Não cale a si nem a nós



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(Ilustração: Lara Albuquerque)

Neste momento você é responsável pelo mundo inteiro
O que é uma condição perigosa,
pois o homem deixa de lado sua humanidade muitas vezes,
O próprio umbigo transforma-se em poço confortável
de onde é difícil enxergar a luz da empatia
e assim o olhar se habitua
a não se dirigir mais para os lados.
E Narciso se afoga no próprio reflexo
Abandona-se ao silêncio de quem
por permanecer calado, consente
Aproxima de si o cálice
Deixa-se levar pela corrente
Ora em um nível baixo, miserável
Ora em um nível mais alto, arrogante
Mas segue sempre calado.
E diante da sua postura de marionete estamos todos,
enfrentando mortes diárias
partidas sem velórios
conflitos políticos descabidos
problemas financeiros
quarentena aplicada a prazo
informações desencontradas
E tudo o mais que não deveria ser,
ou acontecer,
nem mesmo estar em nossas vidas.
Não agora.
Antes “tudo bem”,
sempre convivemos com a desordem e o retrocesso
Mas agora a luta pela vida é outra,
não envolve matar um leão por dia
em horário comercial de segunda a sexta-feira
e nem sacrificar os finais de semana
para sustentar a família.
Agora a luta é entre ser humano e “agente infeccioso diminuto”
não há muito o que fazer
e a missão dessa vez não é simples.
Não é como se pudéssemos fechar os olhos e esperar pelo melhor
Cada ação individual implica em um bem maior
Manter-se vigilante, de olhos e ouvidos abertos
faz parte da perigosa condição de ser
— de fato —
responsável pelo mundo.
Então afasta de nós esse seu cálice,
pois a luta é árdua
e calado ninguém vence batalha alguma.

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