O barraco



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– Quiser voltar é rochedo! Tamo aí a madruga toda! – disse ele, o morador, sujeito negro, franzino, estatura mediana, dentes cinzentos, sem camisa, boné de surf na ponta da cabeça e uma grande cicatriz de bala à altura do quadril. Tinha quelóide o morador, daí a marca do balaço ser tão evidente naquelas costelas magras.

Aparentava de 10 a 15 metros quadrados aquele cubículo. Era um vão, um pequeno vão, sem uma janela sequer para apreciar a lua cheia, composto de uma cama às traças, uma carcomida estante amadeirada, uma engenhoca que não era um fogão, mas fazia as vezes de um, e alguns bregueços espalhados pelo chão de terra batida, disfarçado por algumas poucas colheres de cimento. O pretenso banheiro, onde tinha um penico e um buraco no chão, demarcado por lençóis gastos e sujos dependurados ao teto, resguardava a privacidade. O teto era improvisado com lonas de plástico pretas sob as quais se entrecruzavam estacas de madeira, recolhidas de alguma construção próxima. As paredes, de madeirite e aos remendos, apresentavam-se em ameaça de cair iminente. A estrutura tão precária fazia concorrência com “A Casa” do poetinha Vinícius. Era um barraco, um autêntico barraco.

O morador trabalhava a madrugada inteira, até o raiar do outro dia. Quando os primeiros feixes de sol da manhã incipiente espelhavam de dourado a Lagoa da Zeza, à beira do barraco, ele parava o serviço. Mas nem sempre as coisas saíam do jeito pretendido. Muitas vezes, depois de encerrado o expediente, o morador era importunado em sua intimidade.

– É só mais uma, só mais uma, mah. Atende aí, vá lá! – suplicava o cliente, num sussurro rouco e incontido à beira da porta, falando por entre as frestas.

O morador se fingia de mouco e, silenciando, esperava-o desistir e ir sussurrar noutra freguesia. Noutras vezes, quando se convencia do desespero alheio, despachava o cliente, mas não sem antes recomendar, com ar superior de quem estava com a razão:

– Ó, pivete, é a última vez! Leva logo tudo o que tiver que levar porque depois dessa vez só lá pra mais tarde.
– É só uma mesmo, camaradinha! De rocha!
– Peraí! – fechando a porta na cara do freguês. Pouco tempo depois, retornava, já com o produto às mãos: – Toma, toma!

E voltava, com cara de poucos amigos, aos caprichos do seu sono incontrolável. Tamanho cansaço também pudera! As tardes-noites do morador eram movimentadas. A favela não descansa às madrugadas; nessas horas, em que o restante da cidade está dormindo, a favela está acesa, de olhos bem abertos, com seu movimento próprio de relações sociais à margem das leis; leis que não chegam a essas comunidades. Para o bem e para o mal. “Na madrugada da favela não existem leis, talvez a lei do silêncio, a lei do cão, talvez…” (Racionais MC´s – Homem na Estrada).

O barraco, dentro desse contexto, tinha sua função: a de agregar à sua volta clientes de todos os matizes: moradores da favela, playboys, tiozinhos de meia-idade, prostitutas… Era um chega e sai constante. Para ir até o barraco, era preciso atravessar um caminho empoçado, enlameado (na época de chuva, então, meu deus!) e escuro. O cubículo ficava às margens da Lagoa da Zeza, num pedaço de terra recentemente ocupado da Vila Cazumba, zona sul de Fortaleza. Tamanha era a dificuldade de acesso àquele lugar que a comunidade de poucos casebres ganhou até nome: favela do Cheiro do Queijo. Para os mais íntimos, apenas Cheiro.

Certa vez, o morador me convidou para entrar. Receei por um segundo – ou menos que isso! -, mas não me contive em curiosidade. Já havia entrado em outros barracos, em muitos outros, é verdade, mas aquele tinha uma atmosfera diferente, não sei bem por que: as paredes de madeirite, ainda que bastante desgastadas, pareciam ter olhos e observar, com atenção redobrada, cada passo dado ali dentro; repousava naquele ar abafado de um vão sem janela um clima soturno, de noite fria com ventos uivantes. A chuva fina que caía lá fora e aos poucos aumentava de ritmo, batia em pingos sobre a lona de plástico –ploc, ploc, ploc –, contribuindo para trazer uma alta carga de solidão àquele ambiente. Não sei bem por que, mas aquele barraco, naquela madrugada, me lembrou solidão, de uma noite fria com ventos uivantes.

O morador, por sua vez, dava de ombros às minhas conjecturas existenciais, acostumado que era à sua simples acomodação; endolava seu produto com a costumeira rapidez de quem trabalha há certo tempo no ramo. Sentado à beira da cama – temendo que ela se espatifasse no chão a qualquer momento -, o observava, atento. Tinha um tique nervoso, ele: mordia a ponta dos lábios no instante em que, com uma linha, dava voltas circulares para amarrar o produto que lhe era tão caro. Ele, o morador, a cada gesto, a cada mordida nos lábios, me transmitia uma confiança que não se encontra em qualquer esquina. O barraco, o enigmático barraco, que parecia ver e ouvir tudo, nos tornara cúmplices. Uma cumplicidade que nos igualava ontologicamente, espiritualmente, nos fazia esquecer, naquela noite de garoa leve, da crueza virulenta que é a vida lá fora. Fora do barraco, a vida real teima em nos distanciar, obstina-se a impedir que tornemo-nos cúmplices, amigos…

Me volto, então, ao barraco. Quantas visitas – (in)desejáveis – como aquela recebeu? Será que as fitou com tamanha atenção como a mim? Quantas pessoas diversas passaram por aqueles poucos metros quadrados à procura de uma fuga fugaz da realidade? Quantas estórias guardam aquelas paredes decrépitas? Decerto, muitas. Apesar de às ruínas, ele não tem vergonha nenhuma de se assumir assim: um barraco, um autêntico barraco guardador de estórias, segredos e noites de chuva.


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