floresta urbana

Cidade: por uma nova prática socioecológica

Floresta Urbana: um oásis verde em meio à aridez do concreto (Foto: Artur Pires)

Por Artur Pires

artur@revistaberro.com

(Parte III da reportagem “Aurora de sonhação: As raízes de um mundo novo)

Os centros urbanos são espaços cada vez mais desumanizadores, repletos de distrações ilusórias (shoppings como carros-chefes) e locais-símbolos da miséria moral das sociedades modernas. Embora o campo também sofra com o processo de desumanização, é nas cidades que está a maior parte das contradições estruturais da vida contemporânea. Já discutimos com profundidade a questão urbana na reportagem da 4ª edição (óia aqui: bit.ly/cidade-para-quem). A complexidade de ação, (re)criação e transformação que os tecidos urbanos proporcionam aos corpos e mentes se hegemomiza, na sociedade do espetáculo, num duplo papel, como pontua Lefebvre em O Direito à Cidade: “lugar de consumo e consumo do lugar”. Cidades-mercadorias! Eis aí uma síntese da metrópole do século XXI.

No entanto, “onde estiver, seja lá como for, tenha fé porque até no lixão nasce flor”, exclama o Racionais MC’s em Vida Loka: parte I. Se Inácio, do Ciclovida, nos contava que a função real da reforma agrária, por trás dos discursos marqueteiros, é de aculturação campesina, ao levar as marcas da cidade para o campo, as próximas duas experiências que vamos mostrar fazem o caminho inverso: se propõem a subvertes as marcas citadinas numa ecologia de resistência. São os pinos redondos nos buracos quadrados, como escreveu Jack Kerouac.

A Floresta Urbana Sombra do Cajueiro é uma área de mata preservada de 2.500 m² dentro da Cidade dos Funcionários, um dos bairros de Fortaleza (CE) que mais sofre com o processo nocivo de especulação imobiliária. É uma ilha verdejante cercada de cimento e concreto por todos os lados, refúgio para fauna e flora abundantes dentro de um espaço urbano: já foram catalogadas lá mais de 50 espécies de aves, 15 de répteis e anfíbios, 32 espécies de fruteiras e inúmeras hortaliças, a depender da época. No local, moram quatro famílias, mas é uma delas que cuida das atividades desenvolvidas pelo espaço: a bióloga, bailarina e artista plástica Marcionília Pimentel e o educador Lucas Brito já realizaram diversos eventos sobre permacultura, meditação, parto normal, saneamento sustentável e receberam grupos de estudantes do IFCE de Crateús (CE) e da Escola Vila, da capital cearense, para falar a respeito do meio ambiente.

Na Floresta Urbana, Já foram catalogadas mais de 50 espécies de aves e 15 de répteis e anfíbios (Foto: Bruno Gurgel)
Na Floresta Urbana, Já foram catalogadas mais de 50 espécies de aves e 15 de répteis e anfíbios (Foto: Bruno Gurgel)

A Sombra do Cajueiro abre as portas também para outras pessoas que queiram facilitar atividades ao ar livre, em contato com a natureza: é o caso do professor de yoga Vinícius da Paz. De acordo com Lucas, “a ideia agora é oferecer outras atividades, como cursos de artesanato, bioconstrução, permacultura urbana e culinária natural. Estamos preparando atendimentos terapêuticos de autoconhecimento. Vamos iniciar com a tenda de suor (conhecida como temazcal) e futuramente iremos ampliar para reiki, florais, leitura de aura e ecoterapias diversas”.

As atividades da família e do espaço são todas desenvolvidas de forma autogestionária, e o pequeno Otto, de dois anos, participa dessa construção: ele ajuda o pai e a mãe nas atividades da horta, por exemplo. Para o educador, essa forma horizontal de propor a vida e as relações é “um modelo que tem por finalidade uma existência pacífica, progressiva e sustentável. Proporciona para cada indivíduo um maior grau de autonomia e liberdade, e só pode funcionar se todos entram dispostos a somar e a caminhar juntos”. Como toda floresta, todos os resíduos orgânicos produzidos por lá são reincorporados ao ecossistema. Segundo Lucas, “a própria concepção de lixo já é inadequada. Resíduos orgânicos podem ser revertidos em matéria orgânica. Os resíduos inorgânicos podem ser reciclados ou reutilizados. Em último caso, quando os resíduos não podem ser redirecionados, é importante buscar uma compactação máxima deles antes do envio aos aterros e lixões”.

