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Roger Pires sobre videoativismo: “Sair da condição de testemunha para a condição ativa dentro da situações”

Rocheda – Encontro de vídeoativistas começa hoje (26) na cidade solar e, em si, traz o questionamento sobre o ativismo e a comunicação que queremos. Roger Pires do Coletivo Nigéria explica, nesta entrevista, a ideia do encontro e potencializa as possibilidades que se abrem a partir do Rocheda. A palestra de abertura acontece às 19 horas no Porto iracema das Artes e é aberta ao público. Victor Ribeiro, da Witness, faz palestra sobre videoativismo e os coletivos locais Nigéria e Servilost compartilham experiências.

As inscrições para os dois dias de encontro foram destinadas a indivíduos e coletivos que já atuam com videoativismo, mas a mesa de abertura do evento é a oportunidade para “pessoas que tem interesse em vídeo, mas que não tem uma atuação ainda”, como declara Roger.

O ponto de partida foi o mapeamento dessas pessoas, o encontro representa a formação e troca necessária para a criação de uma rede de produtores audiovisuais com engajamento social. A palavra chave dessa entrevista é transformação.

Como surgiu essa ideia?

A ideia surgiu de um mapeamento que a Nigéria vem fazendo de coletivos e indivíduos que estão produzindo vídeos, principalmente nas periferias, uma galera um pouco mais nova que a gente, que, de repente, está entrando na faculdade, que está com uma sede de produção audiovisual e que se encaixa muito bem com o que a Nigéria já vem produzindo, nessa proposta do videoativismo.
A gente quer juntar essa galera para produzir junto, esse é um dos objetivos e o outro é trazer um pouco de formação em duas pegadas que a witness traz muito bem: uma é do vídeo advocacy, ou seja, o vídeo como ação transformadora, não só aquela coisa de sensibilizar a sociedade, mas fazer um vídeo que realmente tenha um impacto; e  outro é o vídeo como prova, usar vídeos em registro de violações de direitos humanos, de agressões em processos judiciais mesmo.

Quanto a programação, o que se pode esperar desse fim de semana?

A programação tem muita coisa no evento, a gente vai trocar experiências, se apresentar, se conhecer. O cara da Witness, o Vitor, vai dar algo mais parecido com uma oficina, mas a gente vai deixar bem livre também pras pessoas apresentarem os seus coletivos, as experiências, casos emblemáticos, projetos que querem desenvolver.

Ao final, a gente quer continuar essa rede, essa troca, muito provavelmente um grupo no Facebook e encontros periódicos para que a gente possa produzir, e aí, tem duas ideias legais: uma é o empréstimo de equipamentos, a gente tem um equipamento na Nigéria um pouco mais básico que a gente vai tá disponibilizando para empréstimo e também um  fundo rotativo solidário que a gente vai estabelecer em que as pessoas podem propor projetos, receber essa grana e devolver a mesma grana para que outra pessoa possa usar, ou pegar uma parte e outro projeto pega outra para incentivar ali pequenos gastos. Às vezes, as pessoas não tem nem o transporte para ir filmar.

Documentário “Com Vandalismo” do Coletivo Nigéria em 2013

Qual a importância do videoativismo na atual conjuntura do Brasil?

Acho que importância do videoativismo é a importância da comunicação, da arte, de trazer um pouco mais de criatividade para os processos de ativismo no geral, acho que o ativismo acaba caindo um pouco em alguns vícios de discurso e prática que não agregam tanto. Aí, quando você fala em filme, em fotos, em reportagens isso agrega informação, conteúdo e convida mais as pessoas. Então, eu acho que são formas de ativismo diferentes e legais, né? Acho que a gente precisa fazer coisas que a gente acha massa e não somente, reuniões, seminários, publicações, coisas que muitas vezes são chatas, pelo menos na minha opinião.

Por que fortalecer a produção audiovisual com engajamento social?

O lance da produção audiovisual com engajamento é a gente ter filmes e produções pra TV, para internet que possam trazer algum conteúdo, mesmo que leve, a alguma transformação. Para que a gente não caia só no entretenimento, só no humor que é muito comum na Internet por exemplo, ou só em propostas que tenham apelo comercial que é o que  agente tem mais em TV aberta.

O que a gente vê mais no cinema, filmes que tem grande alcance de bilheterias e, por isso tem uma temática mais popular, mais leve, a gente quer fazer uma coisa de consistência, mas que também tenha alguma viabilidade e que consiga trazer a galera. Porque o vídeo também está com um alcance muito bom nas redes sociais principalmente.

Então, se você ocupa esses espaços com vídeos que são interessantes, que tem um conteúdo legal, eu acho que a gente disputa um pouco a rede social, o tempo das pessoas e consegue ir, aos poucos, fazendo um processo de transformação de comportamento, de atitude.

Fala um pouco sobre o convidado para o evento Victor Ribeiro e sobre a Witness.

O Vitão é um vídeoativista do Rio de janeiro, ele participa de vários processos há anos e é um dos produtores ativos lá do Rio que está em contato com comunidades, movimentos, organizações. Recentemente, ele começou a integrar o quadro da Witness que é um ONG americana que trabalha o conselho de mídia advocacy e participa pelo mundo, dando oficinas, fazendo vídeos também campanhas e muito nessa pegada de litigância, ou seja, vídeos que são feitos para transformar, que não são entretenimento, que não são pra jogar na rede e causar repercussão, mas são vídeos que vão bater nos agentes transformadores, aí  tem vários casos disso, inclusive de conquistas e de sucessos que a Witness promoveu.

Por exemplo, a gente participou ativamente do processo da Copa, onde fez um vídeo que teve mais de 100 mil visualizações que chegou nas autoridades da Secretaria da Copa, que foi muito interessante e que tinha como temáticas as remoções, isso abriu uma janela de possibilidades sobre a redução dos impactos na Copa.

Houve oficinas da Witness acompanhando esse processo, quando eu conheci, foi uma oficina em 2012 com a Priscila que é uma brasileira que mora lá nos Estados Unidos e, desde lá, a gente vem trocando ideia pra ver se a gente consegue transformar, essa ação em vídeo e fotografia em algo transformador, não simplesmente vai mostrar o que está sendo, ou seja, sair da condição de testemunha para a condição ativa dentro da situações, dentro das problemáticas.

Como vocês pensaram a mesa de abertura?

O encontro está fechado não tem mais como a gente incluir participantes a não ser pessoas que a gente já está articulada, é uma coisa pequena mesmo, mas o evento de abertura é aberto ao público. A gente vai ter palestra do Vitor, falando do vídeo como prova, do vídeo advocacy, das experiências dele.

Também vai ter a participação da gente da Nigéria, trazendo algumas coisas que a gente vem acumulando e essas propostas do fundo solidário, do empréstimo, do equipamento e tentar engajar uma rede que vai funcionar a partir desse encontro para o público em geral que não pode participar do encontro, pessoas que tem interesse em vídeo, mas que não tem uma atuação ainda e que pode participar dessa rede em um outro momento.

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Cacique Irê na Festa do Marco Vivo : “Nesse ano, a gente até fica meio TEMERoso em festejar, porque estão vindo tantos retrocessos da causa indígena, dos movimentos sociais”

Texto: Dani Guerra
Fotografias: Iago Barreto

O toré marca o terreiro sagrado do Tio Teodorico, antecessor da Pequena, primeira mulher cacique do Brasil, conhecida por enfrentar o grupo Ypióca na defesa do território. À sombra das mangueiras, os Jenipapo-Kanindé e “os parceiros” se reúnem na manhã do nove de abril para a Festa do Marco Vivo na Aldeia da Lagoa Encantada em Aquiraz. Nessa edição, sentem falta dos “parentes” de outros povos indígenas que estão ocupando o prédio da FUNAI em Fortaleza.

Quem leva a cerimônia é a Cacique Irê, também conhecida como Juliana Alves, filha da Cacique Pequena. A liderança começa com o recado: “Nós não temos nada a comemorar, se nós não acordarmos, seremos engolidos”. O cenário descrito entre as falas de indígenas e parceiros alerta para a tentativa de extermínio dos povos indígenas com a desestruturação da FUNAI. Telma Pacheco, indígena Tremembé que vive na aldeia Jenipapo-Kanindé continua: “Nós somos perseguidos porque nós plantamos a própria comida, porque nós temos mais verde, a água mais limpa”.

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Os indígenas que ocupam a FUNAI pedem o afastamento de Tanúsia Vieira, coordenadora regional indicada pelo deputado Aníbal Gomes sem consulta prévia aos povos indígenas dos estados do Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba pelos quais a Regional Nordeste II responde. Em nota divulgada em 04 de abril, os ocupantes também questionam o Decreto presidencial 9.010/2017 que extinguiu 347 cargos da FUNAI e 50 Coordenações Técnicas Locais no Brasil.


Entendemos que este governo está a serviço de setores nacionais e internacionais do agronegócio, dos grandes empreendimentos de exploração do solo e de recursos naturais, os quais promovem violências de todas as ordens contra os povos indígenas, transformando territórios de vida em territórios de morte.  

As estratégias para interditar a efetivação dos direitos constitucionais são diversas, entre elas o desmanche do órgão indigenista oficial. Nos últimos anos, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) vem sofrendo uma série de cortes orçamentários, falta de pessoal, sucateamento da frota e da infraestrutura em geral. Isso impossibilita a fiscalização, as diligencias, a assistência aos povos indígenas e a ação principal do órgão indigenista oficial: a regularização dos territórios indígenas.


marcofO Marco Vivo é uma forma de autodemarcação da terra com vida por meio do plantio de um tronco que renasce, o da Yburana, também chamada de Amburana, Umburana. A festa que envolve o plantio acontece desde quando a terra foi delimitada pela FUNAI em 1999. Além de reafirmação de cultura, a celebração é luta por território que se iniciou há três décadas como relembra Cacique Pequena: “De 80 para cá, faz um bocado de janeiro”. Em 1995, quando ela chegou à Brasília “para a FUNAI vir reconhecer esse povo”, a Cacique Pequena diz que mal sabia falar ao microfone. Em 1997, escutou dos funcionários que visitaram o local: “Por mais que vocês não queiram ser índios, vocês são índios legítimos, índio próprio”

No toré ao fim da tarde, antes do plantio do tronco, há menção àqueles que se encantaram, os ancestrais que, ao morrerem, viraram parte da natureza. Os dizeres dos presentes em relação à terra divergem de encará-la como mercadoria: “a terra é sagrada”. Entre os passos ritmados ao som da maraca e do tambor, o coro:


Quem deu esse nó não soube dar
Esse nó tá dado, eu desato já
E desenrola essa corrente, deixa o índio trabalhar


 

Cacique Irê resolve: “Índio não negocia a terra”. Ela recebeu o cacicado em 2012, mas ainda é mais conhecida como Juliana Alves, professora e diretora da Escola Indígena Jenipapo-Kanindé. Para entender um pouco mais sobre a festividade e a luta por território na aldeia dos Jenipapo, conversamos com ela sobre o Marco Vivo e o Ocupa Funai.

Por que nós estamos aqui hoje?

A festa do marco vivo é uma festa tradicional do povo Jenipapo-Kanindé. A gente, desde 99, tirou o nove de abril para festejar o Marco Vivo de yburana. A gente referenda a yburana e coloca ela, replanta ela em algum dos pontos das nossas terras, o dia nove de abril pros Jenipapo-Kanindé é mais de festividade e celebração por ter adquirido a posse da terra, por ter a terra de novo em nossas mãos.

Hoje, a nossa terra se encontra demarcada, e a gente sabe muito bem que é um processo lento para as comunidades indígenas do Ceará, se a gente bem observar só existe uma terra demarcada e homologada aqui no Estado que é a Terra Córrego João Pereira que é do Povo Tremembé, as outras terras estão em fase de reconhecimento ou em fase demarcatória, então, para a gente, o dia nove de abril é uma alegria.

Por ser uma festa tradicional, a gente não podia quebrar porque a Cacique Pequena não permite que essa data não seja celebrada, só que, nesse ano, a gente até que fica meio TEMERoso em festejar, porque estão vindo tantos retrocessos da causa indígena, dos movimentos sociais, principalmente em relação a essa política a nível nacional tirando todas as conquistas que nós conseguimos, então a gente não teria muito o que festejar.

