Revista Berro - 2014 - 02 - Entrevista 1_editado

Bode Berro entrevista Suricate Seboso: Ieeeiiii!!!*

(Ilustrações: Rafael Salvador)

Fenômeno de popularidade na internet, com mais de 1.700.000 curtidas no Facebook e com a fuleragem costumeira, óia só quem veio dar as caras por aqui: o Suricate Seboso. Pois é, esse animalzim sem-vergoim e chêi de gaiatice vai conversar com a gente sobre um bocado de coisa, desde onde ele veio – já que aqui no Ceará num tem suricate – passando pela Copa do Mundo, seus gostos pessoais, as abestadices do bicho-homem, o tal do sucesso e até sobre a relação com sua mãe.

Quando dissemos ao Bode Berro que iríamos entrevistar o Suricate, ele prontamente respondeu: “Deixa comigo, que essa eu garanto!”. Quem fala assim não é gago, né? Vai que é tua, bode danado! O que a gente pode dizer de certeza, antes de vocês lerem esse bate-papo, é uma coisinha: quando junta dois bichos fuleragens, o resultado é só um: fuleragem ao quadrado!

Maxo*, aqui no Ceará tem bode, jumento, peba, tejo, cará, carcará, guaxinim, cassaco, mas suricate, suricate mermo num tem não! Donde é que vocês – tu e tua gangue – vieram, hein?

Meu fí, nois viêmo das África, foi um zé doidim que trouxe a gente pra cá pra Fortaleza e aqui se criamo derdi piqueninim.

E comé pra vocês viver agora nessa selva de pedra chamada Fortaleza?

Aqui em Fortaleza é legal mah, nois pega ôimbu lotado todo dia, come merenda vencida na escola e arranca chaboque no mêi da rua jogando bola!

Olhe, o que eu gosto mais de vocês é o linguajar fuleragem. Porque eu fico feliz de vocês falar igual nóis, cearense! Me diga uma coisa caba: onde é que vocês aprenderam a falar um “cearês” tão bem aprumado assim, hein?

Como eu disse, a gente foi trazido pra cá bem piqueninim, filhotim ainda, a gente num sabia nem falar. Aprendemo o linguajar na convivência mesmo com esse povo fuleragi!

Hummm.. sei! Agora, falando de Copa, eu andei vendo umas coisas horrívi… era gente sem poder andar de lá pra cá, polícia metendo a sola nos manifestantes e prendendo o povo sem ver nem pra quê… Eu queria saber de tu: o que tu achou dessa Copa e pra quem tu acha que ela foi feita, mah?_

Mah, a Copa é um evento pra mode quem tem dinheiro ir assistir no estádio. Quem é liso e lascado que nem eu atirtiu de casa e viu u mói de sola que o Brasil levou. Engraçado é que a quadra de esporte da minha comunidade ninguém investe, a bixa tem nem trave, nãm! ô prejuizo essa copa, nãm!

E a quadra lá das área, que se embarcar a bola pra delegacia, a polícia nunca devolve. Nam! E agora maxo, tu acha que a cidade ficou melhor depois dessa Copa?

Eu axo que não mah, óh.

Mas por quê mermo?

Tá quase a merma fulerage, só u que mudou foi o estádio Castelão e as pista lá perto que tão mais munitim!

É mermo! Concordo contigo! Mas vem cá, me conta aí, conseguiu trocar um dedim de prosa com algum gringo nessa Copa?

Sim mah!

Como foi essa marmota, mah? Conta aí… hahahaha!

Esses fí de quenga vem pro Ceará e num aprende nem a falar cearês, aí querem que eu fale nos inglês com eles, uns cão desse. Ô povo folgado nãm! Teve uns ki veio falar comigo, eu num entendi e nem lembro oki ele disse, mas só sei que eu respondi “aí dento”!

Hahahaha… “aí dento” é muito nosso! Ei, bora marcar um rachinha aí do time dos suricate com o nosso em algum campim de várzea? Pode ser no Alvorada, na Vila Cazumba… Aposto que vai ser mais disputado que Brasil e Alemanha, porque ali, meu cumpade, pêia pra 10 o Brasil comeu sozim! Ieeeiiiiii!!!

Bora sim meu fí, o nosso time aki se garante e eu vou pugol. Ei mah, akilo ki o Brasil levou nem nos interclasse tem akilo, pense num mói de sola!

Nam, me lembre não mah, aquilo foi um véérrrgonha! Ei, tu vai “pugol” é? Maxo, pugol que eu conheço é remédio pra pulga! Hahahahahaha!! Maxo, as eleições tão chegando e nóis sabe que a politicagem quer tá do lado de quem atrai voto, né? Tu, que tá todo chêi das famosidade aí, vai participar da campanha de algum político ou de algum partido?

Vou não ó!!

Mas por quê, mah?

Porque num quero coisar minha imagem com nenhum partido ou candidato mah!

