A visita



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Bento vinha vindo com a sacolinha do mercado na mão e com óculos escuros e uma ressaca na cara. Letícia vinha em sua direção e ele teve que retirar os óculos para acreditar em seus olhos, se encontraram em frente ao seu portão.

— O que faz aqui?

Ela respondeu lhe perguntando se ele se lembrava daquela vez em que o carro dela fazia aquele barulho estranho e ele a indicou um amigo mecânico ali perto. Com a resposta positiva em um semblante desconfiado, ele a ouviu contar a história de que ela resolvera trazer o seu carro novo para ele dar uma olhada, porque esse também estava fazendo um barulho semelhante e ninguém da concessionária conseguiu descobrir o que era. Que sempre voltava do mecânico sem o barulho, mas semanas depois escutava o mesmo problema. Aproveitou que o trouxera para consertar e veio lhe fazer uma visita.

Bento internamente questionou-se se o motivo era legítimo, mas a postura e a expressão descompromissada dela, enquanto mexia em sua bolsa, abafou a curiosidade dele.

— Quer entrar?

Respondeu que sim lhe beijando o rosto e teceu um comentário brincalhão sobre sua cara ressacada.

Enquanto ele colocava o que comprara em cima da mesa, ela fazia piada sobre como a noite anterior deveria ter sido boa. Ele lembrou-se dos dias de namoro.

— Pão, queijo e cerveja – comentou – você não perde a mania de curar ressaca com outra bebedeira, né?

Sorriu para si mesmo ao se dar conta do quanto ela o conhecia.

— Saiu com quem?

Desta vez o sorriso foi para ela. Com um tom de quem percebe-se em vantagem respondeu, como quem diz de passagem, que havia saído com Caetano e umas garotas.

— Umas garoTAS? – perguntou destacando o plural.

Ele a olhou como quem reconhecia aquela cena, ali sentada em seu sofá, com a saia lhe expondo a metade das coxas, seus dreadlocks lhe escorrendo os ombros e os olhos verdes-castanhos vidrados nele, como o cãozinho que espera o dono lhe jogar um biscoitinho. Abriu uma lata e deu um gole, guardou as demais na geladeira e puxou uma cadeira para sentar-se de frente.

— Sim, umas garotas.

Olharam-se como em déjà vu, e o silêncio motivou Bento a falar, meio que para reter o controle da situação. Contou sobre o grafite no muro, a cerveja com o amigo na calçada, a sinuca no bar, o cochilo e café no apartamento e como tudo correu bem até ganhar a atenção de Tiê. Letícia soltou a bolsa e segurou o celular com as duas mãos, inclinada para frente ela prendia a atenção dele que, como quem se sente confortável pela situação e interesse, abriu detalhes da garota que conhecera na noite anterior para sua ex-namorada.

Contou que ela teve um término de relacionamento meio traumático, que sofria perseguições do namorado, e em como ele a fazia acreditar que era ela a errada na história. E narrava de um modo tão alheio que Letícia chegou a se perguntar se ele não se incomodava com aquilo. Falou sobre a maneira que terminaram, de como o cara acelerava o carro em uma noite escura enquanto a garota, aos berros, pedia pelo amor de Deus para que fosse mais devagar, lhe prometendo amor eterno enquanto a única coisa que lhe restava era amor à vida. Ela não entendia seu ciúme e nem como poderia senti-lo, mas vivia com a autoestima tão baixa, que imaginava que a única possibilidade era de não sentir-se digna do amor dele, a vergonha lhe roubava as forças e sentia-se louca por ser capaz de fazer aquele homem sofrer.

Letícia indignava-se ouvindo aquelas palavras. A empatia pela outra lhe percorria o corpo e sentiu a raiva lhe subindo o peito. E ouvir Bento ali, sentado naquela posição triunfante enquanto bebia sua cerveja, sem o menor tato com a dor alheia, como quem escuta para contar depois; era como repetir o mesmo gesto, perpetuar o mesmo mal feito. Lhe roubou um gole da cerveja para não engolir a seco.

— E ela te contou tudo isso na primeira noite que te viu?

Eu não sei Letícia. Foi diferente… – Bento tateava as palavras antes de dizê-las – Ela foi tão gentil… Depois que saímos do bar e fomos para sua casa, era como se nos conhecêssemos há tempos. Eu senti uma admiração tão grande por ela, desde a primeira vez que a vi, quando ainda me ofereceu café, que eu tive certeza que ficaríamos juntos. E tudo que fiz, todos meus movimentos, foi tudo para que ela me deixasse ficar. Para que ela visse em mim alguém que valesse a pena, assim como eu tinha certeza que ela valeria. Depois que transamos ela buscou um vinho na cozinha e voltou com o beque aceso, deitou em meu peito e o assunto fluiu tão naturalmente que nos abrimos um para o outro. Eu também me abri, também contei as minhas dores e…

— Esse namorado era o Pablo, Bento! – interrompeu Letícia sem paciência.

— Que Pablo?

— Meu ex-namorado!

Bento percebeu a pronúncia do ex, mas deixou esse questionamento para outro momento.

— E como você sabe?

