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Crucificação

(Foto: Reuters/João Castellano)

Bruna Paixão

Agora
Me disseram para eu fazer um Boletim de Ocorrência
Sobre o que ocorre diariamente em minha sina
Agora
me disseram para ir lá
na delegacia
falar com os oficiais
acho que eles podem dar um fim no problema
ou não
Me disseram que eu não podia viajar pelo meu corpo
que era viagem de minha cabeça e que logo passaria
que eu deveria mesmo era pensar bem
antes de tomar qualquer decisão
E em goles
tomei
Agora
me disseram que estou caminhando sozinha pela BR
que carrego duas carretas em minhas costas
e por isso subo lentamente pelo acostamento
dizendo para as pessoas que por mim
podem passar
Espero que passe essa dor
voando
espero que vá embora
tem riscos em minha pele
e arde toda vez que lembro
que tenho que esquecer de tudo isso
Ontem me disseram em berros
que eu era uma aberração
uma afronta ao grande Deus
ao grande homem
disseram:
Quem você pensa que é
para sorrir e querer amor
Disseram tanto
que as palavras saíram do testamento
como faca
insultando minhas vísceras e
meus medos
minhas tardes solitárias
minhas noites conturbadas
meus desafetos e
canções de ninar
Agora
me disseram para eu levantar
Se eu não quiser levar mais na cara
disseram pra eu fugir
para eu ir embora
para eu sumir dessa vida de uma vez por todas
Agora
eu me tranquei dentro de casa
esperando o dia que lá fora
ninguém me diga mais nada.

*Poema dedicado a todas as travestis que resistem diariamente

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