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As baratas, as pessoas e a modernidade: uma nada convencional releitura kafkiana

Por Artur Pires

Havia muitos anos que não ia ao zoológico. Algo para mais de uma década. Mas dia desses estava em Brasília, e os cicerones brasilienses me recomendaram uma visita ao zoo, falando das muitas espécies que encontraria por lá. Fui sozinho. Não me preparei psicologicamente para a surpresa que me acometeria. Como havia mais de dez anos que não fazia tal “passeio”, a última vez em que fui era outro. Como diz Belchior, “no presente, a mente, o corpo é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

A primeira parada foi numa área onde habitava um tigre branco. Aquela imagem lancina n’alma até agora: o animal, magro para um bicho daquele porte, dava voltas circulares ao redor de seu confinamento. Voltas e mais voltas, numa atitude obsessiva. Em um dado momento, nossos olhos fitaram-se mutuamente. Vi tristeza e angústia. Imaginei o tigre branco correndo em liberdade, caçando, trepando-se em árvores, vivendo e morrendo em sua natureza primordial. Liberdade. Ali, naquele instante, tive a exata dimensão do que estava ajudando a reproduzir com aquela visita. Uma barbárie. É isso o que legitimamos ao vivenciar como lazer espaços que escravizam animais.

Pensei em desistir, mas decidi ir em frente. Sabia que a minha derradeira ida a um local como aquele não seria em vão. Quis experimentar o desconforto ao deparar com os demais bichos e seus comportamentos obsessivos e estressados para que aquela oportunidade, que exigiu um encouraçamento momentâneo, servisse para uma elaboração interior que resgatasse parte da minha humanidade perdida ali. Uma turma escolar de pré-adolescentes gritava transtornadamente a cada encontro com os grandes felinos, que eram acordados de seus cochilos com sons estridentes:

-Aaahhhhhhhhhhhhhhh!!! Um tigre, um tigre, tia!

- É, um tigre.  Ei, ei, não pode jogar pipoca pra ele. Sai daí menino, só pode chegar até aqui.

As escolas têm um papel decisivo nesse comportamento. Turmas e turmas são organizadas sistematicamente para essa atividade quase “curricular”. A pedagogia escolástica tem uma função central no processo de desumanização moderno. Entre as descobertas infantis e as atividades de lazer proporcionadas pela educação escolar e também pelas famílias “cidadãs” está o deleite com a escravidão de animais. Ora, de que vale saber sobre as características biológico-comportamentais de um tigre e vê-lo in loco se não pudermos perceber a anormalidade que é o seu aprisionamento? Se não pudermos sentir empaticamente a dor e o banzo do tigre enjaulado?

Após cerca de uma hora de “passeio”, as plaquinhas do zoo informando que os bichos eram bem alimentados e recebiam treinamentos para adaptarem-se aos novos “lares” não me convenceram. Constatei sofrimento, estresse, movimentos obsessivos e olhares desesperançosos dos animais. O homo urbanus desenvolveu-se em crescente dessincronia com as leis da Natureza. Enjaula animais para o seu divertimento e lazer. Engaiola passarinhos para que eles só possam cantar privativamente. Corta as asas dos papagaios para que eles não possam voar e fiquem restritos à família prisioneira. Tudo isso levado a cabo com uma “naturalidade” extrema. Espelho da desumanização que toca o mundo com açoite!

Aliás, indo mais além, há pessoas que simpatizam profundamente com animais domésticos, como gatos e cachorros, mas que não perdem uma única oportunidade para matar uma formiga, uma aranha, uma muriçoca, um rato, uma barata… Pelo contrário, repousa nelas um prazer em esmagar com o chinelo aquela baratinha que corre para debaixo do sofá, ou aquela formiguinha que ataca o açúcar! “Eu amo animais, inclusive tenho um cachorrinho, mas essa aranha caranguejeira… poff!”, diz e faz a pessoa comum.

Não estou aqui defendendo o convívio encantado com animais peçonhentos e transmissores de doenças. Sublinho que, em verdade e a priori – quer queira ou não! –, já há um convívio equilibrado, quase imperceptível, no qual baratas, formigas e pequenas aranhas vivem nos lares humanos às escondidas, sem serem incomodadas. O que problematizo é que há maneiras e mais maneiras para, em casos-limite, expulsar certos insetos, aracnídeos ou roedores das casas, mas a única opção pensada é sempre a morte desses bichos. Já ouvi pessoas dizendo do “prazer” que é matar muriçocas e outros insetos com raquete elétrica. Leram bem? “Prazer” em matar! Uma coisa é, num ato reflexo, dar um tapa na parte do seu corpo que está sendo picada e por vezes acertar o mosquito, outra bem diferente é sair, feito “maníaco da raquete”, caçando insetos de forma psicopata para matá-los. Há, portanto, uma clara seletividade e hierarquia de quais bichos merecem preservação e quais merecem a morte. Mas, aceite!, a barata e você têm o mesmo direito à vida!

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A Metamorfose, de Kafka, o caixeiro viajante Gregor Samsa, que certo dia acordou transformado numa barata gigante, tenta uma reaproximação com os pais e a irmã (Foto: Christophe Huet)

Muitas pessoas dirão que querer igualar um humano a uma barata é por demais exagerado. Essas pessoas realmente se julgam superiores às baratas, como a insensível família de Gregor Samsa, no romance de Kakfa. No mais das vezes, é por uma questão elementar e banal: o tamanho. “Salvem as baleias, exterminem as baratas”. Animais de centímetros são quase sempre matáveis para essas pessoas: muriçocas, baratas, mosquitos, moscas, lagartas, formigas… com exceção das abelhas, porque essas produzem mel (e, portanto, a relação se dá de forma utilitarista), e das borboletas, com toda sua popularidade retratada em desenhos, lendas e filmes infantis como criaturas “fofinhas” ou fadas disfarçadas.

Outro álibi é que insetos, como o aedes aegypti, são causadores de doenças. Ora, a espécie que tem causado mais enfermidades e destruição no planeta é a humana e nem por isso pensa-se em exterminá-la (quer dizer, se não for de uma subespécie “bandida”, dizem as turmas “justiceiras”). A maior incidência do “mosquito da dengue” nos países tropicais nas últimas décadas é consequência das ações humanas. O mosquito, de origem africana e que está em terras americanas desde o século XVI, tornou-se mais resistente e nocivo devido ao uso de inseticidas químicos para combatê-lo. Ou seja, transformou-se um inseto de convivência equilibrada com o ser humano por séculos (no caso africano, por milênios) num monstrinho geneticamente modificado por aditivos químicos. E aí o único método adotado para lidar com a questão é exterminá-lo, mas não se pensa em parar a produção de inseticidas químicos. (Sem falar no poder das agências midiáticas em gerar pânico social, uma vez que lucram com a espetacularização dessas “epidemias”. O “fenômeno” da zika, por exemplo, do jeito que foi retratado midiaticamente supunha a ideia de uma imensa e incontrolável epidemia. Super Zika! Meses depois, pouquíssimo se fala no assunto, e as pessoas seguem normalmente suas rotinas). Essa lógica de intervenção desequilibrada da ação humana no meio natural vale para o aumento de ratos, baratas, moscas, etc.

Reitero: não estou promovendo um relação ingênua com animais peçonhentos e transmissores de doenças, mas propondo uma tentativa de reconciliação. Há casos, de infestação, por exemplo, em que se fazem necessários métodos radicais de combate. Mas são situações-limites, excepcionais. O que trago à discussão é a propensão condicionada a matar gratuitamente pequenos invertebrados e roedores como se fossem coisas descartáveis. É preciso, portanto, não uma relação encantada, mas naturalizada, de respeito aos “seres desimportantes”, como bem poetizou o mestre Manoel de Barros. “Desimportantes” para o humanoide, diga-se por oportuno, porque para a Vida têm a mesma relevância que eu e você.

Noutra vezes, usa-se a cultura humana para justificar uma suposta e dedutiva superioridade existencial sobre os animais “irracionais”: “Inventamos o avião, o computador, o satélite, logo…”. É uma argumentação paupérrima que diz muito do homo academicus, forjado pela racionalidade formal e instrumental, que não reflete a sua existência a partir de uma cosmovisão unificada, mas, pelo contrário, pensa a tecnologia científica como separada da Natureza. E aí se esquece de prezar mais os insetos que os aviões, como novamente nos ensinou o poeta, do alto de sua sabença espiritual.

Em síntese, a barata e o homo a-sapiens, para usar um exemplo-limite, têm formas biologicamente diferentes, mas em essência e qualidade para a Vida atualizam constantemente o mesmo mistério universal de nascer, crescer, alimentar-se, reproduzir-se e morrer. São apenas projeções e manifestações diferenciadas de uma mesma realidade: a Vida. Penso que Kafka, sob uma perspectiva invertida e surrealista, brincou com isso n’A metamorfose, numa reflexão contundente e angustiada sobre a condição moderna do ser humano.

O fato é que para a Natureza não há existência mais importante que outra. Seja esta o sol, um ser humano, um animal, uma planta, um búzio na praia, ou o vento brincante que passeia entre os manguezais e as dunas da Sabiaguaba, saboreando o tempo e deitando-se no mar! Quem faz essa distinção hierárquica é o homo a-sapiens! O “urbanoide” está terrivelmente desconectado dessa Unidade cosmológica, uma vez que, ainda embriagado pelo Iluminismo, pensa ser o umbigo universal, mesmo após Copérnico ter dito ainda no século XVI que a terra não era o centro do universo.

 

Há um tempo, numa noite de Lua crescente, nessas madrugadas em que ela, branqueada e brilhosa, parece nos sorrir, avistei um guaxinim andando pela rua. Os guaxinins são cada vez mais raros em Fortaleza, expulsos de seus matagais pelo processo predatório de especulação imobiliária. Mas nessa noite vi um, grandão, que caminhava em seu descompasso. O olhei atônito. Nunca havia visto um bicho daquele in loco, marchando em sua exuberância e exotismo. Admirei-o em sua naturalidade.

- Olha mah, um guaxinim!, disse, boquiaberto, olhos bem atentos e arregalados aos seus movimentos.

- Vixi, é mermo. Lá na Levada ainda aparece é muito!

(A “Levada” é uma região brejeira na Cidade dos Funcionários – bairro da zona sul de Fortaleza, onde passa um córrego que vem da Messejana e deságua no rio Cocó. Recentemente, foi “urbanizada” e o córrego foi canalizado, assim como seu matagal totalmente transformado em concreto. Os guaxinins que antes viviam por lá sumiram).

Voltando ao dia da lua sorridente, o guaxinim aparentava tranquilidade, mas quando avistou-nos recolheu-se ao terreno baldio próximo, farejando perigo. O encontro durou poucos segundos. Mas o suficiente para que eu o visse em sua liberdade e natureza espontânea. Parece uma besteira piegas, mas eu sempre recordo esse dia como algo muito bonito que vivi!

Artur Pires é sonhador e Tricolor de Aço; gosta de literatura, de jogar bola, surfar, e de pular da ponte velha – ahh, e de escrever quando dá vontade!

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A farsa eleitoral e a invenção da “democracia”

Já escrevi algumas vezes sobre a farsa do processo eleitoral e sobre a incapacidade da “democracia representativa” burguesa consolidar os ideais de um mundo socialmente justo para a humanidade.

I. Democracia representativa e burguesia: uma relação de cumplicidade

II. O impeachment e a política: por trás das aparências, decantam as mesmas práticas

III. Dilma ou Aécio? “Prefiro devolver o Brasil pros índios e pedir desculpas!”

IV. Ensaio sobre a política (ou por que não votar)

V. Para além da Matrix (ou Ensaio sobre a Liberdade)

VI. Escrevi até mesmo um conto sobre isso: O circo que era triste.

Mas em tempos de redes sociais e preguiça de leitura, os vídeos são grandes ferramentas de apoio.

Sabe aquela expressão “quer que eu desenhe”, que usamos quando nos referimos acerca de algo que queremos deixar muito claro para alguém? Pois bem, ela se aplica perfeitamente para a ocasião, com o perdão de uma pequena mudança: “quer que eu mostre um vídeo?”.

Os vídeos abaixo são 20 minutos de um didatismo impressionante para explicar por que, ao contrário do que se acredita, não vivemos em democracias, mas sim em “governos representativos”  - e como eles funcionam de cima para baixo, quer dizer, uns poucos decidem e fazem impondo suas escolhas e decisões à grande maioria das pessoas. A eleição está chegando. Veja os vídeos e reflita!

Vivemos em democracias?

Como funciona uma verdadeira democracia?

