pelegoII

Que tipo de pelego você é?

Augusto Azevedo

Em países como o Brasil, onde as elites econômicas sempre estão à vontade para estabelecer seus interesses como foco da condução da sociedade, é muito recorrente a presença de sujeitos que sabotam a qualquer custo toda iniciativa que se disponha a enfrentar as contradições que consolidam a perpetuação da burguesia. Pelegos: assim são conhecidos os elementos que por covardia e/ou oportunismo cumprem a função de vigias/babás dos seres mais abastados. Segundo o dicionário Gama, pelego é uma manta feita a partir da pele do carneiro; já pelega, perante o mesmo dicionário, se trata de uma cédula de dinheiro.

O termo foi popularizado no Brasil a partir de ações consequentes do Golpe de 30, em que o ditador Getúlio Vargas, decretando a Lei de Sindicalização em 1931, estabelecia que os sindicados deveriam ser subordinados ao Estado através do Ministério do Trabalho. Pelegos eram os dirigentes sindicais que aceitavam essa subordinação. Há tempos o termo abrange tudo o que for traidor político, que entrega companheiros às tiranias do mercado e do Estado. Entretanto, esse tipo de elemento não se apresenta à sociedade de modo homogêneo, muito pelo contrário, tem pelego de tuti quanti. Abaixo estão expostos alguns tipos de amantes da pelegagem.

Pelego Ortodoxo – Todo mundo conhece algum militante do vazio, ativista do nada, que fortalece as pressões exercidas pelas elites renegando seu potencial político. Pois é, desses têm de ruma. O Pelego Ortodoxo estabelece a subserviência como guia cotidiano. Negar a essência política do ser humano é uma mais que completa ação política, que empenhada em conservar as coisas como elas estão retira do âmbito social suas possibilidades de transformação. Historicamente a pelegagem ortodoxa é enfeitada com um pragmatismo oco, que sugere a apatia e a alienação como caminho para a felicidade.

pelego
(Charge: Diego Novaes)

Pelego Malandro de Boa – Também conhecido como Pelego Engraçadinho, Pelego Comédia, o certo é que este tipo de sujeito exagera na valorização de seus problemas com a malandragem; metido a espertalhão, o Pelego Malandro de Boa encontra nas lacunas sociais espaço mais que fértil para as conquistas que se resultam de suas transferências egocêntricas; se acha o inteligentão e tem certeza que tirando ele e seus ídolos o mundo é constituído por um monte de abestados que merecem ser extorquidos. Muito comum em partidos de esquerda e com repetidas conversas a respeito da social-democracia, o Pelego Malandro de Boa passa a ser um burguês, obtendo acúmulos financeiros provindos de ações corruptas, frequentando os mesmo lugares e seguindo os mesmo valores, mas a burguesia tem seus pudores e jamais aceita um “zé povim” que virou barão roubando as pessoas por meio das instituições, com discurso bonitinho, humanitário, como um dos seus. Repara-se que o Pelego Malandro de Boa não larga o osso nunca, sua ganância é algo bem cabuloso.

Pelego Nervoso – Esse não pode nem ouvir falar em auto-organização popular, fim das oligarquias brasileiras, valorização da educação, que mostra logo a que veio, se esgoelando em derrotismo, munido da certeza de que tudo pode piorar e então por isso é melhor ficar todo mundo em seu devido lugar. Esse tipo de pelego se inquieta com qualquer iniciativa que fuja dos padrões estabelecidos e utiliza jargões como: “isso nunca vai mudar porque sempre foi assim”, “fazer isso é mesmo que nada”, “não vai dar certo, é melhor você se aquietar”. Odeia mobilizações sociais populares, é inimigo do seu próprio povo muitas vezes de modo involuntário e inconsciente, sendo uma quase vítima do processo de alienação que relativiza tudo, enquanto tudo é induzido para a manutenção do controle. Vibrando com suas certezas pessimistas muitos desses pelegos se tornam delatores de modo muito fácil, pois no final das contas é constituído por inveja, medo, ignorância e preguiça. Cuidado, todo pelego é perigoso, mas esse sai na porrada quando a sua insensatez é exposta ao público.