Por ser uma festa tradicional do povo, a mãe de toda aldeia não permite que passe um ano em branco então a gente tá celebrando junto aos parentes e parceiros da causa indígena e, ao mesmo tempo, divulgando a ocupação da FUNAI, divulgando todos esses retrocessos e mostrar que nós estamos aqui resistindo.

Como está o processo de demarcação da terra aqui?

A nossa terra ela foi demarcada no dia 24 de fevereiro de 2011, sendo que, em setembro do mesmo ano, eu fiz uma viagem a Brasília e soube lá que a empresa Ypióca tinha contestado no STJ. Aí, desde 2011 até 2016, a terra não tinha sido julgada nem para ganho de causa da comunidade indígena, nem para ganho de causa da empresa.

A empresa Ypióca que fazia retirada da água da nossa Lagoa Encantada para aguar os seus canaviais sempre contestava o processo da terra e esse ela também contestou. Em maio de 2016, Weber Tapeba que é uma grande liderança a nível nacional das comunidades indígenas do Ceará acompanhou a audiência e o juiz deu ganho de causa para a comunidade indígena.

Hoje, a gente sabe que a terra não saiu do processo demarcatório para sair para o processo de desintrusão, sendo que com essa situação da FUNAI não tem como a gente saber do restante dos passos: como é que tá, se está na fase de desintrusão, de homologação, de registro oficial no cartório para a terra ser considerada Terra Indígena dos Jenipapo-Kanindé e passar a ser da União.

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Porque vocês escolheram a yburana?

Porque a yburana, ela renasce, como a Cacique Pequena explicou, na época que pensou “Vamos fazer um marco, um marco de que? – De uma planta”. Se pensou em várias plantas, um cajueiro, um coqueiro, planta que só refloresce se a gente aguar. “Ah! Vamos fazer com a yburana”. A yburana é exatamente porque ela renasce independente da água, mesmo que seja longe de água, ela renasce, o segredo dela é não cortar, não raspar, se raspar o pau da yburana ela não nasce.

Como você se sente nessa edição sem a presença de outros povos indígenas?

Infelizmente, nesse ano, nós vamos ter que conviver com essa realidade, os parentes eles estão concentrados na ocupação, nós, Jenipapo, estávamos até ontem, quando entrou um grupo grande lá. Hoje, a gente só  teve que deixar dois representantes do Jenipapo que é a Valdênia e o Danilo, estão lá representando o povo para alguma coisa que acontecer de emergência, o restante do povo se encontra aqui hoje na festa.
Se não tivesse feito essa ocupação com certeza nós estaríamos celebrando com os outros parentes, Pitaguary, Tapeba, Tremembé, Anacés, Kanindé, os parentes da região metropolitana, os mais de perto são comuns com a gente nesse dia.

Como você vê a nomeação da Tanúsia?

Eu acredito que nenhum de nós, liderança indígena, conhecemos essa senhora, a gente conhece o deputado que indicou ela, que é o Aníbal Gomes, que tem amigos posseiros de terras indígenas. Então, por ela vir por indicação de desse senhor, é que a gente se recusa a aceitar a permanência dela como coordenadora regional, da CR2 aqui em Fortaleza.

A gente sabe que hoje os políticos que estão aí, deputado federal, a pessoa que ocupou a presidência que a gente não tem como presidente porque presidente deveria ser quem foi votado pelo povo, escolhido pelo povo e ele não foi escolhido pelo povo, então, para gente ele não representa a presidência do nosso país. A gente está vendo que está sendo uma política de retrocesso, política onde eles querem engolir os movimentos sociais, quilombolas, indígenas, é como se eles quisessem exterminar toda essa população.

Então, não dá para a gente acreditar no trabalho de uma senhora que tem a indicação de um senhor desse tipo, dessa corja política que está aí, o nosso posicionamento é: Não a Tanúsia na CR2 Ceará, não ao Michel Temer na presidência da república e não a todos os golpistas que estão aí balburdiando todas as causas sociais e o movimento indígena, a gente não aceita.

Ela já tentou vir aqui no povo Jenipapo-Kanindé, mandou pessoas vir conversar com a Cacique Pequena pra ver se ela recebia e tudo que a gente faz é sempre de comum acordo uma com a outra, ela não podia estar na ocupação, mas eu estava junto com o restante do povo, ela veio me dizer: “Minha filha, essa mulher veio me perguntar e eu mandei dizer pra ela que se ela quisesse conversar com alguém que ela conversasse com os povos na ocupação da FUNAI”.

Ela já está usando de má fé e indo em outros povos e fazendo com que os povos se confrontem, ela já andou nos Pitaguary, a gente soube que ela andou na comunidade Tapeba lá. Pelo que ela está fazendo, a gente está vendo que não é uma pessoa de boa índole, porque ela está tentando confrontar povos com povos e isso não é legal no nosso próprio movimento.

Qual local que vocês escolheram nesse ano para replantar a yburana?

Nesse ano, provavelmente vai ser colocado nas Bazias. Ontem, eu estava conversando com a Cacique Pequena e a gente estava vendo os pontos que a gente já tinha colocado. Ela deu a ideia para que a gente replante ele esse ano lá na fundura das Bazias, dividindo a área da Caponga Funda com a terra Jenipapo-Kanindé

Como estão os preparativos para o Acampamento Terra Livre?

Lá se pensa em fazer algumas conversas nos ministérios e ver o que se ganha, porque já vai fazer  um mês de ocupação e nada se foi resolvido, é como se eles tivessem querendo ganhar a gente pelo cansaço, mas a gente não vai render, a gente não vai recuar, a gente vai continuar firme e forte nesse movimento, embora seja preciso ocupar outros espaços a nível estadual.

Baticum: “A nossa essência é resistir à lógica capitalista que diz os lugares certos aonde você tem que pagar caro por acesso àquele bem cultural”

Baticum
Foto: Divulgação – Zona Imaginária

Desigualdade não é apenas sinônimo de violência e pobreza. Quando se fala de cidade, a margem encontra barreira no caminho até o Centro. O carnaval, a festa, o passeio, a beira do mar, o teatro, a poesia, o rap, o reggae tem o limite da distância, da violência. A espera pelo ônibus que não para. O shopping é a alternativa.

Antônio Viana Rocha, Baticum por arte, responde com simplicidade a que destina a sua existência: resistir e reinventar a periferia para descentralizar o acesso à cultura na capital fortalezense. Ele conversa sobre arte e poesia que parte do Antônio Bezerra e encontra Barra do Ceará, Pirambu, Planalto Pici, Pan Americano, Serviluz e José Walter na troca entre poetas e artistas.

A entrevista surge de um convite-escambo para o lançamento do livro Por um Trilho: Memórias de resistência “nas quebradas”, como Baticum bem disse. O lançamento aconteceu em janeiro na Okupação do Antônio Bezerra, atividade cultural independente que, em abril, chega a sétima edição. O contato com uma periferia poeticamente emancipada, dá diálogo e vontade de contar essa história. Aqui, apenas fragmentos dessa curiosidade.

Que tipo de ações você desenvolve em Fortaleza?

As ações educativas que a gente desenvolve estão ligadas a cultura popular e tradicional essencialmente realizadas e desenvolvidas na periferia de Fortaleza em comunidades como Barra do Ceará, Pirambu, Pan Americano, Planalto Pici, Antônio Bezerra, Autran Nunes, Serviluz em bibliotecas comunitárias, praças, ruas, eventos culturais, associação de moradores, essas coisas assim.

Como tem uma base forte na cultura popular e tradicional, é bom porque a gente faz a difusão da nossa cultura popular que normalmente não é difundida, nem valorizada. Quando as pessoas têm esse contato, principalmente as crianças, elas ficam muito agradecidas por aquela pequena oportunidade de ver uma parcela da nossa manifestação artístico cultural.

Quais são os projetos?

Tem o percurso extenso que eu denomino Viver Maracatu, esse é o principal, tem uns quatro anos que a gente está desenvolvendo ele, já desenvolveu em lugares como Feira da Música, Grito Rock Fortaleza, Encontro de Cultura Popular, em Sobral também a gente já fez, seminário na universidade. As outras atividades estão ligadas a poesia e a performance que é o Baculejo Poético e o estado de poeta.
Como essa história começou?

No começo dos anos 2000, quando eu era presidente do grêmio estudantil da Escola Cândido Bezerra, no Antônio Bezerra. No movimento estudantil, a gente realizava diversas manifestações artísticas, sociais e comunitárias, a gente tinha uma ligação muito forte com a cena cultural do rock alternativo, underground e independente de Fortaleza.

Fomos um dos primeiros movimentos a fazer essa difusão, realizava o Zona Rock Festival e o Cachiblema Rock com bandas locais, principalmente ali no Antônio Bezerra que tinha um cone, aquela região ali. No comecinho desse período, a gente desenvolveu uma ação cultural no ciclo junino. Tinha a Quadrilha Junina dos Arrombados e das Arrombadas do Antônio Bezerra, a gente passou dois anos com essa quadrilha, no bairro e também onde a gente era convidado.

(Sobre a Okupação do Antônio Bezerra)
Por que ocupar, Baticum?

Existe um vazio cultural na cidade principalmente nas periferias de Fortaleza, nas comunidades, então a nossa essência é resistir a toda uma lógica do sistema capitalista que diz que tem os lugares certos aonde você tem que pagar caro por acesso àquele bem cultural. A gente vem para resistir, para tentar aproximar as pessoas também da arte que é realizada na cidade de Fortaleza. A essência é a resistência, e fazer com que as pessoas tenham esse contato com outro tipo de linguagem artística que muita gente não tem.

Nós só temos acesso aos bens culturais por meio da televisão e da internet e acaba fundido a vida dos outros, e a violência cresce cada vez mais e a gente fica mais dentro de casa, preso aos shoppings centers, esses lugares que são mais cômodos ou mais seguros na lógica do sistema.

A gente quer fazer um pouco do que tinha há alguns anos em Fortaleza, as pessoas irem para as ruas, ocuparem os espaços públicos, as ruas, as praças para gente tentar diminuir essa situação de violência que nós temos na cidade.

O bairro do Antônio Bezerra, por exemplo, parece ser um bairro calmo, mas, infelizmente, a atuação do tráfico de drogas é muito forte lá e a violência é muito presente. Quase toda semana tem um jovem sendo assassinado no Antônio Bezerra, Quintino Cunha e no Genibaú. Essa resistência é fazer com que as pessoas compreendam que essa miséria, essa desgraça e essa violência contra a vida das pessoas só vai diminuir se a gente, começar a tomar alguma atitude, ir para as ruas, ir para as praças e conversar com as pessoas.

 

A Okupação do Antônio Bezerra acontece toda segunda sexta-feira do mês

Eu vi muita criança participando. Como vocês envolvem a comunidade?

Acaba sendo uma tentativa de aproximação, o cortejo pela comunidade, o Antônio    Bezerra nunca foi de ter redes culturais abertas à comunidade, então acaba sendo um cortejo. Nós estamos cortejando as pessoas, a gente usa de várias estratégias: conversar um a um, com as famílias ao redor da praça, com pessoas que de alguma forma espalham a notícia pelo bairro. Quando a gente fala com as crianças, elas sempre falam para o pai, para a mãe, e assim atingimos mais público.

Também desenvolvemos pelas redes sociais, alguns panfletos para distribuir com algumas pessoas conhecidas, mas a maior parte da nossa divulgação é um cortejo presente, conversando com as pessoas, acostumando as pessoas a toda segunda feira do mês a estar com o evento, já é o quinto mês (fevereiro de 2017) que a gente está fazendo o evento na comunidade.

Esse é o primeiro mês que a gente vai sair da praça, vai descer e entrar um pouco mais em uma rua com situação muito difícil de violência. Hoje mesmo um rapaz foi baleado lá, que é a fronteira do tráfico entre o Antônio Bezerra e Autran Nunes. Vamos tentar fazer um cortejo maior com as pessoas, sensibilizar de alguma forma para essas ações culturais. Não em curto, mas em médio, longo prazo isso vai ter um impacto bom na vida das pessoas.

Como a programação do Okupa é construída?