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O impeachment e a política: por trás das aparências, decantam as mesmas práticas

Enquanto a militância chorava o seu impedimento, Dilma “jogava” a política real no Senado (Foto: Agência Senado)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

“Sob as oposições espetaculares esconde-se a unidade da miséria. A contradição oficial se apresenta como a luta de poderes que são partes da unidade real”.  (Guy Debord, A sociedade do espetáculo)

I

Dilma foi impedida de governar. A agora ex-presidenta e seu partido viram ruir um castelo outrora sustentado por alianças com setores extremamente conservadores da política nacional. Essa não é uma informação irrelevante; na verdade, ela explica quase tudo do que virá a ser discutido nesse texto: Dilma – assim como seu antecessor Lula, e o antecessor deste, FHC, e por aí vai… – governou em parceria umbilical com segmentos historicamente reacionários da sociedade brasileira: as elites industrial, fundiária e empresarial, e o fundamentalismo religioso.

Primeiramente, é pedagógico relembrar alguns dos ex-ministros e ex-ministras da Era Dilma (2011-2016): Kátia Abreu, aquela que disse que “não existem latifúndios no Brasil”; Armando Monteiro, ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI); Eliseu Padilha (Casa Civil), o atual braço-direito de Temer; Paulo Bernardo, que segundo o Ministério Público Federal era o “patrono” de organização criminosa que desviou mais de R$ 100 milhões do erário; Joaquim Levy, um economista de ideias neoliberais; Henrique Alves, também envolvido até o pescoço com delações que o ligam a recebimento de propinas milionárias; Afif Domingos, Gilberto Kassab, Eduardo Braga, Helder Barbalho, Cid Gomes, Edison Lobão, Garibaldi Alves, etc. (Se a leitora e o leitor se interessarem para saber quem são esses personagens, recomendo uma rápida busca no google com os nomes desses ex-ministros de Dilma ao lado da palavra “corrupção”).

Ademais, houve também as alianças em “nome da governabilidade” com Sarney, Renan Calheiros, Collor, Jader Barbalho, Temer (esse era o seu vice, foi inscrito na mesma chapa presidencial, é bom não esquecer), a família Gomes, Paulo Maluf, entre outros. A montagem de ministérios baseada em chantagens partidárias e a prática do fisiologismo – tão comuns nas Eras FHC, Lula e Dilma – não estão separados do modo de governar. Dilma e Temer governam de maneira diferente? Se essa questão for observada a partir da análise do discurso e da performance de tribuna de ambos, pode-se, a priori, dizer que sim, que são água e óleo. Mas, observando a essencialidade da atuação prática, vê-se que o discurso fabricado por marqueteiros profissionais e as encenações performáticas populistas funcionam como meros cosméticos superficiais, palavras inócuas lançadas ao vento…

Na real politik, aquela que é tramada nos gabinetes, nas salas de reunião, nos conchavos a quatro paredes, e que resvala diretamente na vida das pessoas, ambos, Dilma e Temer, jogam o mesmo jogo, operam com as mesmas cartas na manga, governam sob o mesmo modus operandi, servem à mesma não-vida da política convencional. Vamos a alguns bons fatos que comprovam a assertiva.

Estelionato eleitoral

Na campanha para a reeleição em 2014, Dilma prometeu mundos e fundos. Mas as ações práticas ocorreram de forma inversa às promessas:

a) Ao contrário da promessa de conter a inflação e não elevar a taxa básica de juros,houve galopante inflação (quem mais sofre seus efeitos é a população desprivilegiada economicamente, por exemplo, ao comprar a cesta básica), seguida de uma ortodoxa elevação da taxa básica de juros: de 10, 9%, em outubro de 2014, quando foi reeleita, para 14,25%, quando deixou a presidência. A elevação da taxa básica de juros incide diretamente no endividamento das pessoas comuns, pois elevam-se ainda mais as tarifas que os bancos e financeiras sugam da população.

b) Ao contrário da promessa de “reduzir a conta de luz de todos os brasileiros e brasileiras”, houve, de acordo com o IBGE, aumento de 44,75%na energia elétrica. Novamente, quem mais sofre com esse aumento abusivo é a população economicamente vulnerável.

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(Ilustração: Pawel Kuczynski)

c) Ao contrário da promessa de não aumentar impostos,houve aumento nos impostos incidentes sobre gasolina e álcool, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) dobrou de 1,5% para 3% para pessoas físicas, o PIS/Confins saltou de 9,25% para 11,75%, e antes de ser afastada, a equipe econômica de Dilma fazia estudos para, pasmem!, tributar a internet. Em contrapartida ao aumento de impostos para a classe trabalhadora, o governo Dilma, nos anos 2014 e 2015, reduziu cerca de R$ 94 bilhões de impostos às empresas, além de dar subsídios a estas via BB e BNDES.

d) Ao contrário da promessa de assegurar direitos trabalhistas, passados apenas 60 dias após vencer a eleição, o governo Dilma aprovou um corte de R$ 18 bilhões em benefícios, no que o governo chamou de “flexibilização” da CLT. Na “flexibilização” de Dilma, aumentou-se de um para seis meses o tempo de trabalho para requerer o seguro-desemprego; reduziu-se os meses de seguro-desemprego recebidos; colocou-se maiores restrições na requisição de pensão por morte; legalizou-se a redução de salários pela primeira vez na história desde que a CLT foi implementada; além do corte em benefícios previdenciários. Enfim, nada muito diferente da chamada “modernização” das leis trabalhistas que Temer pretende implementar. Mas parece que a memória da esquerda institucional é seletiva.

e) Ao contrário da promessa de não cortar investimentos em áreas essenciais, na Educação houve cortes de R$ 10,5 bilhões em 2015 e R$ 6,5 bilhões em 2016 (quando ainda exercia a presidência), que somados resultam em R$ 17 bilhões retirados dos investimentos em educação em um ano e meio. Na Saúde, cortes volumosos na mesma medida: R$ 11,7 bilhões em 2015 e R$ 4,8 bilhões em 2016 (quando ainda exercia a presidência), que somados atingem R$ 16, 5 bilhões de cortes nos investimentos em saúde em um ano e meio. Enfim, nada muito diferente dos cortes que Temer tem adotado. Mas, reitero, parece que a memória da esquerda institucional é seletiva.

Em suma, Dilma praticou estelionato eleitoral com suas/seus eleitoras/es. Infelizmente, no Brasil não há tipificações criminais previstas para políticos/as que praticam estelionato contra seu eleitorado. Isso quer dizer que o/a político/a pode mentir descaradamente durante a campanha eleitoral, prometer coisas que não vai cumprir e nada lhe acontecerá. Dilma mentiu nos debates à reeleição, assim como mentiram Aécio, Marina e demais. O que Dilma não esperava era que fosse ser apanhada na Lei de Responsabilidade Fiscal, uma vez que seus antecessores FHC e Lula também praticaram as mesmas manobras fiscais e nada lhes ocorreu. Ao contrário do seu julgamento no Senado, quando negou, em meados de 2015 o governo Dilma, na figura do então advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, admitiu que as tais “pedaladas” ocorreram, mas em “períodos curtos”. Um levantamento estatístico da plataforma multimídia Aos Fatos calculou que não foram poucas vezes nem em períodos curtos que o governo Dilma realizou estas manobras fiscais, mas que a petista “pedalou” 35 vezes mais que FHC e Lula juntos. O julgamento foi claramente político, é verdade, mas se apoiou juridicamente nesse imenso deslize da ex-presidenta. Ao contrário do que grupos petistas disseram, de que as manobras eram para garantir recursos para os programas sociais, a maioria (54,4%) dos recursos oriundos das “pedaladas” subsidiou grandes empresas por meio do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES, e foi usada para emprestar a empresas do agronegócio, por meio do Banco do Brasil.

Para completar o enredo da tramoia, no fim do processo de impedimento, no afã por poder, Dilma e sua tropa de choque costuraram com Renan Calheiros um mafioso acordo para preservar sua elegibilidade, abrindo brechas regimentais que podem salvaguardar o deputado Eduardo Cunha, que assim como Dilma pode perder o mandato, mas conservar os direitos políticos. Os “interesses” do povo brasileiro passaram longe dessa negociata escusa.

 

II

Práticas de um governo de “direita”

Apresentei acima algumas ações políticas realizadas no governo Dilma que a aproximam das praticadas por partidos como PSDB, PMDB, DEM, entre outros. Cortes de dezenas de bilhões de reais em áreas como saúde e educação, retirada de direitos trabalhistas históricos, aumento abusivo da taxa básica de juros e da energia elétrica, clientelismo, suborno parlamentar (as alianças em “nome da governabilidade”), negociatas com as elites econômicas e políticas… Não é pouca coisa. Mas ainda tem mais. Muito mais.

Ajuste fiscal para pagar banqueiros e outros especuladores financeiros

Dívida BrasilO tal ajuste fiscal de Dilma cortou em áreas essenciais, como Educação, Saúde, Transportes, mas teve imensa benevolência com o pagamento da dívida pública, pagamento este que é feito em grande medida (cerca de 80%) ao capital financeiro: bancos nacionais e internacionais, investidores estrangeiros (entenda-se especuladores), seguradoras e fundos de investimentos. Por exemplo, no ano passado, o governo destinou R$ 962 bilhões para os gastos com a dívida pública, quase a metade de todo o orçamento (42%). Enfatizo: por volta de 80% desses R$ 962 bilhões foram para as mãos de banqueiros, donos de seguradoras e especuladores financeiros (não à toa nos governos petistas os bancos esbanjaram seguidas vezes recordes de lucros). Uma pequena parte (em torno de 15% a 20%) vai para os fundos de pensão e para o pagamento do FGTS, FAT e outros fundos administrados pelo governo. A ex-auditora da Receita Federal, Maria Lucia Fattorelli, uma das principais vozes a favor da auditoria da dívida, diz que “a dívida pública é um mega esquema de corrupção institucionalizado”. O governo do PT teve 13 anos e meio para tacar o dedo na ferida desse “mega esquema de corrupção”. Não só não o fez, como em janeiro de 2016 Dilma vetou texto aprovado em dezembro de 2015 no Congresso Nacional, que estabelecia a realização de uma auditoria da dívida pública. Quais os interesses que moveram a ex-presidenta a vetar tão importante medida? Não seria de “interesse do povo brasileiro” uma auditoria da dívida pública?

As Leis de Dilma: da Copa, das Olimpíadas, Antiterrorismo e de Organizações Criminosas

Você lembra da Lei Geral da Copa? Essa lei, sancionada pela ex-presidenta em seu primeiro mandato, violou inúmeros direitos humanos. Entre suas piores consequências, abriu brechas jurídicas que garantiram a remoção arbitrária de dezenas de milhares de famílias de suas casas para a construção de estádios, alargamento de avenidas, e obras de infraestrutura, bem como no dias de jogos cerceou o direito de ir e vir de pessoas que moravam próximas às arenas. Processo semelhante em relação às remoções de milhares de família e ao cerceamento do livre direito de ir e vir ocorreu com a Lei Geral das Olimpíadas, sancionada também pela ex-mandatária.

Ademais, na Copa das Confederações, em 2013, e na Copa do Mundo, em 2014, o Governo Federal, em apoio às polícias estaduais, encaminhou a Força Nacional de Segurança e o Exército para reprimir violentamente qualquer manifestação, bem como orientou a Polícia Federal a espionar e prender manifestantes que se opuseram à Copa do Mundo e foram às ruas nas manifestações de junho e julho de 2013. Foi uma caça às bruxas! Quem viveu aquela época nas ruas, sabe que aquilo foi um estado arbitrário de exceção, próprio de regimes ditatoriais e fascistas. Temer agora faz a mesma coisa com as manifestações contra seu governo. Mas àquela época era Dilma quem dava as ordens à Força Nacional de Segurança, à PF e ao Exército.

Dilma também aprovou a Lei Antiterrorismo, com alguns vetos, mas sem atacar decisivamente a vaga conceituação do que é “terrorismo” na lei, abrindo precedentes para interpretações judiciais as mais diversas, como aquelas que estigmatizam manifestações, ocupações de terra, etc., ou seja, criminalizam táticas usadas pelos movimentos sociais para reivindicar direitos. Por que Dilma não vetou integralmente a lei? Antes, em 2013, ela tinha sancionado a Lei de Organizações Criminosas, que foi a responsável pela prisão de militantes do MST em agosto desse ano.

Guerra às drogas e encarceramento em massa

De acordo com estudo do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), vinculado ao Ministério da Justiça, nos últimos 14 anos a população carcerária no Brasil aumentou 267%, totalizando atualmente cerca de 622 mil pessoas presas: a quarta maior população carcerária do mundo. As penitenciárias brasileiras são superlotadas e há um déficit de 250 mil vagas. As condições de vida nesses presídios são aterradoras, miseráveis, desumanas. A maioria é composta por jovens negros e pobres. Cerca de 28% das pessoas presas estão enquadradas na lei de drogas atual. Os governos petistas tiveram 13 anos e meio para ousar mudar essa realidade. Deitaram-se eternamente em berço esplêndido e fingiram que a “guerra” não era com eles/as. Quer dizer, escolheram seu lado na “guerra” ao colocarem o Exército nas favelas cariocas para reprimir populações estigmatizadas, usando o álibi fajuto de “acabar com o tráfico”. Ademais, o governo Dilma iniciou a privatização dos presídios brasileiros, como se mudar a gestão de pública para privada desses campos de concentração fosse a solução engenhosa para tão profundo gargalo histórico.

