“Esse negócio de gangue acabou-se”: considerações sobre a “paz” 



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

 

Não recordo exatamente o mês, mas foi no início do segundo semestre de 2015, que um amigo do bairro me ligou para me contar sobre a “grande novidade das áreas dos últimos tempos”. Esse amigo, que aqui chamarei de Falcão, é amigo de Camaleão, um dos meus interlocutores da pesquisa, de quem já falei nesta série. Camaleão lhe contara da chegada de uns “caras de fora” à favela para selar armistícios entre as diversas quadrilhas criminais do GTN. 

Dessa forma, tomei conhecimento da “paz” nas favelas cearenses e da “chegada” das facções alguns meses antes da imprensa local dar “furos” jornalísticos, narrando em “primeira mão” o curso destas ações. O próprio termo “pacificação” foi alcunhado pelas agências midiáticas, o léxico nativo em todo o processo sempre foi “paz”. Quando se referiam ao momento de armistício, os interlocutores do GTN, sejam estes “trabalhadores” ou “bandidos”, falavam em “fizeram a paz”. 

Nos meses seguintes àquela ligação, começamos a acompanhar com atenção os desdobramentos daqueles “acordos”. Para nossa incredulidade, quadrilhas criminais do Tancredo Neves, do Tasso Jereissati, e da Vila Cazumba, rivais de décadas, não mais se atacavam. Lembro que, nas conversas na pracinha do bairro ou nos botecos das redondezas, comemorávamos aquele feito, pois nunca tínhamos experimentado aquele sentimento. 

Desde a adolescência, crescemos (muitos dos integrantes da União dos Grafiteiros/UG, a gangue de “pixação” da qual faço parte) a algumas quadras do GTN, e ir à favela sempre fora um costume muito comum, por diversos motivos: para comprar drogas, jogar futebol, brincar de videogame, comer mais barato, jogar sinuca, ir aos bares e casas de show, etc. Ademais, parte considerável dos integrantes da UG mora no GTN.

Dessa maneira, nos acostumamos, desde os anos de 1990, a tomar ciência de muitas histórias de “guerras”, assassinatos, tiroteios, bem como da pracinha, muitas vezes, podíamos escutar as saraivadas de fogos que comemoravam a chegada de drogas ao local, mas em outros casos também faziam referência ao assassinato de algum “inimigo” de um território rival. 

Na própria praça do bairro, já experimentamos episódios de tiroteios em que tivemos que nos esconder embaixo de mesas, por detrás de arbustos e dos troncos das centenárias mangueiras, etc. Assim, muitos amigos e inumeráveis conhecidos nesses anos todos foram assassinados nesse fluxo cíclico de mortes e vinganças. A mais traumática para mim foi a morte do Carlim, vulgo “Shade” (era a sua assinatura de “pixador”), que aconteceu na minha frente, em uma sexta-feira à noite na pracinha do bairro, em 2002. Ele foi “furado” com um espeto de churrasquinho por um integrante de uma gangue da Vila Cazumba com quem tinha “treta”. Eu era apenas um adolescente de 17 anos, e não pude socorrer meu amigo, não sabia o que fazer, fiquei atônito com aquela cena, pedia calma a ele, dizia para respirar profundo, e ele me respondia que seu peito “tava doendo muito”. Quando enfim um conhecido se ofereceu para levá-lo de carro ao hospital, ele faleceu na metade do percurso. 

De lá para cá, muitos outros amigos, integrantes ou não da UG, entraram nessa estatística mortal: Bobim, Prateado, Sodom, Papão, Natan, Xavier, Pistola, Samuel Negão, Manel Esfola Chapéu… Enfim, aqui nazárea crescemos na lógica da “guerra”, acostumados a enterrar amigos. A “paz” representava uma forma de vivenciar esse pedaço da cidade de uma maneira excepcional, nova, totalmente distinta, uma vez que muitos dos nossos amigos e conhecidos não iriam mais morrer, pois a época da “guerra” tinha ficado para trás. A “paz” mexera em nossos afetos, em nossa socialidade, e em dimensões profundas na maneira de experienciar a vida. Não tenho dúvidas de que esses reflexos iniciais – que depois se mostraram efêmeros e ilusórios – foram sentidos de modo ainda mais significativo pelas populações faveladas. 

