crônica

Sementes de coração, gentes floridas

Por Ronaldo Salgado

Não sou fotógrafo. Não sou jardineiro. Não sou cronista. Não sou poeta. Sou apenas um ser humano como outro qualquer que gosta de fotografias, jardins, crônicas, poesias e seres humanos – detesto os seres humanos desumanos, vou logo avisando para que eles me detestem também e, assim, a distância regulamentar entre mim e eles seja rigorosamente mantida e obedecida pelas partes. Ah, antes que me esqueça: gosto de cerveja!

Nesse emaranhado de não-ser e gostar, assumi um jardim ao qual dei o nome Jardim de poesia, saudade e cerveja. Não é lá essas coisas, vá lá! Mas me traz para bem dentro de meu coração fotografias, jardins, crônicas, poesias, seres humanos… Nesse jardim, há um terraço erigido em forma de bar em homenagem a um poeta – Terraço Poeta Sales, 1\4 de Bar – e concebido em intenção amorosa. Não vingou o amor.

Entanto, terraço e bar me afogam em poesia, saudade e cerveja. Tudo por uma vida que se leva assim entre responsabilidades e ócios, saudades e besteiras, sentimentos e sonhos, embriaguez e desordem, filosofias vãs e amizades pétreas, dores e sabores, desabafos e desassossegos, espantos e êxtases, encantos e surpresas… Brincadeira mesmo de quem tem na vida um caleidoscópio a sacudir corpo e alma, coração e razão, medo e volúpia, criança e homem (des) feito… Entre poesia, saudade e cerveja!

Nos canteiros desse jardim, onde aqui, acolá flagro ratos e lagartixas – mas, também rolinhas e beija-flores, pombos e bem-te-vis –, os jatos d’água que saem de uma mangueira de 35 metros de comprimento, quando bastavam cinco metros, alegram plantas e flores e rosas e bichos. E me fazem mergulhar em saudade e memórias, reminiscências e solidões, desejos inconfessos e segredos acovardados, além de atiçarem o meu coração rumo a janelas de luzes e sombras, músicas e versos, distâncias e proximidades, em meio a risos e lágrimas, tudo numa avassaladora experiência do existir que grita, sacode, atiça, atalha, debulha, espalha, inunda, embaralha, machuca, acaricia, desabafa, embriaga, intumesce e frutifica o ser humano que sou.

Nas paredes e nas mesas desse bar, penduro coisas concretas ou representações metafísicas, copos e garrafas, abridores de bebidas e chaveiros, artesanias existenciais, poéticas de fraternidade, amorosidade, loucuralidade, fantasia, materialidade, devaneios, sonhos, sentimentos, verdades e invenções, imaginários, intervenções, fotografias… Tudo que, dilatando-se do jardim ao bar, do bar ao jardim, é propriamente de gente! Diz do que sou. Do que somos. Fomos um dia.  Seremos ou queremos ser nos devires. Simplesmente porque seja de fotografias, jardins e de crônicas, seja de poesias, seres humanos e cervejas e bares, estamos todos na escrevinhação fabulosa ou verídica da existência finita, morredoura, etérea da vida em movimento. Um constante pêndulo que ora nos leva a lágrimas pesadas e profundas; ora nos empurra a gargalhadas em profusão dessa gostosura existencial e inolvidável.

– Há quem se atina nesses novelinhos!

Ronaldo Salgado é professor da UFC e amante da beleza simples da vida

*Crônica publicada na Revista Berro – Ano 02 – Edição 04 – Julho/Agosto 2015 (a seguir, versão PDF).

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