Demarcação de terras indígenas e a complacência com o agronegócio e a mineração

Em relação às terras indígenas, Dilma foi quem menos demarcou desde a redemocratização. Isso mesmo: FHC, Collor, Sarney e Itamar, políticos de “direita”, demarcaram mais que a ex-presidenta, que não quis mexer nessa seara porque muitas demarcações que precisam ser declaradas e homologadas estão em áreas tomadas pelo agronegócio ou pela mineração. A ex-presidenta fugiu da briga contra o grande capital como o diabo foge da cruz, com o perdão do clichê. Aqui cabe dizer que o PT teve 13 anos e meio – e contou por muito tempo com maioria absoluta na Câmara e no Senado para aprovar suas propostas – para fazer uma reforma agrária que radicalmente rompesse com a absurda concentração fundiária brasileira, cuja origem remete às capitanias hereditárias do período colonial. Mas nem Lula tampouco Dilma levaram à frente essa empreitada. Por quê? A resposta pode revelar muita coisa. Na verdade, nos governos petistas, como nos demais, prevaleceu o ataque ao meio ambiente (lembra do Código da Motosserra, ops, Código Florestal?), como a construção de Belo Monte em meio a áreas indígenas e o aumento exponencial do uso de agrotóxico na agricultura.

Onde está a taxação das grandes fortunas?

Por oportuno, vale dizer também que os governos petistas tiveram 13 anos e meio para promover uma reforma tributária que transformasse e invertesse completamente a lógica da tributação no Brasil, onde absurdamente quem menos ganha é proporcionalmente quem mais paga tributo. Tiveram mais de uma década para taxar grandes fortunas, aí de maneira oportunista Dilma falou em taxação de grandes fortunas na sua defesa no Senado. E por que não fez em cinco anos e meio?, inclusive quando tinha ampla maioria no Congresso? A resposta, mais uma vez, revela muita coisa encoberta pelo discurso fabricado por marqueteiros.

Apoio aos grandes meios de comunicação

TV = arma de destruição em massa!A mesma lógica vale para uma reforma nos meios de comunicação que propiciasse uma pluralidade de vozes e de cobertura midiática. Não fizeram em 13 anos e meio. Mas não só: se prepare, leitora e leitor, para não cair da cadeira. De que adianta bradar contra a grande mídia, como Lula e Dilma tanto fazem, quando 70% da verba publicitária do Governo Federal é aplicada nos maiores grupos comunicacionais do país, como Globo, Record, SBT, Abril (que edita Veja), Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, etc.? Só a Globo abocanhou quase a metade (R$ 6,2 bilhões) dos R$ 13,9 bilhões de publicidade federal destinados para a televisão nos governos Lula (2003-2010) e no primeiro mandato de Dilma (2011-2014). No mesmo período analisado, na categoria de impressos, o jornal O Globo faturou R$ 213 milhões, a Folha R$ 199 milhões, R$ 186 milhões foram para o Estadão e R$ 130 milhões para o Valor Econômico. Apenas esses quatro veículos faturaram cerca de 35% de toda a verba destinada a impressos. No segmento de revistas semanais, Veja liderou a “mesada” com R$ 370 milhões recebidos nas gestões Lula e Dilma, mais do que o dobro da segunda colocada, a revista Época (R$ 168 milhões). Desse modo, a verborragia de Lula e Dilma contra a “grande mídia” seria uma mera encenação performática?

Dilma: a campeã em privatizações e concessões

Outra ação prática que iguala o governo de Dilma ao de qualquer outro neoliberal foi a escancarada abertura ao capital privado. Recentemente, Temer falou em “privatizar tudo o que for possível”. A esquerda institucional se estrebuchou, se apegando a frases como essa pra dizer: “tá vendo como são diferentes?”. Nenhuma novidade a sanha de Temer por privatização. A diferença é que ele fala abertamente sobre suas práticas conservadoras e neoliberais. Dilma não. A ex-presidenta tentava passar uma imagem de estatista construída por um discurso contra privatizações, mas na prática foi quem mais privatizou em toda a história republicana brasileira. Vamos aos fatos:

a) Dilma vendeu R$ 15 bilhões de blocos do pré-sal a investidores estrangeiros;

b) R$ 160 bilhões em ativos da Petrobras;

c) vendeu a empresas envolvidas na Lava-Jato quatro aeroportos (Viracopos, Brasília, Guarulhos e Galeão) por R$ 45,3 bilhões e colocou mais quatro à venda (os de Fortaleza, Florianópolis, Salvador e Porto Alegre);

d) bem como vendeu, por concessão, 29 hidrelétricas por R$ 17 bilhões.

e) Ademais, em junho de 2015, Dilma anunciou pacote de R$ 198 bilhões em concessões à iniciativa privada de ferrovias (R$ 86 bilhões), rodovias (R$ 66 bilhões), portos (R$ 37 bilhões) e os quatro aeroportos supracitados (R$ 9 bilhões). O pacote de concessões foi elogiado pela revista de ultradireita Veja como um necessário “choque de capitalismo”.

“Nunca na História desse país” tantas privatizações e concessões à iniciativa privada ocorreram, nem com FHC. Temer deve continuar a marcha de privatizações. Mas que a memória da esquerda institucional não seja seletiva.

 

III

As “conquistas” sociais e o marketing de convencimento

Os programas sociais adotados no governo Lula, que foram reproduzidos por Dilma, são a grande arma da qual se vale o petismo para se diferenciar dos governos de “direita”. Aqui cabem algumas contextualizações históricas e geopolíticas para entender a ascensão desses programas com tanto vigor a partir do início dos anos 2000. Após as crises que atingiram países da periferia entre meados dos anos 1990 ao início dos 2000, como a do México em 1994; do leste asiático (Coréia do Sul, Hong Kong, Taiwan, Cingapura, Tailândia, Indonésia, Malásia) em 1997; da Rússia em 1998; do Brasil em 1999; da Turquia em 2000; e da Argentina em 2001, os países em desenvolvimento então começaram a apresentar taxas exponenciais de crescimento econômico, em consonância com a disseminação do neoliberalismo nessas nações (que trouxe mais acesso ao crédito, a bens e a serviços, fazendo girar a economia capitalista). É no esteio dessa guinada do capitalismo financeiro à periferia do sistema que a alavancagem das políticas sociais no Brasil precisa ser entendida, principalmente no que diz respeito a um maior acesso ao crédito bancário, assim como a serviços – como o ingresso em universidades, cursos técnicos e tecnológicos e a adesão a planos de saúde privados – bem como ao acesso a bens, como a aquisição de automóveis, aparelhos  eletrônicos e moradias via programas habitacionais. Todas essas “conquistas” sociais são projetos elaborados pelo capitalismo financeiro, que opera “conquistas” semelhantes, em maior ou menor grau, na China, na Índia, na África do Sul, na Indonésia, no México, na Tailândia, entre outros países periféricos na geopolítica mundial.

Programas de transferência de renda: uma teoria liberal conservadora

Para abordar esses programas, recorro ao que já escrevi sobre o tema: “para falar do Bolsa Família, é interessante entender como surgiu a teoria dos programas de transferência de renda. Ainda na década de 50 do século passado, economistas liberais da Escola de Economia de Chicago, adeptos do livre mercado, como Friedrich Hayek e Milton Friedman, defendiam transferência de renda para as populações excluídas do processo socioeconômico. ‘Existem perdedores. Eles são pobres porque são perdedores e é claro que o Estado não pode ser insensível a isso. Como resolver a questão da pobreza? Oferecendo bolsas para alívio da pobreza, não direito social organizado em torno do trabalho’, dizia Hayek, já naquela época. No início dos anos 1990, o Banco Mundial então orienta os países em desenvolvimento a adotarem programas de transferência de renda para mitigar a pobreza. Com isso, dizia o banco, poderia-se identificar, quantificar e qualificar as/os pobres a partir de cadastros nacionais. Para os banqueiros e teóricos liberais, as bolsas de renda justificavam-se como forma de ter o ‘cadastro’ e ‘identificar’ as populações marginalizadas para domesticar qualquer possível revolta devido à miséria. Portanto, pasmem!, na raiz de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, estão teorias liberais, intrinsecamente capitalistas.

O PSDB foi o primeiro a criar programas de transferência de renda no Brasil. Com os tucanos, surgiram cerca de 12 programas desse tipo, com destaque para Bolsa Alimentação, Bolsa Escola, Auxílio Gás, Brasil Jovem, entre outros. Ao fim do governo FHC, em 31 de dezembro de 2002, cerca de 20 milhões de brasileiras/os eram atendidas/os por políticas assistencialistas. O Bolsa Família, no governo petista, foi a unificação de todos os programas do governo tucano em um só. Em 13 anos e meio no poder, o PT ampliou o cadastro de beneficiárias/os para cerca de 50 milhões. O Bolsa Família, em que pese ter na sua gênese teorias capitalistas e ser um programa paliativo, é atualmente imprescindível, uma vez que leva uma renda mínima a dezenas de milhões de pessoas. Mas, por ser fruto de teses liberais, esconde por trás da aparente benevolência sua face oculta, ou seja, a lógica totalitária de dominação e controle social, uma vez que não liberta, pelo contrário, vigia ainda mais uma grande massa de pessoas cujo principal anseio é não voltar a passar fome. Por tal motivo, é usado escancaradamente para fins eleitoreiros”. Assim, programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, são adotados em outros países periféricos, pois é uma demanda do capitalismo para as nações emergentes. Ou seja: não é uma política revolucionária ou exclusiva dos governos brasileiros. E certamente não será abandonada num governo conservador como o de Temer. Por atender a teorizações neoliberais, o programa será ampliado e obviamente usado como barganha eleitoral.

Acesso a serviços educacionais e mercantilização da educação

Outra questão cara à esquerda institucional é o ingresso de pessoas pobres no ensino superior. Mais uma vez essa discussão não está apartada das nuanças que envolvem objetivamente o capitalismo financeiro internacional, que atua em rede e hoje opera em diversas nações emergentes. É importante entender que nessa sua nova fase o modo de produção capitalista se expande aos países “em desenvolvimento” – como o Brasil – e, agora, requer quadros técnicos, quanto mais atomizados melhor, para sua tarefa de manter o macrossistema em pleno funcionamento. Daí o programa federal Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) e as escolas profissionalizantes. Com os países centrais em crise financeira na primeira década do século XXI, o capitalismo não podia parar de se expandir, e então criou milhões de novas vagas nos mercados da periferia do sistema – e preencheu-os com “colaboradores” com especialidades em funções eminentemente técnicas. Assim, a grande maioria da classe trabalhadora labuta oito horas diárias e gasta em média de duas a três horas por dia nos trajetos casa-trabalho-casa, e quando retorna ao lar ainda precisa fazer as tarefas domésticas (preparar a janta, etc.). Não sobra (quase) nada para viver! O mercado de trabalho moderno conseguiu a proeza de dar uma roupagem fetichista (“emprego de carteira assinada”) à escravidão! Você nunca se perguntou por que programas similares ao Pronatec são tão reverenciados por políticos neoliberais?

Quanto às vagas “superiores”, é inegável que nas universidades públicas houve uma mudança infraestrutural em relação ao sucateamento dos períodos Collor, Itamar e FHC, bem como se aumentou a quantidade de bolsas de graduação e pós-graduação. Foram construídas universidades e institutos federais em cidades interioranas, descentralizando o ensino superior federal. Isso é louvável. Todavia, a matemática é simples: com uma arrecadação de impostos que bateu recordes em anos seguidos, o Executivo esbanjava dinheiro em caixa. E ainda não fez sua obrigação básica, porque mesmo com vultosos recursos orçamentários não despejou 10% do PIB na Educação! Na verdade, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), os governos petistas, proporcionalmente (em relação ao PIB),  gastaram menos do que FHC em Educação, Saúde e outras áreas sociais. Sobre isto, a pesquisa das sociólogas Alba Pinho de Carvalho e Eliana Guerra, O Brasil no século XXI nos circuitos da crise do capital: o modelo brasileiro de ajuste no foco da crítica, aprofunda bem melhor a questão. Contudo, vale dizer que a bonança econômica brasileira da década passada não está separada do boom das economias capitalistas emergentes: os BRICS vivenciaram conjuntamente esse mesmo processo. É bem diferente, por exemplo, do período de vacas magras dos anos 1990, período de sucessivas crises nos mercados periféricos. Não estou eximindo de responsabilidade os presidentes do decênio 1990, que para mim foram deploráveis, só estou pontuando que com muito dinheiro em caixa fica mais fácil realizar obras físicas, de cimento, areia e brita.

educacao_mercadoriaPor outro lado, a maioria absoluta das novas vagas no ensino superior surgiu no mercado privado, em faculdades e universidades particulares, via mensalidades “populares” e programas de financiamento estudantil, como o FIES. Funciona assim: o governo financia a classe estudantil a juros modestos (boa parte desses juros irá para banqueiros por meio do pagamento da dívida pública), e esta financia o capital privado, fazendo girar a roda da economia financeira moderna. E aí pululam em todas as esquinas faculdades caça-níqueis. A educação no Brasil passa por notório processo de mercadorização. Entendeu por que Lula e Dilma não estão revolucionando com essas supostas “conquistas” educacionais? Só estão seguindo o fluxo econômico esperado pela “modernização” nos países periféricos. Nesse sentido, pode apostar que o ingresso no ensino superior continuará aumentando, mesmo com governos ditos conservadores. Em verdade, o Brasil vive hoje, sem chance de retrocesso, um processo historicamente anacrônico de universalização do ensino superior aliado à captura da educação pelo setor privado, processo este que já foi vivenciado pelos países centrais (Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão) entre as décadas de 1950 e 1970.

