“O cara num nasceu pra viver no crime o resto da vida não”



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Nas muitas conversas com os trabalhadores das drogas e dos assaltos no Grande Tancredo Neves (GTN), quase todos, ao serem questionados, me falaram que tinham o desejo de “sair do crime”. Eu sentia verdade nessa vontade, não obstante o fato de que esse desejo era muitas vezes desinvestido nas dinâmicas da prática cotidiana. Se todas as condições pragmáticas permitissem, eles abandonariam as relações criminais. No entanto, na vida real, é como se as coações concretas de sua existência nunca estivessem favoráveis à possibilidade de saída desse labirinto, do qual não conseguem sair. 

Camaleão me contou que, para ele, apesar do “crime” valer a pena, “o que não compensa é o estresse”. Segundo ele, são muitas preocupações, mediações, perigos, precauções e contingências que o “bandido” tem que se submeter para tentar assegurar um relativo gradiente de estabilidade criminal, seja em relação à polícia ou a grupos rivais. 

Prensado caminha pelas mesmas lamentações: “Ei, o cara que vive numa vida dessa é estressante, parceiro. É estressante porque sempre tem um que estressa o cara”. Segundo ele, o dinheiro obtido com a venda de drogas é “amaldiçoado”; por isso, na sua visão, o “crime” não vale a pena. Prensado, que foi até o final da década passada um dos principais traficantes varejistas de um dos territórios do GTN, é um desses tipos que conseguiu abandonar de forma parcial as atividades criminais, mas nunca completamente. De vez em quando, negocia módicas quantidades de drogas e, devido à adicção no crack, às vezes comete pequenos furtos. 

O eterno retorno do “bandido”, uma maldição que o acompanha, e que emerge como fantasma nas entranhas de sua subjetividade. Como se o dinheiro amaldiçoado do pacto fáustico culminasse na maldição do eterno retorno às práticas delitivas. Um labirinto sem o fio de ouro de Ariadne que o conduziria à saída. Papagaio foi mais um que me falou da vontade de parar.

Segundo ele, “o crime num compensa não, mah. Devagarzim eu vou mudando mah, aí é só questão de tempo. Antes de virar traficante eu trabalhava [formalmente] direto pra cuidar do meu filho. O dinheiro do tráfico é só ilusão, dinheiro sujo. Eu tinha era duas casas no [conjunto habitacional] Maria Tomásia. Aí fui quebrando, fui quebrando…”. 

É óbvio que em sua fala há uma tentativa de idealização retórica diante da minha pergunta: “O crime compensa?”. Essas idealizações aconteciam muitas vezes nas conversas com os interlocutores. Em alguns momentos, elas vinham permeadas de franqueza, o que dificultava a separação, para efeito da análise, entre o que eu achava que era ou não verossímil, porque os agentes lançam mão de toda aquela oratória “de malandro que a gente nunca sabe se eles estão falando a verdade ou ludibriando, só eles sabem”, como pontou Leonardo Sá. 

Mas, na maioria das vezes, elas se salientavam como expressões não espontâneas, pasteurizadas, um discurso pronto, que tinha como função, penso eu, falar aquilo que supostamente para ele o pesquisador quer ouvir. Devo ter caído em algumas dessas essencializações nativas, uma vez que a infalibilidade é irreal, mas asseguro que percebi a maior parte destas armadilhas em campo. 

No exemplo a seguir, na minha ótica, há em alguns trechos uma zona de indiscernibilidade entre o desejo sincero e a idealização do discurso de Papagaio. Pergunto-lhe como ele se imagina em cinco ou dez anos: “Rapaz, eu vou dizer pra tu, eu imagino me formar um cidadão, pai de família, construir uma família, quero cuidar da minha mãezinha que também é uma senhora de idade… por que ficar só nessa aqui né mah? [E por que tu ainda tá no crime?] Macho, eu pretendia sair esse ano, mas num deu pra mim porque as coisas apertou, devido à inflação, subiu demais… luz, água, alimento pra comer. Aí vou prolongar mais uns anos, um ano ou dois. [E é fácil sair assim?] É não mah, eu vou ter que falar com os cara né mah, dizer que vou dar um tempo, tocar a minha vida de outro jeito. Vai ter uns que vai ficar meio assim comigo, eu sei de muita coisa né mah, só que eles têm confiança em mim porque geralmente quando a pessoa sabe de muita coisa e quer sair do crime a negada num deixa não. Do cara falar demais e eles vim e fazer [matar] o cara né mah. Eles deixam o cara sair, entre aspas, depois pega o cara, mas como eu já sei da malandragem todinha né mah. Por exemplo, se eu inventar de sair eu num digo pro canto que eu vou, eu abro um negócio, também num vou ficar lá, boto a muié, desse jeito”. 

Na nossa conversa, Raposão, bem relaxado no sofá, dizia que em algum tempo queria abandonar o “crime”. Para ele, se o sujeito souber usar de sagacidade o “crime vale a pena”: “Se você for aquele cara que tá no crime porque gosta de matar e de fazer o que num presta, num vale não. Mas se você entra no crime com uma ideia de sair ileso, levantar um capital, um pezim de meia, se sair, num tem coisa melhor. É melhor de que a política”. 

Faço esse mesmo questionamento a Pango: [O crime vale a pena?] “Rapaz, numa época dessa tá valendo viu… por causa do desemprego, tem família aí que tá num aperto, vai atrás de emprego, recebe é uma ignorância! [Se vale a pena por que tu quer sair?] Porque já tá na hora de se aposentar mah, já faz muito tempo. O cara num nasceu pra viver no crime o resto da vida não mah, uma hora tem que mudar”. 

