pés maconha

Não compre, plante!*

Pés de skunk sendo colhidos (Fotos: Chico Célio/Revista Berro)

Por Artur Pires

Antecipando-se à legalização, é cada vez mais crescente a quantidade de usuários que decide cultivar a cannabis em casa, mesmo sendo proibido em lei. O cultivo caseiro é uma alternativa social e ecologicamente consciente e um redutor de danos significativo: além de ter acesso a uma maconha de alta qualidade orgânica, pois essencialmente natural, sem nenhum aditivo químico – muito comum na maconha “prensada” hoje adquirida nas “bocas de fumo” -, o cultivador também, ao estabelecer um ciclo permanente de plantio e colheita, rompe definitivamente sua ligação com o tráfico. “Apreensões de drogas só fazem aumentar o preço das mesmas e o lucro dos barões. Quem combate mesmo o tráfico é quem planta sua maconha, assim atinge o tráfico onde ele mais sente: o bolso”, sublinha o professor de Química e organizador da Marcha da Maconha no Rio, Francisco Ribeiro.

Para Raul (nome fictício), professor de História da rede pública estadual cearense, que cultiva há mais de três anos, a plantação caseira de maconha “deveria ser permitida e regulamentada, por muitos motivos – medicinal, potencial industrial, diminuições da violência e do poderio do tráfico -, mas basicamente porque compreende uma questão que perpassa as liberdades individuais, o livre arbítrio, o direito do cidadão escolher o que quer fazer sem prejuízo de terceiros. Direito que inclusive o Estado deveria proteger e assegurar”. Segundo o historiador, cultivando em casa “você planta e você colhe, não financia nenhum traficante e nenhum policial corrupto. Não mata crianças à la Tropa de Elite, e seu fumo será sempre o melhor”. À parte todas essas vantagens, completa Raul, “os preços da maconha no mercado estão altíssimos, variam entre três e dez reais o grama, de um fumo sujo, do qual você desconhece a procedência. Fora os riscos que são muitos, desde o fato de você às vezes não receber o produto – todo maconheiro já levou um ‘bolo’ – às abordagens policiais, etc.”.

cultivadorPara o casal de permacultores Paulo e Gustavo (nomes fictícios), que cultivam há cerca de dois anos, “a proibição não faz nenhum sentido, ainda mais depois que você planta”, ressalta Paulo.  No seu sítio em Aquiraz, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), onde vivem, cultivam diversas espécies de maconha, da índica à sativa, variando as linhagens. “Essa daqui é uma sativa colombiana, que uns amigos nos deram de presente”, diz Paulo, mostrando uma planta robusta, com folhas largas e de tonalidade verde-escuro.

De acordo com o permacultor, o cultivo caseiro é importante porque acaba com as bases do tráfico, além do mais, completa, “nada tem que ser proibido, cada um é responsável por si, desde que não interfira na vida do outro. Penalizar o uso por que?”. O casal diz que hoje tem uma relação ritualística com a erva; procuram não banalizar o seu uso. “Não é uma planta que se deva fumar toda hora, é importante conhecer suas propriedades, pois é uma erva sagrada”, afirma Paulo, que diz ter sido “chamado” a conhecer a face sagrada da planta numa sessão de ayahuasca, o famoso chá do Santo Daime.

Na opinião do antropólogo da UFBA Sergio Vidal, autor do clássico Cannabis Medicinal: Introdução ao Cultivo Indoor, “o cultivo caseiro é o básico dos direitos humanos. Todo ser humano tem direito ao próprio corpo e tem que ter direito também a cultivar aquilo que consome. Sei que muitos usuários recreativos utilizam o meu livro para reduzir os danos do consumo, produzindo a própria maconha que consomem, com isso melhorando a qualidade e diminuindo os riscos do hábito e isso também é muito importante”.

Indoor ou outdoor? Eis a questão!

colheita 1_sitePara Raul, “o melhor é plantar. Há vantagens e desvantagens das duas formas. Por exemplo, em indoor (dentro de casa, geralmente numa estufa improvisada, com iluminação elétrica) o cultivador tem o controle total dos fotoperíodos, podendo vegetar 18h/6h (luz/escuridão) e florir 12h/12h (luz/escuridão) as plantas de acordo com sua necessidade, manter plantas mães, enfim, porém a um custo de energia elétrica, com iluminação e ventilação. Sobre o outdoor (fora de casa, no jardim ou quintal, à luz do sol) tem problemas com a segurança, com insetos, enfim, mas não há nenhuma lâmpada que se compare ao sol, sempre que posso complemento o fotoperíodo com algumas horas de luz natural. As plantas adoram”, diz o experiente cultivador.

As plantas de cannabis têm duas fases distintas: vegetação, no primeiro mês e meio, geralmente, quando devem receber cerca de 16 a 18 horas de luz por dia; e floração, quando darão as flores (que é o fumo da erva), e devem receber em torno de 12 horas de luz por dia. O tempo para colheita varia de três a seis meses, dependendo da espécie (uma colheita média rende cerca de 10 a 15 gramas por planta, mas algumas espécies maiores podem render bem mais. É importante frisar também que só as plantas fêmeas dão flores). As índicas geralmente têm um período de maturação mais rápidos do que as sativas. O skunk, por sua vez, um híbrido de sativa com índica, matura ainda mais depressa (alguns chegam a maturar em 10 semanas) e produz resina abundante com alto teor de THC (tetrahidrocanabinol), substância responsável pelos efeitos psicoativos da maconha. Enquanto a cannabis “normal” tem, em média, 5% de THC, o skunk tem níves que variam de 10 a 15%.

O professor de História Raul afirma que não é difícil plantar maconha, assim como não é difícil cuidar de uma planta, mas faz a ressalva de que o cultivo requer alguns conhecimentos mínimos: “Um estudo prévio sobre germinação, solo, iluminação, regas e nutrição dos vegetais são fundamentais para qualquer bom cultivo. A grande dificuldade de alguns iniciantes é ter acesso a sementes de boa qualidade. Mas de fato até sementes em bom estado de fumos prensados podem render lindas flores”.

Para se aprofundar:

Livros: Acionistas do Nada – quem são os traficantes de drogas (Orlando Zaccone);  Zero, Zero, Zero (Roberto Saviano); Cannabis Medicinal: Introdução ao Cultivo Indoor (Sergio Vidal).

Filmes: Quebrando o Tabu (Fernando Grostein Andrade); Cortina de Fumaça (Rodrigo McNiven); Ilegal (Tarso Araújo).

*Parte V da reportagem sobre política de drogas, publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 03 – Dezembro/Janeiro 2015 (aquiversão PDF).

 I (É proibido proibir)

II (A saída é legalizar!)

 III (A guerra à planta)

 IV (A cura verde).

Conteúdo extra:  Entrevista com Orlando Zaccone: “A alternativa é a legalização!”

 

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