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Papo de bêbo – A mesa de bar e o que ela nos traz*

(Foto: 1Bando Comunicação)

Que sem graça seria a vida se não a compartilhássemos, né verdade? Não estamos falando do compartilhamento virtual; falamos mesmo é de compartilhar vida vivida, alegrias, angústias, frustrações, risadas, confidências, dores de cotovelo, poesia… A mesa de bar comporta tudo isso! É um dos melhores lugares que existem para tal fim!

É na mesa de bar que nos desnudamos inteiramente, mais do que em qualquer divã ou motel. Porque quando estamos lá, a cada gole, tiramos uma peça de roupa das amarras invisíveis que nos prendem. A cada trago goela abaixo, vamos nos revelando mais autênticos, mais livres, mais… nus!

É com este objetivo – que fiquemos cada vez mais nus! -, que a Berro traz para vocês uma despretensiosa listinha com quatro bares que julgamos rochedas e que, portanto, merecem uma visitinha! Degustem! Pode ser que na próxima edição a gente traga mais alguns outros. Agora, dá licença que o Bode Berro já está aqui impaciente, nos cutucando pra tomar umas! Tin-tin! Saúde!

Churrasquim da Lenusa Rua Enfermeiro Joaquim Pinto, 179, Cidade dos Funcionários

Não é mais novidade para ninguém a proliferação de churrasquinhos pela cidade. Tem para todos os gostos! Do siamês ao angorá, do persa ao pé-duro, o fato é que em tudo que é canto de Fortaleza você pode se deparar com um churrasquinho de gato em alguma esquina. A concorrência é dura, mas o Churrasquim da Lenusa, na Cidade dos Funcionários, entra na nossa respeitável e despretensiosa listinha pelos seus diferenciais: mesas e cadeiras no meio da rua, uma vizinhança mó limpeza, cerveja “véu de noiva” estupidamente gelada e um baião de dois divinamente saboroso. Sem falar que você escolhe a música que quer ouvir: é só levar seu pen drive com as musgas e esperar sua vez. À parte o churrasquim, que funciona de quinta a sábado, a Lenusa está aberta diariamente, a partir das 6 horas da manhã, já com caldim de caridade, canja, tapioca, panelada, marujim, lasanha… Vale a conferida!

Bar do Ferro Velho Rua Confúcio Pamplona, 352, Benfica

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(Foto: 1Bando Comunicação)

Coexistem no Benfica os ambientes universitário e boêmio. O segundo consequente do primeiro e, diríamos até, inerente. E se é pra falar de universidade e boemia tem que chamar o Ferro Velho pra conversa. O bar tem como atrativo paralelo à cerveja gelada e à comida boa e barata, a hospitalidade e intimidade que ele gera em quem pisa por lá. Poucos bares completam o Benfica como esse, em tempo integral, sempre pronto pra oferecer um baião de dois ou uma moqueca de arraia magníficos na hora do almoço, ou a cervejinha sentado nas mesas ao ar livre no final da tarde ou até, para os autênticos boêmios, a cervejada acompanhada do burrim noite adentro. Desde a simpatia dos queridos donos do espaço, dona Leide e seu Paulo, passando pelo garçom mais limpeza da galáxia, o Tom, ao impecável cardápio com preço acessível aos assíduos – e lisos – frequentadores universitários, o bar proporciona o que todo mundo procura depois de um dia de aula ou trabalho desgastante: conforto, tranquilidade e boas vibrações. Para quem quer conhecer a energia benfiquense, não pode deixar de passar nesse aconchego de lugar!

Caribe – Rua Frederico Borges, 430, Varjota

Esse está na nossa listinha porque já salvou muita gente no fim de noite. Quando a noitada está acabando e os primeiros feixes de sol anunciam o novo dia – e ainda assim você quer continuar na bebedeira, o Caribe é sal! Também conhecido como bar dos bruxos, lá você ainda pode se deliciar com um brega ou um forró vindo diretamente dos teclados. A cerveja quase sempre é geladinha. De rango, a Berro não se julga apta a indicar nenhum, até porque nas vezes em que estivemos por lá, a última coisa que queríamos era comer, se é que nos entendem! Vida longa ao Caribe! Há anos salvando noites!

