Pawel Kuczynski

Fábrica de fazer de conta

(Ilustração: Pawel Kuczynski)

Por Guilherme Fernandes Leite

A fábrica acorda cedo demais todos os dias. Ela nunca grita som algum. Apenas mantém alta uma coluna de fumaça escura e silente. O portão segue entreaberto, quase dando as boas vindas, como uma arapuca, que sequestra a liberdade e transforma os cantos em lamento e posteriormente em nada, nem mesmo um eco. O sol se ergue amarelo e laranja, por trás das nuvens, como um estudante tímido sem interesse.

As pessoas chegam em suas bicicletas silenciosas ou com passos arrastados, sempre em silêncio. Otários como eu, que não possuem ambição ou aptidão. Mas não hoje. Eu observo agachado atrás de uma pequena moita, como um cagão que se alarma com o vento, as mulheres de ombros largos e quadris disformes chegarem. E os homens de cabeça baixa e ombros caídos.

O único ruído naquela manhã é do homem de bigode. Ele orienta, xinga, repele. Aquele homem sim tem ambição. Dá para ver em seus olhos, azul cinzento da cor de uma garoupa. Como todo homem que sabe o que quer, ele herdou aquela vaga na fábrica sendo filho de uma puta qualquer. Todo herdeiro sabe dar bons conselhos sobre como a vida é difícil e de como é possível superar toda a merda que engolimos.

Aquela era minha hora de entrar, depois que todo mundo estava nos seus postos. Enfim a fábrica fechava o grande portão gradeado e o ‘bigode’ cruzava o braço a espera dos retardatários com um sorriso pateta no rosto. O herdeiro se realizava naquele momento. Ele podia colocar em prática a sua experiência e sua significância de mosca tomava grandeza de homem batalhador e sincero. Um paizão para todos os renegados.

Ele fazia os atrasados aguardarem no sol até o último chegar e começava: – Amigos. Atrasados novamente, eu nem sei por onde começar. Como vocês acham que eu cheguei até aqui? (Com o teu pai fodendo a sua tia). Eu espero mais de vocês, vejam o meu exemplo. Eu chego aqui antes de todo mundo, sempre com um sorriso no rosto, e sou o último a sair. E muitas vezes passo a madrugada pensando em como fazer a fábrica funcionar melhor (ou se masturbando). Meu sonho é ver vocês tomarem o meu lugar. (O único modo de eu tomar o teu lugar é comendo a sua mãe). Mas do jeito que vocês vão, não chegarão tão longe. (De fato, ficando 10 horas dentro de um galpão é que vamos longe na vida).

Eu nunca tive a coragem de falar nada daquilo. Quem não tem ambição não tem coragem para muitas coisas. A fábrica então nos abraçava, deixando um perfume de suor e castanha impregnado nas roupas. Ao fim do expediente eu rumava em direção ao centro daquela pequena cidade, invejando os bêbados e vagabundos que jogavam dominó. Que coragem. Mas, aos olhos do herdeiro, eu deveria dar graças a deus por ter um emprego que me permite a ocupação do tempo.

Cada dia que passava eu me tornava mais silencioso, me tornava um com os meus colegas , um com o herdeiro, um com a enorme fábrica. Como toda morte silenciosa, a fábrica matava a longo prazo. Tornando-nos inúteis a nós mesmos. O relógio que antes marcava o compasso, agora silenciou junto. As chamas estalavam e a fumaça erguia mais longa, mais espessa e mais alegre. Da moita eu observava tudo.

Guilherme Fernandes Leite é jornalista e escritor, seja lá o que isto quer dizer neste país…

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