Obviamente não há como ser contrário à universalização do ensino. Não é essa a crítica aqui. Mas devemos indagar: que ensino é esse? Ele realmente está preparando uma transformação para as próximas décadas ou assenta-se na petrificação de um modelo autômato, alienante e puramente mercadológico? Não haverá revolução social no Brasil enquanto a educação, seja ela de base ou superior, não for profundamente transformada em sua essência. Hoje, seja nas escolas, faculdades técnicas e nas universidades (com louváveis exceções em alguns cursos de humanas!), o sistema educacional é encarado como mero depositário de conteúdos atomizados. Para verdadeiramente transformar, já diziam mestres como Paulo Freire e Rubem Alves, a educação precisa funcionar como ferramenta que galvanize o pensamento reflexivo, que estimule a tomada de conscientização. O Brasil ainda espera por esse dia…

Saúde como mercadoria e subfinanciamento do SUS

saúde_mercadoriaAinda em relação ao acesso a serviços, é mister ressaltar o exponencial crescimento dos planos de saúde privados. Nos últimos 15 anos pipocaram modalidades “populares” no mercado privado de saúde no Brasil, estimuladas pelo Governo Federal. De 2002 a 2014, foram 12 anos ininterruptos de crescimento do mercado de planos de saúde privados no país. Nos últimos dois anos (2015 e 2016/até junho) houve pequena queda, numa relação direta com o aumento do desemprego. Ainda assim, de 2006 a 2016, o mercado privado de saúde no Brasil abocanhou cerca de 11 milhões e 200 mil pessoas. Imagine os bilhões de reais injetados no mercado financeiro via planos de saúde privados. Não vou nem me aprofundar em relação ao péssimo serviço ofertado por essas operadoras de saúde. Podemos dizer que o acesso a serviços de saúde privados é uma “conquista” social? Se não, por que o acesso a serviços privados de educação é considerado uma “conquista”? É indiscutível, portanto, que a universalização do acesso à saúde e à educação no Brasil tem se dado, majoritariamente, por meio da iniciativa privada, justificando a tese de que não são “conquistas” sociais no sentido marqueteiro, mas causalidades e fenômenos concernentes ao fluxo lucrativo do mercado financeiro mundial.

O SUS, por exemplo, teve aumento de investimentos em relação à década de 1990: a lógica aqui é a mesma para o investimento em educação: com o aumento da arrecadação de impostos sobrou mais dinheiro em caixa. Ainda assim esse investimento nunca chegou perto de atingir os 10% do PIB, luta histórica dos movimentos sociais. E mais uma vez reitero: proporcionalmente (em relação ao PIB), gastou-se menos em Saúde do que na Era FHC, ao contrário do que o marketing faz crer. No último ano e meio de governo Dilma, houve cortes orçamentários de R$ 16,5 bilhões na Saúde. Outra manobra do governo Dilma que é contraditória ao seu discurso estatista foi abrir o mercado nacional para seguradoras estrangeiras. Agora, prepare-se para o maior absurdo: entre as dez maiores economias do mundo, somente Brasil e Estados Unidos gastam mais do seu orçamento em Saúde no setor privado que no público. A Frente Nacional contra a Privatização da Saúde, após estudos realizados em 2013, chegou aos seguintes números:

a) De 2008 a 2012, 57% dos recursos do SUS para procedimentos hospitalares de média e alta complexidade foram investidos na rede privada (filantrópica), contra 43% na rede pública.

b) Na década passada (2001-2010), 74,5% das internações realizadas no setor privado foram custeadas pelo SUS.

c) Atualmente, 55% dos gastos públicos na Saúde são utilizados para pagar a rede privada contratada.

Recentemente, a esquerda institucional estrebuchou-se quando o atual ministro da Saúde de Temer, Ricardo Barros, disse que estava estudando criar um plano de saúde popular para “desafogar o SUS”. Ora, como supraexposto, esse precedente foi aberto no governo Dilma, ao inverter as prioridades e investir a maior parte do orçamento da Saúde no setor privado. A ideia da equipe de Temer é condenável, mas representa tão somente a continuidade de uma política que já vinha sendo implementada em Dilma. É preciso pôr em xeque essa indignação seletiva e maniqueísta. A crítica precisa ser mais profunda e abrangente, fugindo às falsas oposições, para então poder enxergar mais longe e por trás das aparências discursivas e performáticas. Portanto, em que pese investir pesadamente em marketing no “Mais Médicos”, este programa paliativo e barato só acoberta superficialmente o modus operandi dos últimos governos Lula e Dilma: subfinanciamento do SUS e mercantilização da saúde. Nada muito diferente do que faria um governo neoliberal, não é mesmo?

Transformação social ou miséria moral?

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Dignidade é consumir?

Se o acesso a serviços é essencial para a reprodução contínua e cumulativa das condições objetivas do capital para render mais capital, o acesso a bens tem a mesma importância nesse jogo. Não à toa Lula se orgulhava em dizer que tinha gerado 30 milhões de “consumidores”. Nunca foram vendidos tantos eletrodomésticos, eletrônicos e automóveis (motos incluídas) no país quanto nos governos Lula – principalmente – e Dilma. A população antes excluída da lógica do consumo de bens materiais foi lançada a ele, sem uma mediação reflexiva vinda de nenhuma parte (nem do governo, nem do terceiro setor, tampouco da academia – que tem severas dificuldades em chegar às comunidades). Assim, não foi dignidade social o grande legado desse processo, mas um aumento exacerbado do consumismo e da dinâmica de descartabilidade da mercadoria. Essa junção (consumismo + descartabilidade) opera como a pedra filosofal do capitalismo financeiro do século XXI. Será mesmo que essa era a única maneira de levar dignidade e, vá lá, cidadania (mesmo com as profundas ressalvas que tenho com esse termo) às populações marginalizadas? O acesso a bens materiais e simbólicos não poderia ter sido facilitado de um modo que fugisse aos padrões da sociedade do consumo? Dar dignidade a alguém é dar-lhe poder de consumo?

Nas favelas aonde ando há 16 anos, percebi que a parte interna das casas mudou, com televisões novas, geladeiras, fogões, celulares modernos. Algumas até trocaram a taipa ou o madeirite por alvenaria, mas o esgoto continua escoando na frente das calçadas, no posto de saúde faltam profissionais e medicamentos, e as oportunidades de vida continuam as mesmas de vinte anos atrás: os rapazes “escolhem” majoritariamente entre ser servente de pedreiro, trocador de ônibus, frentista, empacotador de supermercado ou “criminoso”; as moças entre ser diarista, empregada doméstica, empacotadora de supermercado, trocadora de ônibus… Que “transformação na vida das pessoas” foi essa? Não seria a miséria moral do consumismo tão nociva à emancipação humana quanto a miséria material?

Os programas habitacionais e sua relação com o capital imobiliário

Ainda com relação ao acesso a bens protagonizado pelos governos Dilma e Lula, o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) é a “menina dos olhos”.  Já falei sobre o assunto na 4ª edição da Berro (Minha Casa, Minha Vida: nem tudo o que parece é). A despeito de facilitar o acesso à moradia para famílias economicamente vulneráveis, o MCMV produz isolamento socioespacial e lucros vultosos às empreiteiras. A arquiteta e professora da Universidade de São Paulo (USP) Beatriz Rufino, em colaboração para a revista Berro, disse que “o programa segue o receituário das políticas neoliberais, onde o Estado define como sua tarefa o papel de retirar os entraves burocráticos e criar condições necessárias para atrair o setor privado para atuar na execução da produção de casas”. O geógrafo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) José Borzacchiello, pontua, na mesma reportagem para a Berro, que o MCMV “afasta cada vez mais o cidadão de seu local de trabalho. Esse consorciamento junta proprietários de terra e grandes incorporadores. A resposta espacial desse processo é a aceleração da especulação imobiliária e o distanciamento da população mais pobre dos centros tradicionais”.

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O déficit habitacional brasileiro cresceu nos últimos 10 anos (Foto: Anderson Barbosa)

Dessa forma, o MCMV é uma solução engenhosa do capitalismo imobiliário para atrair segmentos antes inexplorados e inalcançados pelo mercado: é a moradia sendo transformada em mercadoria, despojada de sua função social. Programas habitacionais como o MCMV ocorrem hoje em outros países periféricos, como México, Colômbia, Venezuela, África do Sul, China, Índia, Indonésia, etc. Em suma, seus efeitos diretos foram o aquecimento do mercado da construção civil – favorecendo grandes empreiteiras – e a disseminação de um processo perverso de especulação imobiliária nas principais cidades brasileiras, que afastou as populações estigmatizadas das áreas centrais. Ok, cerca de três milhões de moradias foram entregues, mas as famílias com renda entre zero e três salários mínimos, que representam 85% do déficit habitacional, são as menos atendidas pelo programa, ao passo que aquelas com rendimentos entre três e dez salários mínimos, que somam apenas 15% do déficit de habitação, são as mais atendidas. Nesse ínterim, o déficit habitacional brasileiro, ao contrário do que se pode imaginar, só cresceu.

Vale uma contextualização histórica aqui: as políticas habitacionais que aliam o estímulo ao capital imobiliário junto à higienização social (ou seja, o processo que empurra populações marginalizadas para áreas distantes dos equipamentos infraestruturais da cidade) foram inicialmente adotadas por França e Inglaterra ainda no final do século XIX. Nos anos 1930, os Estados Unidos usaram a estratégia de construir conjuntos habitacionais como uma das soluções encomendadas pelo mercado para sair da crise de 1929. No pós-2ª Guerra, as políticas habitacionais ganharam vulto nos países centrais, com a reconstrução das cidades devastadas e ocorreram com vigor até o final dos anos 70, nos guetos estadunidenses, por exemplo. Atualmente, essas políticas estão em decadência nas principais potências capitalistas e em franca expansão nas nações em desenvolvimento. Ou seja, a política habitacional adotada pelo capitalismo industrial desde o final do século XIX chega agora, em pleno século XXI e sob a égide do capitalismo financeiro, aos países periféricos com a áurea de “transformação social”.

O MCMV, portanto, não simboliza outra coisa senão a subserviência aos ditames do capital imobiliário nacional e internacional. Não se está aqui criticando a construção de casas para as populações mais pobres, mas sim aonde elas estão sendo construídas e que grupos empresariais estão enchendo os bolsos com essas construções. Outro ponto é que o MCMV não é nada “revolucionário” ou “transformador”, como querem apregoar, mas, como historicamente analisado, um programa profundamente conservador, que tem sua gênese e conceituação no capitalismo de um século e meio atrás. Você sabia que a Odebrecht, a OAS, a Queiroz Galvão e a Andrade Gutiérrez, empreiteiras ligadas à corrupção na Lava-Jato, são quatro das construtoras oficiais do MCMV? Consegue enxergar aí alguma relação entre esse fato e o que foi dito anteriormente sobre programas habitacionais e sua relação intrínseca com o modo de produção capitalista?

 

IV

“Inclusões enganadoras” e o jogo de faz-de-conta

Em síntese, as tais “conquistas” sociais da última década, ou seja, o acesso ao crédito bancário (especialmente via programas de transferência de renda), ao consumismo, a bens materiais e a serviços (educacionais e de saúde, em sua maioria privados) são fenômenos causais concernentes à expansão capitalista nos países periféricos. Estes mesmos fenômenos ocorrem, em maior ou menor grau, em nações “emergentes” como China, Índia, Indonésia, México, Rússia, Tailândia, África do Sul, etc. A bem da verdade, estas consequências teriam ocorrido com Lula, com Dilma, com FHC ou Aécio, porque era só seguir o receituário da lógica financeira.