 Gato Preto - Rua Instituto do Ceará, 7, Benfica

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(Foto: Facebook Gato Preto)

Situado no Benfica, o Gato Preto é daqueles bares que, à primeira vista, pode parecer descuidado ou underground demais. Mas quem disse que ele não é? Aliás, é exatamente esse ar de “não tô nem vendo ó” que faz dele um dos melhores bares da cidade pra conhecer gente boa, escutar músicas rochedas e tomar uma cerveja gelada. É um aconchego só! Sem falar que tem também o diferencial de se poder beber no meio da rua, ao ar livre, e sempre a poucos metros para se escorar em algum canto próximo e torrar um. Vale dizer também que o dono, o Mansuelo, com seu jeitão tranquilo, é dez anos! (Depois dessa, o Bode Berro está pedindo uma conta vitalícia, hein?).

*Texto publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 01 – Maio/Junho 2014

 

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Copa em Fortaleza: A maquiagem que encobre o descaso

Nas redondezas do Castelão, cenas como essa, de lama, falta de saneamento e sujeira, são comuns (Fotos: Chico Célio)

Quando Fortaleza foi anunciada como uma das sedes da Copa do Mundo, ainda em 2009, os moradores do entorno do Castelão comemoraram, acreditando no “agora vai!”, que dali em diante as coisas naquela região iriam mudar; a infraestrutura básica chegaria, os investimentos públicos seriam destinados àquelas comunidades, enfim, muitos olhos estariam voltados àquele pedaço da cidade… Cinco anos depois, 2014, ficamos curiosos pra saber como andam as coisas por aquelas bandas: Castelão, Mata Galinha e Barroso.

“Lá por dentro eu não sei comé que tá não viu… nem imagino”, diz ironicamente e às gargalhadas dona Lúcia, quixadaense que mora há 23 anos no Boa Vista (a junção dos antigos bairros Castelão e Mata Galinha) – os moradores ainda batem o pé e continuam chamando de Castelão. A ironia brincalhona da natural de Quixadá revela nas entrelinhas que “lá por dentro”, por trás da Av. Paulino Rocha – uma das vias que dá acesso ao Castelão, a situação não é nada boa: infraestrutura precária, ruas com esgoto a céu aberto e muito lixo, além da violência gerada pelo tráfico de drogas, que ocorre silenciosamente nas vielas, mas que vez por outra faz suas vítimas à luz do dia.

- E policiamento, dona Lúcia, comé que é por aqui?

“A segurança é só pros de fora meu fi”, ressalta, com lamento e certa resignação. De fato, nos jogos da Copa no Castelão, o que se percebe é um aparato militar (Raio, Choque, Cotam, Gate, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Exército) fortemente armado e preparado para garantir que tudo ocorra nos conformes da Fifa. Sem o efeito “Copa pra gringo ver”, a região apresenta alta taxa de homicídios, associados principalmente às disputas pelo controle do mercado ilícito de drogas. Sobre o extermínio dos jovens da periferia, a Berro já abordou o assunto: Quem se importa com os mortos da favela?

Para piorar, nas partidas do torneio no estádio, dona Lúcia tem prejuízos no seu mercadinho, já que a barreira gradeada imposta pela Fifa impede que os torcedores cheguem até o seu estabelecimento. “Eles não deixam passar”, reclama ela. Sobre essas tais grades, Eliane Brum escreveu a respeito: “Comunidade pobre do Castelão assistiu à ‘elite’ desfilar”.

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Seu Paulo, morador do Barroso, desabafa: “foi feita uma maquiagem pra essa Copa!”

Corroborando com as palavras de dona Lúcia sobre a questão da segurança, seu Paulo Pinheiro, que mora há 25 anos ali do lado, no Barroso, desabafa que, em dia de jogo, quem tiver carro só pode sair de casa até seis horas antes das partidas e só pode voltar seis horas depois. “No último (Uruguai e Costa Rica – 14/06), minha esposa teve que levar meu comprovante de residência até a barreira policial pra eu poder ir pra casa”, diz ele, levantando as mãos e falando com grandes gestos, como que esperando a reação do repórter. Franzo a sobrancelha com cumplicidade enquanto anoto algumas observações. Completa: “Foram benfeitorias provisórias. Tá vendo esses jarros aí? (aponta para uns bem grandes no meio-fio da avenida, pintados de verde e amarelo) Não vão durar um mês. Foi um tremenda maquiagem que foi feita pra essa Copa”.

