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Croniconto Urbano

Washington Hemmes

            Voa em duas piruetas a cair no chão, o boneco humano. Mar-vermelho: afoga mágoas dessa vida tanta. Tanta, essa vida!

Apinham-se derredor do corpo, curiosos, espetacularizam a morte em câmeras de minuto e meio, e o que era dor, medo, luto, torna-se gargalhada recheada por reclames globalizados.

Aprendera desde pequeno a sentir-se o outro, ele, altruísta, valores cristãos enraizados em chicotes-terços, cinturões-crucifixos, verdadesÒ de aço inoxidável: corre atrás da máquina-atropeladora modo a anotar a placa. Sensibiliza-se a multidão ante a cena de tamanha solidariedade. Carpidam às avessas, todos, em torcida organizada. Ele, enquanto, preocupa-se com registrar o número do assassino, a entregá-lo à justiça. Justamente, é aplaudido pela massa.

Acabrunhado, papel no bolso, desliza da turba ao calçadão da praça: devia de ter uma delegacia ali perto. Caminha à porta do distrito, faz que entra, resvala rente-parede à casa lotérica, e aposta, sem remorso, honra e alma nas dezenas da morte.

 

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Um amor zen

(Foto: Pintura “Casal”, de Eloísa Serpa)

Nagle Melo

O chão tremeu, o equilíbrio desapareceu, o sangue sumiu das veias e o coração despedaçou. Ela despencou! Morreu por dentro. Deixou que a história de amor se transformasse (não havia jeito) em ideal. Na verdade, no fundo de seu ser, sabia que não passava disto, de um ideal, de uma fantasia de carnaval. A quarta de cinzas chegou opaca no seu recanto de memórias floreadas falsamente.

Achou que a vida lhe pregara uma peça, daquelas que duram 3 horas ininterruptas. Olhou firme nos olhos dele, lá dentro, e não viu mais o amor. Onde estaria? Fugiu? Escapou das minhas mãos? Pensava, pensava… se esforçava pra tentar descobrir onde diabos o amor havia ido. Será que voltaria?

Caminhou pelos bosques, parques, ruas. Olhava pras árvores frondosas e magníficas da Argentina e desejava virar uma. E ficar lá, sem sentir mais amor ou coisa alguma. Chorou, esperneou, sentiu a falta. Que amor é este? Não sabia mais o que falar a respeito. Já não tinha mais aquela segurança dos amantes. Do tanto que amou. Será que amou? A cabeça não aguentava mais!

Passada a intensidade do furacão, retornou ao país de origem e mudou de lar. Nova vida! Novo amor? Não sabia. Definitivamente, não sabia. Foi quando um convite para meditar a tirou, momentaneamente, da confusão mental que a percorria. “Será? Não vou conseguir meditar”. Mas o convite foi um tiro certeiro, mesmo sem intenção alguma de acertar (ou de errar).

O coração batia forte e sentia uma mistura de excitação e medo. O abraço acalmou, assim como a energia de paz do lugar. Instruções dadas, era quase hora de sentar. Foi quando um homem magrinho e careca entrou. Por milésimos de segundos tudo teria sido diferente. Mas não foi. Ou foi. Ao final da prática, durante a troca de experiências, olhava pro ‘monge’ de rabo de olho e pensava: “este já nasceu meditando. Preciso ‘caminhar’ muito pra chegar a este ponto”. Tamanha excentricidade a fez brilhar os olhos. Mal sabia ela que havia brilhado os olhos dele também.

O contato foi estabelecido naturalmente, apesar de serem completos desconhecidos. As primeiras conversas e coisas em comum. As primeiras e infinitas diferenças. A vontade e curiosidade de conhecer e, quem sabe, sentir.

Foi naquele restaurante azul celeste, espaçoso, com as mesas ao ar livre, onde as conversas mais profundas e delicadas aconteceram. O dito e o não dito. O céu e a terra. O rio e o mar.

Experimentar requer arriscar. E a lua vermelha incendiou os corpos que queriam se misturar. Corpos de homem e mulher. Mulher e homem. Os dois num corpo só, os dois em dois corpos colados. Alma e gozo sendo os grandes protagonistas desta história.

