Repentistas

Os poetas do repente são uma espécie em extinção

Manuel e Vicente, numa cantoria de repente (Fotos: Jesus Carlos)

Por Bruno Cirillo

Dentro de um bar modesto na rua da Abolição, no Centro de São Paulo, Manuel Soares e Vicente Reinaldo ajeitam-se ao lado da máquina de caçar níqueis para dar início à cantoria. A única mordomia dos repentistas, com mais de trinta anos de carreira, é uma dose de conhaque de alcatrão com algumas gotas de limão. O chapéu (um prato coberto por um pano) fica exposto em cima da mesa – o cachê espontâneo, segundo eles, costuma pagar bem. Antes mesmo do show começar, os clientes, entre eles um casal, seis homens jogando baralho e um peruano que faz mímicas no balcão, já depositaram ali algumas notas para o couvert.

“Eu nem ouso chamar de show, chamo de cantoria, porque é entre os amigos”, diz Vicente, 59, nascido em Caririaçu, Ceará. Ainda jovem, o repentista deixou a terra natal em busca de oportunidades em Brasília e, depois de viver onze anos na capital federal, se mudou para São Paulo. Já se apresentou até em velório na Lapa, sempre em dupla, e jamais desgrudou da viola de doze cordas, equipada com caixas de som circulares que dispensam amplificadores. Manuel Soares, de Sumé, Paraíba, empunha um instrumento quase igual. “A cantoria popular não convida o grande público. Eu gosto porque é um grupo selecionado, fiel”, ele comenta.

O paraibano começa o repente enfatizando que “o que faço eu da vida/ é luta pra defender a cultura”. Na base do improviso, ele brinca com as palavras: “cantar, muita gente canta/ o difícil é improvisar”. Vicente responde em sequência, mantendo as rimas o quanto possível. A disputa de versos se prolonga por mais de uma hora, até que o cearense anuncia que vai cantar uma música de sua autoria, com letra pronta, para encerrar o duelo. A canção traduz o tema maior dessa tradição poética: a saudade da terra natal – “Capim Verdão” é uma homenagem à memória dos migrantes nordestinos:

Me considero um bom sertanejo

Eu não reclamo da minha vida, não

Planto a semente lá no meu roçado

Nasce saudade no meu coração

Chuva que apaga a poeira

Que molha a barreira

Do meu ribeirão

Bate com velocidade

Apaga a saudade

Do meu coração

“A saudade, a saudade”, desabafa um dos cliente mais velhos do bar, encostado no balcão, com chapéu de sertanejo e uma expressão dura no rosto marcado pelo tempo. Sua nostalgia é da época que os retirantes trouxeram o repente para São Paulo, na onda migratória que começou nos anos 1950 e se manteve num fluxo intenso até os 1970. “A cantoria se desenvolveu muito aqui. É como se fosse o forró: antigamente quase ninguém gostava, mas virou uma epidemia. O repente, hoje, está no SESC, na Secretaria de Cultura, na biblioteca e na Rádio Imprensa, que fica em plena avenida Paulista”, afirma Manuel, referindo-se ao programa Viola & Repentistas, transmitido nos domingos, às 9h, na 102,5 fm.

Contudo, se a cantoria ocupa uma hora da programação semanal de emissora, o forró preenche todo o resto da grade horária. A mesma relação de importância pode ser observada nas casas de show de inspiração nordestina, onde o repente é um gênero cada vez mais raro. No Centro de Tradições Nordestinas (CTN), maior referência paulistana da cultura do Nordeste, que comemorou 25 anos de atividade em outubro (mês do Dia do Nordestino, no 8), a organização convidou cantores de arrocha e duplas sertanejas, como Pablo e Jorge & Mateus, para montar sua programação especial. Não deixou absolutamente nenhum espaço para os repentistas. O antigo encontro anual do repente, na mesma casa, aconteceu pela última vez em 2014. E os poetas tiveram que se reunir no coreto (o segundo palco do centro cultural).

A diretora artística do CTN, Lucélia Silveira, se refere ao repente como um biólogo descreveria uma espécie ameaçada de extinção: “A gente mantém ele vivo pra que não caia no esquecimento. Temos que mostrá-lo pra geração de hoje, senão ele morre.” Segundo ela, na ausência absoluta de novos repentistas, a tradição musical é mantida pelos mesmos cantadores que migraram do Nordeste para São Paulo há 50 anos. “Os jovens estão preferindo o sertanejo, eles não têm interesse no repente. A gente precisa colocar na cabeça deles que faz parte da cultura”, diz Lucélia.

Repentistas - SP
Sebastião Marinho, fundador da extinta União dos Cantadores de Repente (Ucran): ““O repente é nada mais, nada menos que a linha mais forte da cultura do Nordeste”

Quem ainda dá as caras no CTN, feito um resistente da cultura popular, é o poeta Sebastião Marinho, fundador da extinta União dos Cantadores de Repente (Ucran). Numa rua do Glicério, a fachada da associação criada em 1º de maio de 1988, de cara pra rua, parece resistir ao tempo que engoliu tudo à sua volta, como um fóssil. Ponto de chegada dos migrantes nordestinos nos anos em que Paulo Maluf governou São Paulo (1969-1971) – numa medida segregacionista, o político teria transferido o desembarque de ônibus que vinham do Nordeste para o Glicério, “desagando” a rodoviária do Tietê –, o bairro passa atualmente por um processo de reocupação visivelmente liderado pelos imigrantes haitianos.