Nessas “inclusões enganadoras”, diz o sociólogo José de Souza Martins, “o pobre aderiu ao mundo que o fez pobre”. Ainda segundo ele, o pobre continuará estigmatizado e vulnerável socioeconomicamente, mas uma vez lançado superficialmente no mundo do consumo e do acesso aos serviços, se acreditará incluído socialmente. São mudanças de perspectiva, mas não transformações sociais. As “inclusões enganadoras” não libertam nem emancipam, mas contribuem para a legitimação de um sistema que criou a não-vida, a reificação do espírito, na qual as relações sociais entre as pessoas transformam-se em produto, e portanto em relação entre coisas consumidoras.

dilma e aécioA crítica radical precisa ser feita nessa medida a todos os governos, que sem exceção colaboram ao jogo inanimado do capital. A dicotomia partidária entre “esquerda” e “direita” esconde a unidade da miséria moral da política tradicional. É sempre uma luta dos de cima contra os de cima, como disse Bourdieu, onde a militância funciona tão somente como massa de manobra. O golpe real nos é dado a cada dois anos, quando vendem a ilusão (por meio de jingles e marketing eleitoral) de que o voto é uma “arma de mudança”. A democracia representativa, no seu modelo atual, é uma invenção burguesa por excelência. As decisões que de fato vão impactar na vida das pessoas são tomadas por colarinhos brancos e tailleurs em salas de reunião e gabinetes executivos. O jogo é jogado pelos/as “representantes”, não pelos representados/as. O eleitorado é “café-com-leite”; pensa que joga, mas é só de faz-de-conta! Por que então não criamos um outro jogo?

“Estas reflexões podem ser rotuladas de bonitas, mas política e socialmente inviáveis por aqueles que acham a autoridade, o partido, o Estado, o poder enfim, o mestre da transformação social”. (Roberto Freire, Utopia e Paixão)

PS: Agora, separe 20 minutinhos do seu dia para ver esses dois vídeos que diferenciam perfeitamente um “governo representativo” de uma democracia. O que chamamos de “democracia” é um termo que foi forjado historicamente, mas o “governo representativo” é o contrário de uma verdadeira democracia. Os vídeo são super didáticos!

I. Vivemos em democracias?

 

II. Como funciona uma verdadeira democracia?

Para além da Matrix (ou Ensaio sobre a Liberdade)

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(Ilustração: Rafael Salvador)

Por Artur Pires

Inflação galopante (leia-se arroz e feijão mais caro), ajuste fiscal (leia-se arrocho salarial, desemprego em massa e ataques aos direitos trabalhistas), energia elétrica em níveis estratosféricos, superávit primário e altas taxas de juros (entenda-se aperfeiçoar os lucros às grandes corporações, principalmente bancos e demais organizações financeiras), pagamento da dívida pública (leia-se “um mega esquema de corrupção institucionalizado”, de acordo com Maria Lúcia Fatorelli, fundadora do movimento Auditoria Cidadã da Dívida), “Minha Casa Minha Vida” (entenda-se otimizar as benesses financeiras ao capital imobiliário, remover comunidades pobres de áreas nobres e atirá-las em regiões distantes das cidades, sem infraestrutura sequer razoável de saúde, educação, mobilidade, lazer etc.), reforma política (leia-se “palhaçada!”), entre outras, são apenas uma ilusória aparência, a pontinha do iceberg que salta para fora d’água. O sistema político usa nomes pomposos – outros marqueteiros – para cortinar o seu totalitarismo. E consegue seu objetivo. As pessoas em geral esquecem-no, apegando-se às aparências, discutindo-as nas redes sociais, nos sindicatos, nos partidos, nos debates acadêmicos, nas mesas de bar, dando de ombros à parte submersa (o maior pedaço, aquilo que o sustenta cada vez mais forte para manter sua dominação).

A presidenta Dilma é mais um fantoche, assim como Eduardo Cunha, Aécio Neves, Renan Calheiros, Cid Gomes, Camilo Santana, Roberto Cláudio; também Obama, Angela Merkel, Sarkozy, Xi Jinping, Cameron e quase todos que têm mandato, seja este legislativo ou executivo, bem como aqueles dos altos escalões do judiciário. Todos cúmplices e peças da engrenagem de um modelo político totalitário, de inúmeros tentáculos, que consegue viajar fronteiras e penetrar gabinetes como nenhum outro jamais conseguiu. Obedecem ao sistema sem questioná-lo, cumprindo com todas as suas obrigações. Trabalhadores fieis. Mudam de cor nas eleições, dizem ser diferentes. Balela! Antes de chegarem ao poder, já coadunaram com as estruturas hegemônicas, estão comprometidos até o pescoço, por vontade e escolha, às articulações da máquina totalitária. Se locupletam com as máfias imobiliária, de armas, de drogas, dos transportes, dos alimentos, farmacêutica, bancária, financeira e fiscal, entre outras. Na Sociedade do Espetáculo, Estado e máfia são uma coisa só, um emaranhado de interesses sedento por poder autoritário, uma rede complexa e altamente estruturada de controle social. Para a hipnose sobre o oprimido funcionar a contento – e este não perceber a gaiola onde está preso -, contam decisivamente com a indústria do entretenimento (cinema e música) e da comunicação em massa (principalmente televisiva) com suas doses cavalares de programação majoritariamente bestializante, além da ilusão publicitária e seu consequente estímulo ao consumo.

Vivemos a Oceânia, de Orwell, retratada no clássico 1984, vigiados pelo “Grande Irmão”; ou o Admirável Mundo Novo, de Huxley. Estamos tão enredados nessa teia que muitas vezes turvamos o olhar, não conseguimos enxergar alternativas de autorregulação e autodeterminação fora da Matrix; é justamente nesse ponto que discutir quem é menos ruim (se Dilma ou Aécio, PT ou PSDB, para ficar no exemplo-mor brasileiro) só interessa às estruturas poderosas à qual todos estes baixam a cabeça em subserviência. Debater essas questões falseadamente dicotômicas é cada vez mais inócuo, porque não muda nada. Esse pluralismo de escolha entre partidos (esquerda x direita) é ilusório e amplia as condições objetivas para o controle total dos corpos e dos povos. O saudoso Eduardo Galeano estava certo: “A liberdade de eleições permite que você escolha o molho com o qual será devorado”.

Uma coisa precisa estar clara (tiremos a venda que nos cobre a vista!): não há saída para a liberdade, para a justiça, para o amor, para a vida dentro dos marcos do sistema político, esse circo que a cada dois anos transforma dezenas de milhões de pessoas no Brasil em torcedores apaixonados e com viseiras laterais que lhe tapam parte da vista (iguais àquelas utilizadas pelos jumentos no sertão), esquecendo-se que para isso – torcer fanática e/ou sectariamente – já há o futebol, ou qualquer outra atividade de competição lúdico-desportiva.

Não há solução dentro da urna eleitoral. É só mais uma engrenagem de controle e um desnecessário apego às velhas técnicas de representação político-social. É preciso lembrar que as formas de práxis e ação históricas não são imutáveis; pelo contrário, são dinâmicas e impermanentes. A ilusão de que o voto e o atual sistema político mundial mudam alguma coisa é a mais bem engendrada mitificação da mentira em toda a História. Em verdade, não transformam a realidade social, mas tão-somente encobrem sua dominação, travestindo-se de democráticos: “precisamos aperfeiçoar nossa democracia, fazer leis que aprimorem a participação popular”; “na próxima eleição, a gente muda esse Congresso”; “vamos conseguir eleger alguém que nos represente lá dentro”; “eba! Conseguimos eleger um deputado (entre dezenas)”. Muitos movimentos sociais, partidos e militantes de esquerda caem nesse discurso que, trocando em miúdos, não muda na-di-ca de nada! Quem faz as leis? Quem executa as leis? A quem serve o judiciário? “A ditadura perfeita terá aparência de democracia: uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravidão onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à escravidão do trabalho” (Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo).

Não! Não e não! Estamos abrindo mão de nossa liberdade, de nosso próprio agir. Ao delegarmos poder a alguém por procuração eleitoral, acontece que, ao invés de exercer o poder por nós, esse representante exercerá o poder sobre nós. Ousemos. A vida acontece hoje, na nossa cara. Todo dia. As algemas do sistema político são grossas, mas podem ser rompidas. Galguemos nossa liberdade. A alforria arrancada à força está ao alcance: na gente, na rua e nos sonhos mais elevados. Pensemos em fazer a revolução primeiramente dentro de nós, nos libertando das amarras invisíveis que nos aprisionam, que nos mantêm encarcerados ao modo de vida do não-vivo, do superficial, do aparente; que nos engaiola no egoísmo mais mesquinho. Depois, que a façamos em casa, nas nossas relações cotidianas, fraternas e amistosas, sem impor nada ao outro, sem autoritarismo ou chantagem emocional. É hipocrisia das grandes dizer-se revolucionário e manter alguma relação de poder autoritário (seja com esposa(o), pai, mãe, filha(o), amiga(o), aluna(o), animal de estimação, etc.). Por fim, que a façamos nas ruas (ahh, a rua!), esse lugar tão vibrante, que é nosso, muito nosso.

Façamos por nós mesmos. Com nossas almas e esforços. Ações diretas, coletivas. Sem recorrer a presidente, governador, prefeito, deputado, senador, vereador. Façamos por nós mesmos! Eu, você. Nós. Eles. A humanidade é, sim!, capaz de criar novas maneiras de sociabilidade, de participação política, de convívio, interação e mobilização sociais. A revolução não é um evento estático, é um processo cheio de dinamismo, certas vezes permeado pelas pequenas contradições da prática, é verdade, mas é também grandiosa porque coletiva, soma anárquica das revoluções internas e externas de cada um. Revolucionar-se de maneira plena, endógena e exogenamente. Porque ela, essa energia vivente chamada revolução, não está só fora de nós, mas dentro também. Nem somente dentro de nós, mas à parte, no outro, naquilo que pulsa, que tem vida.

Se parássemos hoje mesmo de delegar nossa representatividade a outros, e vivêssemos dia a dia para legitimarmos a nossa existência, que é, em resumo, sonhar, aprender, fazer/agir e se doar à coletividade, estaríamos noutro patamar de humanização, libertaríamo-nos desse modelo inanimado do capital, que nos priva, em essência, da grandeza existencial da vida. A liberdade é um processo, não uma circunstância que lhe apresentam, não um direito que lhe dão. Ela não é dada por ninguém, é arrancada à força! A liberdade já começa quando sonhamos em ser livres.

*Artigo publicado na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

(Ilustrações: Klévisson Viana, na HQ Lampião... Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida; 1998, SP, Hedra)

Córagi, dinhêro i bala

(Ilustrações: Klévisson Viana, na HQ Lampião… Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida; 1998, SP, Hedra)

Das reminiscências infantis, do início dos 90, guardo com gosto doce de saudade as temporadas de férias que passava na casa dos meus avós maternos, em Barbalha, no Cariri cearense. A ida ao Cariri já era um aventura: seis horas de viagem cruzando o Ceará de norte a sul, até chegar à Chapada do Araripe. Na metade do caminho, a paisagem borrada pela aridez amarelada da caatinga e o verde tímido dos mandacarus anunciava o sertão central, pras bandas de Quixadá. Para matar o tempo da duradoura jornada, sentava-me junto a uma das janelas do carro e minha irmã escorava-se à outra; contávamos, cada um no seu lado, os jumentos que víamos na beira da estrada. Aquele que contasse mais jumentos ao final da viagem ganhava. Ganhava o quê? Ora mais, a oportunidade de arengar com o outro. Eu quase sempre ganhava. Mas, devo confessar, lançar uma mea culpa: vez ou outra contava dois jumentos onde só tinha um.

A casa de vovó Bibi e vovô Chico vivia cheia. Também pudera! Tiveram 11 filhos, um time de futebol completo, e os netos, àquela época, começavam a surgir aos magotes. Era uma meninada danada correndo pelo quintal, aquele grande quintal dos pés de lima, goiaba, banana e carambola, dos crótons, das samambaias, dos bouganvilles e das coloridas roseiras – essas, o grande chamego de vovó. Na parte mais baixa do terreno desnivelado, o poleiro feito por vovô acomodava as galinhas de capoeira e os capotes. Os almoços dominicais eram fartos, regados a galinha ao molho, feijão verde e suco de goiaba, tudo apanhado na mesma manhã do galinheiro, da horta e dos pés de planta no quintal.

Embora a casa vivesse cheia, o quarto de vovô não. À parte ele, que era o guardião daquele espaço secreto, enigmático da casa, só quem mais entrava por ali era vovó e algumas tias mais velhas. Sim, vovô tinha um quarto só para ele, porque àquela idade, chegando aos noventa, requeria cuidados especiais. O seu andar arrastado, vagaroso, pelo corredor da casa, do quarto à mesa do almoço e da janta, marcado compassadamente pelo som das alpercatas de couro feitas em Juazeiro deslizando pelo chão – chic, chic, chic – compõe uma memória auditiva da infância. Chegando à sala, do alto do seu corpanzil magro, da pele morena, e por baixo dos cabelos bem pretos que lhe escorriam sobre os olhos miúdos, fitava-nos com um olhar singelo de boa gente.

- A bênção, vô!
- Deus abençoe, meu neto! – e sacudia com seus dedos longos, de mãos já trêmulas, meus cabelos.

