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“Eu moro é na rua”

Verônica sorri, mesmo com as adversidades (Foto: Artur Pires/Revista Berro)

Por Artur Pires

Como vimos, o déficit habitacional brasileiro é de 5,8 milhões de moradias. Por isso mesmo, em qualquer grande cidade percebemos uma quantidade enorme de pessoas vivendo nas ruas. São os invisíveis sociais! Só são vistos quando adentram um espaço urbano que não lhes é destinado, um bairro nobre, por exemplo. Estão aí aos montes, como um anúncio explícito da segregação e violência social que marcam as metrópoles.

José Roosevelt do Nascimento, de 32 anos, natural de Camocim, litoral oeste cearense, saiu de casa aos 16 e, desde então, alterna momentos vivendo nas ruas com períodos de aluguel. A última vez que voltou às ruas foi há dois anos, quando se separou da esposa, com quem não teve filhos. “Tive depressão, aí comecei a beber muito, a fumar pedra… depois que eu uso, me dá uma depressão e eu começo a ter medo de estar na rua, fico olhando pros lados, sem conseguir dormir direito”, diz o artesão, com olhar de tristeza e uma certa tensão nos maxilares, como que relembrando as vezes em que não prega os olhos à noite.

Nesses muitos anos em situação de rua, José diz que já viu diversos amigos falecerem: “o Bacurim, o Pinguim, o Alex, tudo morreram na rua, de morte matada”. O artesão dorme costumeiramente nos bancos da praça do Otávio Bonfim, bairro da zona oeste de Fortaleza, mas pensa em voltar para a casa da família, em Camocim. No entanto, diz que por enquanto ainda vai ficar mais um tempo na capital. Os pais pensam que ele está num abrigo. Consegue comida no Centro POP (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua) do Benfica e também com umas “fontes”. Mas José não esconde a dureza que é não saber onde vai dormir hoje: “É uma vida que eu não desejo pra ninguém viu, mah”, diz ele, olhos convictos, muita verdade na expressão facial.

“Ei, num bate foto minha não viu. Sou nem artista!”, diz com um sorriso no rosto Verônica Maria de Oliveira, 45 anos, quatro destes em situação de rua. Já tendo sido casada duas vezes e mãe de dois meninos e duas meninas, começou “a desandar” quando viciou-se no crack. Os filhos moram no Panamericano, na zona oeste da capital cearense. “ afastada deles, tenho é vergonha de ver eles (estando) nessa situação”, diz, ruborizando a face. Saiu de casa porque não conseguia mais pagar o aluguel devido ao vício. Já se internou três vezes em clínicas de reabilitação para adictos, mas não largou o uso do crack. “Comecei a fumar pedra de novo por causa duma desilusão amorosa, um sem vergoim me abandonou. Tem vezes que passo de quatro dias acordada, feito zumbi”, relata.

Verônica também já cumpriu pena de seis meses no presídio feminino Auri Moura Costa, em Aquiraz, região metropolitana da capital alencarina. “Caí de laranja numa enrolada aí!”, conta, sem querer revelar mais detalhes do ocorrido. Assim como José, também pensa em voltar para casa. “Tem muita maldade na rua, aqui é a lei do cada um por si”, desabafa. Ressalta que sofre muito preconceito: “O povo olha pra gente com outros olhos. Tenho é pena daquelas meninas que a gente e vai logo segurando a bolsa”.

“Vou ter que bater foto mesmo é?”, indaga, rindo debochadamente. “Só se quiser”, digo-lhe. Ela atende e posa para mim sorrindo. Saio de lá refletindo sobre o quanto os muros nos separam e sobre o quanto de vida pulsante e autêntica se encontra nas ruas!

Parte IV da Reportagem  publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

** Veja aqui as parte I, parte II e parte III.

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