A guerra à planta*

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(Arte: Rafael Salvador/Revista Berro)

Por Artur Pires

De todas as substâncias psicoativas ilegais, a maconha é a que tem mais usuários no mundo. Estima-se que essa quantidade varie de 200 a 400 milhões de pessoas. Difícil ter precisão sobre esse número. Mas a erva consegue ser tão popular porque se adequa aos mais variados tipos de clima e solo, sendo plantada em 172 países e territórios.

Pesquisadores dizem que a origem da cannabis deu-se na Ásia, podendo ter “surgido” no Himalaia, na China ou na Índia. O fato é que essas culturas são as que têm os mais remotos registros de contato com essa planta. Há doze mil anos, quando o sapiens sequer tinha inventado a escrita ou a roda, já usava fibras de cânhamo (maconha) para fazer cordas. A cannabis sativa foi uma das primeiras plantas a serem domesticadas pela humanidade, há dez mil anos. Por volta de 5.000 a.C., há evidências do uso cultural da maconha na China: suas fibras eram utilizadas para confeccionar redes de caça e pesca, roupas, cordas, etc. e suas sementes eram usadas para alimentação. A literatura budista diz que Sidarta Gautama, o Buda, passou seis meses alimentando-se unicamente de sementes de maconha, riquíssimas em ômega-3, ácido graxo fundamental para o bom funcionamento cerebral e contra problemas cardíacos.

Mas foram os indianos que fizeram primeiramente o uso ritualístico e transcendental da erva. Os livros sagrados do hinduísmo, uma das religiões mais antigas da humanidade, que data de milhares de anos a.C., descrevem a maconha como um presente dos deuses. Ainda hoje, os hindus a consomem em referência ao deus Shiva. De lá para cá, a erva se espalhou pelo mundo, devido às trocas comerciais entre os povos e às navegações colonizadoras. Seu uso variou, de acordo com a cultura, entre as formas medicinal, religiosa e recreativa. Os rastafáris jamaicanos e os adeptos do Santo Daime, por exemplo, consideram a erva uma planta sagrada e cultuam-na com devoção; a maconha é respectivamente, para eles, Kaya e Santa Maria, a energia feminina de Deus. Os índios amazônicos usam-na, acompanhada da ayahuasca, para rituais xamânicos de autoconhecimento e purificação.

Historiadores defendem que a cannabis chegou ao Brasil pelos escravos africanos, embora as caravelas de Cabral tinham parte de suas estruturas feitas de cânhamo. Mas foram os negros arrancados à força de sua terra que trouxeram a diamba para o país e cultivavam-na entre as imensas plantações de cana-de-açúcar do período colonial.

Contudo, no último século, acentuadamente, a erva foi sofrendo um processo de marginalização que culminou na criminalização do seu consumo em diversos países do mundo. A proibição ao consumo de maconha no Brasil sempre esteve ligada à repressão aos elementos da cultura negra. Em 1932, junto com a cannabis, foram proibidos o samba, o candomblé, a capoeira e outras manifestações da cultura afrobrasileira. Em 1938, há o endurecimento das penas para tráfico e consumo. “Os negros já fumavam erva antes d´África deixar, mas os senhores proibiram por não querê-los libertar, e os senhores de hoje em dia estão proibindo também, se o pobre começa a pensar, parece que incomoda alguém” (Planet Hemp – A culpa é de quem?). Fato similar ocorreu nos Estados Unidos, no qual a proibição à marijuana deu-se também para suprimir elementos da cultura mexicana naquele país, uma vez que o consumo da erva estava muito atrelada aos latinos.

Em outras partes do mundo, a proibição da cannabis, principalmente do seu uso recreativo, não teve relação direta com elementos raciais, imigratórios ou xenófobos, mas à tradição judaico-cristã conservadora e moralista, que penaliza o prazer e a liberdade do gozo experimental. A maconha foi disseminada como “erva do diabo” por estas religiões. Portanto, a guerra à planta é historicamente recheada de obscurantismos religiosos, além de elementos racistas e xenófobos.