O quarto de vovô despertava em mim tanta curiosidade, mas tanta, que só era comparável à do Chaves, da Chiquinha e do Quico em conhecer a casa da Bruxa do 71. Um dia à tarde, em que minhas tias tinham ido à feira, meus pais e minha irmã ao Crato e vovó descansava a sua merecida sesta, larguei o pião que rodopiava na sala e fui de ponta de pé à porta do quarto misterioso. Olhei curiosamente por entre as frestas, mas como o local não tinha tanta luminosidade, percebi apenas que vô Chico estava sentado ao birô, revirando papéis velhos. Bati na porta – toc, toc, toc – e, sem esperar resposta, fui entrando. O quarto tinha um tom levemente alaranjado; a pouca luz que entrava pelas venezianas espelhava-se nos móveis antigos de madeira e davam essa tonalidade. Compunham também o ambiente um baú de velharias, quase escondido num rincão do local, e uma cadeira de balanço. Um mini-antúrio colocado estrategicamente em cima do birô dava uma brisa de planta àquele lugar.

Vovô mirou-me com olhos de susto, quis guardar os papéis que remexia, mas embaralhou-se todo. Percebi sua indecisão e aproximei-me ainda mais. Eram jornais velhos, muito velhos, que ele guardava com especial cuidado.

- O que faz aqui, menino danado?, perguntou-me, com sua voz rouca, desgastada pelo implacável tempo, pondo as grandes mãos sobre os jornais.
- Num tem ninguém em casa. Só vovó que tá dormindo. Vim ver se o senhor não tá precisando de nada, disse, dissimulando.

Nesse instante, ele me lançou olhos de nuvens. Aquelas vezes em que o olhar das pessoas nos fitam, mas vagueiam distantes, lentos, passeando por lugares e formas que só a mente alcança, como as nuvens no céu. Falou com seus botões, naquela linguagem sem palavras, mas gestual, que todos trazemos conosco. Decidiu algo. Voltou-se a mim e indagou-me:

- Já ouviu falar de Lampião?
- Já, vô. É aquele negócio que o povo antigo usava antes de existirem as lâmpadas. Vó Bibi disse que vocês usavam era muito aqui em Barbalha.

Seu Chico riu daquela inocência. Foi uma gargalhada gostosa. Nunca o tinha visto gargalhar daquele jeito. Seus olhos amiudavam-se e sua cara engelhava ainda mais. Ri também, sem saber por que, mas levado por uma sensação boa; naquele momento me senti mais próximo do meu avô, como se o riso juntasse as almas.

lampião2Se recompôs, retirou as mãos de cima do jornal velho que segurava, fez um gesto de mãos como que me chamando, e mostrou-me uma manchete: “Polícia caça Lampião e seu bando”. Eu tinha virado doutor do ABC há pouco tempo e já podia ler. Li e em seguida encostei-me à beira da cama. Vovô fechou o jornal, passeou a vista pelo quarto ao tempo em que, novamente com olhos de nuvens, passava os dedos pontudos sobre o rosário preso ao pescoço:

- Lampião, meu neto, foi um cabra danado, sertanejo valente, que fez justiça por estas bandas do Nordeste com as próprias mãos.
- Foi mesmo, vô! E cadê ele?
- Ihhh, já morreu faz tempo. Mas de lá pra cá não apareceu um cristão que fosse cabra macho como ele foi, disse seu Chico, com ar saudoso.
- O que ele fazia vô?
- Hummm… (longa pausa). Ele queria mudar as coisas, meu fi. Muitos dizem que ele era bandido, mas nera não. Perdeu o pai e a mãe novo, de morte matada, pela polícia. Depois, desacreditado da vida, saiu aí por esse sertãozão de meu deus atrás de fazer justiça com as próprias mãos. Tirava dos barão, dos comerciantes e dos fazendeiros pra dividir com o povo do sertão e com os seus.

Àquela altura, a figura de Lampião mexia com meus pensamentos. O imaginava um homenzarrão corajoso, destemido, que enfrentava os perigos sem pestanejar. Um herói!

- Ele é mais valente que o Jaspion, vô?

Seu Chico não se conteve novamente. Dessa vez, não gargalhou tão forte, mas ainda assim seus olhos apequenaram-se.

- Muito mais valente que o Jaspion. Muito mais!, disse ele, recorrendo à gaveta, de onde tirou um pequeno frasco, no qual tinha um pó amarronzado que ele grudava aos dedos e levava às narinas. Fung!, fung!
- Que é isso, vô?, perguntei-lhe com grande espanto.
- É torrado! Misturo o rapé com a raspa da imburana e fica assim, esse torrado cheiroso.
- Hum-rum!, disse eu, sem entender muito aquela explicação, mas dando-me por satisfeito.

Repetiu aquelas fungadas diversas outras vezes aquela tarde. Adorava torrado, ele! Após um daqueles funga-funga, voltou seus olhos miúdos a mim e perguntou-me se eu queria ouvir uma história, mas tinha que guardar segredo. Ouvir histórias me fascinava. Disse que sim, que já era um rapazinho e sabia guardar segredo. Respirou fundo, voltou os olhos para o jornal e começou sua narrativa:

- Foi há muito, muito tempo atrás, no ano de 36. Sua mãe não era nem nascida ainda. Eu era guarda-fios, meu fi, profissão que nem existe mais. Tinha que me embiocar no meio do mato para consertar e cuidar dos fios do telégrafo que chegavam aqui na Barbalha. Nesse dia, era cair da tarde, as galinhas já trepavam nos poleiros e as raposas empinavam o nariz para sentir o olfato da caça. As cotias e os pebas também cuidavam de ir para seus esconderijos. Os gatos do mato podiam aparecer. Mas eu andava prevenido com uma peixeira nas calças. O sol caía manso, amarelado, por trás da Chapada. Nessas horas, no entardecer, parece que o sertão fala mais alto, anunciando a lua nova. Estava já voltando para casa, já sonhando com o guisado de carneiro que tua vó tinha feito, quando ouvi um gemido de dor, acompanhado de uma súplica rastejante: “Me ajude aqui, homi de deus”. Quando olhei, embaixo do pequizeiro, vi um homem baleado na altura da coxa. Sangrava muito da perna esquerda…

Seu Chico contava aquela história com grande convicção. Ele estava ali, naquele quarto, em carne e osso, mas seus olhos de nuvens estavam no meio do mato, naquele encontro inesperado com o homem baleado. Mexia as mãos ao falar, fazia grandes gestos, revivia tudo, tudo.

- Tive que ajudar aquele homem. Ôxe, um homem baleado na minha frente e eu não ia fazer nada. Perguntei o que tinha acontecido. Quem o havia acertado. Disse que tinha sido um macaco.
- E macacos sabem atirar, vô?
- Macaco é como chamavam os policiais, meu neto. Macacos! Perguntei por que tinham feito aquilo. Ele disse que me explicava tudo, mas que antes eu precisava levá-lo dali, dá-lo guarida, estava correndo perigo. Eu nem conhecia aquele homem, nunca o tinha visto na minha frente, mas suas palavras e feições me pareceram verdadeiras. Ajudei-o a levantar-se, escorei-o ao meu ombro e saímos dali; ele andando com dificuldade, mas seguro de que precisava sair daquele matagal o quanto antes. Quando chegamos em casa, tua vó nos recebeu com espanto. Perguntei-lhe onde podíamos abrigar aquele homem. Ela não se fez de rogada: prontamente providenciou esse quarto, esse mesmo quarto que estamos agora para acolhê-lo.
- E quem era esse homem, vô?
- Pera que eu vou chegar lá. Amarramos um pano na perna para estancar o sangue. Sua vó foi fazer um mastruz com leite bem forte pra dar pro homem, que comeu também do carneiro guisado. Deixamos ele descansar aquela noite. Estava debilitado, sem forças, febril. No outro dia, fui ter com ele, afinal precisava saber quem era aquele cabra que estava aqui em casa e o que ele tinha feito pra levar bala da polícia. No outro dia de manhã, levei-lhe um café preto, daqueles bem forte que só dona Beatriz sabe preparar. Enquanto ele tomava, perguntei: Como é cabra, explica essa história direito, como foi que aconteceu isso aí?, disse, apontando para a perna atingida. Ele deu um grande gole no café, remexeu-se na cama, ajeitou-se numa posição que lhe parecia confortável e emendou, olhando firme para mim: “Meu nome é Virgulino, mas todo mundo me conhece por Lampião”, disse ele, sacando da cintura a parabellum que até aquele momento estava escondida nas calças. Ôxe, nessa hora minhas pernas tremeram. Sabia da fama de Lampião, mas nunca ia imaginar que o cabra fosse parar aqui em casa, na minha frente. Engoli a seco, gaguejei um pouco, mas me contive e conversamos. Conversamos um bocado. O cabra era bom de prosa, num sabe?

Eu, embasbacado, acompanhava aquela história com a mão no queixo, os olhos vidrados em vovô – que de vez em vez dava uma fungada no seu torrado – e a mente longe, tentando me teletransportar ao passado. Vô Chico continuava:

- Mas olhe, ele teve foi sorte de que o tiro pegou só de raspão. No final do segundo dia aqui em casa, à base de mastruz com leite, café preto e cuscuz, ele já estava bem melhor, com uma aparência bem mais saudável do que a daquele dia embaixo do pequizeiro. Perguntava muito sobre o movimento na rua, se ainda tinha alguém do seu bando pelo Cariri, etc. Conversamos sobre muitas coisas, sobre a Coluna Prestes, sobre a visita dele ao Padre Cícero, sobre o cangaço, sobre Maria Bonita, sobre o Cariri – ele dizia que aqui era um terra boa -, sobre as injustiças dessa vida, meu neto, que você ainda há de conhecer…

Nesse instante, vô Chico retornou ao jornal velho, amarelado, e começou a lê-lo: “Lampião foi baleado em confronto com a polícia há dois dias em Barbalha e encontra-se foragido. Ninguém sabe o seu paradeiro”. Fechou o diário e riu. Riu com desdém, um riso frouxo, de canto de boca, de quem sabia o paradeiro de Lampião. Senti que aquela história mexia com ele, lhe trazia um sopro de vida novo. Fez olhos de nuvens diversas vezes; viajou, sonhou, vagou pelo passado, passeou por uma história que há dezenas de anos andava adormecida em suas lembranças.

- Sua vó ficou aos nervos quando soube que o cabra era Lampião. Mas com aquele coração mole, foi fácil convencer ela a deixar o homem ficar mais umas noites até que ele se recuperasse totalmente. Nessa época, a gente não tinha que esconder ele de ninguém aqui em casa. Só tua tia Rosa era nascida. E muito miúda. Não entendia da vida ainda. Só que no terceiro dia, quando pela manhã fui levar o café preto para ele, a cama estava o canto mais limpo. O homem não estava mais lá. Tinha-se ido.

Nessa hora, vô Chico fez uma pausa na história, se levantou da cadeira de balanço, caminhou ao baú de velharias, remexeu os papéis, pegou com cuidado um em especial, bem velho, já bastante amarelado pelos anos. Deu mais uma fungada no seu rapé e sentenciou:

- Mas ele deixou um bilhete. Esse aqui, aos garranchos, no qual agradecia a mim e à sua vó pelas horas de cuidado, pela confiança, pelo mastruz com leite e pela prosa. No fim, dizia que tinha que voltar ao seu bando, à sua Maria Bonita, precisava ir.

Pedi para ver o bilhete, afinal já era doutor do ABC, já sabia ler. Não lembro de quase nada do que estava escrito, exceto uma frase que matuta na minha cabeça ainda hoje, vinte anos depois de lê-la: eu carrégo cumigo coráge, dinhêro i bala!

A revolução das consciências

magnata(Arte: Luis Quilles)

Por Artur Pires

O que fazer quando todas as factualidades levam ao completo descrédito na política brasileira? O que fazer quando “políticos” sem nenhum estofo ético, suspeitos de corrupção e improbidade administrativa se perpetuam em cargos executivos e legislativos? O que fazer quando o Congresso e o Executivo Nacional, os ministérios, as assembleias legislativas, os governos estaduais, as câmaras e as prefeituras estão todos abarrotados de “políticos” cujo interesse, único e exclusivo, é se locupletarem ciclicamente, enchendo os bolsos com polpudas quantias à margem da legalidade? O que fazer quando as poucas vozes dissonantes do modus operandi supracitado são sistematicamente negadas, silenciadas ou tratadas, por este mesmo aparato político-institucional, como insignificantes, irrelevantes ou “loucas”?

O jogo da troca de favores, das locupletações, das conversas ao pé da orelha, dos tapinhas nas costas, dos favorecimentos escusos, das decisões tomadas às sombras, ou seja, da corrupção em seu mais avançado grau de metástase, é solenemente ignorado, empurrado cirurgicamente para debaixo do tapete. Quando a tramóia vem à tona, é enfaticamente negada por senhores engravatados e de paletó, do alto de suas posições hipócritas de baluartes da ética, da moral e da probidade administrativa. Nos primeiros dias após o surgimento dos escândalos, a sociedade mostra-se indignada. Depois, muito pouco depois, cansa, esquece, vai atrás de algo que a distraia. Vai ver novela, assistir ao futebol ou ao BBB. Abaixada a poeira, tudo volta à normalidade da roubalheira.