Ainda em relação ao problema do “lixo” nas grandes cidades, conhecemos uma experiência inspiradora no Mondubim, bairro da zona oeste de Fortaleza. É lá onde fica a casa do Hugo Theophilo, analista de redes, que largou o emprego numa multinacional para virar jardineiro e padeiro. “O que eu faço aqui são tentativas de dar passos de libertação”. O que Hugo faz por lá? Bom, essa história começou quando ele conheceu o coletivo “Do meu lixo cuido eu”, uma iniciativa autogestionária e independente que está representada em seis estados brasileiros: Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará. O movimento busca disseminar as práticas de compostagem, reutilização e preciclagem. “A maior parte do que chamamos de lixo é, na verdade, nutriente, que poderia voltar facilmente para o ciclo da vida”, diz Hugo, representante do grupo em Fortaleza. Segundo ele, “lixo é o que foi sequestrado do ciclo da vida e impedido de voltar. Se a quase totalidade dos resíduos de uma sociedade é impedida de retornar à natureza, então basicamente se tem aí uma sociedade desequilibrada, insustentável. Cada vez mais as cidades, além de separarem os dois ciclos da vida (crescimento e decomposição), que na natureza aparecem juntos, privilegiam apenas o do crescimento em detrimento do de decomposição”.

Um pequeno jardim dá vida a mais de 30 espécies de fruteiras, ervas e hortaliças (Foto: Hugo Theophilo)
Um pequeno jardim dá vida a mais de 30 espécies de fruteiras, ervas e hortaliças (Foto: Hugo Theophilo)

As inquietações existenciais surgiram quando ele se deu conta de que quase todas as coisas que podia ver e pegar estavam mortas, não tinham vida, eram apenas mercadorias, que em pouquíssimo tempo estariam prontas para o descarte. Logo depois, sua companheira, Vanessa, engravidou. O pequeno Caio viria ao mundo. “O meu filho estava prestes a nascer e eu perdi o sono quando percebi que ele passaria a ingerir veneno dado por mim”, conta Hugo. Foi aí que ambos decidiram revolucionar suas vidas: mudaram os hábitos de alimentação e consumo, e transformaram a casa num espaço produtor de frutas, hortaliças, adubo, mel e pão – e puseram fim à emissão de lixo orgânico da cozinha, com a criação de galinhas no quintal. Estive na casa do Hugo e constatei um “milagre”. Se a Floresta Urbana é um mundo verde de 2.500 m², o jardim do padeiro se resume a dois pés de muro, que somados dão 7,2 m², mas produz cajarana anã, quiabo, macaxeira, tangerina, milho, banana maçã, joão-gomes, três variedades de manjericão, quatro espécies de hortelã, taioba, cebolinha, couve-manteiga, capim-santo, chambá, orégano, alecrim, pimenta biquinho, açafrão, moringa, tomate, alface, rúcula e coentro… Ufa! O milagre de plantar, colher, aprender-a-viver!

A experiência foi gerando frutos, para além das frutas e hortaliças. Hoje, o espaço recebe quinzenalmente pessoas interessadas em aprender jardinagem e agricultura urbana, a cuidar melhor dos resíduos sólidos, a fazer compostagem, e a mudar hábitos de consumo e alimentação. O mais rico de todo o processo é o seu efeito multiplicador: “As pessoas vêm, constatam a viabilidade de tudo, se inspiram e levam as ideias pra executarem em suas casas, nos seus entornos”. A Floresta Urbana e o pequeno jardim no Mondubim resistem em meio à selva de pedras, pautando suas ações ancorados num nova prática socioecológica. O mundo agradece!

