Monumento ao homem branco

 

monumento ao homem branco

Estreou dia 26 de abril no 67º Salão de Abrilem Fortaleza a obra “Monumento ao homem branco” da terra coletiva, composta por Aline Furtado e Camila Melchior. A obra se manifesta em dois momentos que se misturam: um material e outro performático. Materialmente, trata-se de dois quadrados de papelão colados no chão de onde parte uma linha reta de cinco metros coberta por 70 garrafas de Pinho Sol. No quadrado da esquerda está parte do nome da obra em letras grandes seguido de um trecho do relatório técnico da Polícia Civil e um comentário sobre a prisão de Rafael Braga Vieira: “Em 20 de junho de 2013, Rafael Braga Vieira foi preso por carregar materiais de limpeza. Um frasco de pinho sol como estes, e outro de água sanitária. Foi o único condenado pelas manifestações de 2013, apesar de não ter participado dos protestos. Ele foi detido por dois policiais quando saia com duas garrafas de plástico do local onde morava. (…) Diferentemente dos manifestantes brancos que foram detidos nas manifestações, Rafael não pôde sequer responder ao processo em liberdade. Racismo de Estado? Ele foi mantido encarcerado no presídio de Bangu durante 2 anos e 4 meses por portar material explosivo, que na verdade, não era explosivo, como atesta o laudo da própria Polícia”. No quadrado da direita está a continuação do título junto com as seguintes instruções ao, até este momento, fruidor da obra: “Retire um dos frascos de Pinho Sol e leve consigo; Saia do MAC; Atravesse a praça em frente ao dragão do mar, dirigindo-se até o Posto Policial – Ceará Pacífico; Entregue o artefato; Observe como funciona”. Daí em diante a parte material da obra convida para sua parte performativa. Instruída sobre a história da prisão de Rafael Braga, a fruidora tem a escolha de submeter-se a um risco: o de entender “como funciona” a tripla relação entre o “artefato” Pinho Sol, seu portador e a polícia.

A obra deixa o círculo mágico-institucional do espaço artístico (onde toda rebeldia é permitida, contanto que não gere consequências do lado de fora) rumo ao espaço exterior, controlado pelo tipo social que dá nome a obra, o homem branco, através da instituição que produziu o tema da obra: a polícia que prendeu ilegitimamente o negro Rafael Braga. Mas a garrafa de Pinho Sol e seu portador, ambos performando a obra, trazem consigo o espaço artístico e operam uma segunda transformação: instauram dentro do espaço social externo um espaço artístico. Ao entregar o Pinho Sol para os policiais (como mostra o vídeo do link), o museu vai à policia, desta vez sem círculo de proteção. (Já na noite de estreia da obra, incomodados com as diversas garrafas de Pinho Sol que foram levadas até o posto, policiais invadiram o Museu questionando a autoria da obra e performando o maior elogio que uma obra pode receber do estado: ser censurada. Quando o museu vai à polícia a polícia vai ao museu!). A infinitude de consequências que podem advir desta performance cabem todas dentro da orientação final: “observe como funciona”. Embora os resultados possam ser dos mais variados, os critérios que os determinarão são poucos e específicos: raça e classe, como indicado logo de início pela obra material. Ser bem tratado pelos policiais ao entregar o Pinho Sol, sendo um homem de classe alta e branca, frequentador de museus, não contradiz a obra, pelo contrário, a reforça; da mesma forma que ser mal tratado ao portar o artefato sendo um jovem morador de rua negro, como os muitos que moram nos arredores do museu. Estão contidas nas possibilidades da obra um mínimo, que nada te aconteça; e um máximo, que você encontre o mesmo destino de Rafael Braga: a violência e o encarceramento. O tema social dá origem a obra que tem o potencial de produzir – não apenas como repetição sintomática, mas como repetição crítica, denunciadora – um novo tema social.

Dizendo o mínimo, portanto, a obra ensina muito sobre o funcionamento das relações na sociedade brasileira da maneira mais pedagógica e menos impositiva possível: a partir da própria experiência do privilégio ou da falta dele. A dificuldade que muitos têm de identificar os próprios privilégios em nossa sociedade talvez possa ser superada com uma ideia de privilégio não apenas como algo a mais que se ganha em relação aos outros, mas como não perder, não ser perturbado, não ser violentado, em um contexto em que a maioria é. O “Monumento ao homem branco” mostra, entre outras coisas, que algo tão banal quanto carregar um Pinho Sol pela cidade sem ser importunado é um privilégio. A sequência destes aprendizados com a retirada das garrafas de Pinho Sol de cima da linha, ou seja, a ação coletiva sobre a obra a partir da obra, revela ainda um grito que estava soterrado. Este grito poético, versos de um poema que compõe a obra chamado “Pretx Eloquente”, ao aparecer no espaço até então ocupado pelas garrafas, mostra que há uma voz que fala e que sempre falou, mas que está abafada. Ações coletivas, a partir da percepção dos próprios privilégios e de sua recusa ativa, têm o poder de liberá-la, assim como, quem sabe, o envio de garrafas de Pinho Sol a todas as delegacias de polícia do Brasil ajudem a libertar Rafael Braga e tantos outros como ele.

Tomaz Amorim tem 28 anos, nasceu e cresceu na cidade de Poá, às margens da Grande São Paulo. É poeta, faz doutorado em literatura e pensa misturadamente sobre três coisas: arte, amor e justiça social; e é autor do blog 3 parágrafos de crítica

Deixe uma resposta