fundo de sua cabeça que ainda doía por inteiro. Mas com uma sensação pesada e estranhamente aliviante, viu o vulto se dissipando pelo estreito corredor do hall do apartamento. O riso digeriu-se com muito esforço.

Decidiu tomar um banho para aliviar as dores do corpo. Procurou uma roupa para vestir-se e não havia uma sequer limpa, até porque ele nada tinha; vestiu uma suja mesmo. Se dirigiu outra vez à geladeira na esperança de encontrar algo para lhe dar sustância. Procurou com mais desespero alguma coisa para aliviar os sussurros do estômago e, por sorte, acabou encontrando uma maçã que estava no fundo da gaveta entre outras estragadas como se estivesse escondida para não ser achada.  Mastigou com muita má vontade porque ainda sentia muitos enjoos, mas era preciso.

Francisco veio de uma família de sete irmãos, dentre eles duas irmãs. Já estava com cinquenta e sete anos. Era o caçula da família. Mesmo com os sulcos e marcas deixados pelo tempo, ainda sim parecia um pobre homem mais jovem e ainda belo com traços indígenas que herdara de sua mãe, dona Jandira. O seu pai fora de uma família rica e tradicional de Fortaleza que recebera sua fortuna e gastara toda no jogo e nos bares pelos lugares que viajara, pelo mundo afora. Quando se casou já era um homem pobre. Sua mãe o conheceu na Amazônia, lugar onde nasceu. Vieram para Fortaleza para tentar a vida e alguma ajuda da família que até hoje tem muito dinheiro, mas nada conseguiram. Francisco não teve o prazer de conhecer o pai, morreu quando tinha apenas sete meses.

Antes de Francisco vir ao mundo, para ajudar nas despesas da casa, dona Jandira costurava para as madames da Aldeota. Uma mulher forte e de fibra que criara, praticamente sozinha, os seis filhos porque o marido só vivia de bar em bar para acalentar seus fracassos e seus investimentos amorosos. Sofreu horrores com as rasteiras da vida, tornando-se uma mulher amargurada. Já com o filho mais novo não tinha mais tempo nem de se olhar ao espelho. Dividia-se entre as costuras, os cuidados com os filhos, que agora eram sete, com a casa e as providências de arrancar das entranhas a coragem para enfrentar a vida.

Aprenderam a conviver com as faltas… com as perdas…

Já esgotada e envelhecida, em seus noventa e sete anos, quando se encaminhou ao banheiro sozinha, levou uma queda e machucou a cabeça que em sete semanas morreu nos braços de uma das filhas que morava com ela.

Os filhos, com exceção das mulheres, foram todos alcoólatras, seguiram os passos do pai. Quando estavam todos bêbados, ao mesmo tempo, brigavam entre si com tanta violência que se utilizavam de armas cortantes para findarem com os infortúnios do dia a dia massacrante. A vida não foi em nada generosa com nenhum deles; todos foram morrendo, uma a um, pela funesta existência dos excessos de goles de cada dia desse mundo impiedoso.

Francisco não tinha a pura ilusão que o futuro seria melhor, e sim, que a possível felicidade estava simplesmente na condição de animal que logo somos. Era um homem inteligente que sabia fazer de um tudo um pouco. Só não tivera a oportunidade de fazer um curso superior; começara a labutar muito cedo. Aos doze anos começou a trabalhar em um mercadinho no bairro que morava, no Morro do Ouro, para ajudar nas despesas de casa. Ao se tornar adolescente trabalhou como vendedor em muitas lojas no centro de Fortaleza. Fez um curso especializante em eletrônica no SENAI, mas era, na verdade, um autodidata. Tinha uma imensa queda pela arte das letras. Sabia admirar o que era belo. O seu único problema era que não suportava a mesmice dos trabalhos que tivera. Praticamente, todos os dias chegava embriagado ou muitas vezes ia direto da noitada. Podia-se conversar com ele sobre tudo, era um mancebo bem informado. A literatura era sua fuga, além da bebedeira, para amenizar a intrigante luta entre o viver ou morrer.