Ela vem muito das nossas vivências, de projetos que a gente já vem desenvolvendo na cidade de Fortaleza, pessoas que são chegadas, que são amigas. A gente faz esse convite ou até mesmo em retribuição por algo que a gente já fez em algum evento.  Pelejamos há dois anos fazer um calendário de ações na cidade de Fortaleza realizado nas periferias.

As parcerias são realizadas quando já existe um contato antes, então acaba sendo o mesmo objetivo, são pessoas que já são acostumadas a realizar atividades nas periferias, e um acaba contribuindo com o outro. Pirambu, Barra do Ceará, Jangurussu, vários lugares na cidade onde acontece essa troca, não de favores, mas de atividades junto com os outros.

Por exemplo, eu estava agora no Sarau Mó Limpeza do Zé Walter, uma retribuição por que eles já vieram fazer duas vezes aqui no Antônio Bezerra, dezembro e janeiro, e a gente vai fortalecendo as atividades e vai atraindo a comunidade para participar das nossas ações. Nosso objetivo são as pessoas do lugar.

Elas só vão começar a participar, se elas sentirem, se elas estiverem presentes ali à distância e perceberem que está acontecendo algo diferente ali naquele momento, aí a gente vai atraindo para participar também para aquele espetáculo de teatro, de circo, qualquer coisa nesse sentido.

Que outras ocupações estão rolando atualmente na periferia da cidade?

Principalmente ligada a poesia e a literatura. Há quatro anos, não se pensava na cidade, não se ouvia falar em sarau em Fortaleza, de uns anos para cá, foi crescendo. Os primeiros a serem desenvolvidos foram o Sarau Vai dar certo no Planalto Pici com dois anos de atividade que, infelizmente, no ano passado, deixou de existir, o Sarau Corpo sem Órgãos no Conjunto Ceará que está sendo realizado na Casa Arcadiana ou em alguma praça.

Aí, tem o Sarau da B1 no São Cristovão perto do Cuca Jangurussu. No Zé Walter, tem o Coletivo MARC que faz o Sarau da Ocupação, Sarau Mó Limpeza e faz outras atividades culturais também. Tem também outra galera do Zé Walter que faz a Mostra Bimestral de Música. O Sabacu da Arte no Sistema com mais de três anos que a gente vem fazendo atividade junto com eles (Grupo Teruá) no Pirambu. Ali próximo à Vila do Mar, tem o Sarau da Negra Bonifácia.

Ana Thomaz: “O ser humano tem todas as possibilidades de se autogerir”

(Foto: divulgação)
(Foto: divulgação)

Você já ouviu falar em desescolarização? Sabia que há um crescente número de pessoas que decidem não colocar as(os) filhas(os) na escola e criá-las(os) livremente, sem a mediação pelas escolas?

Pois é, pode parecer algo muito distante da nossa realidade, mas não é tanto assim. No Brasil, a ex-bailarina e educadora Ana Thomaz é uma reconhecida porta-voz do processo de desescolarização. Aos 13 anos, seu filho Gutto pediu para sair da escola. Após um susto inicial, Ana decidiu experimentar a vontade dele, e ambos passaram a trocar conhecimentos em casa. O garoto cresceu e hoje, aos 22 anos, é ilusionista, com apresentações na Inglaterra, Argentina, Chile, México e Guatemala. A partir daquela decisão, um mundo de novas possibilidades abriu-se para a educadora. As outras duas filhas, que vieram depois em partos domiciliares, nunca foram à escola. Ela conta tudo isso e mais coisas importantes no documentário O que aprendi com a desescolarização, de Luiza de Castro, e também no seu blog, o Vida Ativa.

Quase dez anos após o pedido de Gutto, Ana está convicta de que a desescolarização, que ela também chama de “desmassificação” ou “descolonização”, é um processo vivificante, que nos esvazia de condicionamentos, crenças e dogmas sociais adoecedores e limitantes à nossa própria liberdade. Batemos um papo com ela para entender mais sobre tudo isso.

Ana, o que é de fato a desescolarização?

Estamos cheios de crenças, que foram sendo colocadas ao longo de nossa escolarização. Chegou o momento de esvaziar, de reestruturação, de recomeçar a construir a partir de outras bases, de outros princípios, de outros valores. Na desescolarização é preciso desapegar das crenças que impedem as transformações e os movimentos naturais da vida. Tirar as crianças da escola, ou ensiná-las em casa, não garante nada, pois os pais e a sociedade também estão escolarizados e repetirão o papel da escola. A desescolarização é tirar a escola de dentro de nós, desapegar das crenças e abrir espaço para o movimento e a criação.

Como a desescolarização pode transformar a sociedade?

Quando desinvestimos nas crenças, surge um outro modo de pensar, sentir e agir na vida. Assim, paramos de sustentar esse modelo e nos abrimos para a criação de uma vida mais conectada à natureza humana. Deixamos de ter a ilusão de que esse modo de viver é o único e nos tornamos responsáveis por uma vida mais plena e alinhada a nossos propósitos e desígnios.

O que é atualmente a escola?

Cada vez menos sei o que é a escola, pois estou muito distante dela, mas ontem mesmo alguns professores vieram conversar comigo, pois estavam muito descontentes com o ensino formal e descreviam cenas realmente tristes. Porém, esses professores estão tão escolarizados que o máximo aonde chegam é na angústia e na reclamação, não conseguem enxergar na ação. Por isso, a mudança precisa começar em cada um de nós e não na reforma de um sistema, senão não sairemos do mesmo lugar.

Além da desescolarização, que outras iniciativas sociais podem ser tomadas para transformar a sociedade?

Além de tirar a escola de dentro de nós, podemos tirar também a institucionalização e tudo mais que nos determinam de fora. Reconhecer a legitimidade do ser humano, a nossa incondicionalidade e nos reconectarmos com o que sustenta a biologia humana, o amor. Amor é a capacidade de aceitar incondicionalmente a própria existência e a existência do outro. Para isso, precisamos desinvestir muitas crenças que mantêm nossas mentes cheias e estagnadas, e gerar uma relação de criação e fluxo com a vida.

Qual sua opinião sobre a autogestão de nossas vidas cotidianas?

O ser humano tem todas as possibilidades de se autogerir. Biologicamente, somos seres autopoieticos (teoria desenvolvida pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana), isso quer dizer, nos construímos a nós mesmos constantemente em relação, e isso é muito diferente da gestão que reproduz o mesmo sistema hierárquico com o pensamento de escassez, nas relações baseadas no julgamento, na comparação, na competição, nas quais fomos treinados. A autogestão é um processo que se inicia em cada um de nós, por isso é possível começar agora e assim teremos tempo de ver isso refletido na nossa sociedade.

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*Essa entrevista foi publicada (pg. 22) como parte da reportagem “Aurora de sonhação: As raízes de um mundo novo“, na  Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016  (aqui, versão PDF).

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Vera Dantas: “Quero conjugar o verbo esperançar, porque nesse verbo tem ação”

Vera e o Ekobé: uma relação simbiótica (Fotos: João Ernesto

revistaberro@revistaberro.com

Ela é do sertão do Rio Grande do Norte. Foi criada à base de sertanices próprias do semiárido nordestino, como o contato próximo à terra e o cuidado por meio de plantas medicinais. Única filha médica de um casal camponês. No sotaque, nos olhos falantes e nos grandes gestos vívidos, ainda carrega as marcas da criação sertaneja. Estão no espírito!

Já adulta, vivendo em Fortaleza, e em permanente diálogo com outras sonhadoras e sonhadores, causou um rebuliço danado no universo da educação popular no Brasil. A medicina já não a abarcava mais! Transcendeu-a. Tendo como referências duas almas libertárias, a psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999) e o educador pernambucano Paulo Freire (1921-1997), se lançou à liberdade de sonhação: esse propósito de fazer da vida um misto de sonhar e agir! Desacreditou da política tradicional para transformar a própria vida cotidiana em fazer política! Esteve na vanguarda da construção do “Ekobé”, um centro irradiador de formação e cuidados em saúde, com práticas integrativas e populares, totalmente gratuito.

A gente conversou com Vera Dantas no próprio Ekobé. E saímos de lá com o coração mais rico, encharcado de esperança!

Vera, tu é uma médica… (Ela interrompe: “não sei nem se ainda sou”; e cai na gargalhada) Pois é, justamente sobre isso que a gente vai falar. O que tu, enquanto médica “diferente”, pensa sobre a indústria farmacêutica e toda essa medicalização da vida?

Acho que nem todo médico é da biomedicina, nem todo médico é capitalista, nem todo médico defende a medicalização e a mercantilização da vida, né? Eu fico feliz porque não sou tão minoria assim, temos um movimento hoje, que começa a ficar forte, dessas pessoas que estão caminhando em outra direção. O tempo vai passando e o universo vai oferecendo oportunidades de romper e seguir por outro caminho que não o da medicalização e da mercantilização da vida. E a gente tem essas possibilidades no SUS (Sistema Único de Saúde), embora isso seja boicotado.

Voltando um pouco aqui pro lance da indústria farmacêutica. O que tu pensa sobre essas teorias de que ela detém soluções pra certas doenças e esconde isso pra ganhar dinheiro, vender remédio, pra lucrar mais. Tu acha que isso é factível?

Eu acho que isso é real! Na realidade, no campo da saúde – e falo campo da saúde que não é só medicina – nós trabalhamos com um olhar contemporâneo ocidental, que é um olhar pautado na ideia mecanicista de que o corpo é uma máquina e, como uma máquina, ele é composto por peças que você substitui ou compra as coisinhas pra ajeitar. Hoje, quem tem dinheiro não quer mais parir normal (óia a pág.19), com poucas exceções; todo mundo quer emagrecer colocando o balãozinho bariátrico no estômago, ou então vai tirando os pedaços do corpo. Se você olhar pra lógica do plano de saúde, as pessoas pagam pra ter direito a uma hotelaria, que é mais ou menos refinada de acordo com o valor que se paga. Mas nas medicinas tradicionais, sejam as indianas, as chinesas, as africanas, sejam as tradições milenares dos nossos povos nativos, todas têm um outro olhar sobre a saúde e sobre a vida, que o corpo não é uma máquina, que tudo está dentro de tudo. (O “teólogo da libertação”) Leonardo Boff fala uma coisa muito bonita sobre isso, que em cada célula está o todo, né? E que nós sobrevivemos por causa da solidariedade. O (filósofo e biólogo chileno Humberto) Maturana vai falar do ser humano como ser ontologicamente amoroso e dessa solidariedade que tá em cada célula e que vai contrariar esse olhar sobre a imunologia que diz que a doença é provocada pelo micróbio e pelo microrganismo, né?

Né! Falando um pouco do SUS (Sistema Único de Saúde) agora. No papel ele é um sistema único no mundo, mas infelizmente ainda não funciona a contento. Quais as estratégias de viabilidade pra ele funcionar?

A estratégia dele funcionar é a participação popular. Porque o SUS tem um mecanismo de participação instituído que são os conselhos de saúde. Infelizmente, do jeito como os conselhos foram implantados, eles também viraram espaços de cristalização de determinados poderes. Não são todos os movimentos que conseguem chegar, na maioria dos lugares precisa de CNPJ pra ser representante de conselho. Então, a dificuldade do SUS se efetivar é porque você tem a mesma situação que a gente passa no Brasil: você tem uma elite que não aceita dividir os privilégios com a maioria, que não aceita que os que nunca tiveram nada possam ascender e acessar as coisas. Então, eu penso que pro SUS se efetivar são esses três movimentos que nós devemos fazer: cuidado, formação e participação política.

Pela forma como tu vive, tu acredita que é necessário criar também formas autônomas e independentes ao SUS, de tá cuidando da gente de uma forma solidária, fora da institucionalidade, né? Como aqui no Ekobé. Aliás, uma curiosidade: esse nome, Ekobé, é indígena?

É um nome Tupi que quer dizer “vida”.

Massa! Então, a gente viu que vocês têm atendimentos gratuitos, comunitários, que se baseiam sempre nessa multiplicação dos saberes, desses saberes ancestrais… como é estar aqui no Ekobé?

Olhe, aqui nós atendemos a toda a comunidade, é aberto a quem chegar. Às vezes as pessoas dizem: você tá trabalhando demais. Eu não tô trabalhando no Ekobé naquele sentido original do trabalho. Pra mim aqui eu crio, aqui eu dou e recebo…

Mas esse talvez seja o sentido original do trabalho, que depois foi desvirtuado. O trabalho ontológico talvez seja esse, né?

