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Salém é aqui. Sempre será?

Augusto Azevedo

Para minhas irmãs e irmãos venezuelanos em situação de refúgio e miséria.

No início de 1953 estreava em Nova York a peça As Bruxas de Salém de autoria de Arthur Miller. A obra trata de acontecimentos ocorridos em 1692 no então povoado de Salém, no estado de Massachussets, em que, a partir da descoberta de um rito pagão realizado por jovens mulheres na floresta, algumas das participantes, impressionadas, entram em estado de choque ocasionando uma série de violentas consequências ao povo que por ali morava.

A obra, que é um clássico da dramaturgia estadunidense e, por que não dizer ocidental, merece atenção não apenas pela constituição instigante de suas cenas em que o autor projeta com muita habilidade uma narrativa escrita, mas com imenso potencial cênico, como todos os grandes clássicos da dramaturgia universal, e sim por sua disposição crítica fomentando reflexões a respeito de questões como histeria coletiva e dissimulação contextualizadas no medo de bruxaria, além de apontamentos a respeito do papel do poder da religião em relação aos poderes políticos e judiciários naquela região no período mencionado.

Entretanto, ouso afirmar que As Bruxas de Salém ainda tem muito a ensinar, por exemplo, aos EUA e a países de economia e cultura influenciadas por eles, como é o caso de uma país profundamente subdesenvolvido conhecido como o Brasil.

Uma das coisas mais assombrosas – e geniais – da peça é a maneira como seu autor expõe a sucessão de acontecimentos dando à narrativa um ritmo e uma verossimilhança bem peculiares. Nada mais desconcertante e tenebroso do que uma acusação. Quem já foi acusado injustamente sabe que não há psicológico que dê jeito e é aí que se destaca a qualidade descritiva de Arthur Miller que, sem fazer grandes segredos, consegue envolver o leitor na trama mexendo e comprometendo a psique mais bem trabalhada que se disponha a acompanhar a obra.

Público e personagens sofrem com as levianas acusações e seus brutais efeitos. A angústia ocasionada pela falsidade das personagens que criminalizam outras é tão pesada quanto à empatia criada por conta da inocência de quem está sendo julgado, preso e executado sem o menor direito à defesa.

Abigail, personagem muito semelhante ao Iago da tragédia Otelo de William Shakespeare, se comporta como uma verdadeira líder comunitária aplicada em fazer o mal; dá tudo de si para alcançar seus objetivos, agindo de modo frio e calculista como uma verdadeira psicopata efetivando seu plano de assassinatos em série.

Porém o que mais causa inquietação na peça é sua concretude atemporal, ou seja, a noção passada e confirmada de que por mais bizarras que sejam as atitudes de Abigail há quem acredite, confie e estimule tal personagem a seguir com seus sórdidos planos, legitimando a farsa e trilhando para o caminho da humilhação pública, da tortura e da morte quem venha a se contrapor ao que Abigail realiza quase nunca só. Proporcionar histeria coletiva e agir de modo dissimulado são poderes da personagem que cinicamente se veste de uma fragilidade bem estratégica para conseguir o que quer.

Tal como o Iago de Shakespeare, a personagem se mostra irredutível e tudo que vem dela não aspira a menor confiança ou aceitação, isso da parte de alguns, pois como na vida real e vale ressaltar que As Bruxas de Salém se trata de uma narrativa criada a partir de eventos históricos, tem quem se afeiçoe ao comportamento de Abigail, seja se deixando levar pelo teatro forjado por ela ou na pretensão de tomar algum proveito das situações elaboradas pela moça.

Analisar o papel de Abigail na obra não se trata de se render ao modo binário de ver e agir sobre as coisas como é muito comum na contemporaneidade e na história da humanidade de uma maneira geral, nem tampouco apostar no maniqueísmo como formato para encarar a vida, resolver problemas, averiguar tramas, estudar personagens e sim ter a consciência do pragmatismo de Abigail e de figuras do tipo para atingir seus objetivos.

Quantas Abigails estiveram presentes na constituição do golpe militar-civil de 1964? Na Guerra do Vietnã? Nas chacinas da Candelária, da Messejana? Será que quem liga ou manda mensagem “dando a fita” para as execuções não possui nada de Abigail? Quem foi lá no Oriente Médio armar e dá treinamento a grupos milicianos não tem nada a ver com a moça? A situação da África desde o processo de colonização não se assemelha com a de Salémno século dezessete?

Os poderes evocados por Abigail – Abby, para os íntimos –, vinculados à dissimulação e histeria coletiva não são características restritas à moça, pelo contrário, muita coisa ruim aconteceu no mundo por conta disso e não adianta se fazer de extraterrestre e relativizar o que acontece de ruim no mundo, essa consciência é inegável e o próprio desenvolvimento do capitalismo, em suas diversas fases, se apropria de instante em instante desses poderes para o alcance de suas metas, lucrativas a uma minoria e letal para todo o resto.

Os equívocos ou excessos de Abigail, além da predisposição do povoado em “ir com a cabeça dos outros” foram os verdadeiros responsáveis pelo pânico e desconfiança extrema e acusativa que tomou conta de Salém, exatamente como ocorre na política brasileira e países afins, uma vez que os políticos instauram a corrupção como estrutura determinante, assumem discurso anticorrupção sem o menor pudor ou receio. Não importa se é uma mentira inacreditável, o que importa é deter os meios aptos a impor a mentira como verdade absoluta, inquestionável, irreparável.

Narrativa bizarra, mundo tão quanto. O bizarro não é algo chapado, unilateral, ao contrário do que muitos pensam o bizarro, pelo menos no que concerne à língua portuguesa, diferente do grotesco que é relativo ao ridículo, tem sentido ambíguo, pode ser algo próximo ao estranho, não convencional, esquisito, mas também pode ser algo atraente, que chame atenção, que seja admirável.

Então, não à toa se pode presenciar a identificação ou admiração de algo ou alguém por alguns, enquanto a repulsão por parte de outros, como no caso de políticos consagrados por discursos de ódio, incitação à violência, exaltação da insipiência, rechaçados ou condenados por algumas pessoas e idolatrados por outras.

Sendo assim é possível afirmar que a expulsão dos venezuelanos refugiados do estado de Roraima foi um evento bizarro. Além de solidariedade e revolta a expulsão dos venezuelanos gerou uma incontrolável vontade de vomitar da parte de quem tem ainda alguma vergonha na cara e sangue nas veias, porém, essa mesma expulsão conforta o coração e afaga o ego da tralha fascista que não se importa com a vida de ninguém, principalmente de quem esteja numa situação socialmente inferior – tal como os políticos e Abby fazem – e que por meio de acusações rasas, sem consistência alguma, como a do roubo de empregos, empreendem força contra mulheres e crianças indefesas.

Num sei se isso cansa mais do que machuca, o que sei é que a Sociedade do Espetáculo brilhantemente teorizada por Guy Debord, tem muito de Salém, e que a culpa jamais deve recair apenas nas Abigails da vida, quem come esse partido também é responsável pelo terror.

A Salém reapresentada por Arthur Miller é o espelho do estado de exceção imposto às economias fragilizadas, precarizadas ou mesmo destruídas pelo grande capital por meio de seus donos e vassalos; cabe a cada um(a) de nós agir como Abigail ou como quem enfrentou as armações de Salém.

Augusto Azevedo é estudioso da fenomenologia referente ao que é conhecido vulgarmente como pobres de direita

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