Ir e vir a pé? Só com autorização da Fifa!

Bar da Francy, em frente ao Castelão

“Melhorou assim, né, a gente vê mais polícia passando”, diz Mazé Oliveira, moradora do Castelão há 9 anos, fazendo um mais ou menos com as mãos, quando perguntada sobre a sensação de segurança por ali. Ela e sua mãe, Francy, têm um bar cerca de 50 metros da Arena. Mas não estão muito esperançosas que os investimentos para o bairro continuem após a Copa.

“Aqui ainda tem muita coisa a ser melhorada. Foi passada uma maquiagem, como dizem, né. Digamos assim, fizeram a maquiagem a dois quarteirões do estádio, porque mais pra lá (aponta para a área mais central do bairro), no começo do Cal (favela que fica às margens da Av. Paulino Rocha), só pra avenida que ficou bonito, porque mais pra dentro continua do mesmo jeito. Tem uma rua que é um esgoto a céu aberto bem aqui pertim”, denuncia Mazé.

- E como é em dia de jogo, eles impedem vocês de irem pro outro lado?

De acordo com a jovem, “um fornecedor nosso de salgado, que mora lá pra banda do Barroso, foi impedido de passar pro lado de cá. Agora, pessoas dizem que são impedidas de passar pra lá, mas até hoje não soube de nenhum morador que eu conheça que foi impedido de passar não”. Até então tímida, acompanhando a conversa num canto do bar, Francy não se contém e, nesse momento, fala levantando o dedo indicador: “Se não tiver o ingresso você não passa”.

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Mazé e Francy se mostram cientes das precariedades do bairro

Pois é, é isso mesmo: em favor de uma corporação mafio$a, o Estado brasileiro ajoelha-se e cede aos caprichos da toda-poderosa Fifa: em dia de jogo, só passa por ali quem ela quiser. O livre direito de ir e vir dos moradores da redondeza é interditado. Tem noção do que isso representa? Tem idéia do que é querer sair de casa, atravessar a rua pro outro quarteirão e ser impedido? A sociedade, ao cruzar os braços e dar de ombros pra tamanho absurdo, autoriza e legitima uma violência arbitrária a um direito básico, constitucional (se é que essa Constituição valha mesmo de alguma coisa). Está tudo errado. Estamos às avessas e pouca gente deu-se conta!

Por sua vez, Mazé sabe que nem todos os problemas do bairro foram trazidos pelo megaevento, mas tem ciência igualmente que o torneio não vai resolvê-los. Sobre os olhos da cidade estarem voltados àquela região pós-Copa, “eu creio que não vai continuar não”, diz ela, pressionando os lábios um no outro e balançando negativamente a cabeça. É muito provável – pra não dizer é sal – que, após o evento, Fortaleza como de costume voltará suas atenções ao Meireles, à Aldeota, ao Fátima, à Varjota, ao Cocó, à Beira-Mar, ao Mucuripe, ao Dionísio Torres, ao Dunas: é basicamente nesses bairros que o investimento urbano público e privado chega sem falta, é para esses oásis de concentração de riqueza que escoam as iniciativas e os gastos públicos.

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Apesar dos pesares, a comunidade se enfeita de verde-amarelo pra torcer pelo Brasil

Segundo levantamento recente da prefeitura, o Castelão tem um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixíssimo: 0,25 numa escala de 0 a 1. O Mata Galinha apresenta 0,31 – e o Barroso, bairro vizinho, tem índice miserável: 0,18; é o 107° entre os 119 bairros da capital cearense. Para se chegar ao IDH, são verificados fatores como educação, renda e expectativa de vida. Esse é o cenário de pobreza e descaso em volta dum estádio que custou R$ 518 milhões de reais.

Daqui um tempo, passado o torneio, os moradores do Barroso e do Boa Vista estarão seguindo a vida normalmente, em que pese as imensas dificuldades que a sociedade lhes apresenta, uns criando formas de resistência, outros resignando-se, mas todos com a lembrança vaga de que por um mês as atenções da cidade e, por que não dizer, de parte do mundo, estiveram voltadas àquela região. Infelizmente, não por causa deles, mas apesar deles.