Constatação óbvia ululante: a sociedade brasileira acostumou-se com as coisas como elas são; dá de ombros à desenfreada corrupção que toma de assalto todos nós. “Quero nem saber de política”; “de política eu quero é distância”; “político é tudo ladrão”; “não interferindo na minha vida, pode roubar o quanto quiser”, entre outros, são aforismos recorrentes em qualquer lugar do Brasil. Pessoas que vomitam estas frases não se dão conta que essa ojeriza à política só contribui para que cada vez mais os “políticos profissionais” se grudem feito ventosas às estruturas dominantes do poder e não mais larguem o osso.

Longe de vestir o discurso genérico dos panelaços gourmets de “abaixo a corrupção”. Não é isso. A corrupção é só uma das várias faces e desdobramentos do sistema político, como a eleição já é, em si, a própria essência desse teatro. A bem da verdade, a essa altura da realidade, não acredito mais que uma reforma política – que contemplasse o fim do voto obrigatório, o exclusivo e igualitário financiamento público para campanhas políticas, a distribuição equânime de tempo de propaganda política obrigatória no rádio e na tevê e a validade do voto nulo – seria suficiente para uma mudança paradigmática, que é necessária. O sistema político – e suas representações simbólica e real – junto à sociedade do controle e do consumo estão tão irremediavelmente viciados e imiscuídos ao modo de produção hegemônico que uma reforma política ganha ares de “pontual reparo na engrenagem do sistema”, que precisa continuar funcionando a todo vapor.

O sentimento que paira insistentemente no ar, mas poucos sentem, é o de que está tudo errado, às avessas. Consertar, enfim, arremedar a estrutura dominante não é a solução. A alternativa é destruí-la, pô-la abaixo. O verdadeiro e profundo movimento emancipatório da sociedade não surgirá do Congresso nem do Executivo Nacional tampouco dos ministérios, das assembleias legislativas, dos governos estaduais, das câmaras e das prefeituras. Estas instâncias estão todas carcomidas, escravas de uma ideologia conservadora ou, quando muito, reformista, de avanços mínimos e pontuais. Avança daqui, retrocede dali. Essa é a lógica viciada e viciante.

À consciência emancipatória é necessário difundir-se, grassar louca e desmedidamente, espalhar-se aleatoriamente por todas as searas e instâncias sociais. Para isso, deve contar com organizações sociais e de trabalhadores e movimentos autogestionários que estejam dispostos a levar a mensagem revolucionária, além de uma imprensa pró-ativa, combatente e alternativa à grande mídia (uma vez que esta sustenta e difunde todo esse modelo simbólico de dominação e controle), que exerça papel crucial, em médio prazo, na libertação da sociedade em relação à lógica mercantil, do círculo vicioso e exaustivamente repetitivo: exploração do trabalhador (mais-valia), produção de mercadorias, consumo de mercadorias e entretenimento hipnotizante.

Como disse Debord, no seu clássico A Sociedade do Espetáculo: “A burguesia chegou ao poder porque é a classe da economia que se desenvolve. O proletariado só poderá ser o poder se ele se tornar a classe da consciência.”Portanto, o movimento de emancipação real, revolucionário em sua própria essência, surgirá das ruas, do povo, das consciências. Das consciências.

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Crônicas da Cidade: Ou vai… ou racha!

(Foto: #VaiTerCampinho, de Gabriel Gonçalves)

Artur Pires

Não, o título acima decididamente não faz alusão a nenhuma necessidade iminente de decidir-se sobre algo, de optar por algo ou qualquer coisa que os valha. É nada mais do que um trocadilho fuleragem para introduzir o assunto que as próximas linhas abordarão: o futebol na Cidade dos Funcionários e adjacências.

Racha é a maneira como milhões de brasileiros se referem ao ato de jogar futebol, bater uma bolinha. A Cidade dos Funcionários já foi um bairro pra lá de propício a esta atividade. Hoje nem tanto, mas até alguns anos atrás essa banda de cá de Fortaleza agrupava mais campos de futebol do que qualquer centro de treinamento de time da 1ª Divisão do Campeonato Brasileiro. Era um campo a cada esquina.

Foi assim que o bairro se desenvolveu: em volta dos inúmeros campos de futebol que dividiam com as mangueiras, jambeiros, pés de azeitona e cajueiros a composição da paisagem outrora bucólica desta área. É por este motivo também que a Cidade e adjacências (Tancredo Neves, Tasso, Vila Cazumba, Cajazeiras, Jardim das Oliveiras) abriga (ou abrigou, uma vez que alguns já fecharam as portas) diversos times suburbanos da capital: Fortalezinha, Cearazim, Vasquim, Juventude, Atalanta, Asas, Cifec, Leão Azul, Tancredo Neves, Internacional, Nacional e UGFC.

Lembro das primeiras vezes que, ainda menino véi de 9 ou 10 anos, experimentei sair de casa para jogar bola em algum dos campos aqui das redondezas. Joguei, desde então, numa dezena deles: no da Pague Menos (era assim chamado porque ficava atrás da farmácia homônima), no do IPEC, no do Asas, no campo dos conjunto, no campo das azeitoneiras, no lago, nos trenszim, no campo do terreno do Antônio Caixeira (ganhamos inclusive um campeonato nesse campo, que nos valeu, como prêmio, uma galinha de capoeira – ainda viva! Essa história está retratada aqui: O torneio da galinha) e, obviamente, no campo de areia da praça (que, infelizmente, não existe mais).

De geração após geração, o costume de bater racha na Cidade dos Funcionários é mantido. Sagrado! Atualmente, a praça está em reforma e o racha rola às quarta-feiras na quadra da escola próxima. Quando voltar à praça, não se restringe só à galera da Cidade. Vem jogador do Tancredo Neves, da Vila Cazumba, do Jardim das Oliveiras, do Vila Verde e das Cajazeiras. Vez por outra, até do Cambeba, da Messejana e de outras áreas mais distantes.

Em torno de jogar futebol, se reúnem pessoas de diferentes bairros. Mas o grande lance é que os encontros não se restringem tão somente ao ato de bater uma bola. Não! Há, também, nas arquibancadas da quadra toda uma interação maior que vai muito além dos “10 machos correndo atrás de uma bola”.  Tem as tirações de onda, tem a prosa descontraída, tem a convivência com pessoas de outras quebradas que, certamente, se não fosse pelo racha que as leva até a Cidade, nunca as conheceríamos. E sabe por quê?! Porque para jogar futebol bastar querer – e, minimamente, saber chutar uma bola! Não importa se é preto, branco, pobre, rico, magro, gordo, baixo, alto; rachar numa quadra de praça é extremamente democrático (não falo aqui desses campos de aluguel que custam 60, 70, 80 reais a hora). Sem falar que é um das pouquíssimas atividades de lazer para muitos jovens da periferia, que vivem em meio à negligência e ao descaso estatal.

O triste de tudo isso é constatar que a cada ano diminuem as opções de campos no bairro (na cidade como um todo!) devido ao processo predatório da especulação imobiliária, que vai transformando os campinhos em concreto, cercas elétricas e medo. Uma pena!

UGFC

Um dos times da Cidade dos Funcionários, que tenho orgulho de fazer parte, o União dos Grafiteiros Futebol Clube (UGFC), formado e treinado no racha da quadra, com 90% dos jogadores nascidos e criados no bairro, disputa torneios amadores. O UGFC foi campeão do Torneio Interbairros do Canindezinho (bairro da zona oeste de Fortaleza) em 2011 e vice-campeão em 2012. Venceu também um torneio na Parangaba em 2011. Já disputou torneios na Sabiaguaba (2012 e 2013), na comunidade do Pôr do Sol, na Grande Messejana (2015), entre outros.

Mais do que o clichê “o importante é competir”, o que vale mesmo é compartilhar a vida por meio do futebol, porque, mais do que um esporte, ele pode ser um agregador social dos bons.

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Da seção Crônicas da Cidade

A mídia ninja e a mídia molecagem
A periferia que se foi…
Uma noite no Canto das Tribos
A sexta-feira da praça
O torneio da galinha
Dedé, boemia e futebol
A arte de levar uma geral 

Operacao_militar na favela

A violência legitimada e a seletividade midiática*

(Charge: Latuff)

Por Artur Pires

Anote aí: ainda hoje, em qualquer noticiário midiático da imprensa empresarial, de qualquer parte do Brasil, você, leitor/ouvinte/telespectador/internauta, tomará ciência de, no mínimo, mais um caso da violência que assola o país. As consequências da guerra civil que impera no cotidiano brasileiro são diariamente retratadas na mídia empresarial, que conta ainda com a espetacularização e a “venda” dessa tragédia social nos programas policialescos.

Mas e as causas? Sim, e as causas dessa violência desenfreada? Ah, essas são propositalmente escanteadas. Não é do interesse da “grande mídia” discutir os porquês da escalada da violência nas cidades brasileiras, uma vez que se se propusesse a levantar o debate em torno dessa questão, se chegaria à conclusão de que o maior responsável pela barbárie social brasileira é o modo de produção hegemônico baseado no dinheiro e no consumo, que aprofunda desigualdades e cria duas realidades sociais: a dos que têm e a dos que não têm.

A sociedade brasileira legitimou e, pior ainda, naturalizou a mais cruel das violências: a da exclusão. Nesse exato momento, enquanto se lê essas linhas, há milhões de brasileiros morando em barracos de pau, papelão e lona nas inúmeras favelas que grassam pelo país; milhões de brasileiros dormindo em cima de papelões, embaixo de marquises e viadutos; milhões de brasileiros catando lixo para comer e sobreviver, disputando seu café-da-manhã, almoço e janta com gatos e cachorros em feiras, praças e calçadas. O mais aterrador de tudo isso? Esses brasileiros são vistos diariamente nas ruas, sinais de trânsito e praças das grandes cidades, mas ainda assim permanecem invisíveis aos olhos dessa sociedade marcada por contrastes. Essa mesma sociedade que, quando muito, dá um trocado para o pretinho que faz malabarismos com bolinhas no semáforo e em seguida ruma para sua casa convicta de que fez sua “boa ação”.

A tragédia da exclusão, da desigualdade e da miséria é escandalosamente ignorada pela mídia empresarial. Quando vem à tona, emerge sob a forma da criminalização da pobreza. Para a mídia burguesa, o bandido no Brasil tem cor, classe social e residência: é preto, pobre e mora na periferia. Ao Partido da Imprensa Golpista (PIG), é necessário construir este estereótipo do criminoso para sombrear a real causa da violência. É por isso que mídia e sociedade aplaudem quando a PM invade favelas e mata traficantes – muitos destes já rendidos - e, em maioria, extermina à revelia moradores que não têm participação nenhuma nessa guerra. É por este mesmo motivo que mídia e sociedade cantam loas à invasão de morros cariocas pela Polícia e pelas Forças Armadas.

Agora, dizem eles, essas comunidades “viverão em paz e libertas do tráfico”. Primeiro, paz sem voz, não é paz, é medo, já diria o Rappa. Segundo, libertas do tráfico? Ora, o tráfico continua a existir abertamente, com a diferença de que agora a PM abocanha parte generosa do lucro da atividade, que antes era exclusivo aos traficantes. Mas isso, ah, isso não é motivo de pauta para a mídia vendida. À imprensa burguesa, é bem mais pertinente aplaudir as UPPs e referendar a domesticação das comunidades invadidas aos padrões do status quo vigente.

Enquanto se lê essas linhas, centenas – quiçá milhares – de brasileiros que moram em favelas, principalmente jovens negros, estão sendo mortos, seja por disputas entre gangues rivais, seja, em sua maioria, pela PM (a polícia brasileira é a que mais mata no mundo; mais do que o Exército fascista de Israel e o governo sírio juntos). É como diz o Racionais MC’s, “assustador é quando se descobre que tudo dá em nada e que só morre o pobre”. Esses jovens são, ao mesmo tempo, causa e conseqüência de uma violência legitimada pelo Estado e endossada pela sociedade. Mas ninguém os vê. Afinal, eles estão lá, no outro Brasil, aquele da miséria, da indignidade, da invisibilidade. A sociedade não se importa com o banho de sangue diário, com a tragédia cotidiana pintada em vermelho nas periferias brasileiras. Não há comoção nacional para esses casos.

