inaê

“Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

A pequena Inaê nasceu em casa após 10 horas de trabalho de parto (Foto: Artur Pires)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

(Parte IV da reportagem “Aurora de sonhação: As raízes de um mundo novo)

A partir das últimas décadas do século XIX, nas nações europeias, a medicina começou a levar os partos, antes majoritariamente domiciliares, para os hospitais. Hoje, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 84% dos partos realizados na rede privada no Brasil são cesáreas. No Sistema Único de Saúde (SUS), esse índice cai para 40%, mas ainda continua muito acima da taxa entre 10% e 15% recomendada pela OMS. O Brasil é o país com o maior número percentual de cesáreas no mundo, com 57% dos nascimentos sendo realizados através desse procedimento cirúrgico invasivo e antinatural. Com o intento de diminuir essa taxa, no ano passado, a Agência Nacional de Saúde (ANS) estabeleceu regras para as operadoras de planos a fim de estimular o parto natural.

Para a bióloga e doula Liana Queiroz, o parto humanizado é uma maneira de resgatar a natureza sagrada do nascimento e, à medida que a mãe é totalmente atuante nessa parição, empoderá-la enquanto ser que gera outra vida. De acordo com ela, quando os hospitais abarcaram a tarefa de trazer as pessoas ao mundo, mecanizando o processo, a parteira foi substituída pelo(a) médico(a) e a doula, que “é como se fosse aquela vizinha e amiga que dava o suporte no processo de parto”, desapareceu. O filme O Renascimento do Parto, de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, aborda essa questão de maneira aprofundada.

A artesã Bruna Ianara, de 23 anos, e o professor e músico Renan Rebouças, de 27, tiveram a pequena Inaê, de 1 ano, em casa, na companhia de Liana e enfermeiras obstetras. Bruna comenta que o trabalho de parto durou 10 horas, e proporcionou-lhe um “renascimento”. “Foi muito forte, muito intenso; é pura emoção, intuição, consciência corporal…”, relembra, afagando com carinho a filha, que se lança em caras e bocas para mim, fazendo graça. Renan ressalta que o homem pode se entregar à experiência também, e vivê-la com intensidade: “Eu entrei em trabalho de parto junto com a Bruna, as funções são complementares, gritava junto com ela, não parei um minuto durante o trabalho, e aparei a Inaê”.

(Info: Rafael Salvador)
(Info: Rafael Salvador)

À primeira vista, falar sobre parto humanizado pode parecer destoante de tudo o que vínhamos discutindo ao longo da reportagem. Mas, definitivamente, não é. Não à toa o obstetra francês Michel Odent, um dos defensores mundiais do parto domiciliar, disse que “para mudar o mundo, é preciso primeiro mudar a forma de nascer”. A epidemia de cesáreas em todo o planeta tem indissociável relação com o homo urbanus e seu modo de vida em crescente dessincronia com as leis da natureza. Essa espécie urbanoide tenta acelerar a noção de tempo-espaço de diversas formas, busca dissimular, com procedimentos cirúrgicos e entorpecimentos anestésicos, as dores existenciais da vida, estas sem as quais não aprendemos-a-viver. O parto humanizado é um ato de coragem e empoderamento, é a Vida prenhe de sentido, nos ensinando na prática aquilo que ela manifesta de mais essencial, seu sagrado mistério de nascer e morrer. “Quando a mulher pare naturalmente, morre ali uma mulher e nasce outra”, exclama Bruna.

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Parte IV da reportagem “Aurora de sonhação: as raízes de um mundo novo”, publicada na  Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pgs. 10 a 26) (aqui, versão PDF).

Veja abaixo as outras partes:

Parte I (introdução)

Parte II: “O sertão é dentro da gente”

Parte III: Cidade: por uma nova prática socioecológica

Parte V: Nos caminhos da autogestão

Parte VI: “Nós por Nós”: A Senzala subverte a Casa-Grande

Parte VII: Democracia representativa e burguesia: uma relação de cumplicidade

Parte VIII [final]: Voar rumo à liberdade

53 comentários em ““Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

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