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Primeiras impressões da vida na cidade

Bode Berro

Óia aí, galera. Os caba aqui da revista deixaram esse bicho aqui dando sopa e eu vou aproveitar pra escrever um pouquim.

Aprendi a escrever com um menino lá do interior de onde eu vim, o João. De que interior? Olhe, minha história de como eu vim parar aqui é tão, tão, tão cheia de coisa que qualquer dia desses eu tiro uma manhã ou uma tarde dessa todinha pra contar ela. Ó, vão desculpando aí meus erro de português, que num é nem minha obrigação falar a língua de vocês direito, né? Eu entendo mesmo é de caprinês. Nessa eu sou bom. Quer ver? Ó: béééééééé!!! Entenderam? Não, né? Pois eu disse que ia contar o que tô achando aqui da cidade grande.

Olhe, desde que eu cheguei por aqui – eita Fortaleza réa grande viu! -, tenho reparado numas coisas esquisitas de vocês, seres humanos. Num entendo nada desse negócio de política que vocês tanto fala. Mas, se vocês usa esse negócio pra viver melhor, tem alguma coisa errada aí. Vocês num tão usando esse negócio direito não viu!

Oxe, em pouco tempo vivendo aqui, já vi umas coisas muito estranhas: vi pessoas dormindo no meio da rua, outras catando o lixo pra comer, umas criança em vez de tá brincando, tava era pedindo… comé que vocês chama mesmo? Ah, lembrei, esmola. Que troço doido! Os pobre infeliz que dormia na rua num tinha nem um cobertor pra se agasalhar! Isso lá é coisa que se faça? Comé que vocês deixa os irmão de vocês chegar numas condição dessa? Dormir no meio da rua? Num ter o que comer? Criança sem brincar? Óia, lá do campo donde eu vim, nóis num tinha muito luxo não e nem discutia esse negócio de política, mas num tinha um bode véi ou uma cabra véa que dormisse ao relento, um bode véi e uma cabra véa que num tivesse o de comer, um cabritim ou uma cabritinha que num brincasse pelos mato. Nã-nã-ni-nã-não! No nosso mundo, todo bode e toda cabra tem esses direito tudim. Pra vocês aqui, seres humanos, parece que esses direitos só vale pra uns pouquim, né? Onde já se viu um diacho desses?

Tava andando também na rua e vi uns caba falar de uma tal de copa do mundo. Parece que aquele negócio de política tá envolvida aí. Os caba tava dizendo que o governo gastou um bocado de dinheiro público pra fazer essa copa. E que essa copa tirou um bocado de família de suas casas: 250 mil pessoas!!! E que desrespeitou a lei maior de vocês, uma tal de cons-ti… cons-ti-tu… constituição! É, era esse o nome! Olhe, se os caba tava falando a verdade, eu vou dizer viu: essa copa tá qu´é uma moléstia! Oxe, que diabéisso? E por que num gasta esse dinheiro pra dar um abrigo pros que moram na rua, pra dar de comer pros que tava catando do lixo? Donde já se viu expulsar as pessoas de suas casas por causa de uma tal de copa? Olhe, num sei nem quem é essa tal de copa, mas já tô é com abuso dela! Vê se pode um troço desse! Eu num entendo vocês não, viu! Vocês tão me parecendo meio abirobado das idéias. E é porque vocês dizem que são os únicos bichos da natureza com consciência. Pois eu é que num invejo essa consciência aí de vocês!

Ahhh, e esse troço que vocês chama de televisão? Quando vi pela primeira vez, pensei que era legal. Mas é mais um negócio esquisito de vocês. Tava vendo um futebolzim dia desses (bom mesmo é assistir na beira do gramado, comendo uns matim, como eu fazia lá no interior) e nos intervalo tinha um diacho de um negócio… comé que vocês chama? Pro… propaganda! É vendendo isso pra cá, vendendo isso pra lá… compre isso, compre aquilo! Que troço mais chato! Eu só queria ver o futebol, e não que tivesse vários chatos me dizendo o que fazer, o que comprar, o que comer, o que beber, o que usar o tempo todo! Até dentro do jogo, num sabe?, aparecia essa tal de propaganda! Meus amigos aqui da Berro disseram que muitos de vocês, seres humanos, assistem essa televisão todo santo dia. Alguns, o dia todo! Arre égua! Comé que vocês se acostumaram com isso?