Isso, o trabalho doloroso é porque o trabalhador tá alienado dele. Eu não estou alienada, eu ajudei a construir esse espaço aqui. Não fui eu só, têm muitos e muitas aqui, né? Isso aqui, minha gente, foi todo um processo. Aqui a gente faz sonhação, a gente não tá esperando que outro mundo aconteça. O mundo possível vai acontecendo aqui, agora. O Paulo Freire dizia assim: eu não vou esperar na pura espera, porque o tempo de espera é um tempo de espera vã, eu quero conjugar o verbo esperançar, porque nesse verbo tem ação. O (poeta de Maranguape/CE) Ray Lima gosta muito de usar a palavra “sonhação”, e no Ekobé estamos fazendo a sonhação!

Aqui a gente faz sonhação, a gente não tá esperando que outro mundo aconteça. O mundo possível vai acontecendo aqui, agora. (…) o tempo de espera é um tempo de espera vã, eu quero conjugar o verbo esperançar, porque nesse verbo tem ação.

Esse termo é lindo, “sonhação”!

Lindo demais!

Vera, pensando no que vocês fazem aqui, qual tua visão sobre práticas integrativas como o reiki ou a meditação no sentido da autocura? De como a gente tinha esse poder (de autocura) e esqueceu?

Pois é, exatamente. Nós passamos a vida inteira entregando o nosso corpo pro outro. Nós entregamos nosso corpo pro médico, pro fisioterapeuta, pra enfermeira; a gente não cuida mais da nossa alimentação, já que é o nutricionista que passa a dieta. Como a ideia de saúde da biomedicina é a ideia mecanicista, do corpo como máquina, então você aprende a formatar a máquina, a condicionar e automatizar a máquina. No caso do Ekobé é diferente, não é à toa que a construção é em espiral, o movimento de espiral é o movimento da vida. Aqui as práticas são complementares: o reiki se junta com a yoga, que se junta com a medicina ayurvédica, que se junta com a medicina tradicional chinesa, que se junta com a prática xamânica, que se junta com as práticas da religiosidade… o movimento de espiral que se espalha, que produz redes, que produz teias, esses são os movimentos da natureza e que produzem autogestão.

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Ekobé: “O movimento de espiral é o movimento da vida

Em relação a essas práticas integrativas (reiki, yoga, acupuntura, xamanismo, entre outras) e à própria permacultura, a gente percebe que voltaram com tudo no Brasil nos últimos cinco, dez anos. Tem um movimento crescente de mais pessoas interessadas e a gente percebe que o mercado disso está crescendo avassaladoramente. Formações em yoga e reiki em pouco mais de um ano e já se pode atender profissionalmente; cursos de bioconstrução e pacotes de PDC vendidos caríssimos, e depois quem aprende sai vendendo também. Tão ganhando muito dinheiro com isso…. A Ivânia (do Ciclovida) disse certa vez numa conversa - e isso nos tocou - que esses saberes são ancestrais, de todas(os) nós, que deveriam portanto serem repassados sem a mediação pelo dinheiro. A pergunta é: esses movimentos já foram também cooptados pela grana?

Olhe, aqueles que têm a lógica de mercado aprisionaram isso nos consultórios privados. Não só os médicos, mas também psicólogos, fisioterapeutas, e por aí vai. A lei do mercado é muito forte, porque conta com a mídia, conta com o dinheiro. Minha mãe usava uns remedim homeopáticos na gente lá no sertão do Rio Grande do Norte. Ela cuidava da gente com as plantas medicinais e com a homeopatia. Quando cheguei no Ceará, conheci logo o movimento de saúde mental do Bom Jardim (bairro da zona oeste de Fortaleza), então comecei a ver o povo fazendo eneagrama e fui fazer homeopatia lá porque não queria fazer em consultório privado. No (Conjunto) Palmeiras a mesma coisa. Nós tivemos algumas pessoas que foram importantes: o professor Abreu Matos, por exemplo, um grande pesquisador da área de plantas medicinais, disse: “eu quero devolver pro povo o que aprendi com ele”. E ele fez a formação de farmácia viva lá (no Conjunto Palmeiras). Esse era pra ser o princípio: ensinar e compartilhar. Hoje (no Ekobé), nós já iniciamos (gratuitamente) mais de 300 pessoas em reiki espalhadas pelo Brasil… isso é a nossa sonhação!

A gente agora queria falar um pouquim de educação popular. Tu, sendo uma das figuras nacionalmente mais conhecidas nesse cenário, pode falar resumidamente o que é essa prática?

Educação popular é uma prática que foi sistematizada no Brasil principalmente por Paulo Freire, e parte de duas questões: primeiro, é a experiência que produz o conhecimento; e que as pessoas aprendem com a sua experiência a se constituir na vida e aprendem a ler esse mundo antes de ler a palavra. Por isso que o Paulo Freire criou um método revolucionário de alfabetização em 40 horas. Ele vai dizer: como é que eu me liberto? Me liberto quando me inquieto, quando consigo problematizar minha realidade e aí construo uma consciência crítica, que ele chamou de conscientização, que me leva a agir, transformar a realidade e fazer novas reflexões. Experiência, reflexão crítica e o olhar libertário pra entender que as coisas (sociais) não são naturais, que acontecem porque existe um processo que as determina. Então, a educação popular é um ato político, que permite às pessoas se perceberem capazes de construir, e que não se constrói solitariamente. A gente aprende a ler isso na educação popular!

E que “ninguém educa ninguém”. As pessoas se educam em comunhão, né?

Isso! João Santiago, que é um poeta de Crateús (CE), que hoje vive no Paraná, diz assim (no poema “Educação Freireana”): “Mas o que é educar?/ Tem a educação bancária, tem a educação popular/ Uma ensina a obedecer, a outra a aprender porque ensina a pensar/ Educação popular é por si só diferente/ Ninguém educa ninguém, faz-se coletivamente/ Não tem um saber maior, porque não tem um menor, tem o saber que é diferente/ Educação popular não se faz na solidão/O caminho da liberdade é o mesmo da educação/ Somente o amor humaniza/ A educação deve e precisa acontecer em união”. O Paulo Freire, além do olhar político, da ideia de libertação, traz uma questão que são os dois princípios fundamentais pra essa educação acontecer: o diálogo, que não se resume na relação eu-tu, mas como essa possibilidade de construção compartilhada de vida e de conhecimento; e o outro princípio é o da amorosidade, que não é essa amorosidade piegas, romântica, ele tá falando dessa possibilidade de ser com o outro, da compaixão.

Paulo Freire é massa! No teu doutorado, tua tese falava da perspectiva popular das “cirandas da vida”. E aqui no Ekobé vocês trabalham com ciranda, teatro, biodança… Como é essa dimensão da arte dentro da educação popular?

Eu digo inclusive que a arte é cuidado, né? Porque a gente concebe essa dimensão da arte como essa capacidade que todo ser humano tem de transcender, como soube muito bem trabalhar Nise (da Silveira, psiquiatra alagoana que a partir de meados dos anos 1940 revolucionou o tratamento psiquiátrico no Brasil através do incentivo à prática das artes plásticas pelas pessoas com transtornos psicológicos). Então, eu transcendo quando eu faço uma massagem, uma aplicação de reiki, e eu transcendo quando eu consigo brincar e dialogar com o outro, com a outra, numa vivência de teatro, numa ciranda. Na educação (tradicional), a gente ainda tem um olhar instrumental sobre a arte, do mesmo jeito que a gente tem um olhar mecanicista na saúde. É muito potente quando as pessoas cuidam com arte, se expressam com arte. Mas infelizmente, no geral, ainda não ocorre assim.

Vera, chegando aos finalmentes da entrevista, a gente não podia deixar de falar sobre a situação política do país, tudo que tá acontecendo. Paulo Freire – mais uma vez ele – dizia que o homem de esquerda se equivoca quando tenta “domesticar o tempo”, algo como domesticar a História e se apegar docilmente às velhas técnicas de representação. Como tu vê o cenário brasileiro hoje e como tu vê a questão das eleições?  

Olhe, eu fui militante do PT desde a criação dele. Mas hoje o nosso sonho foi virando pesadelo exatamente por essa ótica mercantilista, capitalista, que vai moldando os processos da burocracia e de governo pros interesses… E aí as pessoas que estão à frente dos processos estão tão engrenadas naquelas garras que vão, né? Não acredito mais nesse modelo de democracia, acho que temos que construir outra coisa. E isso não é do nosso país, isso é do mundo.

Como seria esse modelo?

Pra mim é um modelo pautado nesse caminho que nós vamos construindo aqui (no Ekobé), libertário, autogestionário. Acho que temos algumas possibilidades que já existem: o Ekobé é uma delas, o movimento Bem-Viver dos índios da América do Sul, essas possibilidades de se trabalhar com as grandes assembleias populares, de se sair desse modelo da democracia. Nós precisamos sair desse modelo da democracia representativa. Ela já deu o que tinha de dar. Esse modelo tá totalmente bichado. E isso precisa vir das bases, né? Sou uma esperançosa incorrigível!

Nós precisamos sair desse modelo da democracia representativa. Ela já deu o que tinha de dar. Esse modelo tá totalmente bichado. E isso precisa vir das bases, né? Sou uma esperançosa incorrigível!

E vive de sonhação, né?

E vivo de sonhação, não tô parada na pura espera e nem vou ficar. Eu vou pra rua! Agora, não vou pra rua defender partido nenhum, não vou pra rua defender Lula nem Dilma. Agora, como estamos num cenário que tem muitas forças complexas, nós precisamos nesse momento saber quem são os aliados e quem são os adversários. Hoje eu amanheci o dia lembrando de um poema do Agostinho Neto e queria compartilhar com vocês. Não sei se lembro todo, mas vou dizer a parte que conheço (ela se ajeita na cadeira e recita): “Dos que vieram e conosco se aliaram, muitos traziam sombras no olhar, intenções estranhas/ Para alguns a razão da luta era só ódio: um ódio antigo e duro como uma lança/ Para outros era uma bolsa vazia, queriam enchê-la de coisas sujas, inconfessáveis/ Outros viemos. Lutar pra nós é um destino, uma ponte entre o amanhecer e o desejo de um mundo novo/ Queremos um mundo novo/ Na mesma barca nos encontramos/ Todos decidem: vamos lutar/ Lutar pra quê? Pra dar vazão ao ódio antigo? Ou pra construirmos a liberdade de ter pra nós o que queremos?/ Sim, queremos ter pra nós o que queremos!/ Na mesma barca nos encontramos/ Quem há de ser o timoneiro?/ Quem há de ser o timoneiro?”… Eu acho que não tem que ter um timoneiro, todos e todas temos que ser os timoneiros!

A entrevista acabou com uma entusiasmada salva de palmas, após toda a beleza da poesia e a interpretação visceral de Vera!

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Entrevista publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 (pgs. 6 a 9) (aqui, versão PDF)

Espia aqui outras entrevistas: revistaberro.com/categorias/entrevista/

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Siba: “A música, dança e a poesia podem nortear um modo de viver distinto desse aí (da grana como a coisa central)”

Pelo simples fato de existir, o maracatu, o candomblé, já é resistência” (Fotos: Dragão do Mar)

Um brincante do verso, Sérgio Roberto Veloso de Oliveira, mais conhecido como Siba, acumula mais de vinte anos de carreira. Teve uma adolescência roqueira e começou sua vida artística em 1992, no grupo musical pernambucano Mestre Ambrósio, tocando rabeca, guitarra, cantando e compondo. Quando ainda estava no grupo participou, em 1997, da trilha sonora do premiado filme pernambucano Baile Perfumado. Filho do manguebit e de toda a atmosfera que pairava nas ruas do Recife nos anos 90, Siba reapropriou em seu trabalho elementos da cultura popular e teve uma forte influência do maracatu de baque solto. Depois de sair do Mestre Ambrósio criou o projeto “Siba e a Fuloresta”, em 2002, fruto da experiência com os mestres de maracatu de Nazaré da Mata. Lançou, em 2010, o disco Avante, produzido pelo guitarrista e compositor cearense Fernando Catatau.