O fato é que já no início de 2016 o Grande Tancredo Neves passou por um reordenamento da dinâmica e da estrutura no seu comércio de drogas e armas e também na sociabilidade entre as categorias “trabalhadores” e “bandidos”. As falanges criminais oriundas dos presídios Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo; Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro; e Família do Norte (FDN), do Amazonas, inicialmente estabeleceram-se na região e implementaram um “armistício” nas disputas territoriais com vistas a uma maior lucratividade nos negócios clandestinos, configurando assim um incipiente modelo do “crime organizado” nunca antes experienciado no local. Apenas depois de alguns meses, a GDE conquistaria membros e microterritórios no GTN e também se ajustaria à nova configuração. 

Camaleão, traficante varejista de drogas no GTN, comenta sobre os primeiros contatos com os “caras de fora”: “Chegaram aqui de fuzil mah, ninguém tinha fuzil aqui não. Eles primeiro chegaram nos patrão dos bairro [territórios]”. Camaleão deixa escapar uma estratégia do CV e do PCC, ao se deslocarem dos presídios cearenses, e intensificarem suas imersões nas comunidades pauperizadas: aliar-se inicialmente com os “patrões” dos territórios. Acredito que as informações sobre os líderes locais (nomes, apelidos, área de domínio, poder material e simbólico nas relações criminais etc.) já tinham sido repassadas de dentro das penitenciárias aos “caras de fora” que estabeleceram as primeiras negociações com os agentes das favelas cearenses. 

Raposão explica um pouco sobre essa forma de comunicação e prospecção do que ocorre extramuros, mesmo quando se está dentro da estrutura penitenciária: “Quando você entra numa cadeia, no sistema, parece que você entrou num programa de computador, que ali tudo é ligado. Tu conhece tudo, sabe onde todo mundo tá, pode rastrear toda e qualquer pessoa”. Os “acordos” foram costurados também devido ao capital simbólico e os recursos materiais que os grupos “forasteiros” tinham a oferecer às quadrilhas criminais cearenses, ou seja, o status em pertencer ao PCC ou ao CV, bem como o fornecimento massivo de drogas e armas potentes, como fuzis e metralhadoras – que não eram comuns no Ceará. 

Para selar a aliança, “bandidos” de diferentes quadrilhas fizeram uma passeata pelas ruas do GTN, caminhando por territórios do complexo de favelas que antes eram considerados dos “inimigos”. Passeatas, comemorações em casas de praia e sítios foram as maneiras de confirmar as uniões. Esse processo ocorreu em diversas favelas cearenses. Foca, um dos meus interlocutores, não praticante de atividades delitivas, mas usuário de drogas, disse que certa vez, quando foi buscar maconha no Lagamar, viu chegar um “Corolla novo, daqueles de luz de LED, rocheda”, com dois cariocas que queriam comprar casas na comunidade. 

Prensado conta sua versão da chegada dos “caras de fora” ao GTN: “Os homi chegaram num tremendo carrão de luxo, tudo armado, disseram que tinham que assinar uns papel tudim, e se quebrasse o acordo a família toda morria. O que não quis assinar foi forçado a assinar. Depois, alugaram uma casa de praia num sítio aí pra fazer a união. Depois que chegaram aqui, as mortes pararam. Ei parceiro, todo final de semana tinha morte aqui, todo final de semana morria ao menos um. O chefão mandou fazer as paz com o pessoal do Tancredo, do Tasso, do Polo, e da Vila”. 

