Making of do Fim do Mundo



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Parte 1. 

É um pedido de socorro explícito. Não é hora de glorificar um efêmero respiro da natureza quando muitos de nós não conseguem respirar.  O vírus escancara os esgotos estruturais do capitalismo global, de odor colonialista, apesar de ter motivado alguns poucos instintos empáticos. Há aqueles que – a cargo de suas bolsas –  o negam, através de pseudo-justificativas. E em paralelo, há uma nova performance do individualismo antropocêntrico, agora disfarçada de cyber-solidariedade espontânea em nome do bem comum, do meio-ambiente ou de alguma divindade. Como se a proliferação de catástrofes humanitárias e sócio-ambientais não fosse o suficiente, o vírus reafirma que a existência humana em si mesma tem sido intra e extra patológica.

Sempre muito bem distraídos, consumimos esse planeta em superaquecimento sem enxergar que estamos, aos poucos, queimando a própria língua. Consumimos incessantemente tudo o que – ainda – tem de natural e de vivo, incluindo nossos próprios corpos no prato, sendo que alguns estão mais no cardápio do que outros – que tendem a comer demais. O orgânico é privilégio. Já deve ter sido lançada a pré-venda exclusiva de ingressos pro camarote do fim. Talvez a possibilidade de cura esteja na reconfiguração das aclamadas máquinas parasitárias que tanto nos gerenciam. Viralizar redes de mobilizações poderosamente psicotrópicas – por ora, fora das ruas – dispostas a trafegar na contramão. Sedentas por uma saída dessa ultramoderna esteira de corrida distópica, cujo manual de instrução varia de acordo com os aspectos – físicos e sociais – de quem o lê. 

Parte 2. 

Os direitos humanos foram apenas declarados. O prefixo “pan” concebe a ideia de totalidade/todos. Entretanto, para além dos – cientificamente comprovados – grupos de risco, a pandemia não figura uma pan-vulnerabilidade. Há extensos grupos sociais invisibilizados – de maioria negra – que não têm condições financeiras para arcar com a própria (sobre)vivência e com os cuidados preventivos durante a necessidade de quarentena. Não têm acesso a informações essenciais palpáveis. Não têm condições minimamente adequadas de moradia e saneamento básico, nem facilidade de acesso a assistência médica emergencial de qualidade. Considere que moradores de rua sofrem todas essas precariedades ao extremo, vislumbrando de longe o #ficaemcasa. 

Bom lembrar que mulheres e LGBTs+ são as mais suscetíveis a sofrerem – entre quatro paredes – violência e exploração física/psicológica/sexual durante o isolamento. Pessoas de identidade trans são estruturalmente estigmatizadas e discriminadas nos sistemas de saúde (e no acesso a serviços públicos em geral), o que – por consequência – as distanciam desses espaços, mesmo quando mais precisam. Povos indígenas e quilombolas carecem de políticas de saúde pública que, de fato, atendam a suas especificidades, sendo também suscetíveis a terem suas terras invadidas por missionários infectados, e a sofrerem com o desabastecimento de alimentos, água e itens de limpeza. Nos porões da sociedade, composto de maioria negra e periférica, o sistema carcerário – já colapsado – põe em jogo um extermínio interno. 

Nesse meio-tempo, milhões aplaudem um majestoso necropalhaço – atleta de whatsapp – com falas irrealistas de teor fascista e fanático-religioso. Outros milhões – que lamentam não ter nada pra fazer – assistem à live de alguma celebridade que – tomando um cocktail mágico de white good vibes – diz que vamos passar por isso juntos, que estamos todos no mesmo barco. Corpos notáveis que espetacularizam diariamente seus estoques de privilégios, com discursos purpurinados que estimulam uma romantização cega da crise, acompanhados por flertes saudosistas à normalidade. Mas claro, ocasionalmente dão alguma esmola. É fácil lavar as mãos quando o sangue não é seu.

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David Morelenbaum é estudante de psicologia na Universidade Federal Fluminense (UFF)


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