Ele casou-se muito jovem. Foi um marido apaixonado. Só que em um belo dia, ao voltar do trabalho, pegou sua companheira com outro homem na cama. Foi uma confusão dos diabos, mas não se separou. Tentou a todo custo conviver com a dor de um homem traído. Todos da vizinhança sabiam do ocorrido, mas nada disso lhe importava. Vieram dois filhos, mas no fundo não tinha a certeza de ser o pai deles. Até que um dia, chegou em casa do trabalho mais cedo e não encontrou a mulher e seus filhos, achou estranho, mas seguiu com o seu ritual normalmente: tomou um banho e comeu a comida que já estava no prato em cima do fogão; uma hora depois abriu uma lata de cerveja, pegou o livro que estava lendo e de repente caiu um bilhete aos seus pés. Titubeou para abri-lo, mas a curiosidade foi mais forte. E lá estavam as palavras da confirmação:

“Meu querido,

Há muito tempo queria lhe falar, mas o egoísmo e a minha falta de caráter não permitiram que eu fosse honesta com você. Você é um homem bom, mas um pouco perdido. Sim, eu o amei! Por incrível que isso possa parecer. O que aconteceu naquele dia tenebroso, que diariamente tento apagar da memória, foi um grito de socorro por não aguentar mais vê-lo se destruir dia após dia. Não suportando mais fazê-lo sofrer, saio para sempre de sua vida. Ahh, para acabar de vez com suas dúvidas, sim, eles são seus filhos. E eles o amam demais. Espero que você seja feliz e encontre alguém que o faça, coisa que não consegui.

Adeus!”

Ao terminar de ler, levantou-se e acendeu um cigarro. Aproximou-se da janela e encarou a lua crescente. Mansamente, foram serpenteando em sua face algumas poucas lágrimas. Sentiu a dor má e cruel que lhe roía a alma, mas, ainda sim, a dor lhe pareceu algo misterioso. Permaneceu reflexivo por um bom tempo como se estivesse ponderando um suicídio.

A bebida, daí em diante, foi sua companheira diária mais fiel, sua amante contínua e eterna. Bebia pela tristeza, pela alegria, pelos infindados não motivos. E se nada acontecia, bebia para fazer acontecer porque estava cansado e aborrecido demais das banalidades desse mundo torpe.

Certo dia, ao sair de um bar, sofrera uma tentativa de assalto de um rapaz  em situação de rua. Jovem e forte, mais forte e jovem do que ele.

Passa a carteira e o celular!

Não tenho celular, já me levaram outro dia, você está atrasado!

Passa a carteira! Rápido, deixa de enrolação!

A carteira está aqui, mas não há mais dinheiro, gastei todo no bar!

Falou com tamanho desinteresse e escárnio que o garoto se irritou e partiu para cima dele. Bolaram no chão pela rasteira que Francisco dera nele. Foram tantos socos vindo de ambos os lados que o rapaz traiçoeiramente pegou uma faca de mesa que estava nos cós da calça e a apunhalou nas costas de Francisco. Para sua grande sorte, fora um corte profundo mas sem grandes sequelas; fora socorrido por um dos vizinhos que ia passando. Após o ocorrido teve que ficar na casa de uma das irmãs porque estava sendo ameaçado de morte pelo jovem que o assaltara.

Já recuperado e em seu apartamento, com o ladrão morto por outro que revidara com um tiro em sua cabeça na praça Gustavo Barroso em frente ao Colégio Liceu do Ceará, já estava de volta às noitadas etílicas. O seu lar era o botequim. Fazia das tripas o coração para não ser esgoelado pelas mãos das regras falidas e esdrúxulas dessa humanidade sórdida. Assim, enchia a cara para esquecer a sua realidade.

E lá estava ele, de novo, escarrapachado na cama e sem um tostão furado para comer e beber. O telefone tocou como se fosse lamúria de uma alma perdida. Era a namorada. Resolveu ainda não falar com ela; não saberia mentir. Acendeu um cigarro e na primeira tragada tossiu como se fosse uma sinfonia de sons de prazer e dor.

Pegou o livro, que estava quase no final O Idiota, de Dostoiévski , para tentar relaxar um pouco e decidir o que fazer. Mas não conseguiu ler. Ligou a televisão e ficou mais enojado ainda pelas manipulações dos noticiários. Desligou. Desligou-se.