Nesse ínterim, com a “paz” imperando no GTN, a sociabilidade entre “trabalhadores” e “criminosos” também sofreu transformação. Com as novas ordens vinda dos “patrão”, muitas pessoas que moram na comunidade reestabeleceram hábitos de colocar as cadeiras na rua, de conversar despretensiosamente nas calçadas, de cruzar as fronteiras físicas e simbólicas de uma comunidade para outra. No entanto, como foi um processo efêmero, vale ressaltar que todas as falas retratadas nos próximos parágrafos foram colhidas durante o período de “paz”, que durou aproximadamente um ano, entre o segundo semestre de 2015 e o final de 2016. 

“Antes, tinha vez que eu nem ia pra minha mãe (que mora no Conjunto Tasso Jereissati). As pessoas tinham que comprar as coisas cedo, porque os comerciantes fechavam as portas. Aí, eles lá se reuniram e fizeram a paz. Pro jeito que era melhorou 100%”, afirmava Lúcia, 37 anos, diarista, moradora do Tancredo Neves. 

A agente comunitária de saúde, Rosa, 31 anos, dizia que “antes desse acordo da paz quase todo dia morria gente, sinceramente. Muitos se mandaram com medo de morrer”. “Cada qual veve sua vida. Aqui num tem roubo na rua, nem roubo de casa. Não existe esse grande respeito mas tem um pouco, né? O povo do Tranquedo fizeram as paz com o povo do Tasso e da Vila, esse negócio de gangue acabou-se”, sublinhou Carmen, 35 anos, doméstica, moradora da Vila Cazumba, fazendo sua leitura do mundo. 

Pergunto a dona Nazaré, 80 anos, se as mortes arrefeceram com a “paz”: “Diminuiu, depois disso num vi morrer nenhum”. Helena, 48 anos, garçonete de um restaurante no GTN, constrói sua narrativa: “Quando cheguei aqui era muita violência, muita morte, muita briga, muita bala. Eu vi morrer um menino bem pertim de mim. O cara chegou, pegou pelos cabelo e atirou. Mas tá bom agora, o Tasso fez as pazes com o Tranquedo, que fez as pazes com o Coloral”. Dona Albanisa, 48 anos, também comenta sobre esse momento: “Era muito violento esse Tranquedo Neves, mas agora melhorou 100%, porque diminuiu mais a violência, porque antigamente as pessoas num podia nem sentar na calçada… [E o que aconteceu para mudar?] Esse negócio de grupo de traficante, fizeram a paz”. 

Dona Sâmia, 48 anos, igualmente confessa que a socialidade “[melhorou] demais. Eu num podia nem tá sentada aqui [na calçada], num podia nem passar”. Dona Celina, 57 anos, se junta ao debate. Pergunto-lhe se ela considera o Tancredo Neves uma região violenta: “Já foi mais violenta, mas deu uma paradinha. Ela já foi bem violenta mesmo. [Como foi isso?] Não sei, o pessoal diz que tem umas facções… Eu num entendo muito bem disso, né? De que são as pessoas que vivem nos presídios quem manda, aí eu não sei, né? Porque eu saio de manhã de casa e só chego de noite. Os dois filhos que eu tive, criei dentro do Tancredo Neves, e graças a Deus deu certo! Eu digo que deu uma parada porque graças a Deus nunca aconteceu nada com minha família, nem com as pessoas que eu conheço. E a gente que vive aqui percebe que deu uma parada, sempre tinha gente morrendo quase todo dia, quase todo dia! Mas graças a Deus melhorou!” 

Código de conduta do “crime”: “proibido roubar na favela”

 

Pichações como essas surgiram em todo o Grande Tancredo Neves na época (Foto: Artur Pires/ Revista Berro)

Dentro do mesmo processo de imersão e controle das periferias cearenses, estes grupos decretaram normas rígidas de conduta que impedem, entre outras diretrizes, portar armas nas ruas da comunidade e roubar moradores do local: “Não pode andar armado, se for pego armado perde a arma e vai embora, as armas tão tudo enterrada. E também não pode roubar aqui, foi a melhor coisa que fizeram. Se for pra roubar, tem que roubar de quem tem, e não de quem não tem”, relata Camaleão. 