Uma prática que ensinou (e ensina) muito sobre o amor. Um amor que não é ideal. Um amor que não necessita categorização, nomeação. Um amor verdadeiro, que brinca com carinho e carícias, admiração e respeito. Compreensão. Um amor zen.

Nagle Melo é psicóloga, amante do ócio e escreve o que seu coração grita

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“Zerar a vida”

Patrícia Mirelly

Enquanto punha o café na xícara miúda, ela dizia ter se enfezado e mandado dar fim nas mais de vinte agendas que guardava em casa.

- Leva! Quero mais nem saber! – e incumbiu o marido de atear fogo em todas. Uma a uma. “Zerou a vida”, a irmã intuiu, do outro lado da mesa.

“Zerar a vida” é um jeito interessante de sugerir recomeços. Agendas carregam acontecimentos, memórias de conquistas e de aborrecimentos, momentos que surpreenderam ou desagradaram. Projetos não executados, compromissos não cumpridos.

No turbilhão dos dias, às vezes, é preciso virar, pular, rasgar as páginas ou dar fim à agenda. Renunciar datas e momentos negativos é fazer um corte no tempo para que se possa rever tudo que se viveu e recomeçar. Nas relações e na profissão. Sem pressa. Sem afobações.

Patrícia Mirelly é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Cariri (UFCA)

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Amores

(Pintura: “Dança Com Véu”, Telma Weber)

Nagle Melo

“Belezas são coisas acesas por dentro; tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento.” Sempre que ouvia Jorge Mautner, sentia que a saudade se apresentava sedutora à sua frente. Por sua vez, ela então estendia a mão e sorria convidando-a para dançar. Eva levantou, deixou o caderno de desejos escritos em cima do sofá e se posicionou timidamente à frente dela procurando aconchego. Começaram a dançar. Pouco importava o ritmo ou as pernas bambas. O que se configurava eram apenas sentimentos que iam crescendo a ponto de toma-lá de pura emoção, fazendo escorrer lágrimas. Salgadas e quentes.

Era levada por uma delicadeza raramente sentida. Quando o violino entrava na melodia, sozinho, Eva percorria um a um seus amores inventados. Nenhum platônico. Inventava porque quando pequena era a sua brincadeira preferida (e parece que na idade adulta também). Serão estas invenções os desejos de Eva?

A cada sensação lembrada algo era reinventado. Como se fosse realizada uma limpeza de alguns aspectos enquanto que outros eram lapidados, adquirindo uma curva ou outro jeito de ser.

A saudade apertava, outras vezes acariciava e ficava brincando com ela, como num “morde – assopra”. Sentia prazer intenso nos dois sentimentos: dor e alívio. Mas neste momento, especificamente, só sentia bem forte a saudade.

A mão descia lentamente até as suas coxas e alguns apertos a fizeram sorrir. Os olhos eram brincantes e ela se enxergava nas pupilas dilatadas de tesão! Sentia que seus desejos escorriam cachoeira abaixo, molhando-a por inteira. Abria os olhos e via que continuava ali, dançando com a saudade.

Por mais que houvesse um gozo naquilo que refrescava sua memória, quando a música trocava, a memória mudava. Agora, perto do mar, o abraço a enlaçava devagarzinho, até tomá-la por completo, com carinho. Tinha poesia, cores, violão, certa leveza. Mas havia também um peso, ou melhor, um sentido ou uma razão de ser, dando consistência à memória que se apresentava. Ela respirou fundo e sentiu a brisa de um amor que vai e volta, feito as ondas do mar.

Uma intensidade conhecida por Eva a arrebatava e a lembrança da lua vermelha que queimou os corpos naquele dia subia céu adentro. Dentro da sua alma. Atravessando quem era e quem deixava de ser.

O blues chegava e tomava conta do seu ambiente de inspiração no domingo que ela aproveitava, mesmo desconfiando de sua solitude. Da saudade que fazia parte do seu ser e a constituía. Um dia de cada vez. Um amor depois do outro. Um amor atravessando outro, muros, ideais e ideias de seu romantismo bobo, de menina.

As memórias, com o tempo, adquiriam cores e formas diferentes daquelas que já foram um dia. Portanto, a dança com a saudade era sempre única, exclusiva. E quando a música parava de tocar, Eva era sempre outra. Infinita.

