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Você pode até incendiar o meu barraco

(Foto: Chico Célio/Revista Berro)

 

Por João Ernesto

Você pode até incendiar o meu barraco

Mas no meu terreiro, cinza é alimento

A minha luta é o teu constrangimento

Em saber que enquanto você tem medo

Toque eu

O meu tambor ou não

Eu piso descalço

Eu calço esse chão

Subo o morro

E nego a contradição escura

Do conto português

Que o colonizador tem poder

Sobre o colonizado

Que faz você ter orgulho do bisavô holandês

E a memória do índio que o conto fez

Virar fumaça

é a culpa da sua desgraça.

 

Olhe, veja bem…

Se nessa contradição toda você enxerga desgraça

É porque pra muita gente a fome não passa

E procurar comida é a única saída

Pra essa farsa que diz

“tá tudo bem, já passa”

De meia noite

E tem gente dormindo na praça

Morrendo de medo dum açoite

Que tem muito playboy que não perdoa

Acende à toa um fósforo

No corpo do índio

Que na cabeça do agressor

Era só um mendigo.

Imagina o que é conviver com esse medo todo?

E ainda quando acorda (se acorda)

Tem que ouvir grito de dono de loja

Olhar pra cara do povo que anda apressado

E ver a gente olhar pro outro lado

Com a mão na bolsa com medo de ser assaltado.

Olhe que num é por nada não, mas essa contradição

 

De shopping dividindo espaço com favela

Num é de hoje não

isso é antigo, a folha tá amarela

de tanto a gente ouvir o discurso do oprimido

pedindo outra condição,

mas essa porra nunca muda

e, enquanto isso, tu vai procurar ganhar mais

explorar mais

e reclamar mais

que a violência tá foda.

 

Foda é outra coisa que esse povo não tem.

Tá pensando que mendigo tem direito à privacidade?

Esse direito foi tirado

E pela normatividade

Amar é crime

‘Prevaricagem, cidadão!’

Mas continuo dizendo que tá foda a situação

E a luta é o re

tiro

certeiro

pra ajeitar esse contexto.

Até porque de tanto falar, o povo ficou sem voz

esse couro grosso

essa pele ardida

cansou a alma oprimida.

De tanto ouvir e nada fazer,

o povo ficou meio surdo.

Essa cegueira toda

que faz a gente dizer que a culpa é do pobre

Nunca da pobreza,

É o mote violento

Do estado e do cidadão.

 

‘ah, quantos são? Deixa eu ver…

É mais de um milhão?

Tá, vou passar a ligação

E o presidente deixou de pronto que entrega a patente

E que resolve deixar o povo

Tocar a revolução.’

 

João Ernesto acredita que as reticências ainda querem dizer muita coisa…

*Poesia publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

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