Dona Nazaré relata que “tava morrendo muita gente, meu filho. Aí veio um tal de Comando Vermelho, se por acaso matarem alguém aqui, eles botam pra fora de casa e ainda matam. Se roubar aqui, eles quebram mão, quebram pé, quebram tudo”. Assim, picocaram em todas as “quebradas” da cidade pichações com frases como “proibido roubar na favela”, “tire o capacete, abaixe o vidro”, “se roubar na favela, morre”, entre outras. 

Pergunto a Dona Sâmia quem está ditando estas novas “regras”: Rapaz, eu sei lá, é tanto do comando, que eu não gosto nem de falar. CV, Comando Vermelho, PCC… A paz, num é por causa disso? Graças Deus que tá essa paz. [Então a senhora acha que essa paz veio pra melhorar a vida das pessoas aqui?] Veio por um lado e por outro é ruim. [Qual é o lado ruim?] Assim, veio pros cidadão, né, porque era cada tiroteio que tinha, morria um cidadão inocente, uma muié, uma criança… Na esquina mesmo já morreu gente. Muita gente de bala perdida aqui, viu, que tinha nada a ver. Na esquina mesmo já morreu uns cinco aí. [Mas então qual o lado ruim dessa paz?] É que [em caso de roubo no território] os traficante num tão alisando não, tão dando tiro nas perna, nos braço”. 

A preocupação de dona Sâmia é que, embora a “paz” tenha, de forma prática, restabelecido o ir e vir dos “cidadão”, como ela se refere às pessoas não envolvidas diretamente com as atividades delitivas no GTN; por outro lado, as punições extralegais àqueles que infringem as “regras” das facções tornou-se mais severa, como, por exemplo, se um “bandido” for pego roubando na sua própria comunidade, geralmente recebe como ato punitivo tiros nas mãos. A temeridade de dona Sâmia é que seu filho, Bernardo, adicto em crack, possa vir a sofrer uma dessas represálias, por alguma “mancada” no território. 

José Antônio, 28 anos, que assim como Bernardo é nóia, confessa que está mais “ligado no movimento, [pois] qualquer desandamento a galera mete a peia, mata”. Marleide, 30 anos, também adicta na “pedra”, e que trabalha em um prostíbulo no GTN para sustentar o vício, relembra um dia em que sofreu as consequências de um “vacilo”. Ela fala sobre um dia em que foi roubar transeuntes na BR-116, que fica defronte à favela da Vila Cazumba: “Eu agora não tenho o costume de fazer mais [roubar na BR], eu fui na doidice. Aí veio os cara lá, veio os cara porque é errado, num pode mais fazer isso. Aí eu apanhei nesse dia, só levando cabada de vassoura. E deixa eu falar uma coisa… eu não achei ruim o que fizeram comigo. [Por quê?] Porque se eu tivesse me dado de bem nisso [no roubo], eu ia se aviciar e ia de novo. E eu agradeço a eles tudim por ter me dado uma pisa, porque só assim eu aprendi”. 

Papagaio me conta de um episódio em que ele e outros de sua quadrilha foram executar um indivíduo que foi “sentenciado” porque estava roubando no território: “Outro dia nós fomo matar um noia ali, aí eu comecei a atirar e ela [a arma] num voltou pra trás, não? Que eu num sei atirar direito. Aí nós saímo porque a população começou a chegar, entoquemo as arma e viemo pro campo e ficamo jogando bola. [Isso foi na época da guerra?] Não, foi na paz, mah. Ele foi sentenciado”. 