— O amigo dele viu vocês dois juntos ontem, Bento. Te reconheceu da noite em que brigaram no bar e contou pra ele.

Bento sentiu certo gosto de vingança, mas ainda não havia caído a ficha do que estava acontecendo.

— E como você sabe disso?

— Porque ele me ligou, PU-TO, berrando que iria te matar.

Agora entendeu, ainda não completamente, não sabia no que aquilo o afetaria.

— Foda-se.

— Foda-se, Bento? Um maluco diz que vai te matar e isso é tudo que tem a dizer, foda-se? – ela estava contrariada – Ele é branco, Bento. E o pai dele é diretor de um presídio, tem várias influências na polícia. Se esse cara quiser mesmo te matar, sabe o que vai acontecer com ele? – Bento ainda segurava a lata, mas já não bebia, não precisava responder. Letícia não aliviou. – Não vai acontecer nada, Bento. Ele vai continuar por aí vivendo a sua vida enquanto você sufoca embaixo da terra.

Bento deu um gole e sentiu seu estômago barulhando roucamente, peristalsis era o nome, lembrou que seu primo lhe havia dito que aquele barulho era devido ao movimento peristáltico. Ainda confuso, não sabia se a raiva de Letícia era devido ao seu assassinato iminente ou pela garota. Estava gostando da cara de contrariada dela por ter contato da sua noite e, pensando nisso, percebeu que não fazia sentido nenhum. Levantou e colocou a cerveja em cima da mesa.

— Peraí, – virou-se como quem entende a piada – você não veio aqui por causa do carro.

— Não.

— E se você veio até aqui pra me dizer isso é porque realmente acredita que ele pode fazer isso, né?

— É.

— Está preocupada comigo?

— Muito! – respondeu arregalando os olhos.

Bento foi à geladeira e voltou com duas cervejas, entregou uma a Letícia que a deixou de lado sem abrir. Sentiu o estômago novamente e deu um gole como que para esquecer o nome que o primo lhe contara.

— Por quanto tempo vocês namoraram?

— Quase um ano.

— E terminou porque ele disse que vai me matar?

— Não, Bento. Terminei com ele no dia em que te bateu.

— Me bateu – outro gole como que para conter o riso – coitado dele.

Letícia olhou para a cicatriz em sua testa e levantou uma sobrancelha.

— E ele não quis te matar também? – achou melhor continuar no assunto.

— E ele é doido de querer me matar? – agora foi ela quem riu – Ele conheceu minha família, nem se ele quisesse muito ele poria a mão em mim.

— Seus pais sabem disso?

— Claro que não, Bento.

— O que acharam dele?

— Nunca gostaram. Minha mãe dizia que o perfume que usava não escondia o cheiro podre.

— Dona Suzana – disse como quem rememora – Dona Suzana nunca me decepciona.

— Ela ainda não superou o fato de nós terminarmos.

— Você terminou comigo. – corrigiu Bento.

— Sim. Eu terminei. Qual o problema? – Letícia o encarou.

— Problema seu. – disse enquanto dava de ombros. Contrariado e sem razão. Foi até a mesa e colocou um queijo dentro do pão, deu uma mordida e um gole na cerveja. Peristalsis. Outro gole. Letícia sempre pediu para que engolisse a comida antes de beber. Outro gole.

Ela sabia o quanto custou a ele a separação, deixou o celular sobre a mesa e apoiou a mão em suas costas, parou ao seu lado e o encarou. Olhando em seus olhos lhe pediu para que não fosse à festa esta noite; pediu e lhe acariciou as costas. E antes que ele pudesse responder, o celular começou a tocar, na tela havia nome e sobrenome, ela não atendeu.

— Já trocou o nome carinhoso do contato dele? – perguntou com deboche.

— Ele nunca teve nome carinhoso.

Bento sorriu.

— É sério cara, quero lhe pedir isso como um favor. Eu vim até essa lonjura só para lhe pedir isso, fique em casa hoje. – e com a mão que tirara de suas costas, lhe acariciou o rosto – Você é muito melhor que tudo isso.

Bento conhecia os detalhes daquela mulher, sabia a verdade e o peso que havia naquele pedido. E olhando a covinha no canto de sua boca se perguntou se um dia deixaria de amá-la.

— E vou fugir dele a vida toda?

— Exagerado. – pegou o celular na mesa e se afastou – Só até a poeira baixar, Bento.

— E quando essa poeira irá baixar?

Ela estava apreensiva, os lábios contraíram, mas não disseram nada, apenas abaixou a cabeça.

— E isso tudo sem eu ter feito nada. – protestou ele.

— Pois é, Bento. Imagina o que ele fará sabendo que você comeu a virgem maria da vida dele?

Não havia mais nada o que dizer.

Letícia pegou sua bolsa no sofá e dispensou a companhia até a saída.

— Tchau, Bento.

Fechou a porta atrás de si. 

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Este conto é o sétimo da série “Berros, tragos e aspirinas”, de Arthur Yuka, que está sendo publicada em episódios semanais.

I: Barba ensopada de sangue

II:Sem culpa

III: Até que provem o contrário

IV: A última ceia

V: Letícia não sabe decidir

VI: Tiê


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