Nagle Melo é psicóloga, amante do ócio e escreve o que seu coração grita

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Alice no país da Farroupilha

(Arte: Banksy)

Vanessa Dourado

Acordou, finalmente levantou-se depois de cinco dias. Teve vertigem, um gosto amargo que sentia subir do estômago até à boca. Olhou-se no espelho, olheiras profundas, olhos inchados desses de fazerem afundar os cílios. Como um urso que hibernara por vários meses, não tinha noção de que horas eram. No quarto escuro com cheiro de sono, divorciou-se dos cobertores que lhe serviram de acolhimento quando nada mais podia trazer-lhe conforto. A alma doeu, mas era a dor da retirada do punhal cravado no peito. Doía, mas era um alívio não sentir mais aquele incômodo que não permitia o encontro com o mundo.

O banho abraçava seu corpo como o envolver dos amantes íntimos no ápice de suas trocas, a água lambia seu corpo e deixava a sensação refrescante do cheiro cítrico de limão maduro. Os cabelos pousavam sobre os seios rígidos e felizes, como quando encontravam uma boca ávida a massagear suas auréolas.

Tinha perpetuado na memória do corpo as últimas sensações da plenitude do último encontro, mas não conseguia deixar de pensar no horror dos últimos momentos, a eterna dúvida que sequestrava seus pensamentos e a levava para o mundo da incerteza. Tinha convicção de que não havia feito nada de errado, sim, sabia disso, tinha feito o que era necessário.  Mas não se conformava com o fato de ser responsabilizada por algo que havia ocorrido por força das circunstâncias, contra todas as cobranças e sobre taxas havia a sua vontade de livrar-se do fardo que não lhe permitia viver em paz. Queria ter o direito de ter sua vida de volta, queria usufruir de suas construções individuais e coletivas, viver a si mesma sem precisar prestar contas disso. Dez anos, pensou em todo esse tempo de luta constante contra sua própria identidade e desde que tinha resolvido não sustentar mais aquela situação de devedora.

Seria duro, deveria ela, depois de todas as tentativas frustradas de resolver a situação de forma diplomática, tomar uma atitude mais enérgica que fizesse com que entendesse que não sustentaria mais aquele disparate; organizou suas tropas internas, na linha de frente, as fragilidades colocadas à prova de toda violência emocional; na retaguarda, as claras certezas maturadas por anos de reflexão.  Era isso!, guerra declarada! Tomou a coragem de todas as suas fontes, reagrupou as incertezas e insensatezes, e depois de um longo processo de treinamento, estava pronta para enfrentar aquele inimigo.

Lanças, dentes e músculos; pressões, golpes e cansaços; ao fim de tudo, ganhou a batalha – a batalha contra si mesma. Acordou, finalmente levantou-se depois de cinco dias.

Vanessa Dourado é autora do livro Palavras Ressentidaspoetisa e feminista latino-americana

 

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Erotismo experimentado

(Pintura: Picasso)

Por Eva

O suspiro antecede a carícia vinda dos seus dedos moleques. O corpo arrepia por inteiro, deixando que os bicos dos seios criassem vida dentro da blusa, que devagarzinho ia sendo desabotoada. Botão por botão. Enquanto isso, ela acreditava que estava numa espécie de não-lugar, onde só sentia. O sentia.

Os dedos moleques caminhavam lentamente sobre seu corpo, percorrendo com delicadeza todos os poros de sua pele. Já estava molhada e sentia que sua umidade a tomava por completo. Alisava suas pernas, depois as coxas e subia como quem queria encontrar o que latejava há tempos.

Como quem contempla uma flor, cheirava o sexo dela e tomava gosto com a ponta da língua. Primeiro, na parte externa, reconhecendo seus pelos, lábios e, enfim, o clitóris que o chamava intensamente. Adentrava neste ser com toda a propriedade de quem quer e sabe dar prazer. Ela gemia, respirava forte, gritava. Parecia que ia se partir ao meio; parecia que não ia dar conta de tanto prazer. Ele então continuava esta saga sexual beijando o umbigo, a barriga, o osso abaixo do peito. Segurava e apertava o seio completamente excitado. Chupava, chupava,chupava.