A Berro o entrevistou na oportunidade do show de lançamento do seu recente disco De Baile Solto em Fortaleza, no último mês de julho. Siba aparece neste novo trabalho com um discurso mais político e atento às ameaças que a cultura popular vem sofrendo frente ao mundo do consumo. Na entrevista ele falou sobre sua experiência com os mestres de cultura popular, outros modos de vida e sobre sonhar.

Revista Berro: Siba, esse negócio da poesia na tua música é muito forte. Quando foi que começou essa relação com as palavras?

Siba: Essa coisa de como começou é muito difícil, porque você nunca lembra exatamente. Porque eu e minha família toda somos do agreste, do semiárido do Nordeste, que é uma região cultural que é uma coisa só, do Piauí, Ceará até o norte da Bahia. É uma região que tem uma poética própria e eu convivi desde pequeno, mas nada intensivo, em casa não tinha isso, não sou filho de cantador, nada disso. Tinha isso no ar e tal e meu pai gostava bastante, mas depois vai ficando uma coisa mais presente.

Onde você nasceu?

Nasci no Recife, mas minha família toda é do agreste, de Garanhuns, Caruaru, Lajedo. Tem uma experiência de poesia indireta, não tinha em casa, mas tinha indireta, no ambiente, de alguma forma.

Mas quando você começou a compor?

Com o Mestre Ambrósio, já envolvido com maracatu, cavalo marinho.

Quando você foi participar do Mestre Ambrósio, já conhecia o maracatu de baque solto?

Já, a primeira vivência foi por ser de Recife, a cidade tinha um ambiente, no Natal, no Carnaval, no São João. Mas acho que tem muito a ver pra mim com o momento de escolher, de arriscar, de fazer a escolha da opção de risco, ser artista e tal. Quando eu fiz essa opção, de dezenove pra vinte anos, eu entendi que precisava pensar sobre a opção que tava fazendo, tentar entender minha posição no tempo e no espaço, do lugar de onde eu vinha. Aí naturalmente percebi que tava num lugar que eu partilhava dessa referência. Cresci ali, era um moleque do rock, mas, ao mesmo tempo, antes disso tinha uma referência muito outra. Então eu vim buscar essa poesia e era uma coisa que em casa não se falava sobre isso, era uma coisa que, como eu falei, não era intensiva, mas, ao mesmo tempo, tinha uma coisa de imaginar o cantador como uma figura transcendental, idolatrada. Acho que vem muito daí indiretamente de família, indiretamente mesmo, mas depois eu busquei. O maracatu de baque solto é a grande referência pra mim porque remete a inversão de valores da música, tinha tudo que o rock tem de outro jeito.

O discurso do De Baile Solto é permeado por essa coisa da resistência. Mesmo com as movimentações da cidade, da gentrificação, tem a questão dos focos de resistência. O maracatu de baque solto seria isso? Você acha que a arte que eles fazem, essa cultura popular que você até usou o termo no show de tecnologias sociais seria um ato político?

Cara, sempre é, porque você imagina que esses modos de fazer, eles vem sempre do negro e do índio, em raríssimas exceções. Então o simples fato de existir já é uma posição de confronto, de questionamento. Por mais que toda a fabulação seja complacente, de diminuição, aquela coisa que eu falei, o folclore. O senso comum é tão pesado, mas o trabalho da mídia, dos discursos que falam que o lugar dessas coisas é muito inferior. Porque hoje é legal, é tranquilo, mas nos anos 30 a polícia chegava e mandava parar, quebrava, prendia, matava. E hoje volta a ter um movimento nesse sentido, eu acho. Acho que a gente volta a ter um movimento muito preocupante realmente de ataque à existência dessas coisas. Pelo simples fato de existir, o maracatu, o candomblé, isso e aquilo outro já é resistência. Agora a possibilidade de um discurso mais afirmativo, mais direto, questionador, aí o buraco é mais embaixo. Porque as pessoas nessas condições sabem o que enfrentam, a pouca expectativa, por isso que têm as suas estratégias pra sobreviver. Mas o simples fato de existir o maracatu de baque solto é…

Um ato político.

Com certeza.

Tem um professor aqui em Fortaleza, o Gilmar de Carvalho (jornalista, escritor, professor universitário de comunicação e pesquisador da cultura popular), que fala que a cultura popular não precisa ser resgatada, porque ela não está se afogando. Essa afirmação da cultura popular, ela existindo, já faz ecoar um discurso político, que não está presente na letra, mas sim na própria existência da arte?

É o que eu falei, eu faço o meu discurso como um indivíduo, como uma pessoa que tem relação com essa coisa que vem também dela, mas que tem a possibilidade de agir e, mais do que isso, de falar pra muita gente. Mas eu não represento o maracatu, tô falando por mim, pela minha relação com essa coisa toda e como uma questão de pensamento, como uma afirmação de dignidade pessoal. Não seria digno da minha parte vir de onde eu vim, ter tido essa experiência com o maracatu e ele ser tão central no meu trabalho e eu ficar calado frente ao que aconteceu recentemente e ao que acontece ainda. Seria indigno, vergonhoso. Então pra mim tem essa questão pessoal. Eu tenho que me colocar em relação a isso.

É uma motivação…

Não é uma motivação, é uma questão de dignidade. Não caberia a mim não falar, não me expor em relação a isso. Quem sente de fato não sou eu, claro que eu sinto também, mas eu não tô lá, eu moro em São Paulo. Tenho a minha banda, toco, ganho a minha grana, tenho a minha vida classe média e tudo mais, entendeu? Mas quem tá em Nazaré da Mata, Goiana, Condado tem somente o maracatu como modo de vida e de uma hora pra outra alguém lá no escritório diz que a polícia manda parar duas da manhã. Isso é um ataque central à dignidade de uma pessoa, lá. Cada um faz o que quer, eu como tive o privilégio de ter tido acesso a esse conhecimento e isso ter me formado como pessoa, não caberia a mim não me colocar. Mas eu não represento o maracatu, eu represento a mim mesmo.

Mas o que é que tu pode falar que aprendeu no tempo lá da Fuloresta que tu foi morar em Nazaré da Mata, ficar mais perto deles? Uma principal coisa que você tirou disso tudo, dessa vivência, se pudesse resumir?

Aprendi que é possível viver de outro jeito e ser de outro jeito. É até difícil resumir, mas esses espaços, eles representam possibilidades de diferenças e de não ser da forma que tá sendo, cada vez mais tudo igual e a grana ser a coisa central.

É um modo de vida possível…

É um modo de vida diferente. Se você acha que o mundo e as pessoas todas do mundo caminham pra uma uniformização, que todo mundo tem que ser e agir como um macho branco que tem grana e que manda no mundo, beleza. Mas se você acha que o mundo precisa ser plural e diferente, esses espaços servem pra isso. Pra você entender que é necessário um mundo diferente e que a música, dança e a poesia podem ser o centro da vida e podem nortear um modo de viver distinto desse aí. Porque pra mim eu sou um cara de classe média. Eu vim de uma família que vem do interior, da zona rural, meu avô foi agricultor, meus tios todos também, mas eu sou um cara de classe média que estudou em colégio de classe média, que teve formação universitária. Eu com dezoito anos já sabia que isso tudo era uma merda do caralho e que não tinha muito pra onde ir com isso, era uma vida meio estéril. O maracatu me deu esse outro lado, um outro jeito de viver. Então é a possibilidade de uma outra referência.siba

Essa questão da sonoridade do disco, você disse em algumas entrevistas que teve influência, referência da música congolesa. Você acha que tem alguma ligação da música congolesa com o maracatu de baque solto, ou foram coisas que passaram por ti e você reprocessou de maneira diferente?

Cara essa coisa da referência, de origem é besteira. É claro que deve ter porque uma parte significativa dos escravos que vieram pro Brasil eram da região do congo, angola e a maioria dos escravos que vieram dessa região são os que vieram primeiro e que formaram o que a gente chama de cultura popular. E é fácil perceber uma relação entre a cultura popular com música do congo. Mas essa coisa da relação da origem, da raiz é besteira. É pessoal, sou eu, eu tive uma experiência de sentir essa música diferente pra mim, de me sentir representado nela e de alguma forma me aprofundar nessa escuta, de usar ela como elemento de estranhamento, de fertilização. Porque pra mim a questão tá muito em quando você procura um caminho diferente, você precisa de um elemento que fertilize porque não dá pra você pegar um estilo e seguir ele quando já não tem mais o que dar. Pra mim a música do congo serve muito como isso, pra mim, só pra mim, mas não tem a ver com um elemento de origem.

Durante a feitura do disco você estava escutando essa música?

Eu ouço música moderna africana há alguns anos já, agora a do Congo sempre me escapou por algum motivo. Mas ela vem sendo uma referência desde o processo do Avante, desde 2010, já é uma história, eu já sou meio “congofreak”. No Brasil eu não conheço ninguém que goste dessa música do congo como eu gosto, normalmente essa referência passa batida aqui. Na Bélgica e na França, como tem essa relação de colônia é mais próxima, né.

Talvez Caçapa (músico pernambucano Rodrigo Caçapa)…

Sim, tem mais gente, Caçapa, Kiko.

E o Kiko (Kiko Dinucci, integrante da banda paulista Metá Metá) tem uma participação na faixa O Inimigo Dorme, como foi o convite?

Kiko é brother, amigo, parceiro e eu adoro o violão dele. Não tem muito o que dizer, tava perto ali, tinha a ver e foi, aconteceu. Todas as participações do disco têm uma relação pessoal.

O disco foi tu que produziu.

Por isso que saiu daquele jeito! Hahahahahaha!

Ele foi mixado pelo Kalil (Yuri Kalil, da banda cearense Cidadão Instigado) e o Catatau (Fernando Catatau, produtor musical e integrante da banda cearense Cidadão Instigado) produziu o Avante. Você vê alguma ligação estética com o Ceará, essas pessoas daqui?

O Kalil vem com a relação com o Cidadão, não vai muito além disso. É um cara que eu gosto do som que ele tira, no momento de mixar tinha uma condição de tempo e uma possibilidade de fazer, não vai muito mais longe que isso. Sim, eu adoro como ele lida com o som e a mixagem é uma coisa que define muito o trabalho, o disco. É preciso ter uma comunicação e naquele momento de decidir a mix Kalil tava mais próximo, a comunicação, só isso.

Por que você regravou Gavião, que foi gravada pela primeira vez no terceiro disco do Mestre Ambrósio? Qual foi sua motivação principal?

A música importa pouco nesse caso aí. Em algum momento do processo do desenvolvimento do Baile Solto eu fui tentando resgatar alguns textos que faziam sentido pra mim. Aí o texto do Gavião se ele conversa com o resto do disco, ele tem uma proposta que acho bem interessante, representa de alguma forma essa possibilidade do assombro com isso que a gente chama de natureza. A gente vive uma relação bem careta, bem definida, a natureza é o lá fora e é ao mesmo tempo um produto, matéria-prima. É a possibilidade de você se assombrar com a existência de uma outra criatura e é um texto velho meu que eu gravei no Mestre Ambrósio, mas é de muito antes. De repente eu fui percebendo que o texto conversava com meu momento. A possibilidade do assombro perante uma outra forma de vida que hoje eu acho isso bem importante. A gente precisa redescobrir esse assombro pra reconstruir o respeito que tá acabando com várias formas de vida, basicamente isso.

Em O Inimigo Dorme e Três Carmelitas, o tema do sonho aparece bastante nessas duas faixas. Como é que tu acha que é possível fazer isso? Você acha que faz isso no teu trabalho, uma possibilidade de se sonhar fazendo a tua música?

Só o fato de fazer o que eu faço com os meus parceiros já é uma coisa bem surreal. Uma coisa que não tem formatação direito como profissão até hoje, num mundo cada vez mais formatado como uma empresa, como carreira. A própria escolha já é meio bizarra. Não sei, tudo isso tem a ver com não aceitar viver num mundo onde a grana é o valor central. Três Carmelitas tem mais a ver com a coisa onírica mesmo, de sonho, de afirmação de uma relação familiar e feminina. O Inimigo Dorme já é outra coisa, mas tem uma questão de aceitar que seja possível imaginar caminhos diferentes, não ser isso somente, ser outra coisa, mesmo que dê errado, foda-se, é isso.

