O dia em que pintaram faixas sobre o descaso (e conheci a Bruzundanga!)



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(Fotos: reprodução Facebook)

Tive a oportunidade surreal de conhecer a Bruzundanga, república federativa que Lima Barreto tão bem descreveu no seu Os Bruzundangas. O boêmio escritor carioca me veio em sonho e levou-me para passear por tão excêntrico país. Olhem que honra! Depois dessa, quem sabe qualquer dia desses não me aparece o conterrâneo Moreira Campos, hein! Não custa nada sonhar, né? (não me contive com o trocadilho).

Pois bem, lá na Bruzundanga, conheci uma cidade bem bonita, com um povo quente, acolhedor, mas com uns políticos pra lá de estranhos, que parecem não gostar das riquezas daquele país, porque destroem-nas para dar lugar ao que eles chamam de progresso. Destruir as árvores? Eu não chamo isso de progresso, mas o governante maior daquela cidade da Bruzundanga sim. Vai entender!

Porém, naquela cidade nem tudo está perdido. Vi vários corações pulsantes, cheios de vida, resistentes, que não querem cruzar os braços à inoperância dos políticos de lá. Vou relatar um fato que presenciei naquela república tão, tão distante, que só pude visitar em sonho. Peço até desculpas antecipadas por não conseguir captar maiores detalhes da narrativa. Queria muito contá-la nos mínimos detalhes, mas sabem como é sonho, né? Numa hora você está aqui, noutro segundo acolá, às vezes em mais de um canto ao mesmo tempo… Quando a gente acorda, ele escapa sorrateiro da nossa mente, danado que é, e o que nos resta são fragmentos, flashes, de toda a viagem onírica. Mas vou fazer o possível para ser fiel ao sonhado; até anotei umas coisinhas aqui no papel, pra poder relembrar:

Conversaram por telefone.

– Mermão, a gente precisa fazer isso! Ainda mais lá, naquela praça!
– Pode crer! Tô dentro, cumpade! Só dar o toque que nós vamo!

Tudo deveria ficar em sigilo. No dia combinado, reuniram-se num bar. Tomaram alguns tragos de cachaça, cerveja e fumaram um pra relaxar. Para matar a larica, comeram um baião de dois com moela. Papearam descontraídos. Planejaram mais algumas coisas: pequenas estratégias para encurtar o tempo da operação. De lá, rumaram à casa que seria o ponto de encontro para juntar os dispostos à ação.

– E aí, trouxeram os baldes, cal e barbante?
– Foi sal, pivete! Cuuuidaaa!
– Óia, vai dar certo! Eitaa mininoooo!! – e esfregou as mãos uma na outra com contento, abrindo um largo sorriso!

Entraram, tomaram um copo d´água pra aplacar a quentura, um ou outro deu uma mijada. Conversaram sobre as plantas da casa, que pintavam partes daquele espaço com o seu colorido. Um pé de maracujá se enroscava num caramanchão e roseiras na varanda exalavam perfume, sem roubar de ninguém, contrariando o mestre Cartola.

– Que bicha é essa aqui?
– Aí é uma jasmim.
– É mermo, é? Maxo, a minha é diferente, ó! disse um deles com gesto de surpresa.
– Minha mãe disse que tem mais de dez tipos de jasmim, mah!
– Hummm, pode crer! Sei que a minha tá lá, tinindo, crescendo que é uma beleza! Dest´amanho aqui, ó! se orgulhou, mostrando com a distância da mão para o chão a altura do seu pé!

Deixaram pra conversar mais sobre as plantas noutra ocasião. Ali, naquela hora, precisavam ajustar os últimos detalhes para o evento.

– A mistura a gente faz só lá mesmo. Agora, a gente precisa medir o tamanho das faixas em algum canto antes.

Na saída dali, avistaram uma num cruzamento próximo. Com um barbante, iam fazendo as medidas que iriam servir no momento da ação. Partiram, então, ao destino final: a praça! Para se chegar andando àquela praça, não há nenhuma faixa de pedestre. Naquela cidade da Bruzundanga, segundo os seus políticos, os carros são mais importantes que as pessoas, e as praças (e árvores!!!) devem ser demolidas – para serem transformadas em túneis, viadutos, torres empresariais, shoppings centers

Ao chegar, precavidos, analisaram o ambiente em volta.

– Bó passar os panos pra ver se tá limpeza, mah!
– Claro, claro…

Estava limpeza! Era hora de fazer a mistura de água e cal e pegar o jet na mochila. Feito! O spray branco fazia as marcações e, na sequência, lambuzavam os grandes pincéis nos baldes com a mistura e, no asfalto, iam pintando as faixas sobre o descaso. Alguns carros diminuíam a velocidade, curiosos para entender o que era aquilo; outros aceleravam, apavorados que fossem assaltantes no meio da pista. Um ciclista passou, foi-se e minutos depois voltou:

– É… fiquei pensando e resolvi voltar pra ajudar.
– Massa, mermão, massa!

faixa5Em cerca de meia hora (se é que seja possível contar o tempo em sonho), pintaram duas faixas de pedestre, dando acessos à praça. Comemoraram a ação bem-sucedida e foram para seus destinos com uma sensação prazerosa, como se as veias pulsassem com mais vigor de vida.

No outro dia, pedestres já utilizavam as duas faixas para chegar à praça, mas o órgão ordenador do trânsito daquela cidade da Bruzundanga não gostou. Disse que as faixas não atendiam às normas técnicas e, com outras palavras, que lá elas não eram necessárias porque a preferência é dos carros. Muito estranhas essas esquisitices da Bruzundanga. Não fazem e nem deixam fazer! Vai entender!

Depois disso, acordei de estalo. Meu passeio à República da Bruzundanga tinha terminado, não sem antes receber um abraço sincero do meu cicerone àquela terra, Lima Barreto (acho que os boêmios se entendem!), que, após o afago, me olhou firme e disse com convicção: “As pessoas que vão mudar o mundo são aquelas que resistem, lutam e agem”.

*Esta é uma obra fictícia. Qualquer semelhança com a realidade é uma coincidência medonha!


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