MACONHA: Mitos e verdades

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Pés de maconha (Foto: Chico Célio/Revista Berro)

Quando se pretende uma abordagem aprofundada sobre a maconha – ou qualquer droga -, é importante não cair nas armadilhas do maniqueísmo superficial: ou só faz mal ou só faz bem. Como qualquer substância psicoativa, a maconha tem seus prazeres e riscos. Não é inofensiva, como muitos “maconheiros” apregoam, tampouco esse bicho de sete-cabeças, essa “erva do diabo” como muitos “caretas” colocam. Aqui, vamos tecer considerações e tentar esclarecer acerca de alguns mitos falaciosos sobre a erva, bem como a respeito de algumas verdades inconvenientes aos amantes da ganja.

MITOS

Maconha mata – Essa talvez seja a mentira mais dissimulada que já inventaram sobre a erva. Nunca houve relato na literatura médico-científica mundial de morte por overdose de maconha. Certa vez, um juiz que trabalhava num órgão antidrogas dos Estados Unidos, em um de seus relatórios sobre a substância, explicou que para vir a óbito o usuário teria de fumar 680 kg (20 a 40 mil baseados) da erva num intervalo de quinze minutos, o que, convenhamos, é humanamente impossível.

Maconha causa câncer de pulmão – Isso não é verdade, concluiu o maior estudo epidemiológico feito sobre o assunto. Não existem evidências sociais e científicas suficiente (apenas hipóteses e suposições) para dizer que a cannabis cause qualquer tipo de câncer. Pelo contrário, há diversos estudos publicados nos últimos anos que afirmam que a erva pode ser um remédio eficaz para os tumores.

Fumar maconha emburrece e mata neurônios – Mais uma mentira que foi sendo alardeada aos quatro cantos e hoje muitos pensam que é verdade. De acordo com o Programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante seu efeito no organismo – a famosa “lombra” -, a maconha altera o funcionamento dos neurônios, mas não tem capacidade para destruí-los. Quanto ao “emburrecimento”, não existe um estudo conclusivo a respeito dos efeitos da maconha sobre a inteligência em longo prazo, mas sabe-se que seu uso desde a adolescência causa problemas de memorização e dificuldade de atenção.

Maconha causa esquizofrenia e outras doenças psiquiátricas – De fato, segundo estudos acadêmicos, a ocorrência dos problemas é duas vezes maior em usuários regulares do que em pessoas que nunca fizeram uso da droga. No entanto, não há evidência se é a maconha que causa/estimula o problema ou o contrário – ou se os dois sintomas são consequência de um outro fator, como o genético, por exemplo. Ser vítima de bullying, ou viver num ambiente familiar conflituoso são fatores de risco bem mais consideráveis para a causa ou desenvolvimento dos problemas/doenças psiquiátricos(as) do que o uso de maconha. Para o psiquiatra Rafael Baquit, “os problemas relacionados ao uso de drogas são uma resultante da interação sujeito + ambiente social + drogas, e por esse motivo fica difícil atribuir exclusivamente a uma droga a causa de um problema. Os transtornos psiquiátricos e alterações psicológicas dependerão dessa interação”.

Porta de entrada para drogas mais pesadas – Há uma montagem na internet que trata essa inverdade de maneira jocosa. Diz assim: “Maconha porta de entrada? Só se for da geladeira”. Na fotomontagem, uma criança abre a geladeira e procura o que comer. Brincadeiras à parte, o fato é que não há nenhuma evidência biológica que sustente esse mito. Na verdade, a ligação da maconha com drogas mais pesadas está no proibicionismo, que faz com que usuários da erva recorram à droga nas mesmas bocadas (biqueiras) que vendem cocaína, crack, etc.

De acordo com o antropólogo e pesquisador da UFBA Sergio Vidal, “a teoria da escalada, ou da escadinha, ou da porta de entrada, chamada no original de ‘The Gate Way Theory’, se mostrou totalmente equivocada ainda na década de 1980. Atualmente, nenhum pesquisador sério considera essa afirmação verdadeira”.  Segundo o psiquiatra e membro do Coletivo Balanceará de Redução de Riscos e Danos, Rafael Baquit, “um livro tradicional de psiquiatria brasileiro de 1979, do professor Nobre de Melo, já afirmava: ‘Acusar a maconha do primeiro degrau da escada sinistra que conduz ao álcool, e cujo último ponto é a heroína, não passa de retórica policialesca, sem qualquer fundamento médico-científico’”.