“As primeiras cantorias foram feitas na Serra do Teixeira, na Paraíba, durante o século 19”, contou Marinho no quintal da antiga Ucran, hoje sua casa, onde ele mora com a mulher e o filho. “O repente é nada mais, nada menos que a linha mais forte da cultura do Nordeste”, defendeu. Cantador experiente, o poeta veio para a capital paulista em 1976, de Solânia (PB); sentiu que “tinha um trabalho a fazer” e resolveu ficar na cidade. “A Ucran foi criada pra dar representatividade à viola em São Paulo, que hoje tem mais repentistas que as capitais do Nordeste”, ele afirmou. Atualmente inativa, a associação chegou a reunir mais de mil sócios ativos nos anos 1970.

Em matéria de repente, Sebastião é um especialista à altura dos eruditos da poesia formal. Segundo ele, o repentismo remete às trovas medievais e obedece a regras rigorosas de rima, métrica e oração (o tema das canções). As formas poéticas variam de tamanho, sendo as mais populares a sextilha (seis versos com sete sílabas cada) e o decassílabo (forma utilizada por Camões em As Lusíadas, e que Alceu Valença costuma utilizar em suas canções, segundo Sebastião). Há formas complicadas, como o “pé-quebrado”, que intercala versos longos e curtos. O jornalista Assis Ângelo, especialista no tema, afirma que já foram criadas mais de 60 modalidades, embora esse número, segundo ele, tenha diminuído drasticamente nos últimos anos, conforme agravou-se a perda de interesse pela tradição.

Ângelo lamenta: “Os repentistas são hoje, mais do que nunca, desconhecidos do grande público. Esses caras não estão nos meios de comunicação – infelizmente, porque são uma raça fabulosa de poetas. Eles estão escondidos, ou para serem descobertos, ou porque já não há uma renovação da categoria”. O pesquisador, autor de um livro sobre a presença de repentistas e cordelistas em São Paulo, observa que os cantadores em atividade, hoje em dia, são os mesmos que já faziam parte do universo do repente décadas atrás.

No Pernambuco, estado vizinho à Paraíba e que divide com ela o status de berço do repente, a Secretaria de Cultura faz esforços para preservar a memória das cantorias populares. Recentemente, concedeu o título de Patrimônio Vivo da Cultura à repentista Maria Alexandrina, conhecida como Mocinha de Passira. Sua música mais famosa tem 40 mil visualizações no Youtube e se chama “Os direitos da mulher”. É um repente de Martelo Alagoano (uma das formas poéticas da cantoria popular, cujas estrofes improvisadas devem acabar, numa rima, com a repetição do décimo verso: “os dez pés de martelo alagoano”).

A mulher já foi muito escravizada

E só agora ela está se libertando

Os níveis do homem acompanhando

Mas ainda é vítima de piadas

O machista quase não lhe agrada

Porque é exigente e desumano

Só ele pensa em ser leviano

Farra e paquera mais de cem

Esse mesmo direito a mulher tem

Nos dez pés de martelo alagoano

Nos dez pés de martelo alagoano

Feminista nordestina, Mocinha é uma das maiores representantes da arte. Começou a cantar com 13 anos e se sustentou a vida inteira assim: “nunca vendi laranja nem pipoca”, orgulha-se ela, contando que viajou o Brasil por causa da música. “Sou como um passarinho que saiu do ninho e nunca mais voltou. Vum-vum, saí cantando por aí.” Nos últimos dois anos, ela fez turnê em São Paulo e se apresentou na TV, sendo entrevistada pelo showman Danilo Gentilli – “as perguntas dele eram bestas”. Citando associações de cantadores na Bahia, Piauí e Ceará, que diferente da Ucran ainda estão em pleno funcionamento, ela duvida que o repente vá morrer, mas enxerga os riscos.

“Os cantores escolhem um ponto e ficam naquela mesmice, naquela rotina. Tem que espalhar os pontos de apresentação, com três ou quatro apresentações por ano em cada lugar”, aconselha Mocinha, que considera a falta de apoio público e de divulgação na imprensa dois obstáculos para a popularização das cantorias. Ela acredita que, por se tratar de uma tradição regional secular, o repente devia ser passado, de algum modo, nas escolas. “Se chegarmos na TV, vamos tomar tudo, porque é de repente”, aposta.

Em relação à mídia, há um meio inesperado onde o repente, entrincheirado, mantém certa resistência cultural: o Facebook. Criada por um comunicador de Brasília, filho de cearenses, a página “Um repente por dia” faz jus ao nome, sem pular nenhum dia, e acumula 80 mil curtidas – índice próximo ao da página de Bossa Nova (89 mil). “Aqui na capital federal o espírito nordestino é muito presente porque a mão de obra para levantar Brasília contou muito com os nordestinos, e grande parte acabou ficando por aqui”, lembra Ailton Mesquita, o criador da página, por e-mail: “O repente, assim como outras manifestações da cultura popular nordestina, diz muito sobre o estilo de vida do nosso povo. O repentista é aquele que desafia, que improvisa e leva adiante o linguajar tradicional e também o humor, que são fortes características do brasileiro, inclusive daqueles que passam dificuldades mas fazem disso sua arte.”

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