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A cura verde*

(Foto: Brasil Post)

Por Artur Pires

A estigmatização negativa da maconha na sociedade brasileira é responsável pelo absurdo do seu uso medicinal não ser amplamente difundido para amenizar os efeitos de várias enfermidades. Embora a lei brasileira preveja o uso da cannabis medicinal, uma falta de regulamentação mais clara impede e inviabiliza sua plena aplicação. O canabidiol (CBD), um dos princípios ativos da maconha, reconhecidamente eficaz no tratamento de diversas doenças, ainda é proibido no Brasil e não tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sua importação pode ser solicitada excepcionalmente junto ao órgão. No entanto, a permissão da lei brasileira para o uso de maconha medicinal, assim como muitas outras legislações, existe no papel, mas na prática uma burocracia gigantesca é forte empecilho para a obtenção do CBD. Há incontáveis relatos de pacientes que submetem o pedido de maconha medicinal à Anvisa e têm suas demandas negadas. O documentário Ilegal, de Tarso Araújo, retrata bem essa questão.

Assim, mais uma vez o Brasil segue atrasado e na contramão de muitas políticas mundiais que não só regulamentam a maconha para fins medicinais como permitem o cultivo doméstico e coletivo (em cooperativas) da planta. Mesmo nos Estados Unidos, país símbolo da guerra às drogas, o uso de maconha para fins terapêuticos é liberado em 21 estados. Países como Canadá, Holanda, Israel, França, Espanha, Austrália, Itália, Suíça e Reino Unido também adotam o modelo de liberação para esse fim. Mesmo com a proibição, nas palavras do pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Sergio Vidal, que trabalha com programas de redução de danos e é autor da “bíblia” do cultivo caseiro de maconha no Brasil, o conhecido Cannabis Medicinal: Introdução ao Cultivo Indoor, “procuro tornar os usuários medicinais um pouco mais autônomos, capacitando-os com os conhecimentos básicos sobre o cultivo da planta para que possam ter acesso a modos de preparar o seu próprio medicamento”.

A monstruosa burocracia brasileira que emperra o uso medicinal é bastante irracional, se levarmos em conta o amplo leque de benefícios que a cannabis traz aos pacientes. De acordo com o Conselho Americano de Medicina Familiar (www.jabfm.org), a erva serve, em graus variados de eficiência, para náusea e vômitos, anorexia e perda de peso, dor neuropática, fibromialgia, espasmos causados por esclerose múltipla ou lesão da medula, dor em decorrência do câncer e do seu tratamento, asma, glaucoma e epilepsia, controle das alterações causadas pelo Alzheimer, dor pós-operatório ou causada por processos inflamatórios, entre outros.

“Atualmente estamos vendo os milagres do uso do CBD, mas é importante lembrar que o THC também tem importantes propriedades medicinais, como alívio de dores, náuseas, aumento do apetite e melhora do paladar, devolução da qualidade do sono, dentre outros benefícios. Quantas pessoas dormem todos os dias com o uso de tarjas pretas?”, indaga a jornalista Aline da Farias.

Enfim, sem proselitismo algum, é fato que a maconha pode salvar vidas ou amenizar a dor de muitas pessoas. O que impede o Brasil de avançar nessa questão são suas instituições e sociedade altamente conservadoras, que colocam elementos religiosos e morais acima dos interesses sociais. Racional e humanamente falando, não há motivo algum para a proibição da maconha medicinal.

Berro do Bode: No último dia 14 de janeiro de 2015, a Anvisa liberou o CBD como medicamento controlado. Até que enfim, né! Oxe!

*Parte IV da reportagem sobre política de drogas, publicado na Revista Berro – Ano 01 – Edição 03 – Dezembro/Janeiro 2015 (aquiversão PDF).

Abaixo, partes:

 I (É proibido proibir)

II (A saída é legailzar!)

 III (A guerra à planta) 

e V (Não compre, plante).

Conteúdo extra:  Entrevista com Orlando Zaccone: “A alternativa é a legalização!”