Oxe, minha gente, tem tanta coisa melhor nessa vida do que perder tempo em frente esse troço luminoso. Luz por luz, eu sou mais a do sol ou da lua. Tem também a dos vaga-lume, que é verdinha e bonita que só ela! Tem um marzão desse aqui na cidade e vocês perde um domingo em casa pra ficar assistindo aquele tal de Faustão? Minha gente, me desculpe a sinceridade, mas assisti aquela porcaria uma vez pra nunca mais. Ô negócio sem futuro, nam! E me disseram que ele já tá na televisão tem bem uns vinte anos e as pessoas ainda assiste esse caba. Olhe, essa tal de consciência que só vocês tem deve explicar essas esquisitices medonhas!

Fiquei abestalhado também quando soube que aqueles caba tudo com a mesma roupa, com aquelas cara de raiva, que vocês chama de polícia e guarda municipal, são pagos pra proteger os cidadão. Oxe, comé que pode, homi? Os caba desce a peia nuns pobre duns estudantes que só tava pedindo um direito deles e vocês acham mesmo que eles protege vocês? Pelo que eu vi, essa polícia e essa guarda de vocês num defende as pessoas tudo não. Defende só os barão, aqueles que ou tá na política ou conhece quem tá na política. Onde já se viu? Meter a sola nuns pobre duns estudantes? Essa tal de política num tá servindo pro propósito dela não viu… Nóis lá no campo num entende nada desse negócio de política, mas, óia, lá nóis vive tudo direitim, tem nosso cantim pra dormir, matim pra comer, matim pra fumar, e nóis num precisa de polícia não; lá, nóis mesmo se ajuda, se protege, cada um cuida do outro. Essa tal de política tá levando vocês pro brejo, ou melhor, pro matadouro!

Por enquanto, é isso! Mas olhem: vê se vocês se aprumam nessas doidices! Que eu sou só um bode, num tenho estrutura pra tanta esquisitice assim não, num sabe? Inté a próxima!

Bééééééééé!!!!

Bode Berro é o mentor intelectual e guru espiritual da Revista Berro

#revistaberro1 #provadagráfica #deucerto #bembunitimosbichim

Revista Berro: feita 100% em software livre!

Numa longa jornada, oferecer um gole de água de sua cabaça a um viajante com sede pode parecer um pequeno gesto para você, mas para o viajante esse gole pode ter lhe dado um novo fôlego pra seguir adiante. Mas e se a sede do viajante for por informação? E se a sua cabaça estiver cheia de tecnologia pra compartilhar? Foi pensando nisso que eu inaugurei a coluna Cabaçáiber: a cabaça cheia de cibernética!

Aqui pretendo compartilhar com vocês o que eu puder sobre tecnologia e cibercultura de e para as massas. E para começar os trabalhos, não há melhor assunto para falar do que a própria Revista Berro!

Se vocês leram o título acima devem estar com algumas perguntas martelando-lhes as cabeças: “O que diabos é código aberto?”, e “Como assim foi feita em código aberto?” devem ter sido as principais dúvidas, então que tal começar por elas?

Software livre, esse negócio rochêda

Quando um programa de computador é distribuído com seu código aberto, significa que seus desenvolvedores permitem que você modifique esse programa para as suas preferências. A maioria desses desenvolvedores permite que você distribua ou até mesmo comercialize a nova versão modificada. E outra coisa interessante: apesar de boa parte dos programas de código aberto serem comercializados, existem muitos outros de qualidade distribuídos gratuitamente!

Dentre os vários programas que temos hoje, o mais famoso de todos é o Linux. Um sistema operacional como o Windows e MacOS, com a vantagem de ser totalmente gratuito e aberto para modificações. A variante de Linux mais badalada do momento provavelmente está nesse momento no seu bolso ou palma da mão: é o sistema Android para smartphones e tablets, o principal concorrente da Apple e seu iOS ao trono da tecnologia móvel.

E não pára apenas nos sistemas operacionais: o software livre possui um enorme ecossistema de aplicações. Editores de texto, editores de imagens, navegadores de internet, tocadores de áudio e vídeo, jogos e muitas outras categorias já são contempladas com exemplos formidáveis de software livre.