Enfiou os dois dedos em sua boceta e se deu conta de que o prazer dela escorria quente em suas mãos. A vontade de tê-lo dentro de si era infinita e crescia a cada toque perfeito dentro de sua vagina. Ela então segurou o seu pau e o que sentia era a intumescência mais firme que já usufruiu. Começaram a se masturbar, um no outro. Ele, completamente absorto pelo prazer que ela sentia e pelo desejo de entrar naquela boceta molhada. Ela, que naquele instante virara um poço de gozos sucessivos, batia-lhe a punheta como nenhuma outra mulher o fizera. Foi então que a penetrou com todo o desejo ardente existente no seu corpo e alma e os dois, por alguns minutos (que pareceu uma eternidade), se tornaram um. Numa overdose de prazer, o gozo dele e dela, ao mesmo tempo, se fez presente no recinto sexual e o que renasceu em seguida foi um novo homem e uma novamulher.

Exaustos e em êxtase, quase não dominavam seus corpos nus. Havia um sorriso em cada corpo, refletido pelo suor que a lua, cúmplice desta cena, fazia brilhar ainda mais na penumbra do quarto dela.

Dormiram abraçados. Amanhã seria um novo dia.

Eva é romântica-idealista, completamente absorta pelo feminino que a constitui.

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Acalma  

Por Nagle Melo

Houve um tempo, não muito distante, onde se acreditava que o coração não resistiria à dor, que aumentava a passos largos e tomava o corpo e a alma por completo, sem esquecer um só fio de cabelo. As lembranças assombravam dia e noite. Noite e dia. Não havia sono. Não havia sonho. Apenas o fechar e abrir dos olhos.

O percurso diário não ajudava. As paisagens pelas janelas dos ônibus não tinham mais o brilho das manhãs ensolaradas, quando fechava os olhos e sentia que a vida pulsava em seu peito. As memórias tinham vida e apareciam e reapareciam como fantasmas que não conseguem desencarnar deste mundo. De repente, o choro. As lágrimas tinham vida própria e não se envergonhavam de, audaciosamente, escorrerem pelo rosto cansado de mais um dia de trabalho intenso. Sentia que o coração poderia parar a qualquer momento. Parar de sentir, de pulsar, de emocionar.

Sessões de análise e momentos de solitude foram suas grandes parceiras durante um bom tempo. Ainda são e serão infinitamente. Mas, naquele momento, não conseguia enxergar que eram suas extensões de mulher. Só sentia um fardo e cansaço. O mundo é cruel, injusto! Ahhhhhhhhhhhhh! Gritava. E ninguém ouvia. Olhava ao redor e só enxergava as paredes brancas da casa nova, embaçadas pela vista turva. Então decidiu-se por se deitar no chão de porcelanato, que reluzia a brancura do local. De sua casa. De si própria. Adormeceu.

Acordava numa floresta e mal conseguia abrir os olhos devido à forte e intensa luz branca que a queimava por inteira! Aos poucos, foi conseguindo se levantar e começou a sentir um cheiro de terra molhada, de flores, de natureza. Foi abrindo os olhos devagarzinho e a quentura foi tomando uma forma já conhecida. A sua própria. De repente estava de frente para uma cachoeira linda, de águas cristalinas. Sozinha. E pela primeira vez, depois da morte, não se sentia sozinha. Sentia-se inteira, completa, plena. Não sabia onde estava, nem o que estava acontecendo. Mas havia algo ainda mais diferente: o silêncio tomara conta dela, inteiramente. E ela podia nadar, mergulhar, sentir os cheiros das flores, das águas, da terra, do ar. Estava livre!

Despertou com os olhos cheios de lágrimas, mas desta vez eram lágrimas de alegria, como as que foram geradas nos magníficos bosques de Palermo. Olhou pro lado e viu uma flor azul, como se tivesse sido deixada (de presente) por alguém. Não lembrava que havia qualquer flor em sua casa, muito menos uma azul. Foi quando lembrou do sonho! Havia flores de muitas cores, algumas púrpuras, outras coloridas, todas lindas! Mas a flor azul de uma planta estranha, pequena e quase insignificante diante de tanto estímulo de belezas foi a que fisgou seu coração. Até teve a impressão de, por trás desta planta, ter visto um olhar. Eram grandes e concentrados os olhos. Mas ao se aproximar, não havia ninguém. Uau! O que isto significa? Teria sido fantasia de sua mente tão desejosa? Não achava respostas. Não havia respostas, nem perguntas. E o coração voltou a sentir; a se emocionar; a bater. Um calafrio a percorreu da cabeça aos pés e ela saltou do chão. Descobria, naquele exato momento, que estava viva e que o tempo eterno era este! Aqui e agora.

