Sobre o futuro desse velho mundo



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(Foto: Divulgação)

Deixar claro uma coisa: Karim Aïnouz é sim um cara capaz de, como poucos, ainda “deixar sua mão” muito claramente em suas obras. Desses últimos que podemos falar que ainda carrega um filme de sua autoria, além de saber terminar suas obras como ninguém (os finais de seus filmes são sublimes!).

O acaso de Praia do Futuro não ter me agradado totalmente não tem nada a ver com o fato de haver cenas de sexo entre dois homens, muito pelo contrário. A história de amor supera muito a questão de gênero, trabalha a essência humana, nos remete a essas sensações estranhas de não pertencimento, as nossas irracionalidades que deixamos de lado por conta da vida lógica. Não é uma mera viagem do elefante, nem mesmo um mero encantamento pela novidade, se aproxima mais desse percurso em encontrar a nossa casa nas pessoas, nas situações, nas inquietações…

Nunca estaremos acomodados a coisas factuais, seremos, sim, acometidos pelo escuro poético da nossa incapacidade em abarcar tudo e essa incapacidade remete muito a estranheza que nos traz o cotidiano. O fato do filme não ter me agradado totalmente é, sem dúvida, muito menor do que essa obra. A arte pode sim apontar tabus e o Praia toca esse ponto com muita sensibilidade, ao contrário do espetáculo, Karïm transforma um tabu (pelo menos no Brasil) em poesia e traz à tona toda essa questão: muita gente no Brasil acha que estar presente na Parada Gay é ser contra a homofobia. Muita gente acha que ter um amigo “viado” tira a culpa do seu preconceito velado e raivoso. O filme pra muita gente soa como ofensa, mas tudo que ele busca fazer é deixar a gente perplexo diante das nossas próprias questões.

Longe desse clichê que toda obra artística é política, essa afirmação é muito rasa pra abarcar essa estranheza humana de transformar inquietação em arte. O fato do filme não ter me agradado totalmente tem mais a ver com esse desconforto que a gente bicho tem de não se agradar com nada, ou com tudo. Sensação semelhante aquela que a gente pode ter numa cena em que dois homens se despem num fim de tarde e se arriscam no horizonte da pedra para o oceano, um arrepio frio como os atores devem ter sentido. Alcançar a espontaneidade no cinema em uma cena de dança entre dois ébrios é sim de se marejar os olhos, de se inebriar com esse nosso desprendimento com nossos afetos. Aquilo é a gente.

De uma forma ou de outra estamos sempre retornando, nem que seja ao desconhecido, ou a reação voraz à idade média… estamos sempre retornando às nossas questões e o Praia do Futuro aponta rumo ao desprendimento às questões tacanhas desse nosso velho mundo.

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