A poesia, ela ainda cabe né?

Tem que caber né, alguma poesia…

Por mais que o momento seja pessimista…

O momento é pessimista, mas sempre é. Então qual é o lugar, qual é o elemento que deixa pelo menos a força de reagir? Porque pessimista é, mas tem que ter força pra tentar alguma coisa. Fazer o quê? Abaixar a cabeça? Assistir o Sílvio Santos, ainda?

Laerte: “Não há limiar para o humor”

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(Foto: Jonas Tucci)

Uma das mais conhecidas cartunistas brasileiras. Da geração dos anos 70, viveu a ditadura de perto, participou de vários projetos daquela turma sonhadora que resistia ao regime militar. Criou diversos personagens que se tornaram bastante conhecidos, como Os Piratas do Tietê, Overman, O Gato e a Gata, a série O Condomínio, entre outros. Publicou diversos livros, incluindo coletâneas com charges e cartuns. Escreveu peças e foi roteirista de programas de tevê, colaborou com O Pasquim e, junto com Glauco e Angeli, formou um trio que fez sucesso nos quadrinhos brasileiros: Los 3 Amigos (Laerton, Glauquito e Angel Vila). Atualmente, publica charges na Folha de São Paulo e apresenta o programa Transando com Laerte, no Canal Brasil. Ufa!

Há alguns anos assumiu a transgeneridade e já deu incontáveis entrevistas sobre o assunto. A Berro, pra variar, também abordou o tema na conversa com a artista. Suas palavras são afiadas e seu senso crítico é pra lá de aguçado. Confira! Boa leitura!

A Berro bebe muito da fonte pasquiniana. O Pasquim, para nós, é referência, como ícone de anarquia, de escracho, de humor contundente que marcou uma época. Como você, tendo sido colaboradora, vê a atuação do semanário carioca naquele momento político difícil que o país passava?

As publicações são frutos do seu contexto. O Pasquim tentou se refundar várias vezes, mas o momento, as ideias, as pessoas, tudo era diferente.

E será que não tá faltando hoje no Brasil um Pasquim não, hein?

O fato de ter existido um Pasquim naquela época não autoriza a pensar que falte “um Pasquim” hoje.

Por quê?

Há muitas ideias em circulação, em papel, na internet, nas mídias. Talvez não tão marcantes, mas os tempos mudaram também. Não há uma ditadura, não há mais a concepção de bem e mal, ou há, mas de um modo mais escorregadio. Havia naquela anarquia alguns elementos que soam ridículos hoje, como o culto à boemia, ao alcoolismo, à heterossexualidade, não?

Sim, sim, soam bastante descontextualizados e anacrônicos. Mas, mudando aqui de assunto, um passeio de quinze minutos no centro da cidade é o suficiente pra gente lembrar o que nos faz amar e odiar uma metrópole como Fortaleza. Todo machista querendo dar uma de estilista, comentando o tamanho das roupas femininas. Esse assunto no Brasil é intrínseco à história do país. A mulata da Globo anualmente é colocada como objeto sexual que referencia a mulher negra, mas todo mundo vê como normal. Você acha que isso pode ser trabalhado na sociedade?

“Trabalhado” é bom… faz pensar num esquadrão de boas consciências que “trabalham” as mentes decaídas. Questões como essa vêm sendo trabalhadas desde o século 19, pelo feminismo. Nada está parado, está?

Não, nada está parado. Mas as coisas precisam mudar mais rápido, talvez. Ainda abordando a emissora carioca e a televisão em geral, na sua obra, Laerte, existe também a participação como roteirista em alguns programas da TV Globo, né? Então, como você vê a influência na estigmatização da mulher, do homossexual e do negro pela tevê aberta brasileira?

Se esta é uma acusação velada, desvelemo-la. Eu escrevi para o Sai de Baixo — programa que foi apontado várias vezes como fonte de ridicularização da mulher, no caso da personagem Magda; de linguagem humilhante sobre a pobreza, no caso da personagem Caco Antibes; de estigma quanto à população originária do Norte e Nordeste, caso da personagem Ribamar. Não tinha negro e veado, mas podia ter.

Não sei se lamento ter escrito o que escrevi. Não sei se aceitaria escrever de novo. Minha relação com o que se entende por “humor” mudou bastante e não se reduz a fórmulas de procedimento respeitoso. Não sei se é possível reduzi-la a alguma coisa….

Além de remunerar e dar uma certa visibilidade ao seu trabalho, você vê algum outro benefício ou aprendizado como artista nessa experiência na Globo?

Remunerar remunerou — não deu visibilidade porque eu fazia parte de uma das muitas redações. Se eu não contasse para as pessoas que redigia para Sai de Baixo ou TV Colosso, ninguém saberia. Os créditos passam em velocidade, ninguém lê.

Sim, houve muitas lições que aprendi, principalmente vindas do Cláudio Paiva. Ele me ajudou a entender a dinâmica da produção para tevê, as muitas possibilidades da linguagem, as diferenças sutis e não tão sutis em relação à mídia impressa.

Hummm… certo! Trocando aqui o assunto mais uma vez, o que você considera mais importante no fazer artístico?

Essa pergunta é surrealista, não?

Não, não achamos não. Mas, tentando refazer a pergunta pra ficar mais claro: a expressão artística é talvez a forma mais autêntica de colocarmos nossa opinião, nosso berro sobre várias questões…

Por que a expressão artística é a forma “mais autêntica” de colocar opinião? E o discurso científico? E a construção sociológica, antropológica, religiosa?

Pois é, por isso colocamos o “talvez”, que faz toda a diferença. Hehehe! Mas, continuando a pergunta, você já criou muitos personagens, e há mais de dez anos resolveu aposentá-los, não é verdade? Por que decidiu parar com eles? Acabou a paciência, a criatividade ou a vontade em fazê-los?

Meus personagens. Parei de trabalhar com eles porque senti ter completado um ciclo de vida.

Trabalhar com personagens — ou com fórmulas de roteiro como as que eu usava para construir as tiras e histórias — me pareceu um recurso sem vida, em determinado momento. Por isso decidi fazer essa mudança geral. É preciso sempre dizer que esse movimento foi totalmente pessoal e intransferível. A avaliação dos processos de criação só pode ser feita pela pessoa que cria.

Enfim, parei de fazer por sentir que não havia mais sentido para mim continuar naquele procedimento — repito que isto é absolutamente pessoal e intransferível. Não se aplica a qualquer outra pessoa criadora de humor ou tiras a não ser pelo julgamento dela própria. No mesmo movimento, resolvi retomar certos procedimentos que havia deixado pra trás quando me profissionalizei. A profissionalização é um endurecimento, um auto-enquadramento em nome da eficiência profissional. No meu caso, achei que devia recuperar algo da liberdade com que criava aos 19, 20 anos de idade.

Ainda com relação aos personagens, o Grafiteiro, nas suas “oficinas de educação sexual”, geralmente laça as mulheres com uma corda e tem comportamentos marcadamente machistas e fetichistas em relação ao sexo. Numa das tirinhas, ele laça a mulher, e tendo-a presa à corda, diz que educação sexual é tirar-lhe a roupa e depois ela ainda tem que dizer “obrigada”. Para alguém que, como você, sofre horrores com a opressão machista, soa bastante contraditória a tirinha. Sabemos que ela foi desenhada num outro momento de sua vida, mas, vendo-a hoje, você tem algum arrependimento de ter feito HQs assim, bem machistas?

Sinto na pergunta uma crítica, que recebo com respeito e deferência.

Mas ela de fato é uma crítica!

Sou uma pessoa muito contraditória — como várias outras pessoas, tidas como saudáveis. Talvez vocês mesmos sejam contraditórios, considerando um percurso profissional de 40 e tantos anos, não?

Estamos só começando, engatinhando… mas a gente também é contraditório. É normal viver as contradições.

Talvez seja quase normal, hein? Talvez eu nem precise me autoflagelar em praça pública, hein? A não ser que peçam e paguem bem. Não me “arrependo”, mas tenho uma visão crítica do que fiz. Provavelmente eu não faria de novo nada do que já fiz.

Massa! Vivendo e aprendendo. Nós da Berro ainda temos muuuito o que aprender. Mudando aqui de assunto: numa entrevista a um blog de um desses jornalões da mídia empresarial, você reitera, citando Hugo Possolo, que “pode fazer piada de qualquer coisa, o que importa é saber de que lado da piada você está“. A gente te pergunta, então: o humor pode tudo, Laerte?

A criação pode tudo, claro.

Até mesmo reproduzir, reforçar e sustentar preconceitos e opressões?

Até isso que vocês mencionam. O que tem é que ouvir, depois. O que não pode é censurar, antes.

Se você prestar atenção no que o Hugo disse — que a questão é saber de que lado da piada você está — vai entender que é possível tocar em qualquer tema sem “reproduzir, reforçar e sustentar preconceitos e opressões”. A não ser que você, enquanto autor ou autora, esteja interessada exatamente nesse objetivo, o que não é crime. E nesse caso não adianta nenhum tipo de regulamentação da linguagem, não adianta censurar. Para discursos que violem as leis, deve haver um Judiciário adequado.

“Um Judiciário adequado”? Esse é um dos problemas. Enfim, noutra entrevista que você deu sobre o atentado ao Charlie Hebdo (jornal satírico francês que teve sua redação invadida e assassinada por fanáticos extremistas), você diz que os cartunistas franceses do semanário fazem coisas que os brasileiros não fariam, como desenhar Maomé pelado de quatro com estrela no cu. A gente pensa que o humor deve ter esse componente agressivo, mas até que ponto desenhar o profeta sagrado dos muçulmanos daquela forma não se perde na construção desse propósito de contundência?

“Não se perde na construção desse propósito de contundência”. Nossa, vocês se perderam nesse propósito de pergunta.

É verdade, tá com muita firula. Sem rodeios, a pergunta é: nesse contexto específico, qual o limiar entre o humor e o reforço à opressão a grupos historicamente oprimidos (gays, transgêneros, mulheres, negros, etc.)?

Não há limiar. O discurso da comicidade é necessariamente agressivo. Não há como não sê-lo. Ao mesmo tempo, não goza de imunidade parlamentar, precisa responder pelo que afirma ou reforça ou apregoa ou elege. Aí, repito, entra a necessidade de um Judiciário eficiente, na defesa de pessoas oprimidas e prejudicadas.

“Judiciário eficiente” é muito “cidadão de bem”, né não? Mas enfim, muitos justificam as charges do Charlie Hebdo que satirizavam Maomé dizendo que eles também faziam desenhos jocosos de personagens e dogmas sagrados para cristãos e judaicos. Em que medida esse “sair atirando para todo lado” concretamente serve ao humor?

Em que medida não serve? Lá em cima vocês mesmos fazem o elogio do Pasquim, justamente daquele que “é referência, como ícone de anarquia, de escracho, de humor contundente”. Isso não rima com atirar pra todo lado?

Pois é, são as nossas contradições vindo à tona… Muitos humoristas de décadas passadas são pessimistas em relação à qualidade do humor atualmente. Parte da sociedade questiona os limites do tema. Como você enxerga o fazer humorístico na atualidade?

Eu não estou preocupada com os limites do humor. Estou preocupada com os horizontes dele, se me permitem uma figura retórica meio romântica. O fazer humorístico continua a todo vapor, na rede, no papel, na vida.

E quais as principais diferenças que você percebe hoje em relação à época em que começou a trabalhar o tema com seu traço?

A época em que comecei a trabalhar se caracterizava pela ideia de que existe o mal — a ditadura e seus apoiadores — e o bem — todo o resto. Naquela época era tudo mais fácil, simples e sumário. Demorou pra cair a ficha.

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(Charge vencedora do 1 º Salão de Humor de Piracicaba em 1974, de Laerte)

Ainda sobre a ditadura, em 1974, você ganhou o prêmio do primeiro Salão Internacional de Humor de Piracicaba com uma charge que remetia às torturas sofridas naquela época, né?

As pessoas que falam com leveza sobre tortura não foram torturadas nem têm ouvidos para quem o foi.