Pelego Frouxo – Bem popular, quase sempre esse modelo de pelego dá a maior corda para que as pessoas se organizem, se apropria de leituras, participa de debates virtuais, é politicamente correto, mas quando é convidado a uma manifestação se angustia e desconversa logo, alegando que esse negócio de manifestação popular num tá com nada, afirmando que é preciso superar as formas de luta, que o confronto direto não leva movimento social a lugar algum e que não tá na terra pra levar porrada de policial, guarda municipal, dentre outros agentes repressores. Na tentativa de se manter ileso, o Pelego Frouxo apanha mais de si do que ateu pra ir a ato ecumênico.

Pelego Voador – Má educação é um problema para quem é mal educado e para quem não come do pirão dos abonados, porém muitas das imposições das elites, como a generalização da política neoliberal, só se aplicam por conta da falta de educação da maioria das pessoas, que alienadas não percebem o que de fato ocorre diante dos seus olhos. Muitos métodos de contato e assimilação existentes auxiliam os seres humanos na compreensão da vida, mas para alguns moradores do planeta tudo parece inexplicável e não possível de ser entendida. O Pelego Voador não enxerga a palma da própria mão diante das ventas, mas se orgulha de ser estúpido e sai por aí disseminando cretinices como: “o PT é socialista”, “a Dilma, o Lula e a China são “comunistas”, “o pessoal da Coréia do Norte come seres humanos porque não tem outra coisa pra comer”, “a corrupção é algo novo”, “o Brasil foi descoberto pelos portugueses que tiveram que exterminar os indígenas porque esses já se matavam”, “o capitalismo é um sistema baseado na liberdade”. O esclarecimento não é tudo, e ao longo da história vem se afirmando como auxiliar da conservação do poder, porém, toda ode à ignorância representa um enorme atraso, que nos torna pior que os outros bichos da natureza. A consciência é algo essencial para cada ação humana, agir sob impulsos construídos pelo meio externo é um retrocesso sem precedentes, que promove a violência como recurso-mor das relações humanas. O Pelego Voador não tem noção da sua perniciosidade e é tão tapado que tem certeza que o frango assado é produto gerado pela união da churrasqueira com a brasa, tem a maior raiva de estudos e só lê livros que estão na moda, como uma forma de disfarçar a sua lerdeza intelectual.

Pelego Relativista – Eita! Esse é de quantidade infinita, só anda de magote e se prolifera de modo assustador. Especialista em desconversar discussões, o Pelego Relativista é de fácil identificação, por meio da pedância e dos trajes padronizados que marcam a sua aparência de intelectual. Diferente do Pelego Voador, o Pelego Relativista até que estuda, mas reduz tudo que pesquisa às afirmações de telejornais e coisas do tipo. Sempre com suas falsas polêmicas esse pelego se esforça para que tudo se resuma a discursos apaziguadores, preocupados com a aceitação mais do que com a provável reflexão que possa gerar. Usa conceitos referentes à subjetividade como fuga das responsabilidades sociais, atrapalhando o estudo da subjetividade humana – sim, eles publicam em edições acadêmicas, normalmente reproduzem o que seu orientador afirma em sua pesquisa, mas publicam – entre outros pontos. Os Pelegos Relativistas são descarados em suas afirmações, os que não são marxistas dão a entender que quem inventou questões como a luta de classes foi o Marx; já os marxistas falam a vida inteira da necessidade de uma sociedade igualitária, mas apóiam ou comandam greves economicistas e corporativistas e dificilmente usam o dinheiro que ganham para financiar o que defendem em teoria. Pelego Relativista é capaz de justificar acontecimentos como o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki, Guerra do Vietnã, Império Stalinista, entre outros absurdos. Gosta de aparecer e é um dos principais responsáveis por toda ojeriza relacionada aos estudos, pois vende a ideia de que estudar é algo complicado, que nem todo mundo pode fazer. Sendo um ser superficial, todo o seu conhecimento se dissolve frente à realidade.

