Cartas a Ardilla: Buenos Aires



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(Montagem: Lara Albuquerque)

Buenos Aires, 20 de agosto de 2020

Querido Ardilla,

Viver estes dias de confinamento e escutar as notícias que chegam todos os minutos fazem a vida perder um pouco de sentido. Mas eu não posso reclamar, as ruas de Buenos Aires -agora mais habitadas por seres viventes e em sua maioria portenhos- estão com esse aspecto de senhora recatada escondendo os joelhos.

Uma beleza sutil atravessa as avenidas e revela os dizeres em suas paredes pintadas de ontem. Um “aborto legal” aqui, um “ni una menos” ali, um “nunca más” do outro lado da rua… essas coisas que fazem a gente se sentir viva. É bom, eu gosto.

Os edifícios ainda são belíssimos e devo confessar que bastante mais sem o barulho das buzinas. É uma pena que os cafés sigam fechados e que nem de longe seja possível o reencontro com os aromas misturados ao passo ligeiro dos transeuntes. Sinto saudade de sentar-me em La Poesía para escrever e observar as pessoas que não sabem que estão sendo transformadas em poema pelas minhas mãos nervosas e ávidas de ritmo e prazer.

Penso sem reservas. Lembro das muitas marchas pela Avenida de Mayo e a Casa Rosada parece mais rosada que antes. Sinto muita saudade do abraço de Norita e as quintas-feiras sem la ronda de las madres de la plaza são menos mágicas e seguramente mais duras; por um momento penso que temos que cuidar muito bem da memória.

Meu Brasil, meu berço, me aterra. Sinto-me triste e muitas vezes (muitas!) penso na memória e em tudo que passa pelas ruas sem os rostos risonhos de março. Apenas olhos curiosos me olham através de suas máscaras de isolamento. É estranho, mas também guarda uma certa beleza. Acho que nunca vi tantos olhos como agora; as cores, as formas os gestos de sua composição escondida… é bonito.

Recolho meu corpo de madrugada e nada parece mais argentino que esta certeza de que é possível superar tudo, até mesmo o que querem que esqueçamos e perdoemos. Ni olvido, ni perdón, leio na parede de uma esquina de Corrientes. E posso te dizer, nunca fez tanto sentido.

Cuídate, Ardilla. 

                                          Beijos muitos,

                                                                       Andreia 

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Cartas a Ardilla são textos epistolares de Andreia (que também é Amanda) para Ardilla; dois amigues que re-existem em espaços e tempos diferentes. Os lugares podem ser tempos e os tempos podem ser objetos. Uma é escritora e o outro pode ser qualquer coisa. Ardilla é um muso (às vezes musa, muse) que inspira Andreia e que é amado por Amanda que não é amada por ninguém.

Veja outras Cartas a Ardilla, de Vanessa Dourado.

I: Cuba

II: Pandemia

III: A mancha


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