Mas e o que a Revista Berro tem a ver com isso?”, vocês devem estar perguntando.

Revista Berro: Suíte Adobe passou foi longe!

Se algum dia você conhecer um designer gráfico, webdesigner ou ilustrador que só trabalhe com software livre, das duas uma: ou ele é um corajoso, ou é um completo maluco. Pois vejam só: eu sou designer gráfico, webdesigner, ilustrador, corajoso e um completo maluco! Estava escrito nas estrelas! Meu flerte com o software livre tornou-se um relacionamento sério em meados de 2012, quando resolvi testar o Linux por um tempo e ver se dava mesmo para trabalhar com ele, e fiquei tão satisfeito que migrei completamente.

Divulgo abaixo a receita desse sarrabulho que foi produzir a Revista Berro com programas de código aberto — e gratuitos!

Sistema operacional: Ubuntu

Tela inicial do Ubuntu
Tela inicial do Ubuntu

O Windows da Microsoft é o sistema operacional para computadores de mesa e laptops mais usado no planeta, e seu maior concorrente é o MacOS da Apple, mas ambos são comerciais e demandam um certo gasto. O Ubuntu é gratuito, além de ser uma das distribuições Linux mais famosas e acessíveis para iniciantes no mundo do software livre. Foi essa a distro que eu escolhi para estudar, me divertir e trabalhar na Berro.

Edição de Imagens: GIMP

Interface do Gimp 2.8
Interface do Gimp 2.8

Não tem nem como comparar o GIMP ao Adobe Photoshop. Mentira, tem sim. O Photoshop tem muito mais funcionalidades, melhor suporte e um reconhecimento que já lhe rendeu seu próprio verbo, o infame “photoshopar”. Mas o GIMP também não é de se jogar fora, principalmente pelo fato de ele ser gratuito para “GIMPar” à vontade!

Editoração: Scribus

Interface do Scribus
Interface do Scribus

Adobe InDesign reina absoluto no design editorial, mas custa caro. Escolhi então o Scribus como substituto, que não é tão funcional quanto sua contraparte multimilionária, mas é mais do que suficiente para quem quer fazer uma publicação digna num programa leve e gratuito.

Ilustração e quadrinhos: GIMP e Inkscape

Bode Berro nasceu do software livre!
Bode Berro nasceu em software livre!

Olha ele aí novamente! O GIMP já é amplamente utilizado por ilustradores especializados em software livre, tanto que suas versões mais recentes trouxeram ferramentas e novidades pensando especialmente nesses profissionais de desenho e pintura digital.

 

 

Interface do Inkscape
Interface do Inkscape

E para ilustrações em vetor, como a própria logo da Revista Berro, o Inkscape não fica tão atrás do Adobe Illustrator ou do Corel Draw, sendo capaz de fazer quase tudo o que seus concorrentes comerciais fazem, com algumas exceções que não farão falta à maioria dos usuários.

Site: WordPress

Wordpress é uma das principais plataformas gratuitas para gestão de sites e blogs.
WordPress é uma das principais plataformas gratuitas para gestão de sites e blogs.

Criar e manter um site não é tarefa fácil, e para auxiliar nessa tarefa o WordPress foi o sistema de gerenciamento de conteúdo (CMS para os chegados) escolhido. As primeiras versões do WordPress tinham foco em blogs, mas a cada nova versão seu leque de possibilidades cresceu e hoje é usado para sites institucionais, portfolios, lojas on-line e até para portais de notícias, como a Revista Berro!

Conclusão

A Revista Berro é o projeto mais ambicioso de software livre do qual eu já participei, e eu não o teria levado adiante se meus parceiros também não fossem uns completos malucos! Os principais sistemas operacionais e a Suíte Adobe são uma combinação ótima, mas pondo tudo no papel, sai mais caro que alimentar o Bode Berro com frutas importadas da Suíça! O software livre é uma solução bastante viável e acessível, e o fato de haver muitas opções gratuitas facilita demais a vida de quem não tem recursos para comprar as licenças de programas comerciais.

A maior preocupação que tivemos foi quando levamos os arquivos da primeira edição para a gráfica (pouquíssimas gráficas estão preparadas para materiais feitos em software livre), mas tudo correu bem e em pouco tempo tínhamos a prova em mãos e a autorização pra rodar nossa primeira tiragem!