Pelego Astral – Tendência gigantesca. Normalmente o conceito de deus e sorte são fundidos por esses pelegos e é óbvio que isso promove confusões. Expressar algum tipo de apologia ao materialismo está distante desta iniciativa, na real continuo achando que todo mundo pensa e que nossas crenças e paixões não devam rechaçar as demandas sociais que existem, a contragosto de qualquer ideologia, passagem bíblica, ou de simpatia ancestral. O Pelego Astral é aquele sujeito que normalmente delega ao acaso as mudanças necessárias para que o Planeta Terra não esmoreça, renegando o poder de transformação inerente aos seres humanos, apostando que graça e desgraça sejam as mesmas coisas, se não fossem pequeninos detalhes. Que já tá tudo escrito disso não restam dúvidas, mas essa predestinação não é obra de divindade alguma, a não ser que aceitemos o capitalismo como deus de tudo. Essa modalidade de pelegagem paga um imenso preço, pois ao assumir e aceitar as imposições do mundo, o indivíduo perde a noção de que as mudanças virão dele em conjunto com outros indivíduos e de que se houver de fato outro plano e seres que desejam intervir em nossa realidade, nada estará a favor da ganância, nem tão pouco do controle social.

bicho_pelegoPelego Antitudo – Quem nunca conheceu alguém que esbraveja indignação e sectarismo, mas que na hora do pega-pra-capar desaparece feito salário mínimo em fim de mês? Pois é, têm muitos. Engraçado é que essa turma pensa que não tem ninguém reparando, ousando até a elevar a pelegagem como metodologia de organização política. O Pelego Antitudo é aquele sujeito que afirma que não se pode fazer discurso favorável às crianças porque o Pelé comemorando o seu milésimo gol assim o fez, tornando toda a luta a favor das crianças inválida. Em eterna briga com reformistas, esse tipo de pelego se igualha aos que critica, pois no fim das contas fazem parte da  mesma lógica: o imobilismo. È comum ver um pelego desses reclamando da presença de “políticos profissionais” em manifestações populares, o que é compreensível, porém o que não dá pra entender é o investimento de tempo que faz na tentativa de banir dessas manifestações esses tais políticos e a descarada justificativa que essa presença afeta “seres com opinião em construção”, que podem ser cooptados para o lado mau do cosmos, os bichim. Essa é uma demonstração de autoritarismo, que nivela partes distintas. Ninguém deve dá cabimento ao gadismo, nem ficando do lado dos tangedores, nem do lado dos gados. A revolução que o planeta cobra não tem espaço nem para tiranos e nem para imbecis. O Pelego Antitudo ao ver um texto como este sairá logo falando: “tá rotulando”, porém quando o lance é dá um pau no capitalismo através de demonstrações de resistência e autonomia, ele sai fora e alega imediatamente que vai cuidar da própria vida, como se isso fosse uma novidade ou mesmo algo extraordinariamente revolucionário.

Tem pelegos de todos os tipos, tem o Pelego Esportista, que é aquele que acorda cedo, se alimenta bem, faz um monte de exercícios, só pra passar mais tempo pelegando, tem o Pelego Altruísta, que é aquele que ajuda os outros a pelegar, tem o Pelego Escandaloso, que é que só sabe pelegar se for mostrando pra todo mundo que é pelego, tem até pelego que faz lista de pelegos.

Vale ressaltar que não serão vaidades e ideologias, por mais arrombadas que essas possam ser, que irão mudar o mundo. As mudanças se projetam como ações antagônicas à pelegagem, pois o que é a pelegagem a não ser essa aloprada vontade de deixar tudo como está?

Augusto Azevedo é empreendedor da área de Organizações Sociais, atualmente se encontra envolvido em estudos sobre aproveitamento de recursos hídricos com Peter Brabeck-Letmathe

Deixe uma resposta