Nagle Melo é psicóloga, amante do ócio e escreve o que seu coração grita

Latência

latência
(Ilustração: Rafael Salvador)

Por Joana Bê

Cruzavam-se todos os dias, mas nunca repararam. Pegavam a mesma linha do metrô, no mesmo horário, mas sempre embarcavam em vagões diferentes. Trabalhavam no mesmo CEP, mas em salas distantes. Até almoçavam no mesmo restaurante, só que ela saía sempre quando ele ainda estava na fila do quilo.

Ela desenhava linhas no jornal escrito, ele escrevia traços nas paredes pintadas.

Mal sabiam eles, mas de noite na cama, na rede e no sofá, quando deitavam para relaxar e alcançar o gozo mais gostoso e tranquilo entre as horas de correria, era no outro que pensavam.

Ele pensava exatamente nela, meio amarela, com a boca recortada, os olhos cerrados, seus gemidos concentrados, seus vestidos coloridos (ela sempre usava um diferente toda vez que ele imaginava) caindo aos poucos pelo ombro, estacionando por segundos no seu quadril largo, depois tombando no chão como um convite de lençol.

Ela pensava exatamente nele, mais velho, barba cortante, mãos de pele grossa, uma cueca que parecia até pequena demais pro seu tamanho (ou talvez fosse só sua imaginação, que sempre o colocava de pau duro na sua frente), um pouco calvo demais pra sua idade, dono de um calor embaraçoso, como um convite de nudismo.

Parece engraçado supor que pensavam exatamente neles dois, mas a questão é que nunca perceberam os reforços cotidianos que construíam, aos poucos, a imagem um do outro em suas cabeças, em seus desejos e na pressa de ofegar. A questão é que estavam ali, dentro do outro, em um crescente desejo. E ali, ao toque da mão, tão perto que talvez se um desse três passos a mais pra esquerda se encostariam e poderiam, então, se entreolhar ao pedido de “desculpa” momentâneo.

Passou algum certo tempo para os relógios se ajustarem ao ponto de atrasarem e colocarem os dois no mesmo vagão, no mesmo passo andando na rua, no mesmo horário de almoço, na mesma fila do quilo. Ainda assim, nada. Quantas distrações, quanta fumaça, quanta trufa, quantas perguntas, quantos sabores de suco no cardápio. Foi preciso praticamente alguém puxar o braço dos dois e dizer “olhem-se!”. E esse alguém foi o editor da moça de vestidos coloridos. “A pauta vai ser sobre os grafites da cidade, procure alguém pra entrevistar”. Depois de algumas indicações, marcou pelo telefone com o cara das mãos calejadas no restaurante já conhecido pelos dois. O editor mandou-a se apressar, precisava da matéria pra logo logo.

Como nossa cabeça é incrível. Acreditam que os dois falaram “a gente se conhece de algum lugar”, “Você me é familiar” e todas essas coisas que dizemos quando estamos na frente de um rosto meio-conhecido-meio-estranho, mas não conseguiam ao certo saber de onde? Ou talvez seja mais complicado admitir, mesmo que pra você mesmo, que sua mente foi capaz de projetar uma pessoa de carne e osso para foder com você. A entrevista foi feita, permeada o tempo todo pelo sentimento de déjà vu. Despediram-se.

De noite, no plantão do jornal, um vestido colorido subia um pouco enquanto a moça melava dois dedos devagar na sua buceta. Na rede da varanda, uma mão áspera apertava o pau por cima da cueca um pouco pequena. Ela tentou pensar como seria trepar com o entrevistado, ele tentou pensar como seria comer a jornalista. Até tentaram, mas preferiram pensar na moça do quadril largo e no cara meio calvo. Já estavam acostumados a eles. Ela gemeu baixinho, mas um pouco mais forte que o de costume. Ele suou mais do que o normal para alguém que bate uma punheta, de tão real que pareceu.

