No Brasil do coronavírus, a banalidade do mal tem nuances peculiares, mas há esperança



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Um morto por minuto. Esse foi o número do coronavírus no Brasil no início de junho. O país já é o segundo em mortes no mundo, conta com mais mortos do que o Reino Unido e a Itália que, por exemplo, chocou o mundo com as imagens de corpos sendo transportados em caminhões das Forças Armadas. Mas então, o que nos separa?

No Brasil do novo coronavírus, a banalidade do mal de Hannah Arendt significa a banalidade da morte, isso porque somos um país que apresenta históricas dificuldades relacionadas à memória, verdade e justiça — e as recentes manifestações em favor de um novo AI-5 não me deixam mentir.

Imagens de aglomerações em frente às agências da Caixa Econômica, Receita Federal e cartórios são apenas algumas das inúmeras ilustrações possíveis para um fenômeno pouco relacionado à pandemia até agora: a política soberana sobre o direito de matar.

O reconhecimento da necropolítica enquanto ordem do dia implica, entre vários outros pontos, na forma como a sociedade encara o genocídio ao qual está assistindo. Neste momento, o respeito à memória de cada um dos mais de 35 mil brasileiros mortos é também uma forma de contribuir, de maneira muito sensível e singular, com o fomento do nosso apreço pelo respeito e pela memória daqueles e daquelas que nos deixaram. E com esta missão nasceu o Inumeráveis.

Inumeráveis é uma obra de arte coletiva em forma de memorial, que apresenta nome, idade e uma curta e afetiva descrição da pessoa vitimada pela doença. “Todos os dias ouvimos um novo número de pessoas que morreram vítimas do coronavírus no Brasil. Só que números não penetram o coração como histórias. Não há quem goste de ser número. Gente merece existir em prosa” explica Edson Pavoni, artista plástico e um dos idealizadores do projeto.

A obra já conta com milhares de histórias e algumas dezenas de voluntários: jornalistas, estudantes de jornalismo e demais profissionais que se dedicaram em reportar novas histórias para o memorial. Gabriela Veiga, uma das idealizadoras do projeto, conta que além do memorial digital, a ideia é materializá-lo por meio de uma instalação artística em local público e ao ar livre, assim cada nome das vidas perdidas terá também seu lugar físico no mundo.

Mas a falta de apreço pela memória não é a única barreira: um estudo publicado em maio pelo Imperial College de Londres estimava que o número de infectados no Brasil orbitava em torno de 4,2 milhões. À época, os dados oficiais do Ministério da Saúde apontavam 156 mil casos registrados, o que permite inferir que a subnotificação é mais uma barreira para a mensuração do número real de mortos e, consequentemente, para a garantia do respeito à dignidade, um direito humano que deve ser respeitado inclusive após a morte.

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Leonardo Azevedo é graduando em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, co-fundador e membro da coordenação do grupo de ativismo da Anistia Internacional em Natal (RN) e pesquisador de comunicação e direitos humanos.


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