Hummm… entendi! Mas em relação a isso, mah, esse negoço de fama, comé que tu tá lidando com o assédio dos fãs? Com tanto nordestino espalhado pelo mundo curtindo o Suricate Seboso, tu já é praticamente uma celebridade internacional!

Marminino, continuo com a minha fama de fêi, pidão, mizerávi e póbi réi que anda de ôimbu e topic. A diferença é ki tem mais gente que sabe disso agora. Ô aumilhação! Marré legal ser reconhecido por tanta gente fêia que admira a nossa fuleragi!

Os bicho-humano são mêi abestalhado, né? Por causa daquele papel réi besta deles, o tal do dinheiro, eles faz cada coisa… bota os irmão pra dormir ao relento, expulsa morador de casa pra construir asfalto, uns mora numas casona, outros nuns barraquim. Entre os bode e cabra num tem isso não, essa diferença réa besta entre rico e pobre! Tenho certeza que entre os suricate também num tem essa cretinagem não! O qué que tu acha disso hein, mah? Dessa abestalhage humana por causa dum papel?

É muito triste isso ó. Meu zói enxe dágua de ver tanta mizéria num mundo tão estribado! É muita desigualdade, tem muito fí de égua explorando a mizéria pra ficar mais estribado ainda. 

Pior é ki se nois quiser ter um kilo de feijão, arroz, carne de lata, chilito e ter um bujão de gás é preciso ter esse tal papel aí ki tu fala pra mode comprar!

Revista Berro - 2014 - 02 - Entrevista 2É, realmente carne de lata e chilito num podem faltar na cesta básica, haha! Mas mudando agora de assunto, a gente vê tu levando chinelada que só o diabo da tua mãe, mas vê também que, mesmo daquele jeito, ela quer teu bem! Comé tua relação com ela, hein?

A mãe me ama mah, ela é mêi bruta axo ki é pq ela foi criada assim nos grito. Marrela me ama a bixinha, eu ki atormento ela demais e ela se estressa pq faz muita coisa em casa e fica cansada! Mais nois se ama!

E teus gosto, mah, diz aí quais são teus quadrinhos favoritos? E os desenhos animados?

Eu gosto de desenho japonês ó, pessoal lá solta uns poderzão, tem umas magia. Eu queria ser o Goku e tudo no Dragon Ball, tem tambén One Piece, Fullmetal Alchemist e outras ruma. Quadrinhos gosto da Turma da Mônica, principalmente o Chico Bento….kkkkk!

Vixiii, de desenho japonês eu num sei muito não. Mas agora me pergunte do Chaves! Sei os episódio de cor e salteado. Mannnxo, aquele que eles entra na casa da bruxa do 71 é massa demais mah! E tem Os Trapalhões, que num era desenho, mas também era bom que só né. Agora num sei o que diabo é isso que hoje na televisão só passa besteira réa besta! Nam! Ei, e quando tu vai na locadora botar aquela horinha rocheda de videogame, tu chama quem?

Eu vou sozim, pq aí boto o jogo no fácil e ganho sempre. Se eu chamar alguém fico só perdenu, pq sou muito ruim ó!!

Patim no videogame é? Hahaha! Ei, mais vale um pássaro na mão, dois voando, ou três comendo bulim?

Ur “dois avuando” e eu comendo u bulim!!

Hahaha! Bicho fuleragem! Maxo, pra terminar, deixa um recado aí pra negada que tá lendo a revista!

E aê povo que tá lendo,um abraço, um xêro no zói, um sabacu e uma xulipa nessas zurêa de abano de vocês! um abraço, um xêro no zói, um sabacu e uma xulipa nessas zurêa de abano de vocês!

E continuem acompanhando essa revista desse Bode Berro que é um bixo réi arrombado e se garante!! E continuem acompanhando u Suricate Seboso também seu ban de fí da francisca raioleizer!

** O maxo do cearês (ou cearensês) é escrito assim porque, embora tenha sua origem na palavra “macho”, já não quer mais dizer isso. Portanto, precisa de uma grafia que o diferencie do significado original. Ao contrário de um substantivo masculino, é para nós cearenses uma interjeição “enfática” para iniciar ou concluir frases, sendo mais comum no início. Por sua vez, o mah, que já é um derivado do maxo, é visto com mais frequência no final das frases (Ex: Maxo, tu ainda não leu a revista toda? Pois cuida de ler que tá massa, mah!). Ainda há as formas mã e manxo, mais nasaladas. Por não corresponderem mais ao significado do substantivo masculino “macho”, e sim a expressões típicas da oralidade cearense, as interjeições citadas são usadas, inclusive, em conversações com e entre ambos os gêneros, e também, por que não?, entre um bode e um suricate!

*Entrevista publicada na Revista Berro – Ano 01 – Edição 02 – Agosto/Setembro 2014 (aqui, versão PDF)

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