Samurai também pensa em deixar as práticas ilegais. Tem vontade de abrir uma microempresa, que ele ainda não decidiu o ramo, e pensa em morar no interior, na cidade onde vive a família de sua namorada: “Viver lá, armar uma rede [risos]… ‘papai’… ‘vovô’… ver os menino dizendo. Ser avô”. Na nossa conversa, realizada em sua casa no GTN, ele queixou-se de estar muito cansado da carreira criminal, dos perigos de ser preso ou assassinado, das “treta”, das “trairagem”. “O cara tem que ter crânio, mah, que é cruel. Esses meninozim é tudo iludido, mah. Esses meninozim da nova geração é tudo iludido, pensa que é vida ser traficante. É vida não. É porque [no tráfico] esses boboquinha arruma mulher, mah, aí quer ser traficante. Isso não é vida, não, baitola. Eu dou é conselho pra esses menino: ‘Ei mah, vai estudar, mah. Ser traficante num é bom, não’. O cara fala assim: ‘Ei mah, é um cachorro ali né?’, eu falo: ‘É, é um cachorro, num pode ser um gato’. Eu num vou dizer que é um gato pra ter briga. Tu é doido é, mah. As conversa num pode entrar em contradição não, mah. Porque é muito olho grande. Olho grande e inimizade, a galera fica com inveja, entendeu? A inveja aí é foda, mah”.

Samurai continua: “O crime é um quebra-cabeça, o cara tem que saber quem tá ao seu redor. O cara tem que conhecer. Vai longe, entendeu? E na calma, né, mah. E eu sei quem é quem aqui dentro. Eu sei. Aqui num tenho amigo não. Ninguém tem amigo não. Tem um quebra-cabeça… a cabeça deixa o cara cansado, mah. O cara tem que saber levar. Esses menino daqui, mah, essa geração se não tiver cuidado morre tudim, mah. Ninguém tem amigo nesse mundo, não. Eu tô aqui, baitola, mas tá pensando que eu… confio?”

As passagens da fala de Samurai chamam atenção porque, quando ele afirma que “ninguém tem amigo nesse mundo”, suas palavras desnaturalizam a narrativa idealizada de muitos agentes a respeito de uma coletividade faccional leal e unida, uma pretensa irmandade. Outros interlocutores denunciaram as mesmas inquietações a respeito da falta de confiabilidade nos demais, vivenciando uma socialidade criminal da desconfiança como regra, sob a lei do “cada um por si”. 

Carolina Grillo também observou esse fenômeno em sua pesquisa, ressaltando que os “bandidos” com os quais conversou alternavam discursos de unidade, “como ‘tamo junto!’, ‘é nós, parceiro!’ e ‘tem que ter coletividade!’ com lamentos de decepção, como dizer que ‘nessa vida, ninguém é amigo de ninguém’ ou que ‘se der mole, vagabundo se cresce nas tuas costas’”. 

Tentar compreender os sentidos que os agentes criminais atribuem à “vida do crime” e analisar suas pretensões – idealizadas ou sinceras – de mudança paradigmática em suas trajetórias, que se realizaria com o abandono das atividades delitivas, é deparar com um quadro pincelado com tintas de contradição. Contradições discursivas e práticas. A tentativa de parar é muitas vezes apenas um sentimento difuso face à realidade objetiva final das relações criminais: morte ou prisão. São poucos os que levam a tentativa realmente a sério e residuais os que conseguem deixar as atividades criminais completamente.

No entanto, as coações da miséria material e simbólica também precisam ser consideradas. Não é simples abandonar o meio de sustento, o “ganha pão”, aquilo que muitas vezes é a coisa que mais sabem fazer na vida, a que têm mais expertise, conhecimento, desenvoltura. Aqui o que sempre retorna não é o recalque, como no léxico da psicanálise, mas a maldição do “crime” em suas vidas: o eterno retorno do “bandido”.

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A série Antropologia do crime no Ceará é publicada semanalmente no #siteberro. Veja abaixo os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”

xvii. A “escolha” é uma escolha? Compreendendo o ingresso nas relações criminais

xviii. Consumo, dinheiro e sexo: a tríade hedonista da carreira criminal

xix. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)

xx. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte II)

xxi. “Fura até o colete dos homi”: As armas como símbolo dominante

xxii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte I)

xxiii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte II) 

xxiv. “Mãezinha”: uma categoria local que põe em suspensão o ethos violento

xxv. “Pirangueiro”, “cabueta”, “boca de prata”, “corre de ganso”, “atrasa lado”: compreendendo algumas categorias negativadas da moralidade criminal 

xxvi. “O crack veio pra acabar com tudo”: o noia como um “zé ninguém”

xxvii. “Você conquista o respeito, você num impõe”: A liderança nas relações criminais 

xxviii. As “brigas de trono”: as disputas pelo comando territorial

xxix. Socialidade juvenil periférica em Fortaleza dos anos 1990/2000: Dos bailes funks às quadrilhas do tráfico

xxx. Crônica de uma guerra entre quadrilhas de “traficantes”

xxxi. O costume guerreiro da criminalidade pobre

xxxii. Traficante é aquele que nem pega na droga

xxxiii. O assaltante como um nômade das práticas criminais


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