#revistaberro1 #provadagráfica #deucerto #bembunitimosbichim
#revistaberro1 #provadagráfica #deucerto #bembunitimosbichim

 

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Ensaio sobre a simplicidade

(Pulo da Ponte Velha, no Poço da Draga – Fotos: Revista Berro)

“… Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo…”
(O apanhador de desperdícios – Manoel de Barros)

Dia desses, logo após acordar com o canto dos bem-te-vis que diariamente vêm à minha janela, me divertia lendo as travessuras do Fradim. Estava na sala, rindo com as estripulias do personagem em quadrinhos do Henfil, quando um dos bem-te-vis do jardim adentrou sem cerimônia a casa e pousou sobre o móvel onde ficam alguns livros. Não sei o que procurava, mas não se alongou muito tempo. Mirou-me, soltou um sonoro e agudo “bem-te-viiiii” e voou para trepar-se na samambaia da varanda.

Vendo aquilo, larguei o Fradim sobre a mesa por um instante, e passei a divagar sobre a visita do pássaro. Por mais que tenha sido rápida, senti uma coisa boa com a presença daquele bicho ali, livre, dentro de casa. Ri tímido, feliz pela visita inesperada, troquei dois dedos de prosa com meus botões, naquela linguagem muda que todos trazemos conosco, e em seguida voltei os olhos ao Fradim, que a essa altura sofria com as danações do Baixim.

Noutro dia desses, choveu forte em Fortaleza. Passeava com o Bono, meu amigo-cachorro, quando o toró teve início. Nos protegemos embaixo de uma marquise, não sem antes tomar alguns pingos no rosto. Estava com o celular no bolso e supunha que, se me atrevesse a enfrentar aquela enxurrada, iria danificar o aparelho. Um, cinco, dez minutos… E nada do temporal passar. Comecei a pensar na maravilha que seria aquele banho de chuva; esta que parecia dançar com o vento forte que soprava as folhas do pé de azeitona.

- Preto, bora sair por aí na chuva correndo, bora?

Ele me olhou feliz e, na sua expressão, vi que ele disse “sim!”. Não pensei duas vezes. Dane-se o celular!

- Então, bora, Preto, bora!

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Bono brincando no jardim

E saímos em disparada, rindo largamente os dois sob aquele temporal. Bono abria a bocarra para sentir a chuva tocando sua língua. Talvez estivesse com sede da caminhada pré-chuva. Me sentia ainda mais feliz com a euforia dele, que pulava de tanta alegria com aquele banho que caía do céu. Demos um longo e apertado abraço. Me olhava e eu via nas suas feições uma gratidão àquela demonstração de força da natureza! Cachorros – na verdade os bichos em geral – têm uma sensibilidade muito maior que a nossa para sentir essas coisas.Nós, que vivemos em cidades grandes, abdicamos do prazer de um banho de chuva. Muitas vezes, fugimos dela, como se de açúcar fôssemos. Eu e Bono passeamos bastante pelo bairro sob aquela enxurrada, depois fomos pra casa e brincamos de bola ainda com o toró troando.

Não satisfeito, peguei minha bike e saí, sozinho, a esmo, pela Cidade dos Funcionários, caçando bicas e pedalando de braços abertos, como que pra receber de bom grado aquelas gotas volumosas que lavavam não só meu corpo. Gritava feito louco – “uhuuuuu” -, comemorava estar vivendo aquilo. Algumas bicas mais pareciam cachoeiras! Naquele dia, não tomei mais banho, porque realmente não quis; a água da Cagece não seria páreo para limpar mais do que a água da chuva.

Noutro dia desses, numa noite de lua cheia, junto com alguns amigos, fizemos uma trilha noturna às margens do rio Pacoti, que desemboca ali na praia da Cofeco, também conhecida como Abreulândia. Enfiamos o pé na lama do mangue, nos embiocamos mata adentro, subimos nas árvores do manguezal – com seus galhos úmidos, escalamos dunas que nos proporcionavam vistas incríveis, nos banhamos no Pacoti ao tempo em que éramos banhados pela luz amarelada da lua, que espelhava seu dourado na superfície do rio… Toda a trilha em silêncio! Cada um com sua viagem! Mas sem perder de vista o viés tribal, de grupo, que nos unia fortemente naquele momento. Na volta, uma chuva torrencial nos presenteou com sua abundância.