A revolução urbana pedala de bicicleta

Agora, a gente vai dar um passeio de bicicleta. Ou quase isso. Vamos falar de duas experiências autogestionárias e marcadamente urbanas, que lançam mão do tema da mobilidade como combustível para lutar por uma outra sociedade: Massa Crítica e Ciclanas. A Massa Crítica é um movimento mundial que surgiu espontaneamente em São Francisco (EUA), em 1992, e entre suas principais características estão uma bicicletada por mês e a ausência de hierarquia e vínculos com partidos políticos ou outras organizações burocráticas. Surgiu como uma crítica à cultura do automóvel e hoje transcendeu a reflexão para diversos temas da sociedade contemporânea. Atualmente, está presente em mais de 400 cidades no mundo, 95 delas no Brasil (óia o infográfico abaixo), e em Fortaleza teve início no ano de 2006.

infografico massa
(Info: Rafael Salvador)

Não é fácil falar com algum representante do grupo na capital cearense. “Ninguém fala pelo Massa Crítica. Qualquer nota pública é construída e aprovada coletivamente”, disseram-nos, após mandarmos algumas perguntas via rede social. “O coletivo busca se organizar de forma horizontal, anônima e sem líderes. Todas as decisões são tomadas na assembleia antes de cada bicicletada. Todas(os) que estiverem presentes podem participar e decidir”, frisaram. Em Fortaleza, o grupo é responsável por intervenções em várias regiões da cidade, com ações diretas como pinturas de ciclofaixas e faixas de pedestres em diversas ruas e avenidas, criação de um parklet popular no Campo do América (área periférica da capital cearense), organização de uma bicicletada mensal e manifestações frequentes. É interessante notar que em quase todos os lugares aonde a Massa Crítica de Fortaleza pintou ciclofaixas, tempos depois a Prefeitura implementou-as oficialmente.

Com uma atuação semelhante, no que diz respeito à autogestão, à horizontalidade e à independência em relação a partidos políticos e outras organizações burocráticas, as Ciclanas, formado em março de 2015, é um movimento de mulheres que substituíram o carro pela bicicleta nas ruas e avenidas de Fortaleza e, consequentemente, lutam pelo direito à mobilidade urbana, permeando a linha de ação com problematizações críticas sobre os direitos das mulheres e a estrutura social. “Com as Ciclanas, e pedalando na cidade, foi que entendi melhor as palavras empoderamento e coletivo”, diz a artista visual Ceci Shiki. Para ela, na forma como o grupo está estruturado, “sempre há um partilhar de dúvidas, soluções, caminhos. Somos um coletivo que tenta ser horizontal em sua organização e atuação. Dentro do grupo qualquer mulher pode propor uma oficina ou alguma ação. A também artista Aspásia Mariana vai ao encontro das palavras de Ceci: “A organização é orgânica, vai de acordo com as demandas, vontades e desejos. A não conexão com partidos potencializa nossa autonomia e militância na luta da mulher e da bicicleta”. Em pouco mais de um ano de atuação, as Ciclanas já organizaram debates que discutiram a luta da mulher através e na utilização da bicicleta; sobre os direitos e deveres das(os) ciclistas urbanas(os), motoristas e pedestres; cicloviagens; oficinas de mecânica, stencil e costura; aulas de alongamento e postura corporal; cinedebates; ações diretas; participação no programa Percursos Urbanos; colaboração com outros grupos de mobilidade urbana; pedaladas etc.

Os coletivos Massa Crítica e Ciclanas mostram que a ação direta, o “faça você mesma(o)”, é uma das saídas para o anestesiamento psicossocial da contemporaneidade. Ao se configurarem de maneira autogestionária e horizontal, sem vínculos partidários e burocráticos, não têm que esperar pela política tradicional, não entregam aos(às) políticos(as), por procuração eleitoral (voto), o papel de agentes político-sociais do mundo onde vivem. Agem hoje, vivem a política do cotidiano, na práxis transformadora do dia a dia, sem apego às arcaicas formas de representação baseadas no poder e na hierarquia (presente nos partidos, sindicatos, igrejas e outras organizações burocráticas de coação psíquica). Em resumo, pedalam caminhos de redenção para as metrópoles e práticas de liberdade para as pessoas.

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Parte III da reportagem “Aurora de sonhação: as raízes de um mundo novo”, publicada na  Revista Berro – Ano 02 – Edição 05 – Julho/Agosto 2016 ( pgs. 10 a 26) (aqui, versão PDF).

Veja abaixo as outras partes:

Parte I (introdução)

Parte II: “O sertão é dentro da gente”

Parte IV: “Para mudar o mundo, é preciso mudar a forma de nascer”

Parte V: Nos caminhos da autogestão

Parte VI: “Nós por Nós”: A Senzala subverte a Casa-Grande

Parte VII: Democracia representativa e burguesia: uma relação de cumplicidade

Parte VIII [final]: Voar rumo à liberdade