VERDADES

Aumenta o risco de enfarto em pessoas com histórico de problemas cardiovasculares em 4,8 vezes. No entanto, este mesmo estudoconclui que a droga é uma causa relativamente rara para esse tipo de problema.

Acarreta problemas de memória e atenção. Se o uso frequente e contínuo iniciou-se na adolescência e estende-se até a vida adulta, pode causar dificuldades de memorização e atenção irreversíveis. Segundo o psiquiatra Rafael Baquit, “a maconha causa alterações cerebrais permanentes em adolescentes usuários.”

Aumenta a chance de bronquite e prejudica a capacidade respiratória, como qualquer outra substância fumada, devido à absorção de fumaça tóxica

Causa dependência química em cerca de 9% das pessoas que a experimentam, segundo estudo de 2006, intitulado “The epidemiology of cannabis dependence” (A epidemiologia da dependência da cannabis). Entretanto, a mesma pesquisa conclui que anfetaminas (11%), álcool (15%), cocaína (17%), heroína (23%) e nicotina (32%) causam maior dependência comparadas à maconha.

Se as verdades e os mitos sobre a maconha são as justificativas utilizadas para a sua proibição, substâncias lícitas como o tabaco e o álcool, se fosse usada a mesma lógica, já há muito teriam de ser proibidas. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o tabaco causa diversos tipos de câncer (boca, laringe, faringe, esôfago, pâncreas, rim, bexiga, colo de útero, além de 90% dos casos de pulmão), doenças cardiovasculares (risco cinco vezes maior de sofrer enfarto) e respiratórias (risco cinco vezes maior de sofrer de bronquite crônica e enfisema pulmonar), além de promover uma dependência severa, quatro vezes mais perigosa que a da maconha.

A partir de uma compilação de diversos estudos internacionais (Paolo Boffetta, Alcohol and Cancer – 2006; Arthur Klatsky, Alcohol and cardiovascular health – 2010; Thor Norström, Alcohol, supressed anger and violence – 2010; M. Herreros-Villanueva e outros, Alcohol consumption of pancreatic diseases – 2013), além de dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), constata-se que o álcool, por sua vez, aumenta em três vezes a incidências de doenças psicóticas em mulheres e oito vezes nos homens; é fator de risco considerável para hipertensão, derrame cerebral e arritmias cardíacas; produz cirrose, hepatite, 70% dos casos de pancreatite, diversos tipos de câncer (boca, faringe, esôfago, fígado, intestino e mama), além de predispor a uma maior agressividade dos indivíduos que o consomem, sendo inclusive associado à violência doméstica em muitos casos pesquisados.

Recentemente a OMS fez uma pesquisa e concluiu que o uso recreacional de maconha traz menos malefícios à saúde pública e individual do que o tabaco e o álcool. Duzentas mil pessoas morrem anualmente pelo consumo de entorpecentes no mundo todo. Nenhuma é devido ao uso da erva. Já por outro lado, o tabaco e o álcool matam, respectivamente, cinco e dois milhões de pessoas por ano.

Segundo o médico Rafael Baquit, “podemos considerar a maconha uma droga mais leve que o álcool. A maconha não só tem menor potencial de risco para dependência, tem síndrome de abstinência leve, quando há, e não pode dar overdose. O álcool não só pode trazer uma overdose, como seu risco para dependência é maior e sua síndrome de abstinência pode chegar a matar”.

*Parte III da reportagem sobre política de drogas, publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 03 – Dezembro/Janeiro 2015 (aquiversão PDF).

 I (É proibido proibir)

 II (A saída é legalizar!)

 IV (A cura verde) 

e V (Não compre, plante).

Conteúdo extra:  Entrevista com Orlando Zaccone: “A alternativa é a legalização!”

 

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