Nessa noite, ela gozou na boca dele e ele na cara dela. Ela se ajeitou e voltou a digitar a entrevista. Ele limpou a gozada com a cueca e depois a jogou no chão, em cima do cartão dela.

Joana Bê é historiadora, acredita em luta de classes, mas não acha astrologia besteira

*Conto publicado na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

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Laranjeira  

(Pintura: “O Grito”, de Edvard Munch)

Por Vanessa Dourado

Chegou febril, a casa desorganizada, a pia lotada; o mundo parecia cinza. Não conseguia entender o que fazia com que se sentisse assim, frágil, como se nada no mundo fosse mais importante que viver algo que pudesse tirar seu corpo da inércia do labor diário.

Já não gostava mais do seu trabalho, odiava ter que dar bom dia para a Dona Luíza – secretária da redação –, com aquele sorriso forçado que desfazia-se em segundos, todos os dias pela manhã. Até o seu perfume – Anais Anais – fazia com que sentisse o cheiro da morte anunciada, o enterro dos seus dias sugados por aquela tela de computador. A verdade é que estava cansado, seus colegas não eram dos piores e a única coisa que parecia fazer algum sentido era poder conversar francamente com alguém que tivesse condições de entender o que dizia; e ainda assim, era difícil. Já há quatro meses o chefe havia trocado seu horário de trabalho – para as 7h da matina –, e esse certamente era o principal motivo do seu mau humor exacerbado, principalmente nas manhãs de segunda. O salário não era ruim, tinha autonomia, era tido como “um dos melhores”, mas nada disso parecia fazer muito sentido, já que sua insatisfação atingira o nível máximo aceitável para os seus próprios padrões de tolerância.

Pensou mais sobre isso, estava mesmo insuportável. Pensou mais um pouco, poderia estar com depressão, talvez. Mas, depois reconsiderou e achou que essa ideia era uma bobagem. Na verdade, ter que acordar cedo era tão ruim; era uma violência – afinal, acordar cedo não fazia sentido e ainda deveria fazer muito mal para a saúde, disso tinha certeza.

Sem muito mais, vieram as lembranças do término – já fazem dois anos, mas tinha a impressão de que nada tomara os espaços vazios, eles estavam lá como almas penadas. Pensou sobre relacionamentos, em como era uma loucura querer estar com alguém sabendo que – mais dia, menos dia – essa pessoa iria embora e deixaria a sua vida cheia de buracos, certamente não era uma escolha inteligente. Primeiro todo o trabalho para conhecer e tornar-se íntimo de alguém, um esforço insano para entender, aceitar e conviver com as diferenças – muitas vezes insuportáveis; sentir-se conectado com alguém como se o mundo não fosse completo sem a sua presença; o empenho desmedido para encaixá-la nos planos, nas viagens e nos espaços. Era uma demência, não queria mais isso.

Parou por um momento, exausto do dia cansado e arrastado. Acordou com o despertador tocando às 6h da manhã, o cheiro da laranjeira o fez vomitar.

Vanessa Dourado é poetisa e feminista latino-americana

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A saudade segundo Vertromilda

(Ilustração: Rafael Salvador)

Vanessa Dourado

Querido Miltrino,

Passei para lhe deixar um embrulho, dentro dele você encontrará três embrulhinhos menores; o primeiro é um pacotinho de saudade, sugiro que abra imediatamente, assim você compartilhará do meu sentimento de neste exato momento – este deve ser profundamente inalado até que você sinta o frio lhe cortar as narinas -, e assim poderá entender como me sinto.

O segundo é um pacote de paciência, este deve ser mastigado, sim, é azedo como limão, mas com o tempo você se acostumará e o fato de ser azedo já não será tão desagradável, chegará a gostar de encher a boca de água quando consumi-lo.

Dentro do terceiro há uma passagem de ida para o inferno, sugiro que pegue o primeiro trem e dê um pulinho por lá da próxima vez em que eu disser estar com saudade e você me pedir para ter paciência.

Sua,
Vertromilda

Vanessa Dourado é professora por formação e poeta de coração