Nadifúndio



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(Foto: Bianca Ziegler)

As possibilidades editoriais no Ceará também propõem resistências promovendo a arte e o encontro. Falar de uma mais que a outra não quer dizer que haja maior relevância, o comunicador ilustra também através dessas possibilidades. Tantas outras dariam escritos de relatos de total relevância na discussão sobre o fomento da literatura e a formação de outras relações de públicos e escritoras. Como não citar também a editora Lilás, Emerson Bastos e tantas outras alternativas carregando suas jangadas, cada uma na sua forma, em um mundo quase todo vendido. 

Essa é a parte que te cabe deste latifúndio. O trecho do poema de João Cabral de Melo Neto apresenta uma cova a um retirante que fugia da seca. A marcante frase pode nos trazer um questionamento: e se a parte que nos coubesse fosse um trecho do nada? Apesar de aportar significância em um termo do poema V de Manoel de Barros, o título da editora nadifúndio é por si um poema, um atestado polifônico do lugar onde tudo nasce: o nada.

Imaginemos um grande campo de nada, onde tivéssemos a possibilidade de imaginar tudo. E, desse campo, as palavras pudessem ser dessilabadas como quem tira frutas de uma árvore. Onde nenhuma palavra fosse resumida a sua sílaba tônica. Imagens não seriam só imagens e os cotovelos não serviriam apenas para apoiar sobre a mesa. Possibilidades que do nada nos possibilitam imaginar e ser imagem, sem esvaziá-las. Será que Bianca amanheceu um dia em 2013 pensando nisso? 

A artista “nadifundiana” Bianca Ziegler (Foto: Jamille Queiroz)

A nadifúndio é essa editora que Bianca Ziegler imaginou a partir da pulsão pelo fazer livros. Sem maiúsculas, colocando a mão e as caras para realizar, ela propõe trabalhos ao lado de escritoras desde julho de 2013. Carrega consigo seis anos de trocas, experiências e poesias que vão além do livro físico. Um processo que começa marcando uma simples conversa com a pessoa que será a autora e continua para além do livro pronto. Optando pela acessibilidade, ela busca não terceirizar serviços e acompanhar o processo que uma publicação precisa para ser colocada no mundo bem de perto.

A escolha do material, o toque no papel que mais parece um carinho. As costuras que vão além das linhas nas páginas e as impressões que a literatura pode abrir ao mundo. Vivemos tempos difíceis está virando redundância, mas isso não impede a artista de pensar o seu processo tendo o afeto como essência. Se os cães vão ladrar, a nadifúndio é um respiro em meio ao mercado literário de regras e palavras absolutas, além da certeza que a caravana passa. É com essa sabedoria adquirida das lagartas e da anticorreria que a falta de pressa possibilita é que ela expressa um pouco de suas vontades através dessa arte de estabelecer vínculos.

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jernesto@revistaberro.com


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