Quando acordou , o dia findara-se e a lua cheia ressurgia no horizonte. Estava com muita fome. Levantou-se; tomou água da torneira para aliviar os murmúrios do estômago rebelado que com dois copos d’água se conformou.

E partiu para o seu destino de sempre…

Começou a debulhar-se uma chuvinha miudinha, triste e num ritmo constante como as batidas do seu velho atormentado coração. Correu para dentro de um bar mais próximo no centro da cidade. Chamou o garçom e fez o pedido:

Uma dose de cachaça, por favor!

Bebeu numa tragada só e pediu mais uma e uma cerveja. Entre cada gole de cachaça tirava gosto com a cerveja. Logo ficou entorpecido e pediu a conta:

Por favor a conta e uma latinha de cerveja. Pendurou a conta porque tinha feito um trabalho de pintura para o dono, mas não tinha ainda sido pago. Até porque não terminara o serviço. Se encaminhou para o Cine Betão; estava atrás de mais aventura.

Assim… ia levando os seus dias, sem cultivar a vida; só esperando o fim de tudo…

Ao chegar no Cine Betão, viu sua namorada, como se estivesse esperando por ele, e a beijou com um meio-riso cínico no canto da boca; entreolharam-se e entraram. Ana pagou sua entrada. Lá dentro, ele daria um jeito para se embriagar como todos dão.

Quando saíram do cine se dirigiram ao Oitão Preto. Rapidamente, uma jovem se aproximou e passaram o dinheiro para ela. Logo em seguida, a jovem retornou com um olhar de total insegurança e amedrontado. Um homem se aprochegou e abruptamente enfiou a mão no bolso da calça de Francisco. Era um homem com uma aparência de bom moço, mas com uma sisudez de grande autoridade. Somente depois, que não encontrou nada no bolso, foi que se identificou.

Sou policial federal! Qual é seu nome? Apresentou a carteirinha e pediu para olhar a bolsa da namorada de Francisco.

Meu nome é Ana e ele é Francisco. Mas o que você está procurando? E foi esvaziando a bolsa, jogando tudo no chão.

E lá estavam eles sendo revirados e baculejados. A bolsa de Ana sendo desnudada. Tinha de um tudo, menos o que o policial queria.

Ora, uma bolsa de uma mulher andarilha, não importa o tamanho, é sempre um abismo…

Estou procurando maconha! Respondeu o policial tranquilamente, vistoriando os objetos em cada detalhe.

Mexeu e remexeu em tudo com muita precisão, mas foi tudo em vão. Como nada encontrou, liberou os dois.

Foram caminhando e pararam na Praça da Estação. Sentaram-se no banco e fumaram um cigarro que não fora encontrado, estava escondido nas meias. Francisco olhou para a Estação José de Alencar e relembrou de todas as vezes em que andou de trem quando era criança e se perdeu entre os trilhos de outrora; entre a sua própria fugacidade como uma vela na brisa em meio à imensidão das ventanias cósmicas.

Vamos nessa, Francisco, já está amanhecendo o dia!

Levantaram-se e seguiram o rumo de casa. Mas no meio do caminho tinha um bar. Pararam para tomar a última da noite e a primeira do dia. O café da manhã em grande estilo para esses espíritos dionisíacos e angustiosos. 

Moço, por favor, traga uma cerveja bem geladinha e uma panelada no capricho. Ah! e aquela pimentinha rabo de foguete. Falou Ana já transparecendo a primeira larica do dia.

Quando decidiram, de fato, ir para casa, já estava entardecendo. Já na cama, desmaiaram. Só acordaram no dia seguinte. Ana levantou-se e foi tomar um banho para encarar o trabalho na monotonia de uma segunda-feira; pegou suas chaves que deixara na última vez em cima do criado-mudo. Olhou para ele um bom tempo e o beijou nos lábios intensamente. Despediram-se carinhosamente como há muito tempo não faziam.

Sozinho, sentiu uma dor no peito; uma pontada fina e agonizante. Deitou-se no chão em posição fetal e ficou lá por uma eternidade; naquele instante encerrado em si mesmo, em absoluto de si. Sem o outro dia…


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