Na pichação em azul, pode-se notar inclusive um “por favor” em meio às ordens para tirar o capacete e abaixar os vidros dos carros (Foto: Artur Pires)

Samurai destaca sua versão, mas sublinha um pretenso humanitarismo de sua quadrilha. Pergunto-lhe o que ocorre se alguém for capturado roubando no território: “Rapaz, se roubar a galera mete a peia, né. Aqui dentro das área mete a peia, porque a galera tem mais coração. Tem outras área que é… pum… tiro. Cara, a galera bota só isso aí, roubo, né, num pode mexer com o cidadão, né. [E andar armado?] Andar armado assim… Porque os cara são boboca… usa comprimido… esses comprimido aí…” – ele se refere aos psicotrópicos Rivotril (“rocha”) e Artane (“aranha”), consumidos muitas vezes pelos mais jovens em pleno “serviço” nas “bocas”, e que, por atuarem no sistema nervoso central, diminuem reflexos e às vezes, principalmente no caso da “aranha”, podem ocasionar perda de sentido espaço-temporal. Nesse sentido, é como se a “regra” de andar armado fosse ambígua, proibida aos “pivetes” que tomam “esses comprimidos aí”, mas permitida aos “bandidos homens”. 

Raposão é bem mais enfático: “Área pacificada não pode ter roubo besta pra prejudicar a população, a gente quer proteger a população. Aí os cara fica roubando bolsa, isso, aquilo. Às vezes você tá roubando uma prima de alguém, a mãezinha de alguém que talvez nem pagou todas as prestações daquele aparelho. Então a gente elimina esse aí, isso aí pra gente é uma alma sebosa, como a gente chama. Tem que ser cobrado à altura, tem que morrer, de preferência sem ser de faca ou bala, bem divagazim…” 

Portanto, em quase todo o ano de 2016, após os acordos de “paz” entre as facções no Ceará, houve uma redução exponencial no número de mortes violentas. Mesmo com todas as informações veiculadas na mídia e com um serviço de inteligência que certamente tinha conhecimento da nova configuração das relações criminais, o Governo do Estado tergiversava sobre as pactuações que então ocorriam nas periferias cearenses desde o final de 2015 e, dissimuladamente, cantava loas ao “Ceará Pacífico”, a vitrine-mor de sua política de segurança pública, sublinhando que seu programa de “combate ao crime” era o grande responsável pela minoração nos índices de homicídio no Estado. 

No entanto, o trabalho de campo apontava para o que “todo mundo” já sabia: nas entrevistas com os interlocutores, eles deixaram claro que a matança indiscriminada praticamente cessou a partir de ordens hierárquicas dos “patrões do crime”. Antes da reorganização pactual entre as falanges, diz Camaleão, “morreu muita gente inocente. Mas agora, o que o governo não conseguiu fazer em tantos anos, os malandros vieram e fizeram em um ano. Tá vendo? Como num precisa de polícia nem de governo”. 

Nesse sentido, era profundamente desconcertante para o Estado admitir abertamente que o arrefecimento nos índices de crimes letais fora capitaneado por acordos entre facções criminosas, porque, ao reconhecer tal façanha, ele demonstraria sua incompetência e fragilidade para lidar com as relações criminais. Mesmo com todas as contradições inerentes, a fala de Camaleão, quando diz que “os malandros” conseguiram em um ano estabelecer uma situação de “armistício” há muito tentada e não exitosa pelo poder público, expõe uma leitura sociológica das pessoas comuns, como diz Bourdieu, e ademais revela o desmanche simbólico que atinge a imagem estatal, cada vez mais desacreditada como estrutura mediadora das relações sociais e provedora de segurança. 

No entanto, a “paz” não permaneceria por muito tempo. Como já dito, aproximadamente um ano após as pactuações de armistício, os “acordos” foram quebrados, ainda no final de 2016. Lembro que muitos dos meus interlocutores que não praticavam atividades criminais já se mostravam ressabiados com a nova configuração “pacificada”. Havia sido tantos anos sob “guerra” cotidiana que aquela situação não parecia ser real e durável no tempo-espaço. Por mais que considerassem que as circunstâncias na “paz” eram bem melhores, flutuava no ar uma desconfiança quanto aos ajustes entre as facções. 