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Galera da Cidade em peso pulando da Ponte Velha

Os três relatos são fatos muito simples, aos quais muitos dão de ombros, já não veem importância. Os olhos dos moradores das metrópoles se acostumaram a banalizar o simples. Tolos! como se o simples fosse banal. Apegam-se às obviedades da aparência; preferem a vida de plástico e concreto: artificial! Não conseguem mais ver sopro de vida na simplicidade de um pôr-do-sol visto da duna da Sabi, donde se contempla todo o ecossistema do Cocó; de embrenhar-se no mangue da mesma Sabiaguaba, e depois tomar um banho de rio ou de mar; de boiar, de barriga pra cima, sobre o mesmo Cocó, desde debaixo da ponte nova até sair perto das barracas do Caça e Pesca, já na outra margem; de tomar um banho de mangueira no jardim de casa e, à luz do sol, brincar de fazer arco-íris com os jatos d´água; de admirar um beija-flor bicando um bouganville, uma rolinha fazendo seu ninho no arbusto do quintal, ou o canto majestoso do sabiá; de cuidar de plantinhas, cultivar um jardim colorido e meter a mão na terra para plantar e acompanhar o crescimento de pés de frutas; de colher fruta doce do pé; de surfar uma onda; de contar estrelas; de parar tudo por um instante e viajar na grandeza do universo; de fritar um peixe numa folha de bananeira na praia; de fazer uma fogueira e sentar-se com amigos em volta dela; de brincar de ver imagens nas nuvens; de conversar com os bichos e com as plantas; de ajudar uma tartaruga encalhada a voltar ao mar; de ver um cavalo-marinho nadando do seu lado durante o surfe; de uma chuva te ensopando todo; de contemplar a lua, o sol, o céu; da pureza de uma criança; de uma prosa gostosa na calçada; de observar atento o manejo de um cabra do sertão na lida com a roça; de ajudar um(a) velhinho(a) a atravessar a rua; de ver um bicho selvagem como um guaxinim numa mata e admirar-se com o exotismo do animal; de um abraço apertado e verdadeiro; de um sorriso espontâneo; de um olhar sincero; de ir pular da ponte velha no Poço da Draga; de um banho de cachoeira; de um vento bom soprando sua brisa fagueira; de silenciar diante da natureza para ouvi-la…

Mundo velho e decante mundo ainda não aprendeu a admirar a beleza, a verdadeira beleza, a beleza que põe mesa…” (Zeca Baleiro).

Os habitantes dos grandes centros urbanos, com a correria frenética do dia-a-dia, perderam o contato com o simples da vida. Com aquilo que de sagrado todos trazemos conosco. Não o sagrado num sentido dogmático-religioso. Não é isso! Mas, sim, como a ligação profunda que todos nós, humanos, temos com o restante da natureza e seus elementos – inclusive com nós mesmos e com as pessoas com quem convivemos! “Quem experimenta a beleza está em comunhão com o sagrado“, disse Rubem Alves. Nem de longe isso é papo de bicho-grilo. Aos poucos, abandonou-se a lufada vigorosa de bem-estar advinda da simplicidade. Mas ela, teimosa e resistente, continua em cada um! Isso não é pieguice; é uma busca: temos que inicialmente procurá-la dentro de nós para depois a captarmos no cotidiano. Nessas horas percebo o quanto ainda precisamos aprender com muitas das gentes simples e sábias do sertão e de tribos indígenas, africanas e aborígenes espalhadas por esse mundão.

Quando, generalizadamente – pobres, ricos, pretos e brancos -, percebermos que a verdadeira riqueza do nosso estar no mundo repousa numa vida simples, sem consumismo e sem apego às aparências (“É muito simples: o essencial é invisível aos olhos”, já disse a sábia raposa ao Pequeno Príncipe), finalmente a utopia de uma humanidade igualitária estará ao nosso alcance.

Ah, naquele dia, da visita do bem-te-vi à minha sala, fui depois dar uma olhada nas plantas e a samambaia da varanda estava seca, sem umidade na sua terra, pedindo água. Devia ser isso o que o pássaro estava querendo me dizer!