Artelaria de quebrada: poetas e saraus de periferia



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O indivíduo coletivo sente a necessidade de poetar

Poeta! Não queixas suas aflições

Aos que vivem em ricas vivendas

Não lhe darão atenções

Sofrimentos, para eles, são lendas.

(Carolina Maria de Jesus)

 

Torquato Neto dizia em um poema, pessoal intransferível, que “um poeta não se faz com versos, é o risco, é estar sempre a perigo sem medo”. Sobre ser poeta, eu arriscaria que a poesia nasce no espaço entre o umbigo e as estrelas. Uma definição pessoal não permite lançar bases sólidas, mas o poetar é ferramenta pra gente, pra quem se cansa do modo engessado de dizer as coisas.

Celebrando a ideia do “chega junto” e do “bota o teu”, o espaço performativo-poético dos saraus não acontece apenas para os chegados. Quem quiser recitar seu poema é incluso no fluxo da ação. Alguns participantes leram seus textos ou cantaram suas músicas pela primeira vez para uma plateia nesses espaços, como Paulo Notívago que guarda a lembrança da primeira apresentação feita no sarau da B1.

No entender de Ferreira Gullar, “qualquer coisa que se possa chamar de literatura ou arte brasileira está sendo elaborada a cada minuto, no processo da própria vida nacional e como expressão dela”. É possível notar que o conteúdo das poemas refletem as vivências que os sujeitos moradores das periferias de Fortaleza acumulam no cotidiano, mas também remetem à barbárie política que o país atravessa. Apesar da variedade de temas abordados, a inquietação com as injustiças sociais é um ponto comum aos sujeitos atuantes nos saraus.

Buscando formas de comunicação populares, os Centros Populares de Cultura (CPC) marcaram artisticamente uma década onde, dois anos depois do seu surgimento, desembocara o golpe militar brasileiro de abril de 1964.Pensar a literatura e maneiras de atenuar o distanciamento entre a arte e o povo era uma preocupação fundante dos CPC’s, nos quais jovens artistas se reuniam na década de sessenta, na cidade do Rio de Janeiro. Rejeitando os princípios estéticos e opondo-se à arte como ocupação acadêmica, esses artistas organizavam as atividades de modo que a produção artística pudesse chegar aos sindicatos, às favelas e aos subúrbios.

A vontade organizativa dos indivíduos que estão à frente nos saraus de periferia da capital cearense, nesses relatos, são também parte da própria história brasileira. Outras motivações serão contadas por indivíduos que carregam na partilha de espaços e de microfones uma consequência da própria existência.

Pessoas dazáreas, os pedaços e as itinerâncias  

Ouvir as histórias das pessoas que mobilizam os saraus nas periferias de Fortaleza e conhecer suas itinerâncias para iniciar um roteiro sobre o percurso artístico nas quebradas da cidade. “O homem é produto do meio”, o lugar que Rousseau cita nessa fala atravessado pela nova baiana frase “deixo e recebo um tanto”. Os indivíduos carregam consigo memórias, afetos e também as dificuldades de todos os lugares que passaram ou fizeram morada. O meio também é movimento.

Nos becos, nas praças, nas avenidas, nos interiores de bairros descentralizados da capital também se ouve poesia. Seja do Racionais que toca nas caixas de som em um barraco lá na Verdes Mares, ou seja nas rimas saídas da voz de um adolescente que se inicia no mundo da criação em uma rua do Antônio Bezerra. Bairros onde as feridas sociais estão como denúncia e não como lamento. Palavras arranjadas em poemas contra o autoritarismo militar que não elimina a vontade de viver de artistas dazáreas.

Buscar conhecer mais sobre os saraus é também se confundir com as histórias de Baticum, Argentina Castro, Tales Azigon, Samuel_em_transe, Nina Rizzi, James, Sabrina Morais, Bárbara, e de outras tantas pessoas que acreditam na arte como instrumento transformador de gente. Também levantam a bandeira da criação a partir da própria comunidade, salientando a potência transformadora que a poesia feita nestes lugares pode ter.

É importante salientar que periferia sempre fez brotar expressões artísticas de tanto jeito. Se o Seu Zé levantou um “puxadinho” em cima da sua casa pra filha que está grávida ter o seu “cantim”, além de artista, Seu Zé é arquiteto. Sem prêmio, sem reconhecimento, sem escritório, ele é artista sim. Se Dona Dina teve um marido que se acovardou perante as circunstâncias e abandonou a família, deixando-a com três filhos para criar sozinha, e Dona Dina costurou, trabalhou em casa de madame, trabalhou na construção civil e com o que conseguiu pra levar o alimento para dentro de casa, Dona Dina é uma malabarista da vida e é também artista… sem prêmio, sem busto de bronze e sem medalha.

As quebradas têm em seus moradores indivíduos que reinventam a vida, reconfigurando espaços que também são lúdicos. Esta série é apenas um pequeno recorte sobre os corres de pessoas que participam e medeiam os saraus. Sobre o que é feito em lugares onde a produção artística não chama a atenção das classes mais abastadas, mas expande as possibilidades de uso dos espaços públicos.

À revelia dos programas policialescos, cujo conteúdo endossa o estigma das quebradas como notícia relativa à violência urbana, apresentaremos semanalmente o que de fato é a maior composição de moradores desses bairros. Pessoas mobilizadoras de afetos, provocadoras de encontros, melhoradoras do estado das coisas.

 

 

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jernesto@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

A série Artelaria de Quebrada é publicada semanalmente no #siteberro.


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