Mas experimente um desses jovens se revoltar da sua realidade miserável e violenta, resolver arrostar o estado das coisas e partir para o confronto direto, armado. Experimente esse jovem assaltar e, pelo calor das circunstâncias, matar um classe-mediano. Ah, certamente a mídia, com seu moralismo reacionário, dedicará editoriais, minutos preciosos e páginas inteiras de seus veículos para denunciar a violência no Brasil, usando, como exemplo, o caso do “bandido” que assassinou o “trabalhador”. O caso se transformará rapidamente em comoção nacional. Pessoas comentarão nas ruas, nas paradas de ônibus, à espera do metrô e, assim, a criminalização da pobreza será cada vez mais incorporada ao ideário e ao imaginário coletivo da sociedade brasileira.

Vale deixar bem claro aqui (muito claro mesmo!) que não se está defendendo a morte de quem quer que seja, seja ele rico, pobre, preto ou branco. Ou, muito menos, fazendo-se apologia ao crime. O que se traz à reflexão e se tenta desconstruir é esse discurso midiático altamente seletivo e moralizador, que filtra por classe social e etnia as mortes que quer mostrar, bem como seleciona, também por classe social e etnia, os “bandidos” que quer apresentar à sociedade. A morte de pobre apenas é destaque na imprensa convencional quando morrem, de uma vez só, mais de cinco. E sabe por quê? Porque chacina rende audiência, chacina “vende”.

Enfim, é fundamental que paremos de pensar a violência no Brasil presos ao padrão global, à la Capitão Nascimento, ou à hipocrisia dos lixos televisivos policialescos. É imperativo que analisemos essa questão sob o prisma do profundo fosso social que aparta os inseridos a essa sociedade dos marginalizados por esse mesmo tecido social. Há, na verdade, bem antes dos atos violentos que tomamos conhecimento no noticiário, uma violência e uma omissão simbólicas, mas também reais, brutais e devastadoras, praticadas todos os dias contra o povo pobre – legitimadas pelo Estado e assinadas embaixo pela própria sociedade civil. A questão da violência vai muito além do maniqueísmo “mocinho(a)” da classe média x “bandido(a)” da favela” que a mídia, a todo momento, nos impõe. Como diria a sabedoria popular, o buraco é mais embaixo! E como é!

* Artigo publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 01 – Maio/Junho 2014 . Veja aqui a versão PDF

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O apartheid brasileiro não acabou

(Charge: Alpino)

Por Artur Pires

Imagine aí a situação: você é negro e pobre, nasceu e cresceu numa favela. Em toda sua vida, dentre as opções de lazer, ir ao shopping nunca foi sequer cogitado. Não fazia parte de seu universo. Mas aí alguns amigos começam a ir, gostam da idéia e te convidam para um rolé por lá também. Você decide experimentar. E então sai de casa com amigos rumo ao shopping. Combinam de passear por lá, mirar as vitrines, comer algo nas feéricas praças de alimentação desses recantos, ir ao cinema ou consumir o supérfluo. Você, enfim, está lá. Eis que, de repente, policiais militares (PMs fazendo rondas em shoppings já é, por si só, revelador de muita coisa – Pelo fim da PM, pela imediata desmilitarização da Polícia!) e seguranças dirigem-se a você e seus amigos e dizem grosseiramente que não podem ficar ali. Você se recusa a sair. E aí vem o pior: te expulsam a cacetada, empurrões, tapas e xingamentos.

Essa cena não é imaginária como parece ser. Ela é real, concreta. Mas aí o leitor pensa que isso certamente aconteceu nos anos 50, no sul racista dos Estados Unidos – quem sabe no Alabama ou no Mississipi – ou talvez na África do Sul do apartheid. Mas não! A cena descrita aconteceu em São Paulo, Brasil, 2015. E ocorreu também em várias cidades brasileiras. Quem não lembra de jovens negros e pobres sendo expulsos na inauguração de um shopping na Parangaba, em Fortaleza? (Lembre aqui).

Infelizmente, esse fato enojante, de embrulhar o estômago, deverá ocorrer outras vezes, em muitas outras cidades, e nas mesmas cidades novamente. Sabe por quê? Porque, para a sociedade das aparências, a favela não é bem-vinda no templo do consumo burguês. À favela, cabe ir ao shopping tão-somente para ser explorada atrás dos balcões do McDonald´s ou para limpar os banheiros. Ou, então, cabe ir somente àqueles que foram construídos para ela, casos do North Shopping Jóquei, em Fortaleza, para que não se misturasse com os clientes do Iguatemi ou do RioMar.

Dentro da lógica consumista, é claro que é importante que os pobres consumam, comprem, ostentem, mas é preciso assegurar que esse neoconsumismo da periferia não invada os templos sagrados da burguesia. A sociedade brasileira é claramente segregada. Contudo, enquanto a periferia esteve cerceada, limitada às suas fronteiras suburbanas e aos locais “apropriados” para ela, estava tudo bem. Quando ela invade, sem pedir licença, os domínios territoriais exclusivos dos ricos, aí o mito do paraíso racial brasileiro vai para o brejo.

Para agravar esse quadro pintado com tintas carregadas de opressão, exclusão e marginalização históricas, a Justiça de vários estados já autorizou “o uso da força policial para conter possíveis atos de ameaça relacionados ao rolezinhos“. Peraí, justiça? O judiciário assinou o atestado de comprovação do apartheid brasileiro. Há locais em que pretos e pobres não podem andar – é isso o que ele diz com essas decisões absurdas! Essa mesma Justiça que abarrota negros e pobres – muitas vezes réus primários, ladrões de galinha e de varal ou vapores do tráfico de drogas nas favelas – como sardinhas em lata no sistema prisional, ao tempo em que põe vendas nos olhos e é condescendente com os criminosos do colarinho branco – esses de paletó e gravata, que desviam e superfaturam milhões em obras públicas, que removem violentamente pessoas de suas casas em nome de organizações mafiosas (como a FIFA, para ficar num só exemplo), que compram votos no Congresso Nacional e nas demais casas legislativas Brasil afora para se perpetuarem no poder, que fazem conchavos políticos por debaixo dos panos para engordarem ainda mais suas contas bancárias em paraísos fiscais…

Não percamos de vista que o poder judiciário é também um dos apêndices do segregacionismo brasileiro. Via de regra, age para manter o status quo, amparando e sendo generoso com a elite tupiniquim e, por outro lado, lançando sua mão punitiva contra a população dos guetos, sempre atendendo aos ditames do capital e da sociedade do controle. O encarceramento em massa de pobres é componente imprescindível dessa política. Aliás, como disse Bourdieu, n´O Poder Simbólico, na atual configuração do sistema político mundial, o Judiciário, o Legislativo e o Executivo estarão sempre a postos para obedecer ao senhor dinheiro. O sistema político está carcomido. O capital é quem canta o funk: “Tá dominado, tá tudo dominado”! O alardeado Estado Democrático de Direito é uma farsa medonha, uma falácia absurda que nos é empurrada goela abaixo diariamente e teatralizada a cada dois anos, nas eleições.

Voltando à questão central do texto, a polêmica dos rolezinhos tem a face positiva de trazer à superfície, de maneira incontestável, a densa segregação de classe e de raça que há no Brasil. Põe definitivamente uma pá de terra sobre o mito do paraíso racial e de classe brasileiro. Não há integração entre as classes sociais no Brasil. O(a) morador(a) da periferia só interage com o(a) burguês(a) quando vai recolher o lixo na casa deste(a), ou quando dá um “bom dia” da portaria do prédio onde trabalha, ou quando é empregado(a) doméstico(a) ou jardineiro(a) numa mansão, ou quando – consequência direta dessa desigualdade – aponta uma quadrada para a cabeça daquele(a)!

“Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal

Por menos de um real Minha chance era pouca

Mas se eu fosse aquele moleque de touca

Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca

De quebrada, sem roupa, você e sua mina

Um, dois, nem me viu: já sumi na neblina”

(Racionais MC´s – Capítulo 4, Versículo 3)

Assim como na África do Sul do apartheid ou nos estados racistas estadunidenses da primeira metade do século XX, vivemos numa sociedade apartada, profundamente segregada. A relevante diferença é que o segregacionismo brasileiro é ainda mais eficaz, porque sorrateiramente transmite a idéia de que não existe. E é justamente esse véu que acoberta sua feição tenebrosa que o torna ainda mais eficiente e, consequentemente, mais nocivo. Entretanto, com o transbordamento da sociedade do consumo avançando em direção às comunidades periféricas, vai ser cada vez mais difícil mascarar a tão marcante segregação social brasileira. “É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas” (Gilles Deleuze, Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle).

Oxalá que essa explosão venha acompanhada de transformações profundas no estado das coisas e nos costumes sociais, bem como traga em seu bojo fagulhas com alto poder de combustão para a derrocada da onipresente estrutura econômica que a todo custo tenta nos impedir de sonhar. Queima babilônia! Como diria Ednardo, “eles são muitos, mas não podem voar”.

PS: Ensina pra eles aí, Gal:

A concentração midiática e a negação da vida real*

TV e alienação!

Por Artur Pires

Os meios de comunicação são, nos dias atuais, uma ferramenta imprescindível na disputa por posições no campo da hegemonia ideológica e, obviamente, de manutenção da ordem vigente. No Brasil, país continental e amplamente diverso, a comunicação está nas mãos de um oligopólio formado por grupos empresariais de poucas famiglias – contadas nos dedos – que dominam e detêm o controle majoritário da produção, da distribuição e da veiculação do conteúdo midiático nacional. A concentração da comunicação no Brasil é aterradora. Não fosse isso por si só péssimo, essa mídia empresarial ainda dita, à sua maneira mercadológica, padrões culturais e de comportamento atrelados à lógica do consumismo e umbilicalmente ligados às estruturas da sociedade do controle.

Ao seu modo, a mídia empresarial, controlada por estas poucas famiglias de magnatas, mantém o estado das coisas do jeitinho que está: privilégios sócio-econômicos para as suas castas e de seus bajuladores e doses cavalares de opressão e miséria para o restante do povo – no meio desse fosso de disparidade, repousa o “cidadão de bem” da classe média brasileira, completamente alheio aos problemas sociais, que brada genericamente “contra a corrupção”, mas está preocupado mesmo em comprar o novo modelo de Iphone que acabou de ser lançado.

Os meios de comunicação empresariais, aliados às mais modernas estratégias persuasivas da publicidade, estão na vanguarda da sustentação do modo de produção baseado no consumismo e na “descartabilidade” da mercadoria, que favorece o próprio consumo. O monopólio da comunicação nas mãos dos barões da mídia – e a tentativa obstinada de mantê-lo – representa, noutra perspectiva, a explícita confissão de sua vassalagem e conseqüente intersecção à estrutura maior do capitalismo.

Obviamente, a mídia empresarial empreende sua tarefa de manter o status quo de um modo bastante cortinado e muito eficaz: vende diariamente mentiras em seus noticiários contra movimentos sociais, organizações de trabalhadores e iniciativas populares ao tempo em que hipnotiza e entorpece o grosso da população com programação, principalmente televisiva, que atende aos anseios e modos de comportamento da “sociedade do espetáculo”, onde o imagético e a aparência valem bem mais que a vida real; a vida essencialmente humana dá lugar à vida aparente, superficial. “Te colocam em frente da TV, trocando as suas raízes por um modo artificial de se viver. Ninguém questiona mais nada, os homens do poder agora contam sua piada, onde só eles acham graça, abandonando o povo na desgraça”, diz o Ponto de Equilíbrio, na sua Ditadura da Televisão.

À menor tentativa de democratizar os meios de comunicação no Brasil, ou seja, de desbaratar esse conglomerado inconstitucional e de ofertar a grupos e setores da sociedade civil que não se sentem representados pela mídia empresarial capacidade de produzir sua própria informação, o oligopólio midiático brasileiro reage enfurecido e acusa os militantes da democratização de serem contra a liberdade de imprensa. Pura balela!

Nas sociedades atuais, em qualquer lugar do mundo, a mídia, principalmente a televisiva, exerce papel central na manutenção e divulgação das ordens simbólica e institucional. Dito isto, é preciso urgentemente mudar a realidade midiática no Brasil. Não podemos chamar de liberdade de imprensa escolher entre o Gugu ou o Faustão, entre a novela do canal “X” e a do canal “Y”, entre o jornal do canal “Z” e o outro do canal “W”. Todos têm a mesma essência de atrelamento aos ditames do capital; nenhum deles propõe uma mudança paradigmática em relação às estruturas dominantes do poder na sociedade. Pior ainda: nem sequer trazem à tona esse debate.

Em resumo, o fato é que enquanto a sociedade brasileira for refém dessa mídia empresarial, que dita as regras do jogo, não seremos livres, não viveremos numa democracia, mas num arremedo dela. O mais desesperador de tudo disso é que enquanto essa mesma mídia – acompanhada da ilusão publicitária, que transforma a mercadoria no início, no meio e no fim do produto do trabalho – grassar à solta, a sociedade caminhará cada vez mais para longe de sua essência genuinamente humana e rumo à fantasia do consumo das aparências, rumo à vida que é, em si própria, a negação da vida real.

* A Revista Berro trouxe reportagem sobre o assunto na sua 1ª edição impressa. Confira aqui: Democratizar a comunicação para garantir a democracia real