Essa inversão de valores e concepções do personagem remete a um certo medo da tortura, mas hoje vemos uma inversão de valores generalizada pelas pessoas, inclusive ilustrado por um discurso estigmatizado sobre quem “merece” ser torturado. Você, por ter vivido nessas duas épocas, pode falar de algumas distinções entre essa parcela de pessoas que era/é a favor da tortura nesses dois momentos?

Gente que pede intervenção militar ou que acha que tem que “descer o pau em bandido” não vê o outro, não enxerga a humanidade do outro. A tortura continua no Brasil, diariamente, sobre pessoas que não despertam a comoção da população. A ideia de uma cultura de direitos humanos ainda está bem longe, segundo penso.

Tirando agora o peso do tema, e falando de algo leve, nessa nova safra de quadrinistas brasileiras(os), qual aquela(e) ou aquelas(es) que você bota fé?

O Rafael Coutinho é o meu paradigma de nova geração.

O que há de diferente e inovador no trabalho dele?

Ele tem um trabalho original, forte e que frequenta e inventa possibilidades de uso de mídia que a minha geração nem sonhava. Há muitos nomes; cito apenas o Rafael porque é um dos melhores, porque tenho receio de não citar pessoas que deveria e porque ele é meu filho.

Isso tá com cara de nepotismo nos quadrinhos. Hahahaha! Brincadeirinha! Com relação à sua escolha pelo travestismo, que começou a ocorrer mais ou menos há cerca de dez anos, você já deu centenas de entrevistas falando como foi o processo, o conflito interno, etc.

Dei centenas de entrevistas mas ainda tenho que ouvir “escolha pelo travestismo”. Que cansaço.

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Muita gente chutou à vontade, mas é quase impossível explicar de uma forma só a transgeneridade” (Foto: Claudia Ferreira)

Eita mah! Foi mal aí! Mas, voltando à pergunta, o Jung, com seu conceito de anima, explica parte desse comportamento, embora não necessariamente a energia feminina que todo homem possui resvale para o cross-dressing, para a bi ou para a homossexualidade.

Jung deve ter chutado bonito, li muito superficialmente o que ele pensava, muita gente chutou à vontade, mas é quase impossível explicar de uma forma só a transgeneridade. Quanto à homossexualidade, não tem necessariamente conexão com o desejo de pertencer a outro gênero. São coisas diferentes, que se articulam, mas são autônomas: o sexo biológico, a orientação sexual e a chamada identidade de gênero.

A verdade é que não deve ter sido nada fácil optar por esse estilo de vida. À parte o preconceito e o estranhamento social – que vêm em larga medida, qual o berro que você dá ao assumir-se enquanto transgênera, Laerte?

Acho que não dou berro, não. Sou quietinha.

Berrar é bem facim ó: bééé! Mas ainda sobre o assunto, o Brasil é o país do mundo que mais mata pessoas pelo fato destas serem assumidamente homossexuais.

Não só “assumidamente homossexuais”. Matam transgêneros também. Pessoas que “parecem” homossexuais ou transgêneros, também. Pessoas que parecem remotamente essas categorias também.

Sim, sim, claro. Você fundou a ABRAT (Associação Brasileira de Transgêneros), que luta para combater essas estatísticas de horror. Analisando nosso cenário, você consegue enxergar luz no fim do túnel para essa questão num país tão conservador e machista como o nosso?

Somos um país difícil, mas acho que as coisas estão mudando. Parece estranho falar em coisas mudando quando o número de mortes com motivação homotransfóbica ainda é tão alto, mas há conquistas significativas em todos os lugares, que não dizem respeito só a pessoas com algum tipo de destaque; devem beneficiar, a algum prazo, a população LGBT como um todo. Acho que a medida em que essas mudanças se consolidarão vai ser dada pela compreensão de toda a sociedade do caráter universal dos direitos que reivindicamos. Ao contrário do discurso cruel do moralismo e do conservadorismo, não se está buscando nenhum tipo de privilégio, mas sim um avanço real no gozo nacional dos direitos civis.

*Entrevista publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

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Camilo Cavalcante: “O cinema nordestino é o que tem de melhor na produção brasileira contemporânea”

Em termo de potencial o Nordeste é um vulcão à beira da erupção criativa” (Fotos: Cristofthe Fernandes/Revista Berro)

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Na segunda parte da entrevista Camilo Cavalcante fala sobre cinema pernambucano e cearense, além de explicar alguns processos de construção do seu último filme, o longa A História da Eternidade.

Revista Berro: Você cita alguns poetas como Drummond e Torquato Neto no seu último longa. Como foi a montagem das referências artísticas n´A História de Eternidade?

Camilo: Na verdade eu trabalho sempre com muitas referências e influências. Todos os meus filmes têm muitas referências, seja literária, seja musical, seja cinematográfica, seja das artes plásticas. Nesse filme é como um mural de Alfonsina, uma bricolagem de referências que me tocam, primeiramente, coisas que me sensibilizam.

camilo.maos2aQue você acha que vai encaixar na história?

Camilo: Vem pra mim de uma forma esquemática e natural. O filme demorou muito pra ser realizado, com processo de inscrição de edital e tal, e nesse tempo pra mim a música “Fala” era como um dogma. Eu sabia da importância dessa música dramaturgicamente, eu sabia que o primeiro movimento de câmera seria quando entra o arranjo de violinos, seria ali. É um dogma que eu me coloquei. Quando o mundo gira junto com o personagem, e isso acontece aos cinqüenta minutos de filme, é um momento de epifania, um movimento libertário, o quanto a arte pode ser libertária e transformadora. Um momento onde o personagem parece que vai alçar voo. É um filme que tem três momentos elípticos. Tem esse primeiro momento, que é o “fala”. Depois tem o momento onde o tio apresenta o mar pra sobrinha, onde a catarse é possível através desse movimento. E tem um terceiro momento elíptico que é o sol com um halo, que representa o olho do cego que vagueia procurando por um, representa o ovário de Querência fecundado, representa o sol, logicamente… e representa também o Ouroboros, que é o símbolo da cobra comendo o próprio rabo, que significa a eternidade. Um ciclo que sempre se repete.

O sol sempre há de brilhar mais uma vez, né?

Camilo: Pois é, a vida continua… a gente tem tudo ali representado naquele microcosmo, a humanidade tá representada em termo de sentimento: tem o ódio, tem o ciúme, tem o desejo, tem a gratidão, a ingratidão, tem a generosidade. Muitos sentimentos e contradições do ser humano representadas ali naquele microcosmo.

Algumas pessoas colocaram os personagens como clichês, como uma representação forçada do sertão. Você pode comentar sobre a construção dos personagens?

Camilo: A gente tá mexendo com um trabalho que é como uma mitologia sertaneja. O cego Aderaldo, a menina sonhadora, o pai patrão, o artista como uma pessoa doente, incompreendido… mas acredito que a gente consegue ressignificar esses arquétipos. Do mesmo jeito que eu tive a liberdade de fazer o filme, de contar a estória da maneira como eu queria, o público tem a liberdade de sentir o filme da maneira que puder. Apesar de tudo é um filme que tem várias camadas, várias formas de leitura. Mas pra mim o problema é que tem gente que olha e vê como um livro com as páginas em branco, nisso aí eu não posso fazer nada.

Você não pode colocar um arco-íris onde você pretende um sol…

Camilo: É… é um filme que se completa com o olhar do público.

Em sua fotografia existe uma unicidade de quadro, na escolha das cores e tal. Você pode falar dessa constância em seu trabalho?

Camilo: Pra mim existem três pilares principais para a construção dos meus filmes. Os atores, o roteiro e a fotografia. N´A História da Eternidade quem assina a fotografia é Beto Martins, que é sertanejo, ele é de Uauá, no interior da Bahia. Ele construiu toda a carreira em Recife, mas tem raízes profundas no sertão e trouxe esse olhar de dentro pra fora.

Você pode comentar sobre a presença da morte no seu trabalho? É um tema bem recorrente nos seus outros filmes, né?

Camilo: Morte é vida, né? É a coisa mais natural e mais óbvia da vida. Quando você nasce você sabe que vai morrer. Eu me identifico muito com o Torquato Neto, eu acho que sou um ser melancólico, reflexivo, e a morte faz parte dessa reflexão. Se você passa a encarar a morte de uma forma natural, você acaba sendo mais feliz, ao contrário do ser deprimido que passa a reclamar da proximidade da morte.

O Chico Buarque uma vez falou que se incomoda com o fato de ter que escrever em um livro o que ele poderia escrevercamilo.segunda em uma crônica. A História da Eternidade foi finalizado mais de dez anos depois do curta homônimo seu. Como foi essa relação com o tempo nessas duas obras?

Camilo: Na verdade eu acho que cada ideia pede um tempo, não é nem o autor quem diz isso. Depende até quando você pretende mergulhar e enfiar o dedo na ferida. Eu acredito que o longa não é uma extensão do curta, são dois trabalhos bem diferentes com um contexto sertanejo semelhante. Tem a minha busca pela poesia audiovisual que também tá presente nos dois trabalhos. A ideia do longa nasceu enquanto o curta tava sendo filmado, eu acho que o símbolo do Ouroboros também tá presente nas duas obras, mas narrativamente são obras bem distintas. A ideia vem do nosso lado mais subjetivo, mais inconsciente, então ela não vem com um tempo predefinido.

O Baile Perfumado (filme de Lírio Ferreira e Paulo Caldas) foi um marco da retomada do cinema nacional e também uma celebração do movimento Manguebit, juntando muitos musicistas, cineastas, artistas plásticas e tudo mais. Esse processo chegou a saturar a cidade, ou catalisou outros processos?

Camilo: O Baile Perfumado foi o filme mais importante da retomada do cinema brasileiro e veio música e cinema junto numa época de seca cultural no país, onde não tinha nada. No caso do cinema isso facilita a vida artística. Por exemplo, ajudou o pessoal do audiovisual há 12 anos atrás a se juntar para escrever um manifesto e entregou ao governador que incrivelmente acatou. Logo depois ele fez um edital consolidado de 2 milhões, no ano seguinte 4 (milhões), no outro ano 6 (milhões), no ano seguinte 8 (milhões), no outro 10 (milhões) e esse ano foi de 12 milhões. Sem dúvida foi fruto dessa união, além da conjunção de outros fatores, como o reconhecimento da produção pernambucana no circuito nacional. Hoje em dia o cinema é cultura, mas também é economia, emprega muita gente em muitos setores primários, secundários e terciários.

E sobre a produção cearense, como você analisa o cinema produzido aqui?

Camilo: A produção cearense é fantástica! Aqui tem várias gerações coabitando, como lá em Recife. Você encontra produção desde Rosemberg Cariry, passando por Karim Ainöuz, o pessoal do Alumbramento, Ivo Lopes, que é um fotógrafo maravilhoso… tem o pessoal mais novo, como Leonardo Mouramateus. É um audiovisual muito inquieto e muito diverso. Eu acredito que o cinema nordestino é o que tem de melhor na produção cinematográfica brasileira contemporânea, o resto meio que se acomodou, tá tudo meio que em banho-maria. Os nove estados do nordeste tem essa pujança artística/criativa muito forte. Claro que em alguns estados se produz mais que outros, foi onde o governo conseguiu enxergar essa importância estratégica do audiovisual pra a cultura de um povo, mas em termo de potencial o nordeste é um vulcão à beira da erupção criativa.

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Diretor d´A História da Eternidade: “O sistema de distribuição e exibição de filme no Brasil é uma máfia”

(Fotos: Cristofther Fernandes/Revista Berro)

No sertão já teve quem falasse das mulheres fortes. Não lembro bem se alguém já falou de três mulheres que fazem do desejo suas epifanias, seus modos de desabrocho. E é sertão, né? Essa região que ainda pauta a submissão feminina como regra, noves fora vem um cara da capital falar que “o desejo liberta o que o destino aprisiona”. São três personagens que nos colocam em dilemas humanos, numa colcha de retalhos de metáforas sublimes, de nuances sobre a região que passaria desapercebido ao olhar capitaneado pelo urbano.

Apesar da força poética do filme, Camilo Cavalcante, diretor de “A História da Eternidade“, também fala sobre sua penitente instiga em trabalhar com cinema, de fazer parte e de ser entusiasta da sétima arte como mola-motora pra outros movimentos do indivíduo. “Cinema Cabra da Peste” seja em qualquer região, em qualquer localidade, com quaisquer bitolas, o que não vale é fazer cinema “Bitolado”. Camilo bateu um papo com a galera da  Berro sobre seu trabalho e aqui vai a primeira parte da entrevista onde ele conta um pouco sobre sua carreira e o fazer cinematográfico.

Revista Berro: O que tu achas desse processo de migração dos cinemas para os shopping centers e a conseqüente diminuição dos cinemas de rua no Brasil?

Camilo: Eu nasci nos anos 70 e vivenciei muito forte os cinemas de bairro. Era a coisa mais linda que tinha, porque sempre as sessões eram lotadas, além do preço ser acessível. Você tinha a sensação realmente de entrar em outro mundo quando entrava numa sala de cinema e quando saía você tava de volta à realidade das ruas, do seu bairro, ou do centro da cidade. Hoje em dia você entra no shopping, que é uma ilusão e vai pra uma sala de cinema dentro do shopping, é uma ilusão dentro da ilusão. Com essa coisa de Multiplex, o cinema é tratado como mercadoria mesmo. As pessoas vão ver cinema como quem compra uma roupa, um sapato. Vivemos num mundo em que impera uma ditadura do consumo e da publicidade. Eu sinto que falta um espaço para a reflexão e para o sentimento.

Nesse processo de distribuição de “A História da Eternidade” nos cinemas eu posso dizer categoricamente que o sistema de distribuição e exibição no Brasil é uma máfia dominada por grandes corporações, por poucas distribuidoras, corporações essas que detêm o poder econômico, conseqüentemente os fins e os meios. Fica muito difícil furar esse bloqueio. Essa máfia chega muitas vezes ao absurdo da sabotagem, do boicote pra não passar o filme independente numa sala de shopping. O cinema autoral é tratado como passageiro de quinta categoria, é como as classes sociais mais pobres são tratadas pela elite dominante.

Como você enxerga sua produção em meio a esse turbilhão de imagens que são feitas para vender?

Camilo: Eu enxergo meu cinema como artesanal, que prima pela poesia. O foco é a poesia audiovisual. É um corpo estranho em meio a essa enxurrada de filmes que vemos no circuito comercial. Inclusive no circuito artístico também, nós vivemos num mundo onde as pessoas estão muito cínicas e muito céticas também e isso acaba refletindo na produção audiovisual. Pelo menos “A História da Eternidade” vai na contramão desse cinismo e desse ceticismo, é um filme que tem emoção, que fala de amor, que fala de sonho, que fala de desejo.

O filme tem outra relação com o tempo cinematográfico, se passa numa região seca, mas busca encharcar as pessoas de emoção, por isso que o vejo como um filme um pouco diferente daquilo que vem sendo produzido.

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Você já utilizou de várias bitolas cinematográficas para realizar seus filmes (Betacam, 8mm, VHS). Você pode comentar sobre as possibilidades de realização do início de sua carreira como cineasta e hoje?

Camilo: Comecei a trabalhar com audiovisual em 1995, na época eu fazia faculdade de jornalismo em Recife.  Eu já tinha vontade de trabalhar com cinema desde a adolescência, daí na faculdade resolvi botar a mão na massa, praticar mesmo. Naquela época o Collor tinha acabado com a Embrafilme, então a produção cinematográfica no Brasil era quase nula…

 Com exceção dos filmes dos Trapalhões, né?

Camilo: E olhe lá… em 95 a produção era muito insípida. Collor acabou com o cinema brasileiro. Naquele momento eu tinha acabado de entrar na universidade e era na época do VHS. Ganhei uma câmera VHS compacta e fiz um vídeo chamado Cálice, que contava a história de um suicídio que aconteceu lá na casa do estudante, na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), um fato real e fizemos uma ficção baseado nesse acontecimento. A partir daí eu passei a experimentar com os recursos que tinha a mão, sempre junto com amigos, com a família, fui experimentando.

Na verdade o caso de eu ter experimentado várias bitolas estava muito relacionado ao que estava a mão, ao que era mais fácil e o mais barato pra tornar a ideia algo realizável. Em 2000 eu ganhei um concurso do Ministério da Cultura e eu pude fazer algo mais estruturado, daí fiz O velho, o mar e o lago. A experimentação pra mim veio de uma forma muito natural, dependia dos recursos que eu tinha. Inclusive, em 97 eu escrevi o Manifesto Cabradapeste, que dizia justamente o seguinte: não importa a bitola, não importa o formato, o que importa é você se expressar, expressar sua ideia em audiovisual. O que importa é você botar pra fora, você berrar. Não existe nada mais lindo do que ver uma ideia se libertando.

Hoje a produção cinematográfica ta troando lá em Recife, né?

Camilo: Na verdade Pernambuco sempre foi um celeiro importante da produção audiovisual no Brasil. Desde o ciclo de 20, passando pelo ciclo do super-8 na década de 70, sempre foi pulsante na produção de imagem. Agora a gente tá vivendo o melhor momento, sem dúvida. O governo do estado reconheceu o esforço dos realizadores que fazem cinema lá. A gente tem um edital, o Funcultura, do governo do estado de Pernambuco, o que gera uma cadeia produtiva de incentivo à produção audiovisual. Desde curtas, longas, cineclubes, programas pra TV, é muito amplo, sabe?

Mas pra mim o grande trunfo do cinema feito em Pernambuco é essa diversidade de ideias, não existe um único fluxo. Ninguém tá copiando ninguém. Não é um movimento, são várias movimentações de pessoas e de grupos de diversas gerações que se expressam através do audiovisual e cada filme tem a cara de seu realizador. Ninguém tá fazendo cartão de visita pra trabalhar na indústria, ou imitando o cinema hollywoodiano… cada um se expressa honestamente em seu trabalho. Isso cria muitas vertentes estéticas, artísticas e ideológicas.

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Parte II: “O cinema nordestino é o que tem de melhor na produção cinematográfica contemporânea”

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SondaBerro: Sobre construir casas e fazer músicas

Músico Lucas Santtana conversou com a Berro durante o festival RecBeat, em Recife (Fotos: Ramon Sales/Revista Berro)

Uma colcha de retalhos rítmicas harmonizadas de forma autoral e orgânica. É guitarrada, ska, dub, samba, bossa, tudo que o músico pode utilizar pra temperar seu ritmo. Lucas Santtana nasceu enquanto a tropicália era marco da inquietude daquele início da década de 70. Ele traz metáforas para a entrevista como quem fala pensando na próxima música a ser composta. Com quinze anos de carreira o soteropolitano pousou em Recife para ser uma das atrações do último dia do festival RecBeat, que completou vinte anos em 2015.

Nesse tempo de estrada Lucas já acompanhou vários músicos como Chico Science e Nação Zumbi, Gilberto Gil e Marisa Monte. Hoje se destaca no cenário nacional e internacional como um músico que conseguiu amadurecer sua vasta carga musical acumulada desde a infância. Lucas bateu um papo com a Berro durante o RecBeat, em Recife, e falou sobre seu processo criativo e outros pontos de vista.

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A gente nota a presença forte de ritmos como ska, dub, funk (dentre outros) no seu som. Como é o processo de composição, as músicas já saem com uma batida específica?

Às vezes você faz a intenção de uma música no violão, na guitarra. Mas muitas vezes vem uma coisa que à medida que você vai construindo os layers, como numa casa, você vai construindo a fundação, subindo as paredes, colocando umas janelas, você vai entendendo o espaço, vai percebendo onde é o poente da casa, de onde vem o vento e você vai adequando da melhor maneira. Com o tempo eu fui entendendo que a gente não deve impor à música várias ideias que você quer. Você tem que ir construindo a casa devagarzinho e escutando o que a música tá querendo, o que ela tá precisando. Daí nessa de você ir escutando você coloca um elemento a mais, tira um elemento, testa outra coisa, você vai construindo a casa. Daí muitas vezes uma música que começou em uma intenção de um estilo, acaba indo pra outro lado, ou agregando várias outras referências.

A melodia e a parte escrita surgem em conjunto?

Raramente componho premeditadamente. A música quase sempre acontece de uma inspiração que vem, vem um riff, vem uma letra e o resto vai saindo.

Fala pra gente como é a cena de Salvador no início e hoje; quais diferenças ou semelhanças que você nota de 15 anos pra cá?

O RecBeat tem cinco anos a mais que eu de estrada. Se era difícil há quinze anos, imagina o que era pro Guti (produtor do festival) há vinte anos. Quando eu comecei, junto com o Cidadão Instigado fomos os primeiros nessa cena independente mesmo. Havia outras bandas, mas elas tinham gravadora, eram maiores. No começo tinha muita dificuldade: não tinha lugar pra tocar, não tinha cachê, a gente ia “abrindo caminho a facão” mesmo, na mata virgem. A gente não gosta muito de olhar pra trás, mas se a gente fizer esse exercício, a gente nota como cresceu o público, como cresceu o espaço pra esse tipo de som. É interessante também notar como a nossa música foi crescendo com o tempo também, como nosso som foi evoluindo, a gente foi experimentando outras coisas. Muita coisa nesses quinze anos melhorou, é uma rampa ascendente que não tem oscilação.

O RecBeat é referência em festival independente e rola em meio ao carnaval e acontece na rua. Você pode comentar um pouco da sua relação como artista com o fato de tocar na rua?

Eu sempre chamo a galera pra cima do palco, justamente pra quebrar essa relação de pessoas assistindo. Pra gente, quanto mais próximo a gente esteja do público, mais aquela noite vai acontecer. Se a gente não tiver um feedback, o show acaba não sendo tão legal, então é uma realimentação. E, na real, o que é massa em festivais como o RecBeat é essa coisa de show de rua, é uma energia de Exu, né? É uma energia que não deixa nada ficar parado, que é do movimento. Quando você toca na rua, você nunca sabe o que vai vir, é sempre surpreendente. Não é como tocar em um teatro, ou numa casa de show, que você tem o domínio, você sabe quem tá ali, você tem mais o controle desse feedback. Quando é na rua você não tem esse controle, você acaba deixando a coisa livre, se liberta dessa função de frontside, de ter que dá conta disso, você deixa isso dando conta de você e cada um dá conta de si, cada um se diverte.

ls2Como é esse movimento de ocupação de rua pela música em Salvador, você poderia comentar como é lá?

Pois é, Salvador passou muitos anos e ainda tá ouvindo só axé. Foram gerações e gerações educadas ouvindo só isso, mas de uns anos pra cá surgiram muitas bandas legais como Baiana System, Russo, Retrofoguetes e muitos grupos de música instrumental que hoje levam um público grande pros eventos. Hoje graças à internet e graças a esses novos tempos, conseguiu-se que em Salvador surgisse um público para esse tipo de som… e tem vários gestores culturais também como o Vince de Mira (ex-vocalista da Lampirônicos) que faz vários festivais nesse sentido de ocupar a cidade com outros tipos de som, então é isso.

Como foi a escolha do figurino pra apresentação aqui em Recife? (Lucas se apresentou com um vestido rosa claro como você pode ver nas fotografias abaixo)

Quando eu toquei aqui há cinco anos, eu não sabia dessa onda e eu vim com roupa normal. Daí me falaram “pô, aqui todo mundo toca fantasiado, é tradição”. Eu nunca tinha me vestido de mulher, daí eu avisei pro Bruno, Caetano (músicos que tocam com Lucas) pra gente se fantasiar e debutar no carnaval. Dá um trabalho da porra, tem que se maquiar e tal.

E quando vai rolar de tocar em Fortaleza outra vez?

A gente tá afim de um esquema que leve a gente. De 2007 até 2011 a gente foi quase todo ano pra lá, mas depois parou e faz uns 3 anos que a gente não toca lá. Eu tenho uma história bem forte com o Ceará, já fui várias vezes na Mostra Sesc Cariri de Cultura, já fiz um documentário pra TV Sesc sobre a Mostra. Também fiz uma trilha sonora de uma peça teatral chamada “O Duelo”, cujo laboratório foi em três cidades que eu lembro ser Iracema, Lavras da Mangabeira e outra cidade que eu tô esquecendo do nome agora.

Curta sua fanpage: Lucas Santtana

*Abaixo, você vê registros da apresentação do músico no RecBeat 2015

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