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Tributo a Raul Seixas

Murais do coletivo Acidum (Fotos: João Ernesto)

João Ernesto

A chama do primeiro cigarro demorou mais que eu esperava. Planos de pegar o primeiro trem da estação de Natal até Ceará-Mirim em um sábado foram ficando para o de meio dia e quarenta. Vencer uma guerra lutando sozinho não estava nos planos, Nanda e Ygor tinham umas histórias daquele centro. Na cabeça havia umas músicas, uma em especial, do Sergio Sampaio dizendo que viajou de trem. Desde cedo, logo depois de acordar, a cantoria acompanhou os movimentos da manhã. Ceará-Mirim já me parecia um nome curioso, um pequeno Ceará vizinho à capital potiguar e é lá onde acontece a vigésima nona edição do Tributo a Raul Seixas, dito por muitos como o maior tributo do Brasil ao cantor baiano.

Admito que não me ative cronologicamente aos atos narrados aqui, o único fio condutor que bem lembro foram sentimentos, algo entre a alegria e a solidariedade esteve presente até a última cerveja tomada na cidade natal do time Globo Futebol Clube naquele dezoito de agosto. O Centro e a cidade alta, no museu da cultura popular Djalma Maranhão havia um grande mural com intervenções do Coletivo Acidum, amigos artistas que enchem os olhos de quem passa. Por onde andariam Robézio e Thereza? Registra e vamos informar o horário certo do próximo trem, tudo certo. Tempo de tomar um goró no bar do Litrão, pertinho da estação da Ribeira. Cerveja gelada nos copos e o dia se desenrolava como um gole pra uma goela seca.

As veias abertas de um dia em homenagem ao cantor baiano. Latinhas na mão e vamos pegar o trem. Primeiro vagão cantando músicas de Raul Seixas, de Aluga-se a Malandrinha (sim, teve tempo de cantar à capela o reggae de outro baiano, Edson Gomes). Nas conversas dentro do trem deu pra saber algumas coisas do vigésimo nono tributo ao Maluco Beleza: “o trem não era esse novo não, é a primeira vez que a gente tá indo de ar-condicionado”. Algo talvez considerado bom por alguém naquele vagão, provavelmente que não fosse ao tributo, porque pra boa parte dos instigados para ir ao evento era mais interessante o trem antigo: “o antigo era melhor, ele era aberto, a gente podia fumar e tudo”.

Na segurança do vagão tava Éder, primeira vez trabalhando no dia do tributo. Achando curioso, mas também já preparado pra lotação espontânea daquele dia. Ele, com um semblante tranquilo, conversou um pouco sobre como geralmente são os sábados naquele trem que depois soube que era um VLT. Ygor começou a ser Buda e prender a bexiga por pelo menos uma hora. Silencioso a maior parte do caminho por conta da vontade de mijar nos primeiros minutos de viagem. Sim, era mais de uma hora de trem e ele foi concentrando as energias pra hora certa. Passa o tempo e as cantorias, vamos pra estação de Ceará-mirinense.

cronica_jao2Engraçado notar como um evento que acontece há vinte e nove anos mantém uma tradição interessante: aglomerar pessoas de muitas idades, um aperitivo contra a caretice. Dos cabelos grisalhos a rostos sem barba, grupos de amigos tomando de Heineken a vinho barato, fumando careta e o cigarrinho do índio. Em uma mesma estação de trem existia um clima bonito de solidariedade até pra ajudar pessoas desconhecidas a manter um mínimo de privacidade para mijar na rua (independente de certo e errado, havia um motivo de solidariedade nessas pequenas manifestações de gentileza).

Umas moscas pousavam nas idéias. Pensamentos contemplativos muitos naquela tarde e sol a pino. Uma mosca questão perambulando a cabeça, perguntando quantos outros dias do ano as pessoas se destacam para ser mais solidárias com as outras. Quantos dias paramos o nosso tempo pra isso, mesmo inconscientemente? Ouvi muito naquele dia conversando com gente no meio da rua, muitos relatos, “olha, é a décima vez que venho aqui, nunca vi um relato de violência, de roubo. Todo mundo vem na paz”. Com as variantes de umas palavras, essa era a afirmação constante, nenhum fugiu a isso.

Sei lá, décima latinha. O canto da cabeça tá ficando quente e o pensamento no que escrever quando chegar em casa. A gente prefere deixar essas impressões do caminho por onde puder, a chegada traz um ponto em comum e as pessoas estão sempre em trânsito. Ano que vem vai ser o trigésimo tributo e muita dessa gente não estará mais aqui, outras tantas virão. Preciso lembrar que quando começar a estacionar a solidariedade pode ser um clímax genial para o nosso pensamento, pequenas certezas que o mundo nos oferece. Que a mensagem de um artista possa ajudar a fazer o pessoal jogar junto, jogar pra frente. Daqui um tempo vem eleição e com ela toda essa história de mentira, de disputa por poder. Ficam uns ensinamentos de horizontalidade que o social pode oferecer na música, na poesia, na vida.

João Ernesto ainda acredita que as reticências querem dizer muita coisa…

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