Helena, uma garçonete de um restaurante com quem conversei, me disse, no auge da pacificação: “Tão em paz, mas a qualquer momento pode voltar [as mortes], né?”. Outro interlocutor, César, agente comunitário de saúde em um dos territórios do GTN, me contava que “desde o tempo que fizeram esse acordo aí ficou mais tranquilo, mas assim… você num deve confiar porque envolve droga”. 

Russo, 34 anos, um interlocutor que não havia se filiado a nenhuma facção, e trabalhava com pequenos roubos a transeuntes, também dizia que com a “paz” estava melhor, mas já prenunciava: “Se acabar essa paz vai ser destruição. Deus me livre quebrar essa paz”. Seus vaticínios estavam certos. A “paz” acabou. Fugaz como uma paisagem onírica que não conseguimos captar. De volta à realidade sangrenta. Quando os índices de homicídios recrudesceram de forma avassaladora, em 2017, curiosamente o governo cearense enfim reconheceu a presença nas facções no Estado e atribuiu exclusivamente a “disputas pelo tráfico” o crescimento dos índices de letalidade.

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A série Antropologia do crime no Ceará é publicada semanalmente no #siteberro. Clique nos links abaixo para acessar os textos anteriores. 

artur@revistaberro.com / revistaberro@revistaberro.com

i. A dimensão ética na pesquisa de campo

ii. Pesquisando o “mundo do crime” e inserindo-se no “campo”

iii. Grande Tancredo Neves: formação dos territórios

iv. As relações sociais das camadas populares

v. A feira como arte da oralidade popular

vi. O favelês cearense

vii. Estabelecidos e outsiders: a favela dentro da favela

viii“Trabalhadores” e “bandidos”: entre separações e aproximações

ix. Sistema de relações sociais do crime: uma rede de ações criminais hierárquicas

x. “O dinheiro fala mais alto, [com ele] se torna mais fácil de fazer justiça”: A violência do aparelho judiciário

xi. “Não confio na polícia”: A relação de descrença entre a classe trabalhadora e os policiais

xii. A economia da corrupção que move a relação entre polícia e “bandidos”

xiii. “O crime nunca vai acabar por causa da polícia”: a participação policial decisiva nas relações criminais

xiv. Tecnopolítica da punição: A função econômica do encarceramento

xv. Estado punitivo-penal e a produção social da delinquência

xvi“Cadeia é uma máquina de fazer bandido”

xvii. A “escolha” é uma escolha? Compreendendo o ingresso nas relações criminais

xviii. Consumo, dinheiro e sexo: a tríade hedonista da carreira criminal

xix. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte I)

xx. Traumas, complexos e a luta por reconhecimento (parte II)

xxi. “Fura até o colete dos homi”: As armas como símbolo dominante

xxii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte I)

xxiii. Os códigos morais da criminalidade favelada (parte II) 

xxiv. “Mãezinha”: uma categoria local que põe em suspensão o ethos violento

xxv. “Pirangueiro”, “cabueta”, “boca de prata”, “corre de ganso”, “atrasa lado”: compreendendo algumas categorias negativadas da moralidade criminal 

xxvi. “O crack veio pra acabar com tudo”: o noia como um “zé ninguém”

xxvii. “Você conquista o respeito, você num impõe”: A liderança nas relações criminais 

xxviii. As “brigas de trono”: as disputas pelo comando territorial

xxix. Socialidade juvenil periférica em Fortaleza dos anos 1990/2000: Dos bailes funks às quadrilhas do tráfico

xxx. Crônica de uma guerra entre quadrilhas de “traficantes”

xxxi. O costume guerreiro da criminalidade pobre

xxxii. Traficante é aquele que nem pega na droga

xxxiii. O assaltante como um nômade das práticas criminais

xxxiv. “O cara num nasceu pra viver no crime o resto da vida não”

xxxv. Uma tentativa de diálogo entre a “vida nua” e a crueldade

xxxvi. A eficácia simbólica das facções

xxxvii. O contexto sócio-histórico e operacional das facções no Ceará

xxxviii. Guardiões do